quarta-feira, outubro 27, 2004

Moribundos


Na voz muda ouço gritos lamentosos
rasgando a brisa matinal que sopra debaixo da ponte.
Gela os ossos nus dos novos moribundos
dos tempos modernos .
Desprevenidos os corpos caem em tentações
acenando com os braços perfurados pela dor fininha.
Procuram o espaço vazio ainda não molestado
na pele descolorada com o negro das nódoas tatuadas.
Pelas paredes nuas de tinta arrasta-se
uma alma que só conhece o chão por abrigo.
Os sorrisos nascem podres na sua boca desdentada
pela cárie produzida por uma cocaína barata.

terça-feira, outubro 26, 2004

Salto aleatório


Vivo dentro de um quadrado fechado
que eu mesma desenhei quando perdi a minha identidade.
Salto de aresta em aresta desafiando os limites marcados.
Não os ultrapasso...
Apenas caminho com um pé nas sua fronteira.
Olho timidamente o outro lado...
o desconhecido tentador.
Namoro a sua ousadia
com gestos sedutores.
Desintegro o meu corpo
em milhares de átomos negros
que vão chocando aleatoriamente
na parede quadrada carcereira.
Espero a tua tacada na mesa de bilhar...
Sou a bola preta que queres jogar...
De que é que estás à espera?
Atira-me para o outro lado...

Impressões digitais


Retalho as pontas dos dedos
nos espinhos lancinantes.
Tatuo o muro cinzento
com impressões digitais bordadas a sangue.
Comprimo com força
as mãos fatigadas
nas pedras negras da calçada.
Corto madeixas de cabelo
com tesouras ferrugentas
e semeio-as na areia quente .
Quero deixar a minha marca
quando partir...
Pedaços do meu Eu...
Espalhados na penumbra.

domingo, outubro 24, 2004

Anestesia


Cortei as amarras de aço
com a lâmina mergulhada
no éter para não sentir dor.
Anestesiei o corpo com
comprimidos recheados de ópio.
Droguei os sentidos
com o teu doce fel.
Queimei as veias com a ponta do cigarro
que jazia no cinzeiro
esquecido na sala.
Fez -se noite...
Adormeci espumando de raiva.

Rasguei o chão do teu pesadelo


Escorrem rios de lava pela navalha esterilizada
com que rasguei o chão do teu pesadelo.
Choro poças de sangue dos meus olhos de sal
manchando a nuvem branca que passou por ti.
Estendo-te um lenço negro para me acenares um adeus
na convicção que não será o último.
Sorris um sorriso amarelo e voas em direcção à estrela recortada
pela lâmina afiada na pele do meu peito.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Flash apagado



Perdi as imagens censuradas pala mão punidora do tempo
numa desforra entre o hoje e o ontem.
Foram banidas das memórias presentes
no circuito cerebral entorpecido
pela descrença na verdade.
Cubro a mente com mentiras momentâneas
aliadas a sentimentos empoeirados.
É apenas pó aquilo que guardo na mão...
Poeira enegrecida pela tua passagem.
Do passado recente apagado por emoções substitutas
resta apenas um nada quase completo.
Novas personagens foram adicionadas na história
que te contei ontem à noite...
Sobram apenas os negativos das fotografias tiradas
com o flash engatilhado na ponta do dedo.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Lábios feridos


Já perdi a conta das vezes em que te prometi mudar...
mudar de sorriso
renovar as lágrimas
reciclar os meus beijos...
Vagas promessas proferidas com os lábios feridos
por tantas palavras soletradas.
Atiro as palavras para o tapete
num duelo corpo a corpo entre o querer e o conseguir.
Mantenho a decisão com o pé bem fincado no chão
com medo de voltar a flutuar
quando sentir a brisa nocturna a roçar no meu rosto.
Perco-me no território de uma instabilidade demente
que se apressa a confundir-me o caminho
baralhando as linhas fluorescentes que marco no chão.
Não são inamovíveis...
mas deixam sempre um rastro luminoso
que posso seguir quando chegar a escuridão.
Fico satisfeita com pouco
na ambição desmedida não encontro o meu lema.
Quero apenas mudar...
mudar como prometi na noite
em que a parede fria de uma rua escura foi o nosso aconchego
e na boca ainda sentia o travo do teu último beijo.

quarta-feira, outubro 20, 2004

A certeza do caos


Acordo de manhã com a sensação
que ainda é noite lá fora.
O sol brilha bem alto
mas não consigo sentir calor.
O céu hoje está pintado de um azul cristalino
mas nele só deslumbro nuvens cinzentas.
Chovem rios de fogo dentro do meu peito.
Afogo o meu coração num oceano em chamas.
Corro às cegas num labirinto luminoso.
Banho o meu corpo num lago de água impura.
Inspiro o doce odor de uma rosa murcha.
Danço ao som de uma música celestial
rodopiando numa dança infernal.
Risco da minha memória
momentos de um futuro já passado.
Olho para a criança que antes sorria para mim...
Essa velhota sentada no banco do jardim
que agora nada me diz.
É o caos que de mim se apodera.
Sou a serva inocente da demência vilã.
Sou o contrário do certo.
Sou o alimento que dá vida à morte.
É o caos que me abraça gentilmente
sempre que a tua ausência está presente.

A presença do teu ontem



Na ponta do pico mais alto
da montanha que cresce
em direcção ao manto celeste
estou eu...
Toco as estrelas levemente
não as quero desformar.
Contemplo as linhas perfeitas
do desenho estelar.
Uno todos os pontos luminosos
com as curvas do meu corpo.
Sou parte integrante deste brilho
que reflecte a minha nudez.
Sinto um olhar escondido
percorrendo a minha pele e
estremeço ao sentir a suavidade com que ele me toca.
Não me recordo de te ter visto ontem à noite...
Não me lembro do teu rosto
nem da cor dos teus olhos
mas ainda sinto o teu cheiro
encravado nos meus poros.
Subi ao topo da montanha ...
Toquei o céu no teu momento...
momento único...
Ontem eras tu e eu...
Hoje sou só eu
numa felicidade solitária.

Encontros banais do meu corpo


Perdem-se no ponteiro que marca o tempo os encontros com o meu corpo.
Esses encontros banais envolvidos no calor de uma noite.
Misturo cheiros e sabores no copo que pouso na mesa.
Bebi as sensações...
Embriaguei-me de sentimentos esquecidos.
Na janela vejo o pôr do sol reflectido.
Bebo mais um copo...
Quero beber o gosto do último toque sentido.
Os lábios lambuzam-se com o travo de um beijo violado.
Esse beijo ácido que me queimou a pele rosada.
A língua percorre o vidro que reveste o copo que tenho na mão
sorvendo as tuas últimas gotas derramadas.
É no teu corpo que a minha saliva quer escorrer...
É a essa pele que o meu corpo quer regressar.
Pode parecer uma demência insana
querer regressar mas não querer ficar.
Então sou demente por opção.
Nos olhares retirados a estranhos que passam
visualizo a eterna repulsa pelos meus actos.
O ponteiro marca o tempo com crueldade
vergastando os momentos atrasados no relógio.
Os momentos que passei fundida ao teu corpo.
Momentos,
simplesmente não passaram de momentos.
Sentes o tempo a escorrer pelo meu corpo?
O copo agora está vazio...

Sangue morno


Hoje acordei com a leve sensação
que o frio me corroía por dentro.
Penetrava nos recantos onde antes existia calor
com a subtileza de um floco de neve fragmentado.
Na tépida esperança de poder sentir o corpo aquecer,
mergulho no banho fervente da água estagnada no fundo da banheira.
No toque da pele imersa num calor improvisado
dilatam-se os corpos gelados numa plasticidade enganadora.
Derreto em pequenos pedaços que vão pingando para fora da banheira
molhando o chão numa mistura de água e cloretos incolores.
Lá fora também chove...
E o vento ainda grita enraivecido colado às vidraças.
Está frio...
mas este frio não me congela
porque nas veias o sangue ainda escorre morno

Cansei-me de levar à boca os teus restos



Despedaço os pedaços
que tinham sido colados com resina no meu corpo.
Estão podres na alma solitária...
Rasgo as partes de um todo moribundo
desdentado pelas mãos de uma metade de alguém.
Não estou completa...fui-me perdendo por aí.
Fragmentei restos porque abomino o prato principal
que estendes na mesa sem o convite na mão.
Cansei-me de levar à boca os teus restos...
Não passam de migalhas repletas de bolor.
São amargos e encravam-se nos meus dentes
como fiapos de carne tenra devorada à pressa.
Não tive tempo de te saborear...
Engoli-te sem avisar.
Sufoco com pedaços teus entalados na garganta...
Atrasam-me a respiração...
Fica lenta arrastando-se algemada aos pulmões.
Sinto falta de ar...
quando te trinco no café da manhã.

Palavras rabiscadas no jornal da manhã



Costumava escrever palavras nas costas do jornal
enquanto saboreava as torradas no café da manhã.
Das torradas um pouco queimadas pingava a manteiga derretida
enchiam de gordura as letras de imprensa.
Numa piscina de nódoas mergulhavam as palavras que eu ousava escrever
com as mãos tremidas pelo balançar da mesa da esplanada.
Eram palavras incertas... escritas sem a firmeza da mão do pintor
que contorna a tela num acabamento final .
Virava as páginas do jornal com a agilidade
de uma presa escapando ao seu predador.
Depois levava à boca mais um gole de café
bebido com a pressa de quem tem todo o tempo do mundo.
Estava quente o líquido fumegante...
Queimava os dedos desprevenidos
que seguravam a chávena decorada com imagens abstractas.
Por fim, rabiscava as palavras escritas na ardósia de papel
para apagar os vestígios de alguma história contada .
O relógio marcava a hora da saída
com a pontualidade de quem pica o ponto na fábrica.
Nem um minuto a menos... nem um minuto a mais...
Levantava-me da mesa com o jornal dobrado na mão
enquanto as palavras ficavam trauteando na cabeça.