segunda-feira, novembro 29, 2004

Arco -íris


Guardo no peito sentimentos que não revelo
permanecendo em segredo nos lábios fechados.
Toco na manhã que se desfaz em gotas de orvalho
aos primeiros raios que brilham para mim.
Roubo então o sol ao céu por um segundo
e escondo-o nos meus olhos escuros
porque quero fundir no meu olhar o seu calor.
Assim quando as nuvens de lágrimas surgirem
o sol rasgará os meus olhos e na ponta de cada gota salgada nascerá um arco-íris.

Evolução nocturna



"Este poema é dedicado a uma fadinha da poesia muito especial :)"

Esta noite não cerrei os olhos e não vi escuridão.
Deixei-me ficar quieta no silêncio a desbastar pensamentos e a sentir a noite evoluir.
Passei imagens num flashback acelerado desnudando-as de incógnitas.
Ficaram despidas dos desperdícios.
Eram transparentes...
Penetrei-as numa sequência repetitiva de clarões de luz
disparados pela luminosidade do olhar iluminado enfraquecido.
Tirei fotocópias dos momentos para mais tarde recordar porque não os queria esquecer.
À medida que a noite desabrochava
violei-os sem deixar marcas que os pudessem desfigurar.
Eram perfeitos visualizados pelos olhos da minha imperfeição.
Num gesto brusco, espalhei-os pelo tecto do meu quarto...
Olhei... reflecti... e ponderei os prós e os contras.
Depois empilhei-os em camadas agridoces no fundo da gaveta.

sábado, novembro 20, 2004

Fome


Encho a boca com palavras
e vou matando a fome que me dilacera o corpo.
Trinco com força as letras escuras
e trituro-as entre os dentes esbranquiçados.
Cuspo os restos para o prato
onde jazem os pensamentos esquecidos.
Depois saboreio na língua o gosto do poema
que me faz salivar por mais.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Tive vergonha


Deixei cair a lágrima no chão
porque não a consegui deter com um sorriso.
Rasguei os lábios naquele sorriso forçado
abrindo as feridas mal saradas na pele.
Passei a língua humedecida pela pele ensanguentada
e na boca ficou um gosto a sangue salgado.
Tirei do bolso um guardanapo de papel
e estanquei o sangue pressionando-o contra a parede rosada.
Depois sem ninguém ver
varri a lágrima para debaixo do tapete
e preguei os meus olhos ao chão.
Tinha vergonha de sofrer em público...

quinta-feira, novembro 04, 2004

Madrigal de suspiros


Deixas-me perdida num amontoado de pensamentos ilusórios
quando eu apenas procuro um pouco de realidade.
Tenho sede de momentos límpidos
para esquecer os instantes turvos que ainda sufocam.

Sussurro um madrigal de suspiros
na boca pintada com cores desmaiadas.
Murmuro desejos com a força incessante
de um tronco que não parte na ventania.

Encho-te os ouvidos com cera de abelhas
silenciando as palavras que não quero que ouças.
Peço que me escutes! Mas não quero que me entendas...
Saboreia esse mel que guardo na voz
e adocica a amargura que cobre as minhas dúvidas.

Fez-se escuridão do pedaço de madrugada
que levavas no teu olhar sorridente.
Lancei-te o meu sorriso pela janela
mas foi uma lágrima que aterrou nos teus ombros.

segunda-feira, novembro 01, 2004

sepultar segredos


Embrulhei os meus segredos na língua morta.
Abri sulcos na terra à procura do repouso mais profundo
para os depositar na sua última morada.
Chorei durante horas o meu luto
enroscada no xaile vermelho paixão.
Bordei de sal os meus olhos negros
e vi-os brilhar como cristais quando me olhei ao espelho.
Fiz da terra uma aguarela de rímel desbotado
e sepultei as minhas inquietações num silêncio absoluto.