segunda-feira, outubro 27, 2008

Para o vazio mastigar




Abro os olhos e engulo a seco o meu respirar...

Tenho o olhar distante e não viajo

por entre curvas e contracurvas

porque a minha mente vai mais longe

e não deixa marcas no caminho..

Silenciosa no chegar

põe o asfalto em brasa ao partir...

Vejo flores espalmadas nas nuvens

e o céu tem aroma a violetas

quando chove em mim...

Respiro...dispo o pouco que tenho de meu

e entrego-me a uma nudez interior

para que me soprem as chagas e o sangue seque mais depressa...

Cortei o cabelo e os ombros agora têm frio de manhã

e sem as negras ondas a aquecerem-lhe a carne

estão pálidos...chega de timidez dizem aos braços caídos...

Erguam-se e façam castelos no ar

porque os que fizeram na areia

há muito que viraram poeira!

Respiro...

Tenho saudades de sonhar com o mesmo abraço
sem ter que pensar porque é que estes braços não são teus..

Olho para os joelhos

encaixados nos ossos das pernas

e sinto-me estranha...

porque se elevam assim

duros como aços?

Não deviam ajoelhar

e abençoar todos os que passaram no meu chão?

Trago água benta nos dedos

para amaldiçoar todas as minhas tentações

mas tenho alma de anjo rebelde

que renunciou ao Paraíso

só para contrariar a linhagem dos frutos do pecado..
.

Engulo em seco o meu respirar..

já não tenho mais água nos olhos

e o meu rosto é só mais um deserto para o vazio mastigar...



Daniela Pereira

Direitos Reservados

quarta-feira, outubro 08, 2008

Daquele pouco que me faz sofrer tanto...



Hoje que não te tenho mais ao meu lado..
não te adoro ...eu simplesmente ainda te amo...
Amo-te até às lágrimas
porque os sorrisos já me parecem curtos demais
para levarem a minha boca até ti..
Os teus beijos secaram nos meus lábios pingados..
não resta mel nos dedos para lamber
não me dás mais flores para embelezar os meus dias..
mas também nunca me deste uma rosa..
nem uma pétala cheirei nas tuas mãos.
Entregavas-te deserto e eu era a água que matava a tua sede...
eram cactos que plantavas na minha pele
mas eu amava cada gota de sangue
que da minha carne arrancavas com o teu corpo..
Sentia-me viva quando sorria á tua espera...
sentia-me imortal quando chorava
porque o meu coração por ti batia
e tu não chegavas
mas sabia que vinhas a caminho...
Hoje choro porque não ouço mais os teus passos
trepando o chão na minha direcção
Sinto-me morta por dentro..
porque afinal sou mortal...
porque tenho palavras na minha cabeça
que parecem que nunca vão acabar
mas para ti já nada dizem...
porque adormeço com uma pedra contra o peito
que todas as noites o meu coração esmaga mais um pouco..
Já sinto raiva de te amar tanto assim..
já me sinto louca...
sinto que ao saíres da minha vida
viras-te o meu corpo do avesso
e eu nunca mais encontrei a minha forma...
Estou trocada...
troquei as ideias pelos vazios..
troquei as pernas pelo cansaço..
troquei o sol pela lua..
troquei os sonhos pela asfixia..
Estou trocada...
remendada ás pressas..
cortada às tiras
para ser agora devorada ás postas na escuridão.
Perdi uma parte da alma
porque dividi toda a doçura para o teu lado
e fiquei reduzida a fel...
Hoje já não te amo tanto..
amo-te mais um pouco...
mais um pouco...
daquele pouco que para ti eu era
e que para mim só esse pouco
já me faz sofrer tanto...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sexta-feira, setembro 26, 2008

Reflexo em vão



Engoles-me a alma e pregas-me o corpo à parede?
Deixas-me descoberta...como um vulto que se prolonga numa sombra sem fim anunciado.
Mentes...só o teu reflexo fala a verdade por ti...



Foto e texto por Daniela Pereira

quinta-feira, setembro 04, 2008

Suposições nocturnas...




Cala-me os sons da noite
porque só a tua respiração me importa ouvir...
Prende-me as luzes do quarto
que trago soltas no meu cabelo
e afaga-me delicadamente a pele
até me sentires apagada nos teus braços...
Existe um perfume no ar
e o meu corpo é uma maçã verde
que suculenta vai-se desfazendo na tua boca
e nos teus dedos
já se faz em pedaços...
Quero Vinho do Porto a regar-me o umbigo
e ser um cálice pronto a partir
ao primeiro toque
Quero lamber-te a pele
com a boca molhada
e a língua enrolada em puras brasas
mas sem te queimar o sangue
e só chamuscar-te de mansinho...
Quero beijos no pescoço
dados sem pressa
e sem destino nenhum
quero ver-te a percorrer-me as pernas
com as mãos pingando desejo
e os olhos aprisionados junto aos meus seios...
Podes fugir com a boca inquieta
e escalar-me o corpo com carinho
porque tens montanhas em êxtase
à espera de sentir a terra tremer...
Não me apetecem sombras nas paredes...
todos os objectos neste quarto
estão deformados no meu olhar
e eu só quero a tua sombra sobre mim
a esconder-me as curvas
entre vagas com uma ondulação vigorosa...


Murmuras baixinho
quando te desenterro a alma
com as pernas arqueadas
e voamos juntos
de asas abraçadas
deixando no chão do quarto
segredos sussurrados e marcas de prazer...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

segunda-feira, agosto 25, 2008

Nas Águas do Verso


No cantinho do Devaneios aqui vos deixo uma boa nova...a minha participação numa colectânea de poesia que já se encontra disponível. O livro "Nas águas do Verso"... escrito a 100 mãos com muita alma..sorrisos e sal...
Aqui deixo o meu agradecimento ao João Ferreira e ao Pedro Lopes por fazer parte deste projecto de partilha das palavras de um mundo onde a poesia é um rio de sentimentos puros e transparentes...


Nas Águas do Verso é uma colectânea poética idealizada e coordenada por João Filipe Ferreira e Pedro Lopes.
Nesta obra é possível encontrar textos poéticos de 100 autores tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.
Uma obra onde cada poeta expressa livremente as suas palavras, as suas emoções, visões e estados de espírito.
Em Nas Águas do Verso o leitor poderá navegar calmamente na beleza da poesia e da prosa poética, sem nunca perder o rumo, sem nunca se afogar nas palavras.
Com muito prazer, os autores oferecem-lhe esta obra que consideram ser tremendamente rica em poesia.
Sejam bem-vindos ao barco poético e uma vez nele, desfrutem da beleza das Águas do Verso.




Titulo: Nas Águas do Verso
Subtítulo: 100 Autores - 100 Poemas
Editor: Edições Ecopy
Colecção: Poetas Contemporâneos
Ano de Edição: 2008
N.º de páginas: 128
ISBN: 9789898080684
EAN: 9789898080684
Dimensões: 20,5 x 14,0 cm

Um livro fantástico, com textos de 100 pessoas tão diferentes que se unem para criar uma obra de imenso valor... Recomendado a quem aprecia a arte de ler e a magia das palavras...

Onde comprar:

Editora Ecopy
ecopy@macalfa.pt

Livraria Leitura (Porto)
http://www.livrarialeitura.pt
Rua de Ceuta, Nº 88
Telefone 222 076 200

Livraria Byblos (Lisboa)
http://www.byblos.pt/
Rua Carlos Alberto Mota 17 Edíficio Amoreiras Square
1070-313 LISBOA

Bulhosa Books & Living
Galeria Comercial das Amoreiras ( e restantes Livrarias Bulhosa)
Av. Engenheiro Duarte Pacheco, s/n Loja 1129
1170-103 Lisboa
http://www.bulhosa.pt/

segunda-feira, agosto 18, 2008

A folga do poeta...




Apetece-me escrever sobre o mar...
Sobre as ondas que nascem tão cheias de orgulho e fortes
e depois logo morrem com vergonha de engolir o mundo
numa só vaga...
Apetece-me escrever sobre o céu...
Aquele infinito que tantos poetas cantam no papel
mas quando olho pela janela...
vejo nuvens e mais nuvens...
e nem se quer sabem a algodão doce
porque já as tentei soprar , mas são tão espessas
que nada as remove do meu cenário
pintado com tinta azul...
Alguém roubou todas as cores do meu tinteiro...
e eu imagino um horizonte coberto de tons cinza...
Apetece-me escrever sobre o amor...
Aquele sentimento tão imenso
que nos leva a ser crianças 24 horas por dia
sem nunca hesitar em dar o salto...
o salto em queda livre...
a queda para o precipício..
O Amor...
Divino...sorrateiro...encantador....
Farpa que cega o olhar mas o rasgo fica no peito...
Gesto celestial de entregas e partilhas
por vezes tão debilmente equilibradas...
Eterna fonte da juventude...
curiosamente salgada quando chega ao fim...
A única eternidade que termina..
mas não é falsa...é só fraca
porque se deixa abater bem devagar
batendo com a cabeça contra os teus sonhos.
Apetece-me escrever sobre o ódio...
Sentimento banal mas recheado de tanta verdade
naqueles ossos ingratos...
Tem lágrimas geladas a caírem-lhe incessantemente pelo rosto abaixo
por isso dizem que o ódio é um sentimento feio...
e ele acredita e sente raiva por ser assim..
um monstro tão hediondo
que na verdade só quer voltar a ser bela adormecida...
pura e doce
sem mágoas nem despedidas a rasgarem-lhe a carne de seda...
Talvez por isso o ódio não goste de mim..
não se dê bem com o ar que respiro...
Sabe que já fui fada e tinha magia na ponta dos dedos
e que bastava abanar uma varinha de condão
para esquecer que o ódio existe
porque só o mel me entrava regularmente na boca...
Mas eu também não gosto dele...
calha bem..
assim o nosso Amor não resiste...
E o mar ainda tem ondas
e vagas fortes para me afogar
se me fartar da tranquilidade dos rios...
E o céu ainda pode ser pintado por mim
com a cor que bem me apetecer...
Por isso se acordar com vontade de o ver púrpura..
púrpura para mim será!
E de nada vai valer ouvir vozes de burro
pedindo estrelas e luares de prata
porque se eu quiser dentro de mim
o céu também pode ser breu
como pode ser um arco-íris
com cores nunca vistas pelos mortais...
Porque se eu quiser ser Feliz...
não há dor nenhuma no mundo
que me consiga impedir
de sorrir de novo para o mundo...
nem que tenha que construir o meu sorriso
dente por dente...
Por isso..
Hoje não acho que não me apetece escrever sobre nada...
escrevam vocês por mim...
escrevam vocês em mim...
porque hoje os meus dedos
têm fome de leitura...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, agosto 13, 2008

O invulgar silêncio do teu grito






Se as palavras já não entendes
porque hei-de eu deixar sair letras vazias
salivadas no canto da minha boca?
Gritar com a voz partida
já não quebra os teus muros de aços
e os meus ecos são realidades
tão banais de tão permanentes
que se tornaram pela noite dentro...
Ruídos naturais
que já não incomodam ninguém...
nem os mosquitos mais insistentes
os escutam por debaixo
do zumbido das tuas asas...
muito menos tu
que te tornas-te imune à dor
que não queres tua...
Penas já não tens
a revestir o teu corpo
porque ele revelou ser
apenas uma chama
e tudo queima em seu redor...
Anjo mudo...
com o coração cravejado com espinhos incertos
e flores naturais com pétalas já secas
que não regas com as lágrimas
que roubas às almas mortais...
Deserto de vidas encontradas ao acaso
e oásis de sonhos famintos...
Se nas minhas palavras...já não matas a tua sede
Porque hei-de eu ser para sempre
escrava do teu silêncio..
se o meu grito é livre?


Daniela Pereira

Direitos Reservados

quinta-feira, julho 31, 2008

Com água benta no corpo e um balão vermelho na mão...




Há sombras nas paredes e pontos de interrogação cravados no chão...

Há ideias que parecem certas e outras tantas que sabem a erros desmedidos...

Há marcas estranhas nos locais mais conhecidos e passos que querem ser firmes mas que ainda tremem quando pisam o caminho...

Há dias sem sol e raios de luz em pleno Inverno emocional...

Há noites que deviam ser simplesmente um dia mais curto e nada mais...

Existem coisas incompreensíveis e outras que não quero compreender...não gosto da verdade, mas procuro-a sempre debaixo dos tapetes empoeirados ou escondida nas gavetas mais recheadas...Assim é difícil encontrá-la..eu sei...mas não me importo.

Existem dores que demoram a passar e existem dores que nunca passam....nas horas intermédias apenas se fazem sentir presentes e nada mais.

São como aqueles ecos que ouvimos mas não sabemos onde nascem...mas não deixamos de os ouvir mesmo que eles venham do nada...arrepiam qualquer um.

Existem momentos que deviam ser passados no calor de uma cama ou na barriga de uma mãe, para não nos sentirmos tão frios por dentro.Nesses momentos que nos forçam para acordar ou para antecipar o parto, só nos apetece pedir...deixem-nos ficar aqui, porque aqui sentimo-nos abençoados...





Daniela Pereira

Direitos Reservados

Foto by DeviantArt-Let-them-blow-away by Rubyrubes

segunda-feira, julho 07, 2008

Por coisa nenhuma e por uma coisa de nada...





És o meu amor de coisa nenhuma..

e por coisa nenhuma assim te fizeste em mim...

Se o mar tivesse voz e não um rugido rabugento...

à muito que teria dito...

Basta, desta onda alucinada

tu não levas mais nada!

E eu teria deitado as lágrimas na areia..

teria escondido o rosto num rio improvisado

e só quando o mar

me cuspi-se para fora

eu saberia a verdade...

e não precisaria de coisa nenhuma

para a saber...

Que és um gesto no meu olhar...

uma gota de luz sombria

que na cor disfarça

todas as sombras...

Arco-íris de tudo e todos os sabores

a rasgar-me o céu

com a boca cheirando a fumo

e eu não morro sufocada...

habituo-me ao teu gosto

e fumo-te os lábios

até à exaustão dos meus pulmões...

E assim..

por coisa nenhuma e por uma coisa de nada

aqui ficaste no meu corpo...

a atravessar a minha alma

de lès a lés

como se eu fosse um quilómetro ainda por percorrer

mas já tão batido pelos teus passos

que em pouco tempo

lhe adivinhaste toda a paisagem...

E o que nasceu por coisa nenhuma

parece querer morrer por uma coisa de nada...



Daniela Pereira

Direitos Reservados

terça-feira, junho 24, 2008

Trocadilho um pouco ou nada simples





Talvez não me apeteça dizer nada
por achar que o nada é sempre pouco
para falar por mim
que sou escrava das palavras compridas...
Tenho medo e sinto-o dentro de mim
mas confesso que não sei de onde vem..
Minto...
talvez saiba ou pelo menos desconfie
porque é que ele me prende o peito
com garras afiadas
e deixa sempre a sua marca...
Não temos todos medo
de perder uma razão para ser feliz?
Quando tudo parece perfeito
não será normal
desejarmos que nada mude?...
nada..nada...
Lá usei eu esta palavra tão graciosa e tão maldita...
não há nada que não mude...
não há nada que não trema...
não há nada que não se finja...
há sempre um tudo que muda um pouco...
há sempre um tudo que treme
a sua firmeza quando o vento lhe sopra de frente...
há sempre um tudo que finge...
que finge que nada está diferente..
e o nada,nós sabemos que muda tudo..

Talvez não queira dizer nada...
mas tudo o que sinto
deixa-me com tão pouco
que até um pequeno nada me pode parecer tanto...
Talvez não queira dizer nada
e fosse melhor eu não ter medo de dizer tudo..
Mas o medo prende-nos a voz..
é cão rafeiro que late até nos furar os ouvidos
e este medo maldito
quase sempre nasce do nada.

Não é ele filho do vazio e de coisa nenhuma?
Então porque me sinto
tão cheia deste medo cá por dentro?

Daniela Pereira
Direitos Reservados

Foto by DeviantArt-

wanna tell u smt by ~ciccidejin

terça-feira, junho 17, 2008

Estrelas em pó...




Que importa o sentimento

se é sozinha que o sentes?

Alguém abriu uma janela para ti

com vista para um céu repleto de estrelas

mas deixou-se ficar escondido na sombra

a ver-te a olhar tão sonhadora...

e tu sonhas...

sonhas porque és mais feliz a sonhar...

Tens flores nas tuas entranhas

semeadas sem adubo

mas lindas...

lindas cheias de cor e de brilhos..

tão formosas que elas são

nos seus prateados...

Há aroma de mar nas pétalas

e rios a acenar-lhes nas curvas...

Tens sorrisos nos olhos

e bonecas de louça

esculpidas na tua boca...

tão frágeis os teus lábios magoados...

Que pedra te feriu tão fundo

para fugires até das rosas

que encontras no caminho?

A lua está cheia...

cheia de sonhos e de fantasias desesperadas

e mesmo assim a escuridão

ainda chega a nós

que na realidade não sabemos existir...

Que importa o sentimento

que te arrebata os pensamentos

e os gestos mais secretos?

Não és segredo por ti murmurado...

por ti dito sem medo...

Existem coelhos brancos

guardados na cartola...

mas tu não queres magia...

queres a ilusão do sentir

e sentes que o mundo perdeu a cor...

que as estrelas são fabricadas em série

e nenhuma delas é especial...

O teu paraíso tem a janela fechada

e eu não a consigo abrir...

Se eu for uma estrela..

serás que dás por mim

assim tão enevoada?


Daniela Pereira-17/06/08

Direitos Reservados

Foto by DeviantArt-
Introspection by ~NadIksodas

quinta-feira, junho 05, 2008

Facto I




Facto

Se eu pudesse ganhar asas
só por as desejar ter...
neste segundo estaria a tocar o céu
e não a rogar pragas ao chão....

Daniela Pereira

terça-feira, maio 27, 2008

Carta à negritude de uma alma...



Foto na Galeria Olhares:http://olhares.aeiou.pt/drown_the_sad_doll/foto1981696.html

Se o tempo pudesse voltar atrás...eu correria atrás dele como louca.
Mas não consigo...só consigo estar parada de pernas cortadas sem ter um passo que me deixe mexer...
Sou árvore sem frutos nem ramos para me proteger do vento que sopra contra o meu corpo estático...sou mais chão de terra que pedaço de estrela por descobrir em noite com a lua a mingar no horizonte.
Estou negra..negra por dentro...mais um pedaço de cinza depois do rescaldo de um incêndio lavrado que o vento ainda não soprou porque ainda exala calor lá de um fundo bem fundo que ninguém alcança...mas que por vezes se sente porque queima ao tocar.
Brancas são as noites deitadas nos lençóis sem coragem para respirar..asfixio gritos cinzentos e suspiros incolores sem ter a mão presa à secura da minha boca.
Se eu pudesse correr em cima do mundo na direcção contrária do inferno, de certeza que iria ver o céu ..nem que fosse apenas de longe. Mas do corpo fiz chama e da minha alma fiz cigarro por fumar..restam-me as lágrimas frias que me decoram o rosto para me apagar sem pressas...Um relógio parou na sala e eu não vi quando as horas desistiram de bater...fez-se silêncio dos risos.


Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, maio 08, 2008

Poema com fôlego curto...





Porque todas as chamas se extinguem...
todas as velas se apagam...
Mas nenhuma palavra há-de morrer
por lhe lamberem o rastilho...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

Imagem in DeviantArt -http://night-fate.deviantart.com/art/the-follower-84969420

quarta-feira, abril 23, 2008

As maçãs do Paraíso têm bicho da fruta...




Se a lua quiser ouvir os meus passos...

hoje estará surda na escuridão...

Não caminho...

deambulo...rastejo...tropeço...

mas não firmo o chão.

Há um gemido a menos no quarto

e o meu sonho não se vem...

esquecem-se os abraços prolongados...os dedos que se tocam...

o corpo entregue com pele e perfume...

os olhos que respiram alma em todas as sombras...

mas o meu sonho acha que não consegue vir

então foge do meu peito

quiçá livre e solteiro

com o sorriso à mostra nas traseiras

ou com as lágrimas coladas à porta da frente...



Segredos trocados...

feridas lambidas num beijo...

inseguranças reveladas ao lume...

carinhos pintados de olhos fechados ...

o mar a bater nos corpos em contra-mão...



A lua está rota e o luar afinal é reflexo de um vidro riscado...

O sol é quente porque usa termo ventilador atrás das nuvens e os seus raios são só vapor...

As maçãs do Paraíso têm bicho da fruta e a Eva tem o coração podre...

Os desejos são confeccionados com chocolate branco mas o seu recheio é feito de dor negra...

A ternura é bem acolchoada nos abraços,mas afinal é forrada com penas doces e só por isso nos aquece um pouco...

Somos drogados por voar com tão pouco no peito...

Deixa-me rasgar uma ou duas palavras da boca

mesmo que a sua falta me deforme o poema...

para os Deuses sou imperfeita

o que custará em mim descobrir mais uma imperfeição?

Até no Paraíso temos lama nos pés...



Daniela Pereira

Direitos Reservados

Foto by DeviantArt-http://terraregina.deviantart.com/art/broken-hearts-and-red-spades-83363998

quinta-feira, abril 17, 2008

Hajam flores caindo porque a chuva cansa...




Hajam flores para combater a chuva espetando nas gotas pétalas de luz...
Hajam flores para forrar todos os buracos que se abrem nos caminhos quando os cegos dão os seus passos inocentes...
Hajam flores onde a lua se cruza com o sol para celebrar a pureza desse encontro...dispam-se as nuvens das suas vestes cinzentas e pintem-lhes as bochechas de branco...
Hajam flores navegando nos rios sem destino algum...só pelo prazer do aroma da viagem...
Hajam flores apertadas nas mãos dos amantes assistindo envergonhadas às carícias que se amam lá no alto...
Hajam flores trepando o branco das paredes com pés de alecrim e braços curvados com costas nuas...

Hajam flores a morrerem pelos cantos e outras tantas a nascer sozinhas nas curvas...

Hajam sonhos despidos e borboletas sombreadas à procura de jardins encantados...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

Foto por Daniela Pereira in Olhares

post também em Blogue das Artes:http://bloguedasartes.blogspot.com/

quarta-feira, abril 09, 2008

Se um dia o amor cegar...deixa-o por aí a andar à toa






Se um dia aprenderes a amar-me

até à raiz mais profunda

que albergo no fundo do peito

talvez encontres uma árvore florida

plantada na areia seca

que tanto sopras nos teus passos...


Deixa-me rodopiar um bocado

nas pontas dos dedos...

ser bailarina tonta

em cima da varanda

a um palmo de mão

prestes a cair...

Vou desenhar nas paredes

o sol dos meus verões

para esta chuva maldita secar ...


Se um dia desaprender a falar

e a minha boca

para ti se calar...

ouve-me nos gestos...

porque os gritos

levo-os sempre maquilhados no rosto...


Deixa-me brincar ás escondidas

com os sentimentos que abandonei por cobardia

atrás das cadeiras da sala...

enrolar as batidas do coração

nas dobras dos tapetes...

partir essas tuas dúvidas

com toda a força no meu chão.


Se um dia descobrires este amor palpitante

que trago estampado nos seios

que apertas de olhos fechados...


Se um dia adivinhares as cores

com que a minha língua

te pincela a pele

para pintar o teu corpo

com arco-íris endiabrados...


Se um dia esqueceres as tuas ânsias

e encontrares os teus desejos

nas primeiras páginas

do livro que já lês

à tanto tempo...



Talvez saibas inventar

outras histórias

onde as lágrimas estejam

para sempre perdidas...

estou tão cansada

de ver sempre morrer as esperanças

a duas páginas do fim.


Ai se estes sorrisos

que vês a decorar as folhas

soubessem ser uma razão

para não pensares ainda

como seria escrever um final feliz...




Mas deixa-me rodopiar mais um pouco

no escuro dos teus dias...

ser bailarina tonta

e dançar na tua boca

até o teu amor chegar...

Depois pegas na caneta...


Daniela Pereira

Direitos Reservados

Foto
Coffee for Mister Klimt by *Floriandra

sexta-feira, março 28, 2008

A minha pequena revolução...




Se me disserem que não posso fazer das palavras...sonhos, então não consigo olhar para elas da mesma maneira.

Se me disserem que não posso dar um aroma ou um sabor a um gesto porque estou a fantasiar... não sabem que para mim escrever é um sonhar sem limites e no dia em que um gesto sair descrito da minha boca com meia dúzia de palavras clássicas então nesse dia juro que terei assassinado a poesia em mim.

Não gosto das palavras direitinhas como fios de prumo e muito menos aprecio as palavras sem pitadinhas de sal e gotas de perfume à mistura...

Se usar um pouco a imaginação é reduzir-me à infantilidade de uma criança, então azar porque não deixarei de ser criança só porque existem no mundo Homens arrogantes...

Por isso os meus sonhos hão-de ser sempre de algodão doce e vão sempre saber a maçã ou então a gelado de baunilha..mesmo que isso não faça sentido nas mentes mais sábias e sabidas deste mundo.

Hei-de amar sempre uma alma e mesmo que não existam provas cientificas da sua existência não vou deixar de me entregar em pedaços doces ou em retalhos amendoados quando sentir vontade de ser livre.

Amo as palavras e amo a liberdade de as tornar impossíveis de existir mas saborosas de sentir, porque só esse gosto me importa e só esse prazer de voar sem asas...de mergulhar em oceanos de mel sem ter medo de me afogar me cativa.

Palavras escritas a direito, de cabeça erguida e com crista de galo são bonitas de ler e de contemplar na folha de papel, mas não são inteiras..nem absolutas no sentir que transmitem.

Os sentimentos não se declamam a preto e branco e muito menos são inodoros ...as paixões não voam num avião em 1ªclasse..preferem viajar devagarinho ao sabor do vento e bem abraçadinhas ...o amor não entra no nosso corpo batendo à porta e pedindo gentilmente para entrar...o amor arromba a porta ou então parte-nos a vidraça à pedrada com a pressa que tem de nos amar...

Por isso aqui juro e volto a jurar...poesia para mim é sonho..é magia...é rio que corre em direcção ao mar sem parar pelo caminho para retomar o fôlego...é sangue que nos salta das veias com apetite de se infiltrar em todas as frinchas que se abrem no peito ...

Pronto..peço desculpa pelo desabafo, mas estava aqui com um nó na garganta que precisava de rasgar.

Daniela Pereira

Foto by Deviantart :http://lifeismusic.deviantart.com/art/Fly-81224667

quarta-feira, março 26, 2008

Tu...eu e a saudade abraçados até o amanhã chegar




A saudade hoje tem um gosto doce...é escrita com palavras abraçadas e ternos adeus.

Tem carinhos desmedidos e olhares apaixonados concentrados num só momento...

Tem sorrisos distraídos e pensamentos de algodão doce...

Acena-me ao fim do dia e embala-me todas as noites...

Não me assusta ouvi-la dizer adeus,enquanto moras nos meus sonhos e te saboreio nos meus flashbacks adocicados...

A saudade tem o fumo de um cigarro enrolado na minha pele e eu não quero ser ar puro quando és tu que me poluis...cheiras a campos verdes e a leite acabadinho de ferver.

Bebo-te todas as manhãs misturado no café...sabes-me a chá verde e apaziguas todas as minhas demências quando me empurras para a loucura que é estar junto a ti...

Almoço-te em todos os meios dias quando corto a carne tenra a salivar-me sangue no prato ...palpitas-me nas veias e fazes a maratona pelo meu corpo até ficares com a língua de fora.

A saudade tem voz de sereia e leva-me ao fundo dos meus desejos para me perder com os olhos repleto de estrelas e os lábios pingando mel num colibri ...

Tenho asas sabias?E quando sinto a saudade a querer rasgar-me o peito amo-te ainda mais na escuridão ...

Depois esqueço que não estás aqui e encho o meu coração com um perfumado sortido de flores para te receber na próxima vez e a saudade tem gotas de água a matar a minha sede...

Daniela Pereira

terça-feira, março 11, 2008

Obrigado :)


Na foto:Eu e duas amigas do peito...a pequenina Bia e a Luísa:)

A Apresentação do livro Afectos Obsessivos na Livraria Leitura Books & Living ocorreu num ambiente muito caloroso e descontraído.
Cercada de amigos e de pessoas que me acarinharam imenso...só podia ter sido um momento muito especial...e foi.
O livro foi apresentado...a autora deixou-se guiar pela emoção que sentia e as palavras saíram bem cá do fundo do peito.
Depois a poesia foi rainha e muitas vozes quiseram partilhar emoções ...inesquecível.
Obrigado a todos os que estiveram presentes e me apoiaram nessa tarde...
Para quem quiser dar uma olhadela pelas fotos do evento...entrem no site EscritArtes e espiem o slide que lá se encontra

http://www.escritartes.com/forum/

beijinhos

Daniela Pereira

terça-feira, fevereiro 19, 2008

O teu chá de tília...




Queres entender o que sentes mas não consegues...

Porque és assim?

Porque gritas tantas vezes preto...se aquilo que desejas é o branco?

Porque fazes tempestades..quando te apaixonas nos rios.

Tens um olhar triste..demasiado marcado por solidões e descrenças no teu ser. Já falhaste tanto..já bateste tantas vezes no fundo que é difícil para ti não temer voltar para ele. Fazes do pouco..muito! Se calhar nunca tiveste demasiado para saber aquilo que realmente tens nas mãos.

És assim porquê? Uma onda mal formada a rebentar de espuma amarelecida cheia de passados mal cobertos.

Se calhar és inocente demais na forma como sentes o mundo...ou então se calhar és mesmo só velha, porque te obrigaram a viver muito lentamente alguns instantes da tua vida e tu ganhas-te rugas sem que te dês conta que elas já lá estão.

Pedes que te entendam..para quê? Se nem sequer tu te consegues entender...

Fechas os olhos e imaginaste-te no teu sonho mais belo...na paisagem mais tranquila que consegues inventar dentro de ti.Por momentos,ficas calma e consegues realmente entender...entender as palavras dos outros...a sua tristeza para contigo...entendes os teus erros e prometes mudar.

Acreditas que consegues?Se calhar devias acreditar com mais força para marcares essa diferença que precisas para rasgares essa tua insegurança da pele e brotares por inteiro.

Ai que isto dói cá por dentro..que as verdades ecoam como lâminas,mas precisas mesmo de as ouvir!

Tens um olhar triste e gritas essa tristeza com violência mesmo quando te abraçam terno...

Menina inconsciente, porque não sabes ser Mulher adulta!

Porque acreditas num coração a bater..porque gostas de cantigas de embalar e de olhares apertados.

Devias usar tranças no cabelo e laços vermelhos nos sapatos...mas tens sonhos presos aos vestidos e rebuçados de mentol nos penteados.

Bebes chá de tília e atiras-te como louca para a tua cama desfeita e se o sol não vem fazes cair chuva do tecto só para te vingares da escuridão.

E isto entende-se?Essa forma estranha de te inserires na vida ?

Essa tua obsessão de sentir num mesmo tom, se sabes que as pessoas não são melodias perfeitas. Gostas do caos que se instala à tua volta quando cantas desafinada serenatas à tua alma..Talvez seja isso..entendes melhor o caos que a ordem das coisas.

Deixa-te estar caótica que a paz logo vem...apetece-te respirar fundo..sinto-o daqui. Nessa tua respiração intervalada com soluços breves...

Mas mesmo caótica, sinto-te agora estranhamente calma... como se tivesse por fim encaixado todas as peças daquele puzzle interminável com que a tua cabeça jogava...

Daqui a pouco estás outra vez ofegante e a misturar novas peças na tua cabeça... ou talvez não..ainda não consegues prever os teus gestos. Mas há algo diferente em ti..uma luz que se apagou por instantes mas que ainda se vê de longe no teu olhar...

Deixa-te ficar assim a lamber as feridas mas sem sangrar... a aprender porque lamentas perder quando foste tu que fizeste a guerra...

Mas estou a olhar para ti e acho..não tenho a certeza que hoje não te apetece dizer mais nada.

Guarda então as palavras no peito e entende porque é que este silêncio só te sabe a meio amargo...

Tens uma lágrima a cair dos teus olhos...tão pequena..e tão bonita que ela é.Deixa-a cair... faz todo sentido deixá-la pertencer ao teu chão.

Daniela Pereira

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A aflição do silêncio da carne quando a alma levanta a voz...




Talvez não tenha o direito de pensar...
talvez o mais correcto em mim
seja sempre o sentir...
Porque me rasgam estas dúvidas
tão profundamente o peito?
De onde chegam vocês
agora que sentia tudo perfeito à minha volta?
Tenho a carne agrafada ao corpo...
suada e aflita
porque não se consegue soltar
e desesperadamente sabe que quer voar
e em pedaços suculentos se doar.
Falta sentir os teus dedos pedindo
para me aproximar com a respiração encravada...
Falta sentir que beijo cerejas
e que sem mim a água tem sede
quando escorre nos rasgos da minha boca...
Este sentimento vai e vem cá dentro
e deixa-me louca...
tenho ondas no olhar
e riscas coloridas
desenhadas às pressas
que me turvam a visão...
Apetece-me estalar o que sinto
forte contra o rosto despido
e interrogar a alma até à exaustão...
Porque te sentes sozinha
nas palavras que debitas
com o coração envergonhado?
Porque não corres para os meus braços
como se o mundo fosse acabar amanhã..?
não só para ti...
mas para mim também
porque eu sou só uma brisa que hoje por ti passa
e amanhã posso ser chuva desnorteada
desfeita num chão.
Deixa-me morrer aos poucos...
voar por cima das montanhas
que amargamente levo às costas
e tantas vezes me fazem viajar
em círculos infinitos
que não parecem ter fim.
As borboletas perdem a cor
mas viram todos os arco-íris de perto
antes de serem tela a preto e branco...
As formigas esmagam-se com um simples passo
mas já percorreram tantos caminhos desconhecidos
antes de serem pó na estrada...
As flores murcham com o cair da primavera
mas já perfumaram tantas peles
antes de perderem todas as pétalas ...

Inspiro...
Roubo aos pulmões toda a postura
e o ar sai-me curvado pela boca
já cansado de tanto fugir
com soluços a vibrar na garganta.

Sinto...
Será que tenho o direito de sentir
se nem nas palavras me acredito?

Escrevo...
Aqui nasço e renasço cem vezes
com o coração completamente à toa
e abraçada às palavras
mato o medo de me perder...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Dor original...



Original é o poeta
que luta contra as ondas
mesmo quando sabe que se vai afogar...
O poeta que inventa o sol
em dias de chuva
mesmo que morra no salgado das lágrimas.

Original é a rosa
que brota solitária num jardim
sem temer a solidão
do vento quando este lhe toca...

O poeta é banal
porque chora
e tem medo como todos os mortais
que deixam passos na areia...
O poeta nunca será original
só porque sente que a sua escrita é imortal...
O Amor também dói
como dói toda a poesia no peito
mas até ele morre
como toda a gente...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

Foto por Pokosandiva in http://pokosandiva.deviantart.com/art/Je-t-aime-76434118

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Quando anjos e poetas descem à terra lado a lado...








Se um dia um anjo descer à terra e um poeta o encontrar...

Terá no seu rosto linhas dos teus traços e no olhar essa candura ilimitada que na tua alma não parece conhecer um fim...

Terá braços fortes como os ramos das árvores que enquadras com os teus olhos e com bondade fazes crescer...

E os seus abraços?

Os abraços serão como raízes entrelaçadas à volta de um corpo até sentir a carne presa aos dedos a amadurecer .

Asas deve ter!

Porque todos os anjos têm asas e os poetas já nasceram com uma vontade ilimitada de voar...

Talvez as guarde em segredo às escondidas...

Gentilmente apertadas junto ao peito à espera de uma ave magoada que o queira acompanhar às cegas num voo nocturno...

Talvez não goste de mar por ser revolto demais..

Talvez as tempestades lhe recordem a força dos seus sentidos e isso o apavore...

Talvez ame a lucidez das ondas...que sabem ser infinitas e morrer sem olhar para trás,lamentando o que ficou ainda por fazer numa vida curta.

Se calhar já viveu muitas viagens no corpo com a escuridão mergulhada em si...

Conheço-lhes os passos,porque já ali também andei..meio perdida e sombria caminhando por entre lágrimas e indiferenças solitárias.

E se o sol o encontrar sentado com a solidão num banco velho de um jardim ?

Esquecerá por momentos a lua e toda a imensidão de noite que habita num poeta que anseia florir sem deixar mais pétalas caídas no chão?

Como se quebram dois corações envidraçados sem sentir nenhum estilhaço restando sobre a pele?

Ainda hei-de encontrar uma solução...afinal sou poeta no corpo e da profundidade tenho sobras a jorrar da alma...

E há livros que não li mas quero escrever de mansinho...

E existem horas brancas onde refugiar todas as nuvens cinzentas de um céu menos azul...

E tantos...mas tantos pensamentos que em mim não dormem...

Mas talvez na cumplicidade de um sonho eu consiga imaginar tudo o que o meu coração quiser.

Eu sei que no meu desespero pedi desejos agarrada às estrelas só porque a chuva doía quando caía cá dentro...Sei que pedi que a dor não fosse tão impossível de acarinhar...que os sorrisos não dependessem mais da minha tolerância ao espelho...

Das sombras de uma boca...

Lembro-me de ter lavado a negritude das noites com a acidez do meu pranto...de ter deixado a escuridão tão mais limpa e pura..de ter esfregado os sofrimentos contra os dedos noites sem fim na esperança de os ver trespassados na ponta da caneta.

Tantas folhas ficaram em branco porque a minha mente desmaiou sem forças para seguir em frente...

Talvez seja a sina de um poeta..ter o choro nas palavras e os sentimentos na ponta da letra,até que um anjo estranho às realidades da terra procure num poeta escavar o abrigo de um sonhador...



Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Se a lua me der a mão...eu não vou ficar deprimida com a ausência do sol





Parte-se me o peito...

e não me lembro tê-lo sentido quebrar

mas hoje ele jaz em mil pedaços

e é no chão que esta dor ecoa.

O céu calou-se por respeito

a esta tristeza sem fim

enraizada na carne ...

já não grito.

Estou cansada de gritar

e a garganta não devia ser uma arma de arremesso

mas sim...um jardim para plantar sementes

e para ver o choro das flores

quando brotam das pedras mais duras.

Se as palavras não se ouvem...

então chora-se em silêncio

porque o meu pranto ficou mudo de repente

Queimo o ar que respiro

porque os meus pulmões inspiram fogo

e eu intoxico-me por dentro...

Desconfio que vou ficar

dias a fio abraçada às paredes

a deprimir o olhar

com o sol atrás das costas...

Talvez à noite volte a ter coragem para sonhar

se a lua me der a mão...


Daniela Pereira

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz Natal a todos que ousaram entrar no meu coração





Hoje não vou escrever poesia...não vou mascarar as palavras e muito menos vou fazer delas gotas de sangue.

Porque hoje,quero deixar aqui as palavras mais bonitas e profundas que o meu coração consegue soletrar...

Isto deveria ser uma mensagem a desejar Feliz Natal ao mundo inteiro..mas esta manhã apeteceu-me ser um pouco egoísta e quero que esta mensagem chegue a um cantinho especial...o meu mundinho .

É um mundo,não muito grande...mas que tem muita sorte ,porque mesmo quando tem os seus momentos de solidão encontra sempre alguém a bater-lhe à porta com uma palavra amiga.E quando essa palavra não vem da boca de quem desejo...ela voa até de mim dos mais variados recantos e é com surpresa que a recebo com pedacinhos de ternura tão gentilmente partilhada por quem vive no meu peito.Por isso considero-me uma pessoa de sorte...tenho pedaços de mim espalhados por terras com aromas diferentes...com sorrisos distintos...com passos bem diferenciados.

E mesmo quando sofro pela ausencia e pelo silêncio de alguns bocadinhos do meu coração...sei que no momento em que consigo reunir novamente junto ao peito todas as pessoas que amo ,sou a pessoa mais privilegiada e feliz deste mundo .

Por isso quero agradecer a todos que tiveram a ousadia de chegar até mim...espreitar cá para dentro e sem saber o que iriam encontrar,mergulharam fundo e até hoje ainda flutuam neste mar imenso de melancolia e sentimento que eu sou.

A todos vocês(que eu sei,que sabem quem são) eu desejo o Natal mais aconchegante ...mais terno..mais amigo...mais amoroso...mais Tudo...porque para mim,vocês são o melhor que a minha vida tem e não vou descansar enquanto não vos vir a todos realmente felizes:)

Feliz Natal Amigos...Poetas...Familia...Curiosos...Almas da partilha...



beijinhos azuis



daniela

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Procura-se um amigo verdadeiro...




Hoje apetecia-me colocar um anúncio nos jornais...Amiga fiel procura por amigo verdadeiro...

Não tem que ser alto...mas tem que ter um ombro onde possa encostar a cabeça,quando me sentir cansada e com vontade de chorar.Não precisa de ter o ombro livre sempre para mim, mas precisa de saber distinguir quando as lágrimas são sentidas e demasiadas pesadas para carregar sozinha.

Não tem que pedir desculpas por não estar presente em todos os maus momentos...mas tem que me fazer sentir que desejava estar .

Não precisa de sorrir sempre...mas de ter um sorriso para me dar quando me sentir triste,por saber que nunca lhe neguei o sorriso quando de um sorriso meu precisou.

Não deve guardar-me numa gaveta com cheiro a passado...e deve sempre dar-me flores se a vida mostrar que o futuro tem espinhos no olhar.

Não deve fazer de mim uma recordação e sim um pedaço...grande ou pequeno...mas um pedaço de si,porque aos amigos dou-me por inteiro.

Não deve perguntar se estou bem...porque o coração deve saber sentir quando não estou,porque algures nesta amizade há-de existir uma ponte para puder viajar de uma ponta à outra do peito.Só a ausência pode ter força para quebrar esta ponte construída com tanta harmonia...Talvez um dia esqueças o caminho...

Hoje procura-se um amigo verdadeiro...com braços para abraçar...ouvidos para escutar..mas com uma boca para nos encher de palavras com gosto a conforto.

Todo o vazio é inimigo do sentimento...todo o silencio é desprezo se não houver um sussurro ouvindo-se ao longe para nos fazer sentir amparados.

Vou para a janela escrever Amizade em mil aviões de papel e vou atirá-los em direcção às nuvens,para ver se do céu ..hoje ainda me chove um amigo assim...


Daniela Pereira

sábado, dezembro 15, 2007

Pede-se um minuto de silencio...




Perdem-se as palavras nas margens de um rio calado...

E pedem-se razões às pedras que as vêem passar tão silenciosas.

Atropelam-se os peixes de boca aberta

E com o peso de um ponto final

Deixam-se ir ao fundo...

Inebriados por um anzol de ideias brilhantes.

Batem-me à porta ...

E eu tenho a garganta cansada!

Diz um grito sufocado

Aos ouvidos empedrados na parede da sala.

Tocam as horas num relógio sem ponteiros

Porque o tempo não se pode marcar

Com dedos de metal

E as palavras já sorriem destemidas

Sem o tempo a vigiar-lhes as costas...

Pede-se um minuto de silêncio...

Que as palavras hoje querem divagar.

Daniela pereira

Direitos Reservados



Foto por Nuno Reis in http://www.noir-sur-blanc.blogspot.com/

terça-feira, dezembro 11, 2007

Calor Vagabundo





Tenho um sentimento aqui dentro que me aperta a carne contra o peito...
Não é um sentimento triste,mas por vezes encontra-me a chorar e não existe uma explicação para as lágrimas que deixo cair.
Talvez seja a forma que a alma possui de se elevar...de ganhar alguma leveza.Sim..porque a queda de uma lágrima é pesada no rosto.
Somos revestidos de uma pele tão fina e delicada e o sal é sempre uma pedra...arranha e rasga quando nos beija.
Já procurei uma cura para este pensamento doentio...mas é um vírus tão poderoso...a saudade contagia até o ar que se respira.
Baixa-nos as defesas e alastra sem cessar cá por dentro e o sangue é o rio que a transporta a 3dimensões...pele..carne e alma...todas sufocam num ar de ansiedade crescente e a febre sobe quando as memórias queimam o olhar.
Sei que não se morre com saudades infestando o corpo...mas há momentos em que juro,que há sentimentos que caminham para um precipício e eu tenho vontade de empurrá-los,só para os ver cair mais depressa.
Sou tão pequena para compreender a imensidão deste sentimento mesquinho e egoísta...talvez seja apenas inocente ao sentir que nenhum sentimento vive solitário e que cada dor tem uma sombra gémea que a vê ao espelho.
Talvez a saudade seja cega e surda...não veja a tristeza que deixa nos olhos dos outros e acredite que a ausência seja um pedaço de magia que se oferece a quem gosta de viver intensamente...Talvez seja surda,porque passa os dias a cantar tão alto canções de amizade e de amor,que nem repara que esqueceu a voz no bolso e por isso da sua garganta funda só ecoa um silencio magoado.
Eu não sei porquê..mas tenho um sentimento aqui dentro que faz cócegas no nariz e deixa o meu coração destapado...sinto frio assim despida desse calor vagabundo que morava na minha casa.

Daniela Pereira

foto by http://aquasixio.deviantart.com/

terça-feira, dezembro 04, 2007

Ver para crer...



Foto by DeviantArt-Watch the weather change by ~DreamerDeceiver

Queria ter um par de olhos
com asas nas pestanas
para conseguir voar com o olhar ...
Para ver quem quero ver...
e cegar a saudade
que às vezes machuca no peito.
Queria ter o grito mais alto
guardado na garganta
para me fazer ouvir
quando sinto as palavras enrodilhadas cá por dentro.
Queria ter o sorriso mais rasgado
para mostrar a todos que amo
que ainda sei sorrir com gosto...
mas queria tanto que vissem o meu sorriso
e não ficassem só com ele preso à imaginação.
Se esta lágrima teimosa
se afastasse um pouco do meu rosto...
para deixar brilhar os fios de ternura
que normalmente trago escondidos no cabelo...
Talvez aqueles braços
que vejo estendidos ao fundo da rua
fossem para mim...
Porque hoje preciso de um abraço daqueles que amo...
daqueles que não me odeiam
ou daqueles que simplesmente não sabem quem sou.
Preciso que me ouçam...
ou que me deixem ficar calada
a olhar para as palavras dos outros
como se já não soubesse ler
e as letras fossem somente gotas para beber.
Sinto-me cansada desta solidão
de querer ser Tudo para Todos...
desta fome imensa que nos cola o estômago ao pé da boca
quando pensamos que todo o mundo depende de nós
e esquecemos que somos viciados nele.
Quem olha para o meu olhar pedinte
e afirma ver-se ao espelho?
Quem morre aos poucos
por não viver inteiro na sua pele?
Quem finge ser Verão
mesmo com o Inverno a gelar-lhe as carnes?
Quem fita os olhos de uma sombra
e jura ter visto por momentos a sua alma gémea?
Hoje não queria estar sozinha
a perguntar porque é que as paredes
não me respondem...
porque é que as portas não se abrem
para deixar entrar de par em par aqueles abraços
que preciso...
Vou abrir a janela
e derrubar todas as paredes
que me querem sufocar...
Talvez assim alguém se lembre
que ainda respiro.

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, novembro 28, 2007

O Livro Afectos Obsessivos



O livro Afectos Obsessivos - A poesia curiosamente sem açúcar,Edições Ecopy de Daniela Pereira

Reserva de exemplares com dedicatória minha e com muito prazer:),através do email:ielapausas@gmail.com ou através do meu hi5: http://BLUEIELA.hi5.com


Outros Postos de venda:

Livraria Leitura
Rua de Ceuta 88
4050-189 Porto


Livraria Buchholz. Lda
Rua Duque de Palmela, 4
1250 - 098 Lisboa

Catálogo on line das Edições Ecopy:Colecção On Demand

http://ecopy.macalfa.pt/

quinta-feira, novembro 22, 2007

Apresentação do livro Versos nus de Tiago Nené




Aqui fica o convite do poeta Tiago Nené,para que estejam presentes dia 24 de Novembro,pelas 16h na Fnac do Algarve Shopping para a Apresentação do seu livro Versos Nus...
Como não poderei estar presente, aqui ficam os meus votos para que seja um sucesso e um momento especial para ti,Tiago:)

Toda a informação da página do autor em http://www.tiagonene.pt.vu/

Obrigado


beijinhos

daniela pereira

quarta-feira, novembro 21, 2007

Afectos Obsessivos





O Livro Afectos Obsessivos-A poesia curiosamente sem açúcar de Daniela Pereira-Edições Ecopy:

Pedido de informações para o email:ielapausas@gmail.com ou através do hi5: http://BLUEIELA.hi5.com

terça-feira, novembro 20, 2007

Um livro infernal com olhos de anjo




Lê-me por favor!
Tira-me da estante e rouba-me a poeira do corpo...
Quero ser o teu tesouro mais bem guardado...
o teu objecto preferido.
Lê-me apressado
ao chegares a casa depois de um dia de trabalho...
ou então , lê-me descansado
num sofá juntinho à lareira.
De cigarro na mão...se quiseres ser um leitor com estilo...
Ou então,não fumes...se o fumo te incomodar.
Mas não me deixes esquecida
a sufocar com ele num canto.
Lê-me nos versos puros
com olhos de quem devora a sua última estrofe de carne.
Absorve-me no odor preso à capa
porque passeias nas minhas linhas
a imaginar todas as viagens que realizei com os meus dedos.
Leva-me debaixo do braço...
sempre segura ou só aconchegada...
mas mostra-me o sol que brilha lá fora
para eu ganhar outras cores.
Lê-me com cheiro a mar
ou molha-me com pingos de chuva
mas não me deixes com o sorriso humedecido.
Lê-me em poemas
e mostra-me emocionado
que me adivinhas as histórias...
mas lê-me inteira e com amor!
Procura-me nos segredos e folheia-me com cuidado...
Tens medo de me estragar a beleza
com a avidez do teu toque.
Saltita-me com os dedos no papel
e espreita-me nas palavras como se fosses um miúdo curioso.
Mas..não morras inculto de mim!
Partilha-me as emoções e empresta-me ao vizinho do lado...
mas promete-me que vais perder a cabeça
se me devolverem com os sentimentos machucados.
Fechas-me os olhos...?
Será que já te sentes cansado desta leitura...
supostamente infernal?
Então...atira-me à fogueira platónica
e quando me vires sucumbir nas chamas
com os sonhos a gritar de dor...
Recorda-me que fui sonhadora
e que com olhos de anjo ...sonhei para ti.
Depois...
Deixa-me voar
com letras queimadas na boca e cinzas fundidas ao peito...
Cheguei ao fim!

Daniela Pereira
Direitos Reservados

P.s:Post também editado no blogue das artes em http://bloguedasartes.blogspot.com/

quinta-feira, novembro 15, 2007

Blogue das Artes

:)Olá a todos os visitantes do Devaneios


Quero aproveitar este ar saudável das palavras que por aqui respiro...para vos dar a conhecer mais uma lufada de ar fresco.
O Blogue das Artes...um espaço fundado por Tiago Nené e Duarte Temtem.É um ponto de encontro de artistas e amantes da arte em geral.
Tive o prazer de ser convidada a participar neste projecto e por lá ando a divulgar a poesia:)
Passem por lá...vale a pena!
Deixo aqui o endereço... http://bloguedasartes.blogspot.com/

Bons devaneios


Daniela Pereira

quarta-feira, novembro 14, 2007

O Perfume mais que perfeito

Aqui fica a minha escolha para um perfume mais que perfeito... :)
Aproveito para deixar aqui o convite a todos os que aqui passarem,a visitarem um novo espaço...o sitio irreal. Um blog onde as ideias de 3 pessoas se fundem num só pensamento...eu estou por lá;)
O tema sobre o qual divagamos neste momento é o "perfume"

http://sitioirreal.blogspot.com/



Hoje queria perfumar as palavras...
Estou cansada
de as ver com cores desfocadas
e quero tanto encher o ar
com odores pintados.
Não quero escrever um mundo cinzento...
quero cheirá-lo e senti-lo doce...
quero tocá-lo e sentir os dedos pegajosos
para deixar as palavras coladas
na moldura dos rostos distraídos que vejo a passar.
Mas que perfume escolher?
Que odor posso deixar pingar
na pele de uma letra?
Chocolate ou baunilha...
São doces na boca
mas se eu deixar cair uma lágrima
não matarei a doçura do papel?
Gosto do aroma do vento...
Sim,porque o vento tem perfume...
Cheira a amores abraçados
despidos à beira do mar
e a sonhos soprados em segredo no horizonte.
Mas será que o vento
vai se deixar prender numa garrafa de vidro
só porque eu quero perfumar um poema?
Talvez tenha que aprender
a amar apenas
o perfume dos corpos
nas memórias que flutuam junto ao peito...
Mas hoje vou mergulhar
despida no vazio...
Quero ouvir o sussurrar
do meu perfume
mais que perfeito.

Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, novembro 11, 2007

Quentes e Boas...




Olhem para as palavras...
Tão quentes e boas quentinhas...
Chegam aos molhos como as cerejas
para matar a fome
e há que devorá-las antes que arrefeçam.
Tão quentes e tão boas
assim...quentinhas...
Abraçadas...
só podem trazer muito mais calor para casa.
Olhem para as palavras
embebidas em vinho
e ensopem a língua do poeta
que triste passa os dias
a salivar por elas...
Hoje sonha que a poesia
tem gosto a castanhas
e apregoa para todo o mundo ouvir...
Olhem para as palavras...
Tão quentes e boas quentinhas...
A estalar num coração
que se quer sempre na brasa!



Daniela Pereira
Direitos Reservados

segunda-feira, novembro 05, 2007

Vives nas Quatro Estações...e eu vivo só...


wonder by *omGermDiggity on deviantART

E se o Inverno chegar
com lábios frios e promessas geladas...
ainda fará sentido
guardar o teu Verão no meu peito?
Sonhar que o sol
foi pintado por ti
numa manhã
só porque querias
afastar melancolias do parapeito da janela?
Talvez a Primavera
seja a estação ideal
para este desejo...
Tem a melodia dos pássaros na algibeira...
as flores para vestires e eu despir...
os rios serenos para prendermos o olhar
e os dias de luz
com poucas sombras a esconder o teu rosto.
Mas por enquanto...
temos o nosso Outono
gravado em todas as folhas caídas.



Daniela Pereira

segunda-feira, outubro 29, 2007

Eu e o meu medo...o meu medo e Eu...




EStou deitada de olhos presos num tecto pintado de branco e o tempo passa devagar...

Tenho os olhos pesados pelas lágrimas, mas não os consigo fechar e as horas vão passando todas iguais...estupidamente iguais, só porque não tenho forças para adormecer com tantos pensamentos a correr cá por dentro.

Sinto medo...de quê?Não sei!Mas é medo aquilo que sinto...

Tento explicar o que ele me faz sentir e reviro todas as palavras que conheço e até invento algumas...

Crio paisagens com os dedos, e só para fugir do escuro, imagino que planto candeeiros no cimento e fico à espera que a luz nasça em mim como se de uma flor tardia se tratasse.E são os meus olhos que esta noite a vai regar...

Eu sei que tudo á minha volta está calado...mas ouço gritos sem voz que me baralham a paz e me lançam para outras guerras e eu vou...

E o medo dá pontapés cá por dentro e grita...És culpada da escuridão e de todos os males que no teu mundo se atravessam sem pensar.Então..eu arranco a minha mente e flutuo vazia sem hesitar...

OK-Do you want something simple?The Gift



Cruelmente...Daniela

quarta-feira, outubro 10, 2007

A fobia de um poema




Hoje fiz um poema...

Abri o peito devagarinho
e baixei a cabeça para deixar sair uma letra de cada vez ...

Mas quando ergui o olhar
estava cercada por um mar de palavras.

Como não sei nadar... fiz-me ilha a flutuar
e procurei um barco de papel ainda vazio em todas as gavetas.

Mas todas as folhas que possuía
navegavam cheias de pensamentos ...
e o meu corpo não tinha espaço para atracar.

Então, encorajada pelo medo da água bravia...
descobri que tinha asas escondidas nos dedos
e tatuei na pele borboletas para voar mais serena...


Direitos Reservados
Daniela Pereira

sábado, outubro 06, 2007

Pulsações nocturnas...




Estás aí?

Sabes dizer-me
porque é que esta noite
este amor perdido
ainda doeu cá por dentro?
Porque é que o mundo
tão esperto e sabido...
não consegue sentir
o meu desespero
quando na minha cabeça
nascem poemas à toa
a cada segundo de escuridão?
Como dói...
não saber como pregar
folhas de papel no ar
e sentir que da respiração
não escorre tinta
porque a tua boca
nunca poderá segurar uma caneta.
E se me esqueço
de uma só palavra que seja?
Saberei amanhã
descrever com exactidão
o que me fez sentir esta dor...
Ou lamentarei ao acordar
por não lhe ter decorado o rosto?
Ainda ouves as minhas dúvidas...
ou pensarás tu
que és rei e senhor de todas as certezas!
E eu?
Quanto tempo mais
ficarei aqui...?
Assim...agarrada às 24 horas do relógio
a dar murros na cama...
à procura de uma navalha
esquecida debaixo do travesseiro...
Quero ver se a lâmina
faz feridas na pele
se eu ousar virar a carne do avesso
Pára de chorar!
Digo eu...a mim mesma
revoltada com as lágrimas
que desperdiço para o chão.
Pára de chorar aí dentro...
Grito eu para o coração
que se agita no peito...
Não sabes,
que lá fora
só existem bocas a sorrir?
O amor é uma dávida
e quem ama vive contente
diz o mundo apaixonado
com o Sérgio Godinho nos olhos...

Então...
Porque sentes
que ter amado intensamente não chegou
para matar a tua tristeza!
Que tanto amor inventado
e tantas formas de amar por ti descobertas
foram todas em vão...
A felicidade não te ama...
seduz-te e faz-te carinhos
mas vive com molas amarradas aos pés...
porque logo te abandona
num salto.
Mas como pode ela abraçar-se a ti?
Se nos teus olhos
nunca ninguém viu o pulsar da tua alma...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

sexta-feira, outubro 05, 2007

Mais de 1000 razões...para não deixar o mundo no prato




Hoje, tenho mil braços...

e apesar de serem tantos os abraços

eles não chegam para me reconfortar.

A canção dizia...

Tenho uma lágrima no canto do olho...

e eu...

tenho somente um oceano a transbordar

bem no centro do olhar.

Logo perdoem-me

se as palavras salgarem o papel...

mas uma tempestade...deixa sempre as suas marcas.

Desaparecem com o tempo...

O sol é milagroso

e eu sou fiel à luz do dia

mesmo quando me sinto escrava da noite nos meus pensamentos.

Hoje tenho mil e uma gargantas...

Porque cada grito mudo

é um hino à tolerância humana

e hoje a capacidade de resistência

é o meu feito olímpico.

Editors-Smokers Outside The Hospital Doors






Por isso tragam a mim...

os braços e os abraços...

os sorrisos e os laços...

as cores e os arco-íris reflectidos nas gotas de chuva

para quebrar a monotonia do branco...

Por fim atirem-me lá de cima

o sol ainda embrulhado na lua...

porque o amor e o sexo

prolongam-se nos astros

com o mesmo prazer

com que se ama e se entrega

a alma e o corpo numa rua.

Porque hoje...

eu quero engolir o mundo

como recompensa...

e se um só pedaço dele escapar à avidez

que pinga desta boca...

então...a minha fome de viver

não será mais gula!

Daniela Pereira

Direitos Reservados

terça-feira, outubro 02, 2007

Rugas no papel...


Colder by ~NanFe on deviantART

Faltou dizer aquele pequeno nada
que por medo ou protecção
deixamos ficar encaixado na garganta
até o sentir desvanecer...
Será que o mundo sabe...
que todos os dias
inventei uma cor diferente
para pintar o teu céu?
Queria ter um acordar original
e tu fazias parte do meu quadro mais que perfeito.
E quem conhece...
o sorriso que eu pregava na cabeceira
só porque algumas palavras
deitavam-se na cama comigo?
Faltou dizê-lo...
mas a língua travou
na minha boca cerrada.
E a força de um sentimento inexplicável?
Não usava cordas...
muito menos amarras.
Dava-me toda a liberdade
e muitas vezes elevava-me aos céus num segundo.
Mas nunca ninguém
me soube explicar
porque é que a dor da queda era tão atroz..
E eu levantei-me sempre
mesmo quando do meu corpo
só sentia os ossos
porque a carne
dentro de mim
converteu-se em pó...
Feridas na pele...
rasgos no peito...
mares à solta na madrugada do olhar...
beijos trocados nas cinzas da noite...
Tantos nadas que ficaram por contar...
Acho que espetei a caneta na alma
com tanta força...
que nunca mais fui capaz de a tirar
para rejuvenescer o meu poema
e eu envelheci calada.


Daniela Pereira

Direitos Reservados

quarta-feira, setembro 26, 2007

Sonho em contra-mão


___ by ~Katarinka on deviantART


Abro os olhos com lentidão
porque ainda abrigo a preguiça nos lençóis
e o nariz sente o frio matinal
equilibrado na ponta.
Tenho a vaga ideia que sonhei...
era de noite...
mas também podia ter sido madrugada...
a escuridão pendurada nos cortinados
baralhou-me o tempo .
Vi flores no papel de parede do meu quarto
e esqueci que as paredes
agora são pedra nua rosada...
Inspirei o aroma da relva molhada
prisioneira no meu tecto
e fiz caracóis no cabelo
que faziam inveja
a qualquer mar turbulento...
Escrevi meia dúzia de livros
com os dedos sem tinta
porque nos lábios usava bâton
e as palavras assim avivadas de vermelho
carimbam-se facilmente em qualquer folha de papel assimétrica...
Joguei às cartas com o tapete
e o candeeiro de areia roubou-me a cor do dinheiro
porque estava cansado de tanto azul
a mergulhar nas suas costas...
Quis fazer bolas de sabão
com a água das garrafas
e pastilhas efervescentes com sabor a laranja...
mas elas não voaram
para fora do copo
e foi mesmo ali
que fizeram todas as manobras arrojadas...
Morreram todas em poucos minutos
mas deixaram no vidro
fortes marcas da sua existência.
Dá-me vontade de rir
quando me lembro da demência deste sonho...
Mas depois ...
pensando bem...
Porque haveria eu de rir
de um sonho tão cheio de sabor...
só porque ele me aparece no cérebro
em contra-mão?
A sensaboria em demasia
na realidade que se apresenta
impecavelmente vestida com linhas rectas
Pode parecer que não...
mas também enjoa!


Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, setembro 19, 2007

O original sabor do amargo...


EROTIQUE102 by ~luizovega on deviantART


Hoje despertei leve e serena...

Com o olhar sorridente e o peito cuidadosamente escancarado.

Mas a poesia em mim

Não costuma jorrar na tranquilidade.

Não me importa

Que as palavras hoje surjam nas horas mais estranhas

Ou nos momentos mais relaxados.

Estão-me a fazer cócegas nos dedos

Pedindo-me para sair

E eu até sinto

Um friozinho na barriga

Quando elas dão voltas e mais voltas à procura de um buraco...

Não tenho lágrimas nos olhos...

Nem sequer tenho um sorriso especial a cintilar nos lábios...

Mas sinto-me bem assim

Espectacularmente normal e natural...

Deliciosamente doce e amanteigada...

Vigorosamente fresca e regenerada...

Hoje despertei sentindo-me bem na minha pele

Apreciando todas as imperfeições da minha carne

E descobrindo um original sabor em todas as pedras que engulo.


Daniela Pereira
Direitos Reservados