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quinta-feira, julho 14, 2011

Dessas palavras,já não falamos...




Dizes sofrer de uma paixão avassaladora por letras e reticências imprevistas

mas só te vejo comer palavras em sopas frias...colherada após colherada num exercício de concentração forçada.

Fazes gemadas com o amarelo dos ovos e podias pintar canários nas pontas do sol...

depenar os pavões e substituir o orgulho das penas por credos de papel.

Dizes ser portadora de emoções profundas mas nunca te vi cavar um poço em terras de poucas águas...talvez sintas que o mar é uma cama maior para as tuas insólitas paixões.

Fazes borboletas de papel mas nunca te senti presa nos braços do vento que as fazem voar... Dizes ser alheia aos prazeres terrenos porque insistes sonhar acordada e nos teus sonhos há sempre um pedaço de nuvem a rematar as fragilidades das tuas fantasias.

És para além de seres...pedaços daquilo que não dizes, nem tão pouco murmuras nas brumas dos teus passos...és muda acima do teu coração porque jamais engoles aquilo que sentes. És uma cascata onde só mergulham aqueles que em ti flutuas.

Depois existem as palavras cruzadas..aquelas que teces na boca.

Mas dessas já não falamos... um dia ouvi dizer que só querias sentir o silêncio outra vez a caminhar feliz na tua rua.

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados


http://www.facebook.com/DanielaGomes#!/notes/daniela-gomes/dessas-palavrasj%C3%A1-n%C3%A3o-falamos/10150706933150224

quarta-feira, março 16, 2011

Labirintos...




Escapei à tristeza de ser um pouco de nada e senti-me muito grande.. imensa..gigantesca com a alma baloiçando no pico da montanha. Resistente ao frio e ao vento,sem temer mais um qualquer cair discreto para me derrubar.Presa ali no topo... sou uma bandeira mais forte.

A liberdade é um hino que ainda não aprendi ser...a matéria de todos os sonhos não tem amor à pátria e orgulha-se de ter um pensamento ateu. De ser um labirinto no seu sentir.. um polvo com tentáculos agarrado às pedras desejando que elas fossem corais e um grito mudo sai-lhe das entranhas mas ninguém parece que o quer ouvir e o grito morre com a língua em nós curtos. Há uma melodia distante que substitui o grito, mas quase que nem se ouve.. afoga-se na tristeza daquilo que não compreende mas que já conhece bem no existir. Disseram-lhe que seria mais fácil um dia partir no galope do horizonte... mentiram,esqueceram-se que já não sinto se dou passos ou se me enterro mais fundo...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados

terça-feira, janeiro 18, 2011

Um punhado de gente pequena...



Hoje acordei com pensamentos de gente pequena. De gente que não ambiciona o céu porque outros já tiveram a mesma ideia e sente que juntar o seu corpo ao caminhar simples das estrelas é um desperdício que nada acrescenta à solidariedade dos astros.

Que bom que é ser um mortal rotulado com prazo por expirar mas pouco consumido. É como se fossemos um produto gourmet que não se prova porque tem um gosto diferente daquilo que geralmente deixamos no prato numa refeição normal. Não é que tenha mau gosto, mas tem um gosto que não se define e isso é um pouco constrangedor para a alma habituada a paladares pouco profundos.

Olho-me como uma sopa... uma sopa de legumes com textura aveludada. E quando passo pelo dia sem imprimir às pernas passos apressados como numa garfada as inquietudes à solta pelos quintais. Dizem que são aves de penas duvidosas aquilo que saboreio sem cessar... a mim sabem-me a frango do campo com aromas de alguidar.

Hoje acordei com pensamentos de gente pequena, não mais que um metro e meio de altura sem comprimento ideal para abrir uma cova no chão e sem elasticidade facial para sorrir rasgado até atingir o sol em cheio no olho. Não faz mal, faço-lhe carinhos até ele fechar os olhos por sua própria vontade e não por me ouvir rezar por alguma escuridão porque a saudade ofusca-me o peito.

E o tempo hoje está tão politicamente correcto que até enjoa os sentimentos... é absurda esta monotonia na descrição humana das coisas que acontecem ou de tudo o que fica por acontecer.

Como se a veia triste pudesse ser um vaso impossível de romper porque o sangue desgostoso flui com gosto e a veia cava da alegria fosse só um caminho ténue para furar alguma angústia.

Enfim, sabemos que até no coração da gente pequena o amor bate com todo o vigor...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Somos borboletas em flor.. Estamos prontas para parir a luz.




Não existem aves lá fora...

apenas voam gotas de chuva atravessando o silêncio numa valsa muda...

Não existem flores nos jardins...

recolhemos as pétalas na última ventania que passou...

Não existem gritos a sacudir as janelas...

hoje escrevi no coração com as pedras gastas da calçada

e surpreendentemente ele não se riscou...

Não existem pensamentos aos pontapés nas ideias...

está selada a ordem das coisas

e o meu caos restaurado

como lenha fresca que se deita na fogueira

para o lume não partir...

Não há tempo para dizermos o que sentimos

quando o vazio nos envolve..

Somos borboletas em flor..prontas para parir a luz

mas em tantos momentos abrigamos o peito na mais pura escuridão...

Não existem aves no céu...

porque só rente ao coração sobrevivem as tuas penas...

Então soltamos os teus loucos sentidos e assim fugimos dos Homens normais.

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados

domingo, dezembro 05, 2010

Sessão de lançamento do livro "Já não se fazem Homens como antigamente



Foi no dia 27 de Novembro que o Livro "Já não se fazem Homens como antigamente" foi apresentado pelos seus autores a todos que se deslocaram à Livraria Leitura Books & Living no Porto.
Essa sessão, contou com a presença inesperada do escritor Luís Miguel Rocha,autor do prefácio do livro e também com o nosso editor Francisco Abreu representando a Editora Esfera do Caos.





A tarde começou cedo para os autores que estiveram reunidos com amigos num almoço aproveitando para discutir agradavelmente sobre temas que lhes eram prazerosos...logo as palavras,os livros e as emoções que eles podem transmitir foram alguns dos assuntos servidos com o café.




A sessão de lançamento iniciou-se com as palavras bem dispostas do editor Francisco Abreu que fez uma breve apresentação dos autores e da obra,agradecendo ainda a presença do escritor Luís Miguel Rocha.Foi o Luís Miguel Rocha que iniciou a conversa com o público da livraria,falando um pouco do prefácio e da sua opinião sobre a obra.
A seguir foram os autores do livro que levantaram um pouco o véu sobre as suas histórias.



A primeira história a ser focada foi a da autora Daniela Pereira, a história "Clara ou a Cinderela dos Tempos Modernos".Daniela falou um pouco sobre a mensagem que a história encerra,mostrando uma analogia daquela história com os velhinhos contos de encantar.Sugerindo que os protagonistas da história vivem um conto de fadas mas com o final distorcido,porque Clara acaba por descobrir que o seu príncipe encantado Tozé vai revelar ser afinal um autêntico sapo.
A história brinca um pouco com as relações fugazes que se iniciam com atracções mútuas e sem tempo para uma construção sólida.As personagens são postas em situações onde os seus gestos tornam-se tão exagerados que as leva a mostrar um lado ridículo no modo como exprimem o que sentem.Uma história que pretende ser divertida mas com um forte momento de sátira ao comportamento humano nos dias de hoje.



Logo a seguir,João Pedro Duarte apresentou a sua história "Paciência de Chinês". Uma história que foca o medo que algumas pessoas sentem em assumir os seus sentimentos quando eles são verdadeiros.Numa inteligente e divertida peça de teatro guiada por um estranho fantasma,o autor retrata a vida de um casal apaixonado que continua afastado vivendo vidas paralelas numa tentativa frustrada de viver emoções que só juntos poderiam ter.O medo de sufocarem num amor tão intenso faz com que o jovem casal viva ilusões nos vários relacionamentos e experiências amorosas que partilham,mas acabando sempre por cair num vazio profundo.




A 3ª história a ser apresentada nesta sessão foi a hilariante história de um reformado idoso que desejou ter uma noite de prazer com a sua mulher.Falamos da história de Miguel Almeida, "Ele tomou Viagra,Ela chamou a polícia". O autor iniciou a sua apresentação referindo que a sua história tinha sido construída a partir de factos verídicos explicando que teve que sacrificar as férias para conseguir participar neste projecto,mostrando-se muito satisfeito por ter conseguido o seu objectivo.Nesta história o senhor Solidónio Matos tenta convencer o seu médico de família a receitar-lhe o famoso comprimido azul,o Viagra. Cansado de se sentir encerrado num corpo doente e débil,este idoso conduzido pela força das suas memórias e pela vontade do prazer pede ao seu médico a oportunidade de amar a sua mulher novamente.No entanto a toma do Viagra tem efeitos que a pobre da esposa de Solidónio não esperava.



Para terminar a apresentação da obra, o autor Pedro Miguel Rocha falou um pouco sobre a história que defendeu neste livro, "A Lâmina do Amor".Numa história que vasculha o mundo da realidade virtual e o cruza com uma relação real perturbando-a fortemente.Pedro Miguel Rocha refere os perigos e as tentações que os mundos de comunicação criados na net podem causar.A facilidade de encontrar novas pessoas e de estabelecer ligações sem conhecer a pessoa que está do outro lado do ecrã é muitas vezes responsável por enganos e por numerosas desilusões.



Finalmente houve ainda espaço para algumas perguntas da plateia e para o debate de alguns temas relacionados com o recheio deste livro.Para surpresa e admiração dos autores foram muitas as pessoas que embaladas pelas palavras dos autores não tiveram problema em mostrar a sua opinião e em partilhar experiências das suas vidas com todos os presentes.Falou-se que a idade nunca será desculpa para não amar alguém,perguntou-se se ainda haveria espaço neste mundo para o Amor verdadeiro. Se as pessoas ainda davam pedaços de si sem esperar nada em troca.Se nas relações havia tempo para dar valor aos gestos trocados e aos momentos vividos neste mundo tão fugaz.
Tivemos ainda a surpresa de sentir que as nossas palavras tinham chegado aos corações das pessoas, que saíram daquela sessão sentindo um bocadinho mais a importância de mostrar às pessoas que as amamos sem nenhum medo.Oferecer um ramo de flores à pessoa amada sem nenhuma razão aparente para além do amor que por ela sentimos ainda está na moda...e ainda bem.








Texto da autoria de Daniela Pereira

segunda-feira, novembro 08, 2010

Sessão de lançamento do livro "Já não se fazem Homens como antigamente


Convite para a sessão de lançamento do livro "Já não se fazem Homens como antigamente"...

Livraria Leitura Books & Living-Shopping Cidade do Porto-PORTO dia 27 de Novembro às 16h .Apareçam:)

domingo, julho 04, 2010

Desidratação...




Estás na garganta...a arranhar-me as palavras como se fosses uma lâmina e eu já não te grito...
Silenciei-te no meu ouvido como se fosses para sempre um verbo sem futuro para conjugar..então não te conjugo..nem sequer te condeno porque o fogo por ti há muito se apagou.
És uma paisagem rara que espero não repetir no meu olhar...cegos são os amadores..visionários são os amadores da palavra amar e eu sinto-me madura à luz da vela.
E faço ondas na mente como se a memória fosse um mar com tormentas a conquistar e tu de memórias nada sabes...nada vês..só restos de um vazio que é só teu e eu costuro-me nas fendas com retalhos coloridos como se fosse uma boneca de trapos à espera de uma vida..
Estás na garganta..feres-me a voz e de nada me queixo,porque só ontem aprendi a falar..
É verdade que digo muito...que até acho que digo tudo,mas o meu coração depois de ti jamais falou de igual para igual ...podia multiplicar os dias..dividir as razões todas as noites mas mesmo assim somaria desperdícios mal contados e o meu ser seria impossível de equacionar...tu já és uma incógnita que nada tem para ser resolvido..és uma constante que se perde no tempo a apagar fórmulas que não entendes.
Matematicamente incorrecto é o teu pensar...sobes numa cadeira e atiras ao ar tudo o que já não interessa e o teu mundo reduz-se a meia dúzia de linhas,todo o resto é ficção porque a tua realidade com nada se comove.
Pirâmide de aventuras..
ruína das verdades...
nó incompleto a trepar na garganta...
Vai um copo de água para deslizares mais depressa?


Daniela Pereira
Direitos de autor reservados

quinta-feira, maio 06, 2010

O célebre motor...


Na impedância dos meus olhos
já não há espaço para silêncios turbo...
Ai como seria tão bom,se pudéssemos pausar o motor
e abraçar tranquilamente a ressonância da viagem...
sem sentir todas as pedras ocas
que nos entupiram o coração pelo caminho...

Daniela Pereira in Impedâncias cognitivas
Direitos de Autor Reservados

foto "La lumiére" de Daniela Pereira

terça-feira, abril 27, 2010

The puppet mirror...




Já não tenho cordas para controlar os meus gestos...
Já não tenho espelhos por partir...
todos os vidros já me rasgaram a pele e desenharam-me a alma outra vez...
Se vi o luar à luz de um rio impuro...hoje ainda me ardem os olhos por ter mergulhado a seco em ti...
Marioneta dos sentidos e dos prazeres adiados deixa-me dançar ao som dos meus desejos...
Estou cansada de fantasmas que me assombram os beijos e me atropelam a ternura como se fossem camiões desgovernados a pedir um corpo por um fio...
Já não tenho tesouras presas aos meus dedos...cortei-me fundo e esvaziei-me de veias mornas...

Daniela Pereira
Direitos de autor reservados

sábado, abril 03, 2010

Papoilas




Por todas as palavras que não disse...
Ficaram papoilas por florir e rosas por murchar...
Mas o vento fez-me a vontade e levou para longe os teus silêncios amargurados
e enquanto o vento sopra...já não há mais nada por dizer.
Fecho a janela às madrugadas vestidas de branco...


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados

terça-feira, março 09, 2010

Para as Mulheres da minha vida....


8 de Março de 2010-Dia Internacional da Mulher




Para as Mulheres da minha vida deixo um sorriso colorido e o abraço mais apertado que nos braços posso conter....
Para as Mulheres da minha vida..que são mães,doces e protectoras...
Que são fadas sem asas mas sempre me aconchegam os sonhos se na noite passada tive pesadelos...
Que me escutam,mesmo quando digo disparates ou encho os olhos com lágrimas salgadas e perco a força que em mim procuram ver..
Que são amigas...ternas,fieis até quando não consigo ser perfeita e lambem as minhas imperfeições até sentirem que já não há ferida...
Para as Mulheres da minha vida roubo pedaços ao céu..sopro nuvens negras...pinto o sol em tons de mel...perco o calor do meu peito se no coração de alguma entristeço...
Pelas Mulheres da minha vida perco a voz..solto o grito..atravesso o escuro porque no fundo do corredor elas trazem-me sempre uma nova luz à minha escuridão...

Às Mulheres da minha vida..Obrigado por serem tão Mulheres....
Um beijo nos gestos*

Daniela Pereira

quinta-feira, março 04, 2010

O Inferno fica sempre à escuta...






Se todos os seres tivessem alma em vez de dois neurónios certeiros...
não existiriam rios manchados de impurezas nem vagabundos perdidos na rua à espera que a chuva fosse feita de gordos tostões para puderem encher os bolsos vazios..

Se as mãos do Homem fossem mãos de pescadores a fome do mundo morreria no fundo da barriga de um peixe e o pão dos pobres teria fermento...
De magras carcaças o Céu
já está tão cheio!
Mas a Natureza parece que nos quer engolir num leito de terra e pastas de lama
e o Céu hoje é pasto de anjos...

E o Homem grita que tem fome de calmaria e pede uma chuva branda e mares adormecidos... mas o Inferno fica sempre à escuta com as mãos a tremer de frio.


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados

Foto by @Daniela Pereira

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Aproximações


Todas as recordações guardam perfumes e gotas de sal em frascos de vidro fosco..Todos os teus passos têm cheiro a passado..gosto a presente e gestos para memória futura...O resto..o que não nos marca...o vento sopra como folhas castanhas que o Outono desprezou




E quando dançamos...dançam aos nossos pés todas as estrelas caídas na maré dos nossos sonhos...E todos os jardins ganham cor nos amontoados de terra que ninguém quis florir...Já tens margaridas brancas penduradas nos cabelos e nos teus lábios rosas de carmim ganham mais carne...Mas quando dançamos a tua alma é fresca brisa que me arrefece até aos ossos..


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados


quarta-feira, janeiro 27, 2010

Aqueles gestos nas horas vazias...


Perfumes ácidos nas tuas pétalas mais doces...
Chuvas corroídas nas veias...
Eternamente ...uma desfolhada de ternura na eira do meu peito...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados...Foto e texto da autoria de Daniela Pereira



domingo, janeiro 10, 2010

Meio sonho acordado...



Foto por Daniela Pereira
Direitos Reservados



Jamais me fiz ao Mundo
sem caminhar com os olhos
olhando de frente a maré...
Já rasguei ondas e vendavais
com os dedos cortando chapa...
Existem telhados que são de vidro
e o meu coração há-de ser sempre
uma fina vidraça e nada mais..

Se fechar os olhos vou dormir
e o resto do mundo
há-de permanecer acordado
dando vivas à sua existência experimental...

Porque não vamos ser fadas ou cardeais por um dia...
só para desventrar a melancolia?
Apetece-me ter asas nas costas e escamas na pele
para não me afogar nos meus voos ..

Deixa-me ser mais um grão de poeira
amansado pelo cansaço
para eu dormir tranquila este chão de areia...


Jamais me fiz ao Mundo
sem lhe perguntar
porque não há respostas
para a tristeza de um olhar e para o singelo grito de mudança...

Se fechar os olhos vou dormir e tu coração de maçã vais dormir comigo com os cabelos cheirando ao pomar da manhã...

Daniela Pereira in "Meio sonho acordado"
Direitos de autor reservados

terça-feira, dezembro 22, 2009

L'Hiver...


Je suis la pièce principale de mon coeur

domingo, outubro 04, 2009

Palavra nocturna...

Escrevi o teu nome numa pedra...

Pensei em deixar-te
sozinho junto ao rio...
Ficar a ver-te parada
a adivinhar que
novos passos te iriam pisar...
Mas tive pena...
Tive pena de te ver com o corpo tão marcado
e então deixei-te adormecido
nos seios das sereias do costume...

Talvez não fosse por pena...
Talvez fossem ciúmes
ou a tristeza de saber
que não fui eu
a deixar enterrada em ti
uma marca tão profunda
e que por mim
o teu peito
ainda está livre.

Escrevi-me em ti
com o pólen das flores
onde me foste arrancar
e nada ficou
depois de todos os jardins
se despedirem das nossas noites..

Escrevi o teu nome no vento...

E ainda hoje te vejo
aos círculos voando
com todos os olhares
que deixas-te para trás das tuas costas
amontoados em caixinhas
que apertas na tua mão...

Talvez devesse soprar-te com força...
ou então atirar-te friamente contra o horizonte..
Talvez assim pudesses
também ver o chão
chegar perto de ti...

Mas hoje escrevo-te em mil folhas e nada mais...
Podemos sempre rogar
por mais asas abertas
e chuvas doces por cair..

Mas hoje escrevi o teu nome numa pedra...
por fim...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 08, 2009

Juras drogadas...







Não há mar
numa fogueira à deriva...
nem brasas acesas
que sobrevivam
no fundo de um poço...
Porque não se queima o sal
com o calor de uma maré...
nem se incendeia a tristeza
só porque ateamos
uma chama mais profunda.

Não existem estrelas apagadas
a espiar-nos os olhos nas varandas...
nem um luar esperto
que no peito
da escuridão não se divida...
Porque a melancolia
guarda punhais adormecidos
a reluzir das lembranças...

Não há um rio licoroso
a boiar nas bordas do meu corpo...
nem beijos de moscatel
para afogar no perfume de um jardim...
Se na minha boca
não vieres beber
rosas com gosto...

A droga da solidão
já jurou que
não tem mais veias
por onde escorrer
com liberdade...
Mas não pode haver
mais juramento
sem videiras fartas por colher...
E sem céus dourados para caminhar...
todas as promessas
estão drogadas...

Há uma alucinação por desprender
da mente mal passada
e um sonho por remendar
no coração mal rasgado...
Depois...
há um poema abençoado
e uma lágrima que fica por tingir...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 01, 2009

6 em linha...





O que me faz falta é limpar as sombras do sorriso e todas as lágrimas que me sujavam o vestido...
Atirar com os arco-íris contra os lagos e beber água de todas as cores...
Pôr a terra no seu chão e escavar as montanhas à procura de mais nada recebendo com as mãos sujas mais um pouco de tudo o que dei...
O que me faz falta é deixar as estrelas a passearem radiosas por aí..um dia serei uma delas e terei uma imensidão de poeiras para contar...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, agosto 22, 2009

Vertigem seca...

Agosto 21/2009 23h50

Boa noite...Não penses que estou a despedir-me de ti, muito pelo contrário estou apenas a chegar.
Esta noite sinto-te diferente, pareces estar mais clara apesar desse teu tom de folha de papel envelhecida à luz de um candeeiro.
Ontem decidi que quando sentir vontade, virei sempre aqui visitar-te e falar um pouco contigo...Afinal tens sido a amiga mais fiel que eu até agora encontrei.
Venho aqui fazer aquilo que mais gosto de fazer...tu sabes...tracejar-me em ti..
Pensei até num nome para baptizar todas as horas que irei partilhar contigo...mas uma palavra pareceu-me pouco e estendi a corda.Em vez de um nome inventei logo uma frase inteira... "O diário de um coração aflito sem colesterol"
À primeira vista pode soar-te um pouco estranho...mas vais ver como faz sentido. Pensa assim...vou falar de um coração...do meu coração e de tudo o que ele me irá fazer sentir.O que ele já sentiu é importante mas acho que já perdi alguns sentimentos por aí..a eternidade nunca me ficou bem.
Inicialmente este coração terá alguns acessos de aflição...andará certamente perdido na busca de outros rumos, já cansado dos caminhos errados que cruzou.
Vais senti-lo fragilizado e embrulhado numa complexa alcateia de memórias que lhe infernizam a cabeça enquanto ele vai tentando escapar ileso de cada ataque sofrido ...Continuar vivo e a bater pode ser considerada a sua grande vitória, tudo o resto será uma humilde derrota.
Um pouco à semelhança de um coração doente, onde sabemos que a circulação é barrada por camadas e camadas de gordura..este coração também estará aqui a tentar lutar para sobreviver...entupido em desilusões.
Agora só quero falar-te no dia de hoje...da actualidade, como se me visses numa página de jornal cravado de notícias para dar.
O meu coração ontem andou no meio de uma pequena tempestade, mas curiosamente hoje acordou com uma tranquilidade que sinceramente até me meteu uma certa inveja.
Tudo, porque o coração andou tão calmo o dia inteiro, mas o corpo estranhamente deu sinal de alguma instabilidade ao raiar do fim do dia.
Acredito que a ondulação de humores do dia anterior, não terá exercido uma boa influência no funcionamento desta máquina que levo atrelada à massa de carne e ossos que me constitui humana.
Senti uma tontura repentina..uma coisa parva durante um gesto habitual que consistia em erguer a minha cabeça do chão.Ando destreinada na postura de corpo imbatível..
Por breves instantes não sabia muito bem onde tinha os pés porque o chão parecia que me queria sugar para algum buraco.
Não me preocupei muito, porque sabia que as minhas emoções estão intimamente ligadas às reacções do meu organismo.
Em mim, existem tensões que disparam e nervosismos que deviam supostamente ser relaxados... antes de acumularem ansiedades que podem explodir mais tarde como se fossem uma bomba..deixando-me em pedaços difíceis de apanhar.
No entanto...e já que hoje os meus pensamentos estão focados nas fraquezas corporais que possuo,devo confessar que me apercebi que estes olhinhos cor de terra...que já tiveram uma visão digna de um lince...estão a precisar de uma séria manutenção. Existindo mesmo, o risco de já não conseguirem enxergar o resultado de uma partida de futebol quando exibida no grande ecrã. Considero isto um assunto grave, mas como na área da saúde posso dizer que andei na chamada época alta no que diz respeito a doenças.A minha habilidade ocular foi-se adiando ...
Mas adiante, antes que comeces a pensar que virei hipocondríaca ...tendo em conta o que já passei, seria fácil olhares para mim com essa dedução bem afinada na tua cabeça.
Curioso, falar contigo está a deixar-me ensonada..talvez seja porque nunca me respondes e o silêncio gerado no quarto embala-me depressa.Por isso, vou deixar este tema em banho maria para ter ainda algum tempo para falar do meu coração com termos menos técnicos e mais subjectivos.Acho que algumas pessoas chamam a isso, falar com alma...eu não quero falar "com"..mas sim "da" alma.
Como já te tinha dito nalgumas linhas que ficaram para trás... o meu coração hoje esteve calmo. É raro vê-lo assim a conseguir tão grande feito..há imenso tempo que ele não tinha um dia tão tranquilo...quase em paz.
Acordou cedo..foi trabalhar e ainda conseguiu ter a coerência necessária para passar alguns instantes ao ar livre a querer sentir-se bem sem ter muito em que pensar.
Isso não quer dizer que ele já ande esquecido..nada disso, mas hoje simplesmente não sentiu grande necessidade de lembranças.
Brincou um pouco..imaginou outro tanto..idealizou lagos e recantos melancólicos onde pensa mais tarde descansar das suas próprias melancolias.
Hoje não perguntou ao mundo inteiro como ele estava..nem sequer fez essa pergunta (que já foi tão habitual) aquele pedaço fora do eixo que ele viu ser arrancado voluntariamente de si.
Não tem feito diferença alguma perguntar..por isso hoje não o fez. Existe sempre tanta estática no ar que não há resposta que ao coração chegue...isolou-se das perguntas como se elas fossem uma doença mortífera.
Logo, guardou a pergunta para si com medo de contaminar o mundo e desejou que ele estivesse bem e deixou o mundo satisfeito com o coração a bater lá pelos seus lados..
Vertiginosa esta sensação de estarmos sozinhos com uma memória que desvanece deitada ao nosso lado...
Se ela acordar diz-lhe que ainda não morri!


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
Direitos Reservados