quarta-feira, janeiro 24, 2007

Pelas palavras...eu juro!




Ato-me às palavras que escrevo

deixando-me sufocar aos poucos

e numa punição merecida

escrevo o que me chega à boca.

A noite está aqui ao pé de mim

e com o seu ar contemplativo

vai-me apalpando os dedos transpirados.

Enquanto ela lhes percorre a pele

desce-lhes em vão o suor

até à ponta das unhas

no esforço de me calarem os sentimentos no peito.

Mas eu não posso calar esta indignação

que me percorre a carne ate aos ossos

e se não a posso explodir com um pavio curto

então... faço-a em pedacinhos à minha maneira!

Hei-de vê-la rendida num canto qualquer do papel

suplicando que a poupe de um perdão

só pelo desejo de morrer mais depressa.

Por isso Noite...

Diz às tuas palavras mulatas

que mesmo com os dedos adormecidos de cansaço

ficarei com elas ate que chegue o teu fim.



Blueiela



 

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Prova oral


Não me sais da cabeça

Quando te sinto a fervilhar

Debaixo da língua...

És como um grão de pimenta

Que trinquei por engano

Mas queimas-me a saliva

Só como o desejo de te ter

Ardendo dentro da minha boca.

Deixas esta cabeça tonta

A andar à roda...

És como um espumante

E meio-seco

Vais transbordando

Pelos bordos curvos do meu corpo.

És pimentao- doce alcoolizado

Nesta prova oral...

Mas desconfio

Que poderias bem ser

um Rum cubano

quente e letal!

Assim te tornas quando te escoas de palavras

Na minha garganta

E deixas o silêncio

A baloiçar perigosamente

No canto da mesa.



Daniela Pereira-12/01/07


 

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Jazem num leito de papel...




Hoje doem-me as palavras…
Não me dói a carne ou os ossos
doem-me as palavras nas pontas dos dedos.
Pobres palavras
que destinadas a sofrer de dor na alma
jazem num leito de papel
tão fragilizadas e magoadas
a sangrarem 2000 gotas suicidas por minuto.
E tu, mundo sabes que eu não as quero
deixar sair assim
só porque elas reclamam
que aqui dentro de mim
o sangue está infestado pelas saudades que do teu amor sinto.

Daniela Pereira-5/01/07

segunda-feira, dezembro 25, 2006

A enciclopédia da saudade


(Mesmo que as palavras sejam tristes não faltará em mim um sorriso para amar com saudade)

DAMIEN RICE- ELEPHANT


As saudades...já ouvi tantas vezes a palavra SAUDADE dita em mil bocas, mas agora que a sinto acho que nunca ouvi ninguém dizer a verdade... Todos falam deste sentimento mas hoje sinto que nunca ninguém o sentiu realmente. Agora que penso na solidão do meu quarto sinto-me no direito de afirmar que a saudade é só minha...foi uma palavra inventada por mim! Existem belas poesias...melancólicas e tristes grávidas de lamentos contando histórias de amores que partiram chorados à beira mar acenando um adeus qualquer... não lhes conhecemos os rostos... sim, porque as saudades têm rosto só que os poetas não o dizem porque recordar fá-los sofrer . Então falam de almas que vivem espetadas no seu peito como se sombras se tratassem e que ferem na escuridão...não lhe dão nome...não lhe descrevem os traços...a alma não se vê por isso talvez se sinta menos que a falta de um rosto bem delineado.
Depois a saudade é um sentimento sem cor nem cheiro mas que se sente... também já ouvi dizer. Mas se eu dissesse que a saudade é negra como a noite e cheira a solidão, acham que estaria a mentir? Porque é assim que eu a pinto nos meus olhos... com um rosto negro sujo de cinzas de olhar sombrio e sorriso desmaiado nuns lábios brancos sem brilhos a adornar. Vejo-a nua e sem pudor da sua nudez imagino-a a dançar num palco iluminado para toda a gente apreciar a sua beleza erudita. Ouço as palmas descrevendo a admiração dos mortais perante a sua graciosidade e delicadeza no ferir... uma verdadeira rainha, majestosa nos gestos lancinantes e nas lágrimas que espalha em seu redor.
Nada a consegue travar e todas as batalhas que enfrenta são vitórias a enumerar....
A saudade é imponente...tem um nariz arrebitado que não torce a qualquer cara feia que lhe surge pela frente. Não se comove com choros a horas adiantadas, nem tão pouco se compadece com os gemidos de dor de um coração destroçado. É implacável no momento de brilhar e brilha como ninguém quando sapateia em cima dos teus sonhos. Até tu te ajoelhas quando a vês assim tão magnifica...confessa!!
Na saudade cabe um mundo inteiro porque o seu corpo alonga-se com o tempo e a cada minuto que passa outro solitário a ela chega sem esperanças de lá sair. O mar conhece-a bem, porque já viu tantas mulheres amarguradas e tantos homens desiludidos nas suas ondas a desfalecer por ela. O sal que ele guarda nas marés ainda tem o odor das suas lágrimas e todos lhe confessaram que vinham ali chorar por ela.
Que não queriam mais sentir a sua ausência a devorar-lhes a carne e soluçavam arrependidos por nunca terem acreditado nos boatos que reclamavam a sua existência. Tinham ouvido histórias de uma musa que encantava os apaixonados com promessas de eternidade e de felicidade sem fim...e tolos amaram-se sem limites até que o sonho fosse só fumo. Porque haveriam de ter medo da saudade? De uma beleza sem par...de um sentimento perturbador e duradouro? A emoção que não seria senti-lo a remoer nas suas entranhas... porquê ter medo se podiam dar as mãos ao outro e sentir que a saída era mesmo ali ao lado?
Não havia razões para temer a saudade, só vontade de a possuir com loucura...
E a saudade é uma dama que não se faz rogada a nenhum convite meloso e em pouco tempo é certo que te abraça o corpo com mil e um braços de ferro forjado....quando dás por ti já não tens forças para dela te libertares. Então conheces de perto o perfume da dor, o som dos ponteiros do relógio que rangem como portas velhas, o teu desenho ao espelho que juras estar distorcido porque o teu rosto parece inchado de tanto chorares, até esqueces a cor do sol e afirmas que ele hoje não é amarelo e inventas um novo tom de cinzento só para não te chamarem de mentiroso por dizeres que ele te faz sentir frio quando vais á janela.
Mas tu sabes que ele não te consegue aquecer por mais que te deites debaixo dele todos os dias...
Depois dizem-te que as saudades passam se pensares noutra coisa... e tu pensas... pensas... e imaginas um jardim cheio de flores em plena Primavera e até parece que sorris de novo, mas quando começas a esboçar um sorriso as flores murcham de repente e o céu enche-se outra vez de nuvens e ameaça chover na tua cabeça porque as nuvens que nela pairam são tão negras e feias. E tu então, foges dali...corres sem cessar para lado nenhum o que te importa mesmo é fugir. Fechas os olhos, respiras fundo porque parece que adivinhas que ainda tens um longo caminho a percorrer e tentas novamente pensar em coisas boas e abandonar a maldita saudade. Esqueces as imagens e concentras-te nos sons à tua volta...carregas o silêncio no teu leitor de cds e aguardas que a música comece a tocar. É claro que esperas ouvir algo novo, um som harmonioso e calmo mas que te encha de boas vibrações... já concentrado ficas à escuta e realmente ouves ao fundo uma melodia quase imperceptível mas por momentos tens a vaga sensação que ela te é conhecida. Sentes que os teus olhos tremem ao ouvir cada nota e o teu coração parece que enfraquece no teu peito... aquela música ..”foi com aquela música que nós ...”e tu bem tentas acabar a frase mas já não consegues porque irrompes num pranto e as tuas palavras já não são mais que soluços. Foi o regresso da saudade que sentiste ali...mas por favor não desistas que um dia ainda lhe vais dizer adeus para sempre...

Daniela Pereira-25 /12/06

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Um cais no teu caminho



Na penúltima lágrima
que por ti chorei
pensei em dizer-te adeus.
Mas quando ao mar cheguei
para acenar os meus lenços brancos...
O mar jurou-me comovido
que todo o sal por ti derramado
só daria mais sabor ao teu regresso ...
Então sentei-me na negra areia do tempo
e na melancolia de um cais de lembranças
esperei que as lágrimas secassem .

Daniela Pereira

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Enterrar os sentidos numa campa de estrelas





Escreve o teu nome a preto e branco
e atrás de cada letra
diz o que ficou por fazer
antes que morras com as palavras presas na tua boca.
Tenta agora pensar um pouco
mas não tentes pensar tudo de uma vez
porque os teus pensamentos podem ser pesados...
Deixa que eles se passeiem livremente na tua cabeça
e em tempo algum não lhes force a saída
porque o teu coração é que tem na mão o comando
e tu aqui não mandas em nada!
Olha para o chão...
Estás à espera de quê?
Que te peçam por favor!!
Eu disse...OLHA PARA O CHÃO...
E não vale a pena tentares desviar o olhar
só porque não te agrada
ver os passos que deixaste ficar para trás
quando perdeste a coragem de seguir em frente
e recuaste no teu tempo.
Agora que já conheces a cor dos passos
com que pintas o teu chão de pedras
dá um passo em frente...
Achas que vai cair
só porque essa vertigem de lamentos que te assola
desequilibra o teu andar
e o corpo abana como se fosse uma boneca de trapos?
Desengana-te... porque ainda não chegou a tua hora
e nenhum buraco espera os teus ossos
com essa capa de carne tenra que ainda tens colada a ti.
Estás demasiado viva
para morreres de dor...
Queres saber um segredo?
Chega mais perto
e ouve bem ...
O teu nome não é JULIETA
e o teu amor nunca se chamou ROMEU.



Então... resta-te descobrir melhor o céu nos teus dias
porque a terra não tem ainda morada para ti.
Por isso esta noite olha para ele atentamente
mesmo que ele não te pareça tão estrelado como sonhaste ontem.
E se alguém te disser que as nuvens cinzentas
que vês pregadas às estrelas
no passado não existiam no teu horizonte...
Podes rir à vontade na sua cara
porque tu sabes
que essas nuvens estiveram sempre guardadas no teu bolso
Hoje limitaste a soltá-las um pouco mais cedo
e foi por isso que o céu chorou por ti antes da hora marcada...

Daniela Pereira-8/12/06

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Numa só palavra...


:) Hoje nesta manhã de feriado deixo aqui no Devaneios uma mensagem um pouco diferente do habitual! Considerem-na um desafio para todos os leitores deste meu pequeno espacinho de poesia...
Por isso, queria pedir-vos para deixarem aqui a vossa definição para a minha poesia...escolham a melhor palavra... aquela com que identificam mais tudo o que aqui sentem.
Pensem... sejam sinceros e partilhem a vossa palavra comigo! :)



beijinhos

blue

terça-feira, novembro 28, 2006

O algodão não engana...




Clara despertou lentamente e olhou de mansinho para o relógio… 9h30 nem mais um minuto porque o tempo tem um passo certo. Enquanto projectava o olhar na mesinha de cabeceira deparou-se com um espaço invulgarmente vazio…o outro lado da cama.
Sim, porque aquela cama de casal tinha dois lados fortemente marcados e independentes.
O lado esquerdo encostado à parede onde os lençóis viviam numa perfeita desordem porque ali o caos era apreciado por ser um sintoma de liberdade. Era o lado do Tony, machista e dominador onde tudo estava a seu gosto…e ela sabia que nem valia a pena contrariar uma força da natureza, por isso limitava-se a sorrir e sempre que invadia temporariamente aquele espaço aproveitava sempre para ajeitar um pouco as rugas da roupa de cama… assim como quem não quer a coisa, com muito jeitinho e discretamente.
Agora, já o lado direito da cama era o oposto…mais arejado sem barreiras e com a luz da janela sempre a incidir na cabeceira. Os lençóis ali eram como cadetes em dia de inspecção na tropa…todos direitinhos e alinhados. Rugas no tecido…nem vê-las…lençóis sempre lisinhos e aprumados. É claro que este lado, só podia ser o lado da Clara, feminino e harmonioso onde a ordem vencia por unanimidade.
Mas hoje o lado esquerdo estava nu e sem exercer o seu direito de voto a ordem comandava aquela cama com maioria absoluta. Clara sentia falta da desordem… dos lençóis pendidos para o chão… do cheiro forte a conhaque que costumava empestar o ar daquele quarto. Até disso ela sentia falta!! Como podia ser, aquele cheiro a álcool costumava deixá-la fora de si… mas não …hoje sentia a sua ausência.
Não havia pó na sala porque todos os objectos estavam limpos e colocados nos lugares exactos. E isso esta manhã irritava-a profundamente, tinha vontade de cuspir para o chão, de abrir todas as gavetas da cómoda e deixá-las assim com a roupa toda de fora… sim isso seria o ideal.
Então sentou-se na cama e endireitou a cabeceira, depois ergueu os olhos e olhou em frente … mesmo em cheio na direcção do espelho. Não se achava feia, era até uma mulher com alguma graça de rosto perfeitinho e uns olhos grandes que o Tony costumava apelidar de pérolas selvagens… só que eles hoje estavam domesticados, sem garra nem ousadia no brilho. De certeza que estavam mortos…
No que diz respeito ao desenho do corpo, também considerava que não se saía mal… as suas curvas estavam bem delineadas e eram generosas mas sem serem demasiado dadas.
Sim ela até que era bonita, então o que tinha falhado ali? Porque é que nesta manhã estava ali na cama estupidamente a falar sozinha?
Então subiu-lhe pelo corpo uma raiva súbita que a deixou em brasa e em poucos segundos um candeeiro voou contra a parede caindo depois rendido no chão.
E lá ficou ele, desfeito em mil pedaços impossíveis de recuperar…
Clara sentia agora o inevitável arrependimento pelo gesto precipitado… sentimento de culpa e remorsos porque não ter sido capaz de respirar fundo antes de agir. PRECIPITAÇÃO!! Aquela palavra ecoava na sua cabeça como louca …
PRECIPITAÇÃO… sim talvez fosse ela a razão de todos os seus problemas. Talvez fosse nela que ela devia despejar toda a sua ira. Afinal ela tem tudo para ser culpada pela sua dor.
Foi ela que a atirou de cabeça para os braços do homem errado… foi ela que lhe mandou dizer sim quando outros lhe diziam não… até foi ela que deu aquele beijo molhado num dia de sol. Sim foi ela… sempre ela!
Palavras ditas cedo demais que bem podiam ter ficado mais algum tempo a marinar e a ganhar gosto antes de serem servidas à mesa.
Noites demasiado fáceis com orgasmos demasiado óbvios sentidos em posições demasiadamente previsíveis… se ela tivesse sido menos precipitada nas suas certezas e tivesse optado pelo e “porque não?” em vez do “gosto mais assim” se calhar ainda estava a dormir com um abraço cortando-lhe a respiração em vez de estar ali sentada com o corpo teimosamente livre e desprendido.
Mas Clara sabe tão bem que nada dura para sempre… nada é eterno para alem da dor. Essa sim! Dá voltas e voltas ao mundo mas regressa sempre algum dia ao ponto de partida… o teu peito.
E a verdade é que hoje são 11h30 menos minuto …mais minuto, a cama dela está imutavelmente perfeita e porque o algodão não engana… ela sente que alguém limpou o seu coração e nem um grão de poeira de recordação nele deixou…hoje ele voltou a ser apenas mais um quarto vazio.


Daniela Pereira-28/11/06

terça-feira, novembro 21, 2006

A solidão da carne




Porque tenho que me sentir assim?
Porque não sou apenas só mais uma pedra
no caminho por onde todos passam…
Porque tenho que sentir na carne
todos os passos que me atropelam a alma?
Se os pássaros quando cantam
ouvissem todos os ruídos do mundo
se calhar não perderiam tempo a inventar seus trinados
mas eles conseguem calar tudo à sua volta
para puderem chilrear no silêncio.
Então…Porque tenho eu que ouvir
o barulho de todas as bocas que se fecham para mim
a ranger prolongadamente nos meus ouvidos?
Não podiam fechar-se lentamente
com gestos suaves
como quando a areia escorre por entre dedos mal cerrados…
Tinha que as ouvir fechar!

Porque preciso de palavras densas
repletas de claridade e lucidez
e não me contento
com as que são ditas pelo meio
só para não dizer que chegou o fim.
Nasci no seio de uma maldição
e abri os olhos pela primeira vez
no berço traiçoeiro da sensibilidade
que hoje me afaga
como se fosse uma segunda mãe para mim.
Beija-me o corpo todos os dias…
Fere-me a alma todas as noites…
Ama-me e odeia-me como ninguém
Morro mil vezes por ela
quando o desespero em mim se instala
de malas e bagagem.
Mas no fundo sei
que será sempre com o seu ar doce
a entrar pela minha boca que voltarei a renascer
de olhos inchados e no rosto um sorriso discreto.
Mas porque tenho eu que sentir?
Não podia ser só mais uma pedra na solidão de uma calçada…
Existem tantas por aí perdidas…
Eu seria só mais uma…

Daniela Pereira-21/11/06

segunda-feira, novembro 06, 2006

Será a presa do predador

"Porque este espaço é tão especial para mim...porque sem ele sou como uma pintora sem tela...voltei :)"

Será a presa do predador?

Será que amo menos o silêncio
só porque ele grita estridente na minha noite?
Será que ainda tenho palavras
que o derrubem
como se ele fosse só mais um castelo de cartas
que ergui numa mesa de uma esplanada qualquer
sem sentir o vento
que rugia no meu rosto?
Será que ainda provo um fruto proibido
e não receio cometer um pecado capital
porque da luxúria
já fui escrava sem cativeiro
e agora sou apenas vítima dos sentimentos?

Será?






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Será que ainda grito livremente o grito das mulheres
ou desta garganta só saem gemidos
que um corpo de homem aprisiona?
Pobres destes murmúrios
que não sabem
que estão destinados a morrer
num beijo cortante
roubado à minha boca de papel
quando o coração
se recusar a bater mais por mim.

Então porque se
escondem as tesouras
dos meus dedos irrequietos
só porque os meus lábios
hoje brilham como papéis de prata
e a língua parece pedir
para ser recortada?
Será que ainda não sabem
que já vivo na ponta de uma navalha
sempre que converto
a minha alma
num predador sanguinário do meu corpo…
Será que o mundo está assim tão cego?

Blue- 4 /11/06

domingo, outubro 29, 2006

Um até breve...ou só um adeus..

Porque hoje as palavras não fazem nenhum sentido...não me dizem mais segredos que eu queira desvendar. Porque o sol brilha sempre na mesma direcção e eu desvio-me sempre do seu caminho,talvez mereça esta escuridão que alastra na minha alma.Não sei,talvez...
Porque os sentimentos não são mais uma certeza da razão,deixem-me apenas duvidar do silêncio porque ele aperece incerto e sem nos dar tempo algum instala-se no olhar e cegamos por dentro.O coração é aquele que menos vê quando a cegueira se instala,porque cego confia na eternidade...como se a eternidade pudesse ser soletrada sempre com flores na boca e escrita num manto de céu azul sem nuvens que a apagassem sem nos lembrar que a eternidade será sempre uma miragem.
Matem-me por dentro...rasguem-me o peito em dois pedaços usados porque eu já dei os primeiros golpes e cravei o punhal bem fundo. Amei um pássaro de asas coloridas e esqueci-me de lhe perguntar se ele gostava da segurança desta prisão que fiz nos braços...esqueci-me que ele nasceu para voar de pele em pele em busca da pele mais perfumada..do ninho mais macio que nos seios mais tenros pode esculpir.Mas a inspiração é uma ave que voa demasiado alto para que eu a consiga alcançar só com a solidão dos meus dedos
Agora morro porque a imaginação já não me faz sonhar...por isso adeus ou até breve meus queridos devaneios azuis...

AQUI ESQUECI O MUNDO POR MOMENTOS E SONHEI...MUSE-CAMPO PEQUENO-26/10/06



domingo, outubro 22, 2006

A fera e o cordeiro




O amor é uma fera
que nos devora a alma ate aos ossos
e é no corpo que jazem os seus restos.
Por isso ,só para ti me dispo
oh minha doce escuridão!
Que venham as feras
pelos caminhos de carne batida
porque o sangue quente marcou a tua hora...

blue-22/10/06

sábado, outubro 07, 2006

Carta escrita na areia molhada





Encontra-me depressa, porque sinto-me perdida na memória dos teus passos que o mar bravio não consegue apagar. Vês-me a caminhar na areia em círculos confusos mas não me deixas pedras a marcar o caminho que devo seguir. Por isso ando...e ando por caminhos de ninguém. Por estradas que não me levam a lado nenhum ou então a lugares exaustivamente explorados. Faço o percurso sozinha ou abraçada aos restos de alguém na esperança que esta peregrinação possa fazer algum sentido. Mas o mundo graceja e chama-me louca só porque te amo assim...porque te quero ver feliz mais do que a mim própria e como dizer-te adeus é definitivo demais os “até breve” vão-se alternando com noites mal dormidas.
A areia está fria porque o sol já não a aquece com o seu calor e os búzios da praia calaram a sua voz para me poderem ouvir chorar de mansinho. Repouso por momentos...talvez esteja cansada...talvez queira simplesmente desistir de te procurar em todos os buracos onde te podes esconder. Sinto que deformo a minha natureza quando escavo a alma com as mãos e nada encontro porque há muito que sei que ela é um vazio maior. São frases confusas as que debito aqui....não faz mal cobras-me uma certeza da próxima vez que me vires sorrindo com um botão de rosa sangrando no peito.
Porque eu sangro ...sim porque eu sangro com as flores que se pintam de orvalho vermelho para sentir o pôr do sol e nas lágrimas que escrevo tenho o retrato mais bonito da dor que nenhum pintor nos teus olhos ousou recriar.


Daniela Pereira-07/10/06

sexta-feira, outubro 06, 2006

As sobras do tempo




Hoje sobra-me tempo a mais
para dizer o que sinto
porque as horas
já conhecem os meus gestos de cor e salteado.
Acabaram-se os segredos
que por ti ainda guardava na manga
e todos os coelhos mágicos fugiram da cartola
vencidos pelo cansaço.
Resta-me os aplausos
De um público
Ludibriado por meia dúzia de palavras
Que ficaram esquecidas
E que o vento não soprou.

Então, acho que ficarei calada...
Unirei os meus dedos
E numa irmandade de sangue
Vou costurar os seus corpos
De costas voltadas
Para que não mais tentem segredar.
Talvez o meu silêncio
Possa gritar mais alto
Que todos os gritos
Que nas paredes deixei por engano.

Mete-me raiva este silêncio...
Tão cheio de tranquilidade
E de certezas falsificadas
Em papéis envelhecidos
Com a tinta demasiado desbotada
Para conseguir ler o que neles ainda dizes.
Prefiro não ver a rapidez da tua boca
Fingindo que vejo
O tempo a passar lentamente
Sem saltos bruscos
Nem espaços vazios
Que se prendam ao infinito no meu olhar.
Mas sei que hoje o tempo sobra...
Sobra-me tempo...
Tempo..
para sentir que todas as palavras de orvalho
têm demasiado tempo para murchar
abandonadas numa madrugada de pele e osso.


Daniela Pereira-06/10/06

segunda-feira, outubro 02, 2006

O início de um fim sem tempo para desvios





Espera...pára de respirar por alguns minutos!
Deixa-me respirar por ti
este ar anestesiante que nos cerca
até sentir que o meu corpo
já não reage ao arfar da tua boca.

Olha bem... penetra com os teus olhos na minha pele
Como se o teu olhar
fosse uma lâmina afiada
e não te desvies do relevo do meu desenho
mesmo que encontres montanhas generosas
palpitando no caminho das tuas mãos.
Sabes bem que em breve
elas poderão ser somente vales
por isso não te distraias com tempos mortos
porque aqui deitado junto a mim
cada segundo conta.


Não peças mais...
Não quero mais sentir que os teus braços são pedintes
por isso sem mais palavras
possui o que é teu por direito.
Não esperes mais que os meus lábios
se precipitem perigosamente nos teus
com voos lascivos de desejo
e ganha coragem neste fértil instante
para mergulhares neles
porque este mar vermelho para ti será pura seda.
Substitui as tuas palavras vãs...

Sim...ouviste bem..
Eu disse as tuas palavras vãs!

Por isso
Substitui essas palavras
pelos meus gritos cheios...
As pedras negras que nos separam
por lençóis mais brancos...
O aroma da chuva nos teus dedos
pelo perfume dos meus cabelos.
Tudo o que tu quiseres ter
desde que sintas que eu quero dar.
Só me importa que troques o vazio que hoje sinto
por uma noite de prazer
mesmo sabendo que ela se escreve
com linhas muito incertas
e que o mais certo
é que amanhã na minha cama sejas uma miragem.

Depois arranca-me um beijo bem molhado...
Mas espera, deixa-me respirar primeiro.


Daniela Pereira-01/10/06

sexta-feira, setembro 22, 2006

Curiosamente obsessiva por afectos







Estás à espera de um afecto?

De um abraço caloroso …

Ou de sentir o toque daquelas mãos nos teus cabelos?

Então sonha acordada

porque todos os teus dias são sonhos despedaçados.



Tens a manhã encravada no teu olhar

e o orvalho ainda goteja nos teus olhos

gotas salgadas

que tu queres compulsivamente mais doces

porque os teus lábios

são por mel eternamente viciados.

Então, ouves melodias repetidamente

para preencher o vazio dessa voz adocicada

que não fica o tempo suficiente

para ecoar nos teus ouvidos.

Não suportas mesmo o silêncio

que a sua ausência deixa em teu redor

e a velha música será sempre o teu escape

minha curiosa obsessiva!



Queres a tua janela pintada de azul…

De um azul que faça inveja a um céu de Verão

mas plantas tulipas brancas na tua varanda

só para as veres crescer sem pecado todas as noites.

Julgas que molhando os dedos nas ondas do teu pensamento

podes salpicá-las de mar

mas ainda saberás

qual o perfume desse azul

que no teu peito encerraste apaixonada?



Deixa-me desconfiar das tuas boas intenções…

És generosa demais no carinho que destilas por amor

para eu acreditar

que por ele nunca pecaste…

que dele nada desejas em troca…

quando te vejo assim

debruçada nessa varanda

despida de flores azuis.

Não

estarás tu à espera de um afecto?


Daniela Pereira-22/09/06














 

sábado, setembro 16, 2006

À luz de duas velas quase apagadas...




Não preciso de olhar
quando quero sentir
porque a dor sente-se no peito
e os meus olhos só sabem chorar por ela.

E se os beijos...
Os doces beijos
são sempre dados de olhos fechados
quando a boca dou a outra boca...
quando os sentidos despertam cegos
nesta cama de veludo vermelho
que nos meus lábios faço.
Então...
Para quê olhar?

Porque teimo ainda em sentir de olhos abertos?

Talvez se fechasse este olhar
numa redoma de vidro
e aprisionasse o pensamento
num nó bem dado na cabeça
saberia de cor que a escuridão
será sempre o cenário perfeito para amar
e deixaria de procurar a verdade
à luz de duas velas quase apagadas.

Daniela Pereira-16/09/06

terça-feira, agosto 29, 2006

Sou filha das palavras que sentem...






Sou filha da noite

e no seu regaço

embalo todas as palavras

que comigo se deitam por prazer.



Não acordo as estrelas

com os meus gritos mudos

nem perturbo o sono da lua

com o meu pranto morno

quando me deito.



Na noite...

sou silêncio na voz

e as palavras que escrevo

com a boca orgulhosamente fechada

respiram pelos meus dedos

enquanto não amanhece no meu rosto.

Mas quando acordo para o mundo

abandonando todos os sonhos na escuridão

sei que estas palavras

que fielmente calo na garganta

gritarão para sempre deitadas no meu leito

por um amor

que a poesia numa noite

quis ver nascer solitário e vagabundo.


Daniela Pereira-29/08/06


 

sábado, agosto 26, 2006

Sorriso chulo




Hoje és musa
da escuridão
e de olhos pintados
invades a noite
com a boca vestida de cetim
beijando passos de seda
no teu caminho de lata.

Sei que amas essa
imagem misteriosa
que o preto dá à tua pele
e por isso
esta noite dele abusas
sem nunca te esqueceres
de salpicar
um qualquer brilho prateado
no teu generoso decote.

Achaste bela assim
quando te olhas ao espelho
maquilhada como uma boneca
e vais demarcando as tuas curvas
com tecidos transparentes
só para aguçar
algum apetite voraz
que te saiba devorar.

Então irrompes
pela noite dentro
e ficas salivando discretamente
por entre risos e copos
a intervalar a língua com os lábios
à procura do encaixe perfeito
enquanto te arrastam
para dançar.


Esta noite
sei que o teu olhar
alugou estrelas ao céu
e que em alguma rua desta cidade
houve alguém que te viu
a querer comprar o mundo
com um sorriso chulo...
E aí o tens
deitado aos teus pés
e como um reles prostituto
a ti se vende.

Daniela Pereira-26/08/06

terça-feira, agosto 22, 2006

Chuva de Verão




Caminho numa praia deserta
e sozinha sinto 
que os meus olhos choram
palavras magoadas
porque
todos os dias
espero pelo eco da tua voz
mas quando a noite chega
só os passos
do teu silêncio escuto.