quinta-feira, março 25, 2010

O peixe riscadinho e o gato sem riscas...





Era uma vez um peixe riscadinho e um gato preto sem nenhuma risca no pêlo...
O peixe riscadinho vivia num lago e passava os dias a nadar feliz no seu cantinho de águas limpas.Algumas vezes ele gostava de mergulhar bem fundo e ir ter com as pedras ou com as algas que encontrava sempre agarrada a elas.Nas tardes com sol a água aquecia e o peixinho fechava os olhos e flutuava contra o vento.
Nessa casa mas afastado do jardim vivia também um gato..um gato preto de gestos ágeis e pêlo brilhante.O gato sem riscas gostava de ficar até bem tarde na cama..era muito friorento e preferia o quentinho dos cobertores da dona ao ar frio das manhãs.Por vezes também gostava de ficar à janela, a olhar para os amigos vizinhos que o cumprimentavam de longe.
Um dia o peixe riscadinho estava a gozar uma tarde de sol no seu lago,livre de pensamentos quando ergueu os olhos para o céu e viu uma grande mancha negra e uns grandes olhos verdes a olhar fixamente para ele.Assustado deu um enorme pulo e o gato preto num reflexo inesperado esticou a pata na sua direcção mas não agarrou o peixinho. O pobre do peixe ficou com o coração aos saltos depois daquele grande susto e o gato ao vê-lo em tamanha aflição apressou um pedido de desculpas...
- Mil perdões companheira,foi mais forte do que eu..é que ao olhar para si imaginei-a com ares de uma apetitosa sardinha.Mas deixe-me que lhe diga,que a senhora para sardinha é um pouco estranha com essas riscas pretas nas costas.
O peixe foi lentamente recuperando o fôlego e logo deu resposta ao gato preto atrevido...
-Pois fique sabendo que não sou sardinha nenhuma,mas sim um peixe de linhagem asiática e de paladar refinado,digo-lhe eu!Disse o peixe riscadinho ofendido pelo desconhecimento da sua classe...
-Mais uma vez desculpa,mas não digas que tens paladar refinado,porque aviso-te que ainda não meti nada nesta barriguinha hoje e as tuas palavras estão a aumentar-me a fome...disse o gato preto salivando sem se aperceber.
-Bem,senhor gato é melhor mudarmos de assunto realmente...achou melhor dizer o peixinho,já a imaginar-se na boca daquele grande gato preto esfomeado e o gato assim fez.
-Não tinha reparado que moravas aqui neste lago e passo tanto tempo neste jardim...
-É natural,quando a água está mais fria eu prefiro ficar escondido debaixo das pedras onde está mais quentinho,por isso nunca deves ter reparado em mim durante os dias de Inverno..explicou o peixe ao gato curioso.O gato piscou um olho porque um raio de sol tinha entrado demasiado fundo e lhe ofuscado a visão...
-Mas olha que eu no Inverno,também não ando muito cá pelo jardim...primeiro porque está frio..segundo porque odeio molhar as patas quando chove e terceiro não há muito para se ver em dias de tempestade para além de um vento irritante a zumbir-me nas orelhinhas.
O peixe explicou-lhe que também não era adepto dos dias frios e que era normal hibernar no fundo do lago até a água aquecer...
O gato achou estranho e imaginou-se no fundo do lago de patas para o ar sem mexer um músculo...mas quando pensava nisso mais se lembrava que assim iria parecer que estava morto.
-Ai,que estranho essa coisa do hibernar...mas tu não tens fome,nem ficas com dores no corpo por estares tanto tempo parado no fundo da água?E os teus donos nunca pensaram que estavas morto ao ver-te assim?Aquela história do fingir de morto durante o Inverno ultrapassava a sensatez do gato preto,que não consegui ver vantagem nenhuma em poder ser confundido com um animal moribundo e ser atirado para uma cova cheia de terra ou então no caso do peixinho ser descartado para o esgoto ou para a boca do cão da casa o que seria um cenário ainda pior para imaginar.


Daniela Pereira
Direitos de autor reservados

quarta-feira, março 24, 2010

Seda...




A seda de todos os sonhos não se tece em vasos partidos...

Foto @ Daniela Pereira

http://olhares.aeiou.pt/seda_foto3562065.html

domingo, março 21, 2010

Ao acaso...




Quero gritar bem alto...
Projectar as palavras
para longe da garganta.
Libertá-la deste nó
que a sufoca
sempre que abro a boca.

Escrever frases sem nexo
sem conexão com os sentidos.
Cortar ligações entre palavras
e os sentimentos enlouquecidos .
Amachucar as letras
como se elas fossem apenas desperdícios.
Juntá-las por brincadeira
e como uma criança
construir palavras sem pensar.

Respirar lentamente
este ar doce que me envolve
enquanto a noite acaricia
a minha pele com mãos de veludo.
Olhar em frente
mas com o coração debruçado
nas curvas do silêncio
que ecoa no quarto.

Respirar profundamente
e asfixiar-me de desejos.
Rasgar os lençóis da cama
com os dentes trilhados na seda.
Quero rir bem alto...

Pregar os sorrisos à parede
como se fossem quadros.
Ensurdecer o silêncio
com gargalhadas sonoras.
Mergulhar numa banheira
encharcada de perfume
e fazer inveja às rosas.

Quero sonhar que ainda estou viva
enquanto caminho nas nuvens
e deixar morrer suavemente nos meus braços
todos os desejos sonhados contigo ao acaso.

Daniela Pereira in "Cortar as Palavras num só Golpe,Corpos Editora 2005"
Direitos de Autor Reservados

sábado, março 13, 2010

Façam festas às paredes como se elas fossem de veludo...





Soltem-se os braços porque as minhas mãos já não são roseiras com espinhos e os abraços são para se dar até ao último fôlego da tristeza que se quer raio de sol...
Corações ao alto...porque um coração de rastos não sabe bater ao som do compasso...
Almas ao vento....porque uma alma amarrada não tem vida de borboleta e é um sopro sem voz...
Beijem as nuvens que passam..porque ontem eram trovoada e hoje já só sabem ser nuvens cinzentas ,ai como é bom saber que nenhuma chuvada ficou por cair nos teus ombros molhados!
Ai como é bom sentir que acidez que sentias no teu peito já não vence a doçura que sempre pingas na tua boca quando sorris para o vazio sentindo-o cheio de espuma branca...
Corações ao alto...porque os corações não são pedras para amontoar num só chão à espera que os pisem de novo..
Almas ao vento..porque o poeta já não tem cordas na língua nem cravos pregados nas prosas...
Façam festas às paredes como se elas fossem o pedaço mais suave que as vossas mãos podem sentir...
Depois carimbem estrelas em cada passo que passe por vós para retribuir até os momentos de escuridão com luas maiores...
Ai como é bom sentir que ainda temos um coração capaz de apaziguar todos os nossos monstros de cartão...


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados

terça-feira, março 09, 2010

Para as Mulheres da minha vida....


8 de Março de 2010-Dia Internacional da Mulher




Para as Mulheres da minha vida deixo um sorriso colorido e o abraço mais apertado que nos braços posso conter....
Para as Mulheres da minha vida..que são mães,doces e protectoras...
Que são fadas sem asas mas sempre me aconchegam os sonhos se na noite passada tive pesadelos...
Que me escutam,mesmo quando digo disparates ou encho os olhos com lágrimas salgadas e perco a força que em mim procuram ver..
Que são amigas...ternas,fieis até quando não consigo ser perfeita e lambem as minhas imperfeições até sentirem que já não há ferida...
Para as Mulheres da minha vida roubo pedaços ao céu..sopro nuvens negras...pinto o sol em tons de mel...perco o calor do meu peito se no coração de alguma entristeço...
Pelas Mulheres da minha vida perco a voz..solto o grito..atravesso o escuro porque no fundo do corredor elas trazem-me sempre uma nova luz à minha escuridão...

Às Mulheres da minha vida..Obrigado por serem tão Mulheres....
Um beijo nos gestos*

Daniela Pereira

quinta-feira, março 04, 2010

O Inferno fica sempre à escuta...






Se todos os seres tivessem alma em vez de dois neurónios certeiros...
não existiriam rios manchados de impurezas nem vagabundos perdidos na rua à espera que a chuva fosse feita de gordos tostões para puderem encher os bolsos vazios..

Se as mãos do Homem fossem mãos de pescadores a fome do mundo morreria no fundo da barriga de um peixe e o pão dos pobres teria fermento...
De magras carcaças o Céu
já está tão cheio!
Mas a Natureza parece que nos quer engolir num leito de terra e pastas de lama
e o Céu hoje é pasto de anjos...

E o Homem grita que tem fome de calmaria e pede uma chuva branda e mares adormecidos... mas o Inferno fica sempre à escuta com as mãos a tremer de frio.


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados

Foto by @Daniela Pereira

segunda-feira, março 01, 2010

Ainda fico de braços abertos...

Goldfrapp-It's Not Over Yet(Grace & Klaxons Cover)






Ainda não terminei as lágrimas e os laços desapertados
que me deixam solta nos vazios temporários...
Não posso entristecer..porque estar triste é perder forças..
Porque estar cansada...
ser flor cortada ao meio é dispensável num mundo que se quer inteiro.
Ainda não terminei as lágrimas e os cansaços...
Ontem vi um sorriso à espreita e pedi-lhe um abraço parada junto à porta..
mas ele não me viu ..
acho que se esqueceu que eu costumo estar ali de braços abertos...

Daniela Pereira
D.R

sábado, fevereiro 27, 2010

Insólitos Descartáveis I

Insólitos Descartáveis- Excerto do texto "Somos cães que as larvas desprezam"






Não quero ser arrogante nas palavras que exalo, mas a arrogância aqui faz todo o sentido. Estou a olhar o mundo que está lá fora e sinto nojo por senti-lo assim....bruto e grotesco. As pessoas parecem uma matilha de cães esfomeados lutando pelo melhor pedaço que a vida lhes atira ao chão.. e como cães que são mostram-se bichos rudes e insensíveis não hesitando em morder os fracos e derrotados até ficarem com os dentes bem cravados na carne... porque neste mundo só os vencedores merecem comer. Vale tudo para se ser feliz neste planeta de mesquinhez e cobardia! Queres ser feliz ? Então, não penses mais porque a maneira mais fácil de lá chegares é devorares a felicidade dos outros...engole-a só para ti...tira-lhe o ar e depois deixa-a seca e vazia num canto qualquer da tua rua. De preferência, num canto escuro, só para que ninguém veja o teu trabalho sujo a brilhar na sujeira que amontoas na tua alma. Não podes ser descuidado e deixar á mostra de todos, as lágrimas daqueles que espezinhaste porque ainda rompes a tua máscara e toda a gente vai saber que és um monstro horrendo. Montaste ao meu coração um cenário lindo de morrer! Só podia porque no fim ele será o meu cemitério ...e a morte de um sentimento tem que ser celebrada com euforia e cor. Fico a rir dos teus rios límpidos e cristalinos, onde a água é na tua dimensão imaginária um objecto de pureza extrema. Achas que não consigo ver que ela está conspurcada de restos maltratados? Louco e inocente...é isso que és! Tenho olhos de breu, mas ainda consigo ver para lá da mentira porque a verdade nunca me enganou e sabe bem guiar os meus passos. Iludiste-me... enfeitiçaste-me com palavras doces e lenga-lengas, mas o meu peito sempre desconfiou dessa doçura reforçada. Batia mais forte...é certo que batia! Mas em todas as corridas que fazemos o coração acelera mesmo que tu vás direito a um precipício ...ele não pára. Não escolhe porque bate...apenas sente debaixo de um emaranhado de músculos entalados na carne e abraçados por sangue que tão depressa ferve como congela a uma velocidade estonteante.
O mundo gosta de pregar sermões aos peixes... de cuspir amabilidades e falsas certezas pela simplicidade do acto. Ser sincero é muito mais trabalhoso! Custa sofrer quando se diz uma verdade e ela é sentida até à raiz dos teus cabelos....imagina-a como uma dor dentes...

Daniela Pereira in Afectos Obsessivos (Excerto do texto “Somos cães que as larvas desprezam”),Edições Ecopy 2007

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Aproximações


Todas as recordações guardam perfumes e gotas de sal em frascos de vidro fosco..Todos os teus passos têm cheiro a passado..gosto a presente e gestos para memória futura...O resto..o que não nos marca...o vento sopra como folhas castanhas que o Outono desprezou




E quando dançamos...dançam aos nossos pés todas as estrelas caídas na maré dos nossos sonhos...E todos os jardins ganham cor nos amontoados de terra que ninguém quis florir...Já tens margaridas brancas penduradas nos cabelos e nos teus lábios rosas de carmim ganham mais carne...Mas quando dançamos a tua alma é fresca brisa que me arrefece até aos ossos..


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados


segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Afago ...


E
nos teus olhos vi o sol poisar aos pés da lua todos os teus segredos...
as tuas viagens nocturnas pelos telhados e as marcas das tuas passagens
gentis.. Afago-te...já não pareces cansada mas apesar de tudo...ainda
descansas


Daniela Pereira

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Quando uma chama respira na tua boca..morre uma cinza nos teus cabelos..


Vamos celebrar as palavras como quem festeja os anos que passam..
Os anos que correm nas tuas veias,apenas se virares o mundo de pernas para o ar...
Se não, o chão pára a ver-te silenciar o coração
como se tu fosses uma rosa sem espinhos
que o vento não perdoa...

Vamos dizer que estás vivo..
Que a água que te molha os pés e te faz espirrar
já foi um rio num dia que passou
na folha escrita do teu calendário...
Sei de fonte segura que te rasgaram algumas vezes...mas tu não te fizeste página rasgada e rasuraste as tuas feridas mais profundas lambendo o mel que te colou..
E morreram os teus amargos de boca
esmagados pelo peso daqueles dedos que gritavam...
LIBERDADE

E se as palavras te disserem...
Sentes medo ?

Tu vestes um sorriso..
como quem veste a pele de um filho acabado de nascer
e com todas as tuas forças
proteges a tua boca de todos os frios de Inverno
que já viste em ti mil vezes renascer...
Depois ficas sossegada no teu mundo
a desenhar luas no tecto
e a tatuar estrelas nos tornozelos
à espera que peixes dourados
vejam em ti uma onda de água doce
reflectida num espelho...
Não te partes...
Queres-te inteira
a saborear os mergulhos
e já não és mais um resto de ser...
És borboleta que desponta ao pôr-do-sol..
És orvalho com folhas por beijar...
És castiçal de luz e a escuridão já não te vela...

"Se as tuas palavras estão vivas
e o teu coração bate tão depressa no respirar de cada uma delas..
então menina dos olhos de terra
tu só podes ser alegremente
um belo poema imortal..."


Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Aqueles gestos nas horas vazias...


Perfumes ácidos nas tuas pétalas mais doces...
Chuvas corroídas nas veias...
Eternamente ...uma desfolhada de ternura na eira do meu peito...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados...Foto e texto da autoria de Daniela Pereira



domingo, janeiro 10, 2010

Meio sonho acordado...



Foto por Daniela Pereira
Direitos Reservados



Jamais me fiz ao Mundo
sem caminhar com os olhos
olhando de frente a maré...
Já rasguei ondas e vendavais
com os dedos cortando chapa...
Existem telhados que são de vidro
e o meu coração há-de ser sempre
uma fina vidraça e nada mais..

Se fechar os olhos vou dormir
e o resto do mundo
há-de permanecer acordado
dando vivas à sua existência experimental...

Porque não vamos ser fadas ou cardeais por um dia...
só para desventrar a melancolia?
Apetece-me ter asas nas costas e escamas na pele
para não me afogar nos meus voos ..

Deixa-me ser mais um grão de poeira
amansado pelo cansaço
para eu dormir tranquila este chão de areia...


Jamais me fiz ao Mundo
sem lhe perguntar
porque não há respostas
para a tristeza de um olhar e para o singelo grito de mudança...

Se fechar os olhos vou dormir e tu coração de maçã vais dormir comigo com os cabelos cheirando ao pomar da manhã...

Daniela Pereira in "Meio sonho acordado"
Direitos de autor reservados

quinta-feira, janeiro 07, 2010

A estrelinha dos desejos e a nuvem das desilusões





Era uma vez uma estrelinha que brilhava mais do que todas as outras estrelinhas penduradas lá no céu...
Esta estrela tinha um brilho invulgar porque alimentava-se dos desejos que todas as pessoas do mundo lá de baixo iam atirando ao vento que passava..
Mas também havia uma nuvem lá no céu...cinzenta e mal encarada. Era a nuvem das desilusões que chorava sempre que alguém não conseguia realizar um sonho,porque sentia um coração mais apertado. Quando isso acontecia, a pobre nuvem cinzenta espremia o coração e todo ele se desfazia em grossas gotas de chuva salgada.
A estrelinha dos desejos não gostava muito da sua vizinha,porque era triste e sempre que a via tão chorosa lembrava-se que algum desejo não se realizava.A estrelinha era muito esforçada,passava os dias a viajar de país em país a escutar os desejos que as pessoas deixavam sussurrados na cabeceira.Depois fazia uma lista com todos os desejos gravados em tinta azul que as borboletas traziam às escondidas de algumas flores mais distraídas e pronto ..depois era só deixar todas as noites uma luzinha nos corações das pessoas para iluminar a vontade de realizarem os seus desejos mais queridos que a estrelinha sempre os ajudava.
Então se a estrelinha nunca deixava sozinhos os desejos das pessoas porque seria que alguns ficavam perdidos e por realizar? A nuvem das desilusões era a única que sabia o quanto custava perder um desejo..
As pessoas por vezes desejavam com tanta força um sonho que ele ficava sufocado antes mesmo de vir ao mundo. Mas se todos os desejos fossem realizados pela estrelinha dos desejos quem daria valor aos desejos realizados?Realizar um sonho já não teria o mesmo sabor.Por isso a nuvem das desilusões lá está, escondida no céu para lembrar às pessoas que tudo o que se deseja pode ser desilusão se não for trabalhado com muito amor e carinho.


Daniela Pereira in "Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos de autor reservados

terça-feira, dezembro 22, 2009

L'Hiver...


Je suis la pièce principale de mon coeur

terça-feira, novembro 24, 2009

Livro Afectos Obsessivos -Promoção de Natal


Encomenda do Livro Afectos Obsessivos com dedicatória da autora-Promoção de Natal:

O livro tem como preço de venda 12,50 euros e a entrega pode ser realizada por Correio Verde caso opte por pagamento através de transferência bancária:
Neste momento estou a promover esta entrega por Correio Verde sem qualquer acréscimo de portes de envio
No caso de optar por envio à cobrança, realizo o registo da encomenda nos Correios e o envio é acrescido de portes:2,50 euros

Se pretender mais alguma informação basta contactar-me nesta página que terei todo o gosto em fornecer-lhe a informação solicitada.


Cumprimentos

Daniela Pereira

segunda-feira, novembro 16, 2009

A menina do coração de romã e os pássaros tristes...




Era uma vez uma menina que não tinha um coração igual aos corações de todos os meninos que corriam pelas ruas chocando contra os carros logo pela manhã.Esta menina tinha um coração mais doce...Não tinha um coração recheado de guloseimas mas tinha um travo doce...Tinha um coração de romã,vermelhinho e suculento.
Todas as manhãs a menina coração de romã vestia-se de papoila do campo e ia para a janela esticar o olhar para ver o fim do horizonte.Sonhava com barcos-livro que a levassem a ver o mundo numa folha de papel..Quando queria descansar o olhar e os sonhos,ela focava os pássaros que dançavam pertinho do seu olhar.Eram pássaros com a alma triste que voavam em círculos na esperança de encontrar uma nova semente que lhes devolve-se um pedacinho da alegria perdido.
A menina coração de romã tinha um coração tão grande e doce que nunca deixava um pássaro a morrer com fome de ternura.Ela abria a boca devagarinho e deixava os pássaros dentro dela entrar.Então os pássaros desciam com cuidado pela garganta da menina romã fazendo cócegas ao passar para a menina romã nunca deixar de sorrir e enchiam-lhe o peito com suaves melodias.Depois a menina romã abria o coração e os pássaros com a alma triste iam roubando algumas sementes até já não sentirem mais fome.Quando se sentiam com forças para de novo voar agradeciam à menina coração de romã por lhes ter matado a fome e levavam-na consigo a ver o mar...No fim do dia deixavam a menina coração de romã deitada no seu campo de papoilas com o coração ainda mais cheio e partiam felizes porque se sentiam ainda mais doces...

Daniela Pereira in " Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos Reservados

sábado, novembro 07, 2009

O monstro dos olhos cor de terra...





O monstro dos olhos de terra gostava de pavões e de fazer piqueniques com os camaleões que mudavam de pele para fugir dos mauzões...
O monstro dos olhos de terra não tinha pés para andar nem asas para voar mas viajava longe com o pensamento e nunca ficava preso a um só momento porque sabia galopar corajoso nas marés...
O monstro dos olhos de terra não era mau mas também ninguém lhe dizia que ele era bom ..ninguém lhe dizia "gosto de ti" e o monstro gostava de tanta gente que às vezes até lhes esquecia do nome e apontava todos num caderninho que nunca chegava ao fim...
O monstro dos olhos de terra metia medo porque tinha sempre os olhos inchados e nunca sorria..tinha a boca apontada em direcção ao chão e dos seus olhos caíam lágrimas mais pesadas que os rochedos que ele contemplava na praia.Por isso todos fugiam dele com medo que as suas lágrimas os pudessem esmagar.Mas o que ninguém sabia é que as lágrimas do monstro com olhos de terra só pesavam na alma dele...ao chegar ao chão eram leves e quentes..só sabiam a vapor...
Como ele gostava de ter um coração camaleão que esconde-se a sua dor plantada nos seus olhos de terra....Talvez mais ninguém tivesse medo do seu triste abraço se ele pudesse fingir que o seu coração também sabia sorrir..Então não teria mais uma sombra para carregar nas suas largas costas e seria mais uma montanha feliz por semear...

Daniela Pereira in Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio
Direitos Reservados

quarta-feira, outubro 28, 2009

Miragens de um sofredor...






Há um mar sem sal que me cheira a rio...
2 pedras no caminho que não consigo arrancar com os dentes...
e uma gaivota que não voa...só paira a meu lado
e ainda ontem me falava de sonhos e de marés...

Olhares sem fim e pontos de exclamação admirados por mim
que me rompem às dezenas os segredos guardados na mente
e as pétalas que vesti aos malmequeres sem orgulhos..
ficaram rosados e cheiravam a rosas sem espinhos...

Há trigos nas searas brancas de papel
e nos dedos há peixes frescos para os pescadores
que têm como isca um punhado de sonhos...
Vi um peixe anão na caravela do palhaço triste
que gritava "Não gosto de solidão!"
para as ondas do mar
que aplaudiam a sua coragem
afogando-lhe a garganta...

Vi um dente de leão que não era feroz
a baloiçar nas ventanias
como se não houvesse amanhã..
Se eu lhe cortar o pescoço será que ainda dança?

Há um mar sem sal e as minhas gotas despejadas num rio...
Esta noite tenho um segredo para contar
aos desertos deste mundo...
A água salgada não é para beber...
é para matar a fome às ilusões
que plantamos na areia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, outubro 15, 2009

Se todos os desejos se fizessem num só dia...


Foto de Daniela Pereira-

http://olhares.aeiou.pt/toda_a_cor_no_teu_ceu_foto2543572.html
Um dia coloco todos os meus sonhos numa mochila bem apertadinhos e levo o meu corpo a viajar por mil paragens...
Um dia faço das minhas pernas uma trepadeira e deixo-me ficar ao sol a florir...
Um dia corto uma folha de papel e construo um barco que me leve prontamente às margens dos meus desejos...
Um dia deixo de me ouvir e coloco brincos nas orelhas para chacoalhar todos os meus ecos...
Um dia volto a subir a uma árvore para imitar os frutos que nos ramos amadurecem...
Um dia acendo uma fogueira com uma chama que jamais me queime a relva fresca mas que me aqueça dos orvalhos...
Um dia ergo uma bandeira em todas as muralhas que deixei para trás dos meus braços porque não as consegui abraçar com a mesma força com que abracei a primeira pedra...

Um dia..um dia...

Um dia invento uma palavra que o mundo não conheça nem saiba definir e ficarei a rir ao vê-la crescer incompreendida ...
Um dia farei uma casa sem portas para todas as almas terem um lar aberto e não um abrigo em mim...
Um dia vou ver um espelho a olhar para mim sem vontade de me estilhaçar por azar...
Um dia peco nos sentidos com uma paixão tão gulosa que até o ar respirado será doce...
Um dia marco uma meta no chão e vou correr até vencer os cavalos que galopam o infinito...
Um dia escrevo uma canção sem voz e vou ouvi-la na sua bela mudez ao pé de um lago imaginando que todos as pedras me estão a aplaudir de pé....
Um dia recorto veludos vermelhos e faço um coração sem remendos costurado com pontos cheios...
Um dia faço um poema sem pensar que terá um fim...*

Daniela Pereira in Se todos os desejos se fizessem num só dia
Direitos Reservados