terça-feira, maio 26, 2009

pequeno...ALMOÇO





Doi-me o céu do meu corpo e alimentá-lo a estrelas cadentes já me enjoa...
Doi-me o jardim da minha alma e plantá-lo com nespereiras já não me mata a fome...
Sinto os sonhos a vomitarem por mim mesmo de estômago vazio..este chá arranha-me a garganta mas não sais para fora nem com um impulso vesicular...chove-me o coração por dentro em gotas de chumbo grosso.
Um analgésico para as dores, porque o corpo precisa!
Um analgésico para a alma porque desconfias da inteligência que te bate à porta e te diz..."cuida de ti" e loucos são os outros de quem sempre quiseste cuidar e hoje te chamam assim sem pensar em ti....
Doi-me a palavra que não disse com bolachas e chocolates a entupirem-me a boca...
Doi-me a palavra que disse com chá de limão na língua...
Doi-me a frase que deixei sair polvilhada a sal...
Soro açucarado para as veias porque o teu corpo desidratou...
Não há um soro açucarado para espetar em cheio no coração quando o dia amarga?....

Daniela Pereira in "Resíduos vesiculares"
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foto na galeria olhares: http://olhares.aeiou.pt/pequenoalmoco_foto2796643.html

segunda-feira, maio 25, 2009

Pintas com morangos...

Foste semeada à beira mar... para que as ondas alimentassem o teu corpo e os búzios gravassem os teus gritos de semente a germinar...
Mas foi o mar que comeu o teu corpo só porque sabias a sal e todos os peixes se sentiam em casa arpoados na tua boca...
Valeu a pena nasceres de pé nu na areia e com a cabeça voltada para a lua?
És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...só no chão reconheces que ainda não estás madura e choras a pele que te foi arrancada com todos os segredos que deixaste fugir por entre os dedos molhados...A lua elogiou as tuas fantasias e no luar escreveu-te a alma num só poema mas rasgou-te o coração num mil folhas a desgosto...
Valeu a pena nasceres despida de silêncios e de beijos sem sumo?
Laranja ou limão?
Pau ou pedra?
Cresci com raízes enterradas numa folha de papel perfumada amando loucamente cada rasgo que trago dentro de mim...







Valeu a pena as lágrimas e a perdição...
Valeu a pena fazer um filme com o Eduardo mãos de tesoura a recortar o céu só para mim ...
Valeu a pena viajar por mares desconhecidos com um Pirata das Caraíbas que respirava mistérios pela boca...
Valeu a pena ser a Bela Adormecida à espera "daquele" lobo encantador ao acordar...
Hoje sou a bruxa má de todos os filmes...que bela ironia

És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...
Laranja ou limão na tinta com que escreves a tua história?
Deixa lá...
Pintas com morangos e velas acesas...



Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, maio 17, 2009

Asa e meia..borboleta...





Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Levas o arco-íris mais que perfeito na tua pele de seda e o sol até cora ao ver-te passar...
Sobrevoas a lixeira dos outros e lanças perfume em todos os restos esquecidos...
A noite adora ver-te sonhar livremente e louca quando danças ao som do luar rasgando palavras de fogo no horizonte...Que louca és borboleta quando atiras o teu coração pela boca e ficas a vê-lo suplicar o teu amor...
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Amas os lírios com a mesma intensidade que amas qualquer folha caída que vês no chão...
Amas o mar que te amedronta e mesmo assim não deixas de o amar...Que destemida és borboleta que voas com espumas passadas enroladas no teu corpo...
Que orgulho sinto de ti borboleta porque és diferente das borboletas que vejo partir rancorosas...tu apenas chegas fiel e doce e ficas eternamente fundida nas pétalas de um qualquer jardim de flores de aço...
Tens mel no coração e não tens vergonha de dizer que te falta o fôlego para o próximo voo porque tens medo de voltar a cair amarga..
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia e de uma alma remendada para voltar a sonhar...
Se te esmagarem o corpo sabes que a tua alma voará por ti...
Asa e meia borboleta..asa e meia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, maio 13, 2009

no words

Triste...definição de tristeza não possuo e mesmo assim sinto-a em mim....
A ausência de sentimentos é uma mentira que nunca devia ser pronunciada por nenhuma alma..definição de vazio..acreditar que não sentimos nada dentro de nós...definição de mentira...acabei de a dar,porque até vazia de um alguém esse alguém nunca deixa de existir no meu sentir...verdade

segunda-feira, maio 04, 2009

Heart sound





É música para os meus ouvidos tanto silêncio...
Em todas as notas que ficaram por tocar..ficou um grito por nascer..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
E nos telhados já corri louca e vagabunda..felina madrugada que te fez partir..
E já contei tantas histórias e inventei tantos finais sem me lembrar sequer de onde atracavam os inícios que me ficaram a deriva da mente...
E abanei a cabeça para dizer Não e a música tocava lá bem ao fundo e os dedos diziam Sim e a boca reconhecia o apelo de um "Já"..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
Posso ouvir rosas a respirar no jardim e todos os tons do vento...posso engolir pássaros sem os mastigar e ficar a vê-los a voarem no estômago..
Sou tão feliz assim!
É musica o que ouço..está parado o coração?
Que me importa...amanhã bate outra vez noutro compasso...

Daniela Pereira in O coração é uma bomba prestes a rebentar....

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sábado, abril 25, 2009

Ode ao carrasco do amor...




Já respirei!...

Ia jurar que já tinha respirado
mas o sangue ainda ferve
e nas veias corre
sem previsões para abrandar...

É pele que cravas nas unhas ou são máscaras que te caem da carne
agora que despis-te a tranquilidade que te vestia o rosto?

Tens os olhos inchados e o nariz está torto
por tantas verdades em ti suportadas...

Vi-te ontem...trajado de bom menino
chorando aos pés de alguém...
Ajoelhei-me e rezei..
pedi ao infinito para te roubar a leveza da voz...
para que o tempo fosse implacável
a sufocar-te em lembranças..
Por cobardia confesso
que menti em todas as preces
e que ontem pela primeira vez
não pensei em ti...
Não te deixes enganar pelas palavras...
estás calado aqui dentro!

Respira!
Já respirei..
jurou um pulmão
esfomeado por um pouco de ar..

Dou uma gargalhada
e a saliva já me cospe o sangue
do último murro que do meu peito
fez carne ferida...
Que gosto terá o ar quando é puro?

É pele que cravas nas unhas ou o teu choro é de pedra agora...
que me farejas de longe todos os ossos?

Tens a boca grande e os teus dentes trincam sobras
como se o teu estômago fosse a única sobremesa que engoles...
Lá bem no fundo ainda exibes orgulhoso
restos do último piteu
que te jazia no prato aquecido...
Enriqueces pela ponta da língua...
nunca pela ponta dos dedos...

Inspira..
Já inspirei
acena um pulmão
vagamente interessado no meu novo respirar..

Fecham-se as bocas com fome e a sede de sufocar mata-se pelo nariz..
porque das peles expiradas já nada resta...
Foi o carrasco do amor que já me levou a alma
para o cume das montanhas
onde o meu sonho fala sempre mais alto que a dor...
O corpo dorido?..
esse atirei-o ao mar cansada de tantas alianças...


Respira...

Já respirei...

Daniela Pereira in " O amor pressupõe dois lados opostos"
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segunda-feira, abril 20, 2009

Gritar de tras para a frente...


Se eu não disser nada terei no silêncio a contenção de um tudo?


Sinto um amargo na boca e a voz desce dormente para o fundo da garganta...o choro rasga-me todos os gritos e no entanto ainda guardo sozinha um sorriso dentro de mim.
Que bela lutadora eu sou! Já bati nas paredes 4000 vezes e todas as nódoas se voltaram contra mim. Chamam-me estranho ser por querer perto de mim o que me faz bem...
Irreal e sonhadora por acreditar num sentir...estranha forma de vida um dia nasceu em mim.
Pega-me ao colo anjo invertebrado ..pega-me ao colo que estes passos já não me levam a lado nenhum...
Se eu rodopiar um pouco mais devagarinho,alinhas-me a alma que ficou fora dos eixos?
Às vezes posso jurar que vejo o mundo ao contrário...que os rios estão secos e que os jardins são todos de cimento.Que as flores são cinzentas e que as crianças correm apenas porque fogem dos papões...já não trepam às árvores nem fazem desenhos com as pedras do chão...
Que em todas as nuvens existe uma chuva por cair e que em todos os sois se escondem buracos negros para engolir num dia marcado toda a minha luz..
Não existem lágrimas que durem para sempre, nem amores que sejam sentidos em vão...mas existem vazios e corações molhados em todas as ruas do amor.
Há punhais por cima de todas as cabeças prestes a cair e apunhalar-te a beleza das memórias em cada hora que sai do relógio...
Há fitas vermelhas despidas dos cabelos e beijos esmagados nas mãos...
Há um mar que nos quer afogar e uma onda que nos salva incomodada pelo gosto doce que temos na pele..somos cuspidos para fora da revolução como se os lobos pudessem ser cordeiros mansos e as formigas soubessem como trazer a paz às guerras de um gigante...
Ai se os anjos fossem mesmo desprovidos de sexo poderiam viver eternamente a sentir o amor dos humanos..porque só ele em nós é imortal. O corpo é um pedaço de carne que a dor apodrece...imoral é deixar que a alma morra...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, abril 18, 2009

A fórmula dos amantes





O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!
Não chores à minha frente
nem me cortes o pescoço...
Sabes que a dor não é minha
e o teu sangue suja-me o rosto.


O mundo é um desfile de corpos bem apurados...
então diz-me donzela
porque não tiras já a roupa
nos meus lençóis perfumados?
Já te disse...Je t'aime e ternamente amei-te em francês .
Não te faças de rogada e vem foder loucamente com este belo português!

Tens uns olhos tempestivos e os teus beijos ..até são frouxos..
que importa cinderela...só quero trincar a carne tenra das tuas coxas.
Podes também dar-me os teus seios ,nesta festa o corpo é rei.
Matas-me a fome por gosto
e explorar-te livremente faz parte da minha lei!

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!

Dar flores e namorar são provas de pouco uso,...
vamos mas é rebolar lá para as dunas do Araújo!
Amo-te tanto que o meu corpo não sabe estar parado à tua beira...
Dizem os astros sabidos que quero lamber-te a pele para a vida inteira!


O mundo é um catálogo de paixões entusiasmadas...
Hoje pinto-te nas paredes
és a mais bela das minhas musas...
Vem deitar-me ao meu lado que esta solidão já arrepia...
Sabes que amanhã já não estou cá
e aproveita porque facilmente desapareço por magia.

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!

Nesta corrida contra o tempo
O amor já não tem posto...
namorar é solitário,
vamos fazer uma orgia
porque sexo a três é que dá gosto!

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã linda menina..
tu já não prestas!

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, abril 16, 2009

Haverá sempre esperança no fim de uma utopia...




Penso que a vida é feita de encontros desnecessários e de desencontros desperdiçados em ruas com cruzamentos mal calculados...
Talvez fosse bom parar um pouco e ficar a olhar apenas para a perfeição das estrelas...


Haverá sempre um sorriso atrás do espelho desejando a eternidade das sombras...
Uma pintura nos lábios que não combina com o desenho idealizado na tela..."falta-lhe algo" pensarás tu quando vês o teu sorriso a desmaiar cansado...
Faço caretas ao espelho..talvez assim ele mude a expressão da sua tristeza para traços menos duros. Vou alugar um palhaço a um circo qualquer que encontre a actuar na estrada...Afinal ter sonhos não é proibido..e o algodão doce não engorda a alma

Daniela Pereira

terça-feira, abril 14, 2009

Conjunções despropositadas




Tenho tantas palavras entaladas cá por dentro..que o melhor é trincá-las com força quando tocarem nos meus dentes.

Prefiro migalhas a pedras duras..prefiro pão tostado a um pedaço de chão. E as palavras rimam e nada dizem umas às outras...conheço-as assim. Pesadas no toque e doces no olhar..meras palavras.Conjunções despropositadas e pronomes por vezes tão impessoais que de longe não me parecem descrever nenhum pedaço de gente...mas ao perto sou um micróbio debaixo de uma lente que o tempo não consegue ampliar. E fico assim..pequena a abraçar alguma poeira que deixei cair...

Prefiro cravos vermelhos às margaridas amarelas...prefiro um mar resmungão aos calados rios turvos. E as palavras não rimam e tudo dizem umas às outras mas esqueceram-se de aprender a ouvir aquela letra minúscula que ficou presa ao teu rodapé...E ela balança..balança e o vento não lhe pede para voar e ela casmurra vira-se de pernas para o ar só para contrariar...

E as palavras rimam e chocam umas com as outras..acho que querem dançar..mas há quem diga que querem mesmo é fugir da vergonha. De boca fechada sempre serei o vosso destemido ninho...



Daniela Pereira in "Despropósitos aceitáveis"
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sexta-feira, abril 03, 2009

O céu fica ali mesmo ao lado...




.E se todas as escadas tivessem como destino mais próximo o céu...subias mais um degrau ou ficavas parado a pisar a porcaria que brilha do teu chão?
Hoje o céu está mais azul e as nódoas do teu peito têm aroma a limão...
Há uma lua deitada no fundo de um poço..jura a pés juntos que já fez nascer no seu regaço pedaços de luar. Porque dizes que é mentirosa..se quando pedias estrelas ela dava-te imediatamente todas as que tinha na mão?
Hoje o céu está mais azul..eu sei! Pintei-o às pressas antes de adormecer com a tinta desbotada da camisa de dormir...Ontem estavam mais vivas as cores, mas chorei e o veludo enfraqueceu....tenho pena,porque o azul sempre foi a minha cor.
É injusta a chuva que cai quando o sol está farto de esperar para me ver...dá-me raiva ver aquelas nuvens mal paradas que não atam nem desatam no meio do caminho. Lembram-me a inflexibilidade da tua mente.Tenho vontade de lhes dar pontapés até as ver cair de lado...
Há um mar que descansa tranquilo nos meus olhos...são gotas ainda não caídas a aguardarem a sua vez na borda do rio...e a lua lá no fundo a jurar que é verdadeira.
Se eu descer mais um degrau na tua escada,será que o céu ainda se recorda do meu encanto?

Daniela Pereira in "O céu é mesmo ali ao lado.."
Direitos Reservados

sexta-feira, março 27, 2009

Suicídio imprevisto



Eterna sangria...

Mato o meu amor por ti e fico a olhar para o peito que ainda sangra..lentamente quero esquecer o que os olhos já viram. Talvez se eu fosse uma vez mais cega não me visses rodar os lençóis na cama à procura do teu cheiro no branco.
Tenho que matar o meu amor por ti..ouvir os teus gritos..comer e calar.Fiz um punhal aguçado das palavras que me deixaste nas insónias e é com ele que te mato. Perfuro as memórias vezes sem conta, para ter a certeza que amanhã não haverá restos do teu riso nem pegadas do teu corpo pesado em cima do meu.O anjo perdeu a humanidade e converteu-se numa fera sem perdão...Tiro-te os olhos se voltas a olhar para mim! Mas tu também já não olhas...não me viste chorar nem suplicar ao teu Deus que fosse brando com a minha dor. As lágrimas confesso que durante algum tempo tinham travo a mel...era a saudade a refrescar a loucura..ainda meiga e doce. Hoje as lágrimas não têm sabor, não me sabem a nada e apenas me molham o rosto piedosas. Sinto-te..mato já o meu sentir se me trair a voz e me libertar os dedos...não te quero sentir..dás-me arrepios na alma e ela já tem tanto frio.
Mato o meu amor por ti...e eu não sei matar..
Sei fazer florir rosas nos desertos e erguer escadas para te ver chegar mais longe nos teus sonhos...porque me cortas hoje as pétalas e me esmagas as pernas?Quero caminhar nas brisas mornas das tuas costas...
Mato o meu sonho onde a tinta rosa pingava da tua boca...estranhamente aprendeste a fórmula dos pesadelos e na escuridão me injectas sombras e monstros de fumo negro...
Era tão fácil se tivesses sido apenas um sonho ruim...assim esquecer-te seria uma morte natural e não um suicídio

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, março 24, 2009

..................................................

POSSO GRITAR AO MUNDO INTEIRO QUE JÁ NÃO TE ENTENDO E QUE ISSO FAZ-ME SOFRER?
PRECISO DE VOLTAR A ACREDITAR EM TI...

O ódio odeia-me mais do que tu...




Posso odiar o teu ódio ou estou a ser repetitiva na expressão do meu pensar?
Posso ordenar ao passado que se faça uma pintura invisível ou será que vou quere-lo para sempre pintado de muitas cores?
Hoje lembro-me dos tons rubros e das chamas mal apagadas que ficaram acorrentadas ao teu leito...é vermelha a cor. Estupidamente original recordar-te assim... como uma papoila que fugiu apressada do vento.
Podias ser rosa também....mas as rosas dão-se aos amantes e não aos inimigos sem rosto.A não ser que tu queiras que eu te encha a memória com espinhos... perfurante já é mesmo a dor,para quê fingir que ela não é imutável se ela não se cansa de mudar a pele sem se deformar? Ao menos digo-te que ela pode mudar de rosto...de hora ou de pressentimentos que eu ainda sei senti-la a regressar.
Queres que te odeie? Vais ter que esperar..ainda estou ocupada a recordar como te amei...

Daniela Pereira in O ódio odeia-me mais do que tu...
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domingo, março 22, 2009

Poesia Declamada

Carta escrita na areia molhada





Hoje queria vomitar o tempo



Carta a um mundo filho da mãe





Poesia declamada por Daniela Pereira,com poemas extraídos do livro Afectos Obsessivos

sexta-feira, março 20, 2009

O Homem que não usava a cabeça para pensar...




Era uma vez um Homem que não usava a cabeça para pensar... Sabia que a tinha, logo ali acima dos ombros mas não sabia para que é que ela servia. Achava a cabeça, um pedaço de si perfeitamente irritante e pesado. Por isso só a usava quando precisava de contrariar alguém porque sabia que abanando-a com força demonstrava o seu repúdio com um valente Não. Ou então abanava-a mais devagarinho de baixo para cima e dizia que sim as coisas que lhe apetecia ter.
Este Homem, era um Homem como todos os Homens e tinha um corpo igual a todos os corpos ...no entanto achava que era mais perfeito que todos os outros. Costumava mesmo dizer que o mundo a sua volta era desinteressante e que geralmente só olhava para ele porque podia encontrar algo que lhe pudesse servir. De resto o mundo era perfeitamente dispensável e vazio...só servia mesmo para fazer de cenário as suas fantasias.
O Homem que não usava a cabeça para pensar olhava sempre com algum desdém para as pessoas que andavam sempre com os braços abertos preparadas para abraçar. Aquilo metia-lhe uma certa confusão...dar abraços por dar...sem estar à espera de receber algo em troca? É absurdo de mais..os braços são bons é para apertar nas paixões e para agarrar com força um bom prato. O que ele gostava de um bom prato cheio de comida ..mas não uma comida qualquer. Refeições normais, daquelas refeições que alimentam e são saudáveis eram um desperdício...ele gostava era de bolos.
Sim..de bolos e quanto mais doces melhores. Se ele pudesse usava as mãos para pegar em todos os bolos do mundo e metê-los dentro da... barriga. Isso sim, era usar as mãos com inteligência.
Agora usas as mãos para firmar um perdão..para agarrar alguém que estivesse a cair sem salvação..isso seria infantil. Cada um sabe de si e quem não quer males não se mete neles...esta lição aprendeu-a ele com o tempo e só ela lhe interessava quando tinha que colocar as mãos atrás das costas fingindo nem olhar para as desgraças dos outros.
Este Homem achava que não precisava de pensar, porque já tinha nascido um génio e nada mais tinha a absorver para dentro de si... por isso a cabeça era quase só um enfeite. Podia usar um relógio novo e caro ou então um lenço no pescoço de cores berrantes..mas não porque isso seria ser demasiado banal e ele detestava banalidades e ser igual aos outros..aqueles seres hipócritas que caminhavam por ironia à frente dele na rua. Então este Homem usava como enfeite nada mais nada menos do que a sua cabeça. É verdade que ele a estimava bem..penteava-lhe os cabelos, colocava água de colónia no rosto. Queria sempre que ela saísse bem arranjada à rua..já que tinha que a suportar no corpo ao menos que tivesse um bom aspecto. Até porque junto com a cabeça vinha um rosto que tinha uma boca cheia de dentes e sempre que ele abria aquela boca e os dentes vinham espreitar cá para fora as pessoas olhavam com mais facilidade para ele e isso de alguma forma devia ser considerado vantajoso.
Um dia o Homem que não usava a cabeça para pensar decidiu ir dar um passeio até a beira mar. Mas como detestava caminhar sozinho, lembrou-se de convidar a Mulher que não usava as pernas para andar para ir com ele. Na verdade ele queria mesmo era a companhia da Mulher que só usava a boca para beijar, mas ela essa tarde estava muito ocupada a beijar outro Homem qualquer.
Então o Homem que não usava a cabeça para pensar foi buscar a casa a Mulher que não usava as pernas para andar..
Como a Mulher não sabia que as pernas serviam para andar tinha o vicio de se deslocar sempre ao colo dos outros e era assim que ia para onde queria...Por isso o nosso Homem lá teve que pegar nela ao colo e lá foram os dois caminhando..perdão, os dois não...porque apenas ele caminhava arrastando o peso dela. Ele lá treinava o seu poder de conversação falando-lhe da beleza dos pássaros quando a brisa lhes tocava...do brilho que ela tinha no cabelo e da emotividade do seu olhar, sempre com os dentes de fora a endireitar sorrisos. Só que a Mulher que não sabia que as pernas serviam para andar, passava a conversa toda a tentar enrolar as pernas nele e a apertar-lhe o pescoço com medo de cair de alguma altura mais alta.
Que Mulher aborrecida e chata dizia-lhe o instinto, mas a verdade é que tinha umas pernas magnificas dizia-lhe o olhar e geralmente ele ganhava sempre o duelo. É um sacrifício que ainda vai valer a pena decidia o Homem que não usava a cabeça para pensar...não precisava de reflectir sobre a questão porque era mais do que óbvia a resposta. E lá iam eles pela areia com o Homem quase a perder o fôlego de carregar nos braços aquelas pernas pesadas mas compridas.
Finalmente o Homem que não usava a cabeça para pensar e a Mulher que não sabia que as pernas serviam para andar, chegaram a um lado qualquer e o Homem pensou que iria colher o fruto do seu árduo trabalho. Mas qual não foi o seu espanto, quando a Mulher que não sabia que pernas serviam para andar queixou-se do calor e disse que queria ir tomar um banho naquela água imensa que parecia tão fresquinha . O Homem fez-lhe a vontade e preparava-se para pousar a Mulher na areia quando ela de repente começou a resmungar e a dizer-lhe se ele estava louco por querer colocar as suas pernas na posição vertical..posição essa que as pernas dela não conheciam de tanto estarem habituadas a posição deitada. A Mulher não esteve com meias medidas e exigiu que o Homem a levasse ao colo até ao mar para proteger as pernas dela das ondas...ele teria que afastar todas as ondas para ela não ficar com as pernas molhadas mas só com elas refrescadas pela aragem. Que grande chatice para o Homem que não usava a cabeça para pensar, mas como não era Homem de fugir a desafios principalmente quando as recompensas eram altas e esguias, ele avançou com a Mulher ao colo cheio de instinto e de orgulho na sua força.
Inicialmente aquela caminhada pelas águas com a Mulher agarrada a si como uma lapa e aos gritinhos pareceu-lhe fácil de ultrapassar e deliciosamente uma peripécia aventureira.
O pior foi quando o mar se enfureceu com a presença daqueles dois intrusos estranhos agarrados um ao outro como se fossem polvos e decidiu enxutá-los dali com vagas alteradas.
O Homem que não usava a cabeça para pensar começou a sentir dificuldades em se manter erecto com tantas ondas a chicotearem-lhe o corpo e aquela Mulher alta e esguia de repente começou a pesar toneladas e já tinha mais aspecto de baleia do que de sardinha fina.
Mas não a ia largar...se havia coisa que o Homem que não usava a cabeça para pensar sabia ser...era ser teimoso e como rei da teimosia lá continuava com a Mulher colada a si a apertar-lhe cada vez com mais força e desejo as carnes do seu pescoço. Era verdade que ele até já estava a sentir alguma falta de ar, mas em pleno acto todos sentimos alguma asfixia temporária,logo aquela sensação de estar a sufocar era perfeitamente natural para ele e não lhe causava nenhum transtorno.
O mar sentindo a teimosia daquelas pobres criaturas, foi-se tornando mais arrogante e com vontade de lhes fazer frente e resmungou com muito mais força. Com tanta força mas com tanta força que o Homem e a Mulher já andavam aos rebolões no meio das ondas mas sem nunca se largarem, parecia mesmo que as mãos dela se tinham fundido ao pescoço e os braços dele já pareciam prolongamentos exaustivos do rabo dela de tanto a apertar por entre os dedos. Noutra situação aquela sensação “apalpativa” seria até bem vinda, mas numa situação de morte iminente era mais considerada pelo Homem uma sensação aborrecida...Que estranho ele sentir algo assim...
mas as pernas dela..as pernas dela eram hipnóticas e o Homem não conseguia deixar de olhar para elas. Bem, era verdade que estava prestes a afogar-se e a levar aquelas pernas tão fantásticas direitinhas para o cemitério dos Prazeres mas ao menos iria morrer sorrindo. Isso servia-lhe de consolo enquanto a sua vida se extinguia lentamente...
Se ao menos o Homem que não usava a cabeça para pensar tivesse pensado noutra coisa para além de uma belas pernas saberia que o ar faz falta para respirar...


Daniela Pereira in Contos sem pés nem cabeça..
Direitos Reservados

domingo, março 15, 2009

Poema de Domingo à tarde...





Não tenho os dedos sujos de tinta esta tarde...
Só exibo restos de gotas de vinho tinto e de corações enlameados.
As letras foram à rua por instantes...
Pobre poeta que queimou ao sol toda a sua escuridão...
Silenciou a lua só por um dia...dizem os amantes.
Mas todos dizem qualquer coisa quando mais nada têm para dizer...


Daniela Pereira in Em todas as palavras nada te direi...
Foto por Daniela Pereira
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quarta-feira, março 11, 2009

Limonada primaveril



Vamos colher doces frutos com polpa ácida e dizer que o ouro escorre pelas nossas bocas?
Em amarelo pinto os sonhos e as aventuras que abraço...tenho raízes mais fortes nas pontas dos dedos ...

E os limões nas minhas mãos também dançam ao sol...

Daniela Pereira

domingo, março 08, 2009

Mulher




..E sou Mulher..

nos sonhos e nas lembranças...

na pele despida

e na carne tragada...

nos olhos mal chorados

e na escuridão adormecida...

E sou Mulher...

no Amor perturbador e desgraçado

Hoje pela Dor enamorada...

porque sou alma viva ...

E sou Mulher..

nos sonhos e nas lembranças...

nos beijos e esperanças..

sou ave sem destino ..

Curva a 180º numa estrada deformada...

Ângulo recto destemido

que não se perde em promessas obtusas

Porque só com linhas infinitas alguém a cruza...



Daniela Pereira in A Mulher é um mundo maior...
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quarta-feira, março 04, 2009

Revista literária- Alterwords





Olá a todos



É com muito prazer que informo que já se encontra disponínel o site da nova revista literária on line, a "Alterwords"...

A "Alterwords" é um projecto que visa dar a voz a todos os que amam as palavras..anónimos e não anónimos...vindos da luz ou da escuridão...

Os autores residentes desta revista são:

Bruno Pereira

Carla Ribeiro

Daniela Pereira

Liliana Duarte

Liliana Lopes

Miguel Pereira

Susana Carvalho Machado

Susana Catalão

Nesta revista as palavras são livres e sem margens a limitar a inspiração...podem saborear contos, poesia, prosa,curiosidades literárias,arte e cinema..porque a cultura não é um vício letal..vamos drogar o mundo com palavras e pensamentos
http://alterwords.webs.com ---Site para download da Alterwords-1º e 2º volume

Daniela Pereira