quarta-feira, janeiro 27, 2010

Aqueles gestos nas horas vazias...


Perfumes ácidos nas tuas pétalas mais doces...
Chuvas corroídas nas veias...
Eternamente ...uma desfolhada de ternura na eira do meu peito...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados...Foto e texto da autoria de Daniela Pereira



domingo, janeiro 10, 2010

Meio sonho acordado...



Foto por Daniela Pereira
Direitos Reservados



Jamais me fiz ao Mundo
sem caminhar com os olhos
olhando de frente a maré...
Já rasguei ondas e vendavais
com os dedos cortando chapa...
Existem telhados que são de vidro
e o meu coração há-de ser sempre
uma fina vidraça e nada mais..

Se fechar os olhos vou dormir
e o resto do mundo
há-de permanecer acordado
dando vivas à sua existência experimental...

Porque não vamos ser fadas ou cardeais por um dia...
só para desventrar a melancolia?
Apetece-me ter asas nas costas e escamas na pele
para não me afogar nos meus voos ..

Deixa-me ser mais um grão de poeira
amansado pelo cansaço
para eu dormir tranquila este chão de areia...


Jamais me fiz ao Mundo
sem lhe perguntar
porque não há respostas
para a tristeza de um olhar e para o singelo grito de mudança...

Se fechar os olhos vou dormir e tu coração de maçã vais dormir comigo com os cabelos cheirando ao pomar da manhã...

Daniela Pereira in "Meio sonho acordado"
Direitos de autor reservados

quinta-feira, janeiro 07, 2010

A estrelinha dos desejos e a nuvem das desilusões





Era uma vez uma estrelinha que brilhava mais do que todas as outras estrelinhas penduradas lá no céu...
Esta estrela tinha um brilho invulgar porque alimentava-se dos desejos que todas as pessoas do mundo lá de baixo iam atirando ao vento que passava..
Mas também havia uma nuvem lá no céu...cinzenta e mal encarada. Era a nuvem das desilusões que chorava sempre que alguém não conseguia realizar um sonho,porque sentia um coração mais apertado. Quando isso acontecia, a pobre nuvem cinzenta espremia o coração e todo ele se desfazia em grossas gotas de chuva salgada.
A estrelinha dos desejos não gostava muito da sua vizinha,porque era triste e sempre que a via tão chorosa lembrava-se que algum desejo não se realizava.A estrelinha era muito esforçada,passava os dias a viajar de país em país a escutar os desejos que as pessoas deixavam sussurrados na cabeceira.Depois fazia uma lista com todos os desejos gravados em tinta azul que as borboletas traziam às escondidas de algumas flores mais distraídas e pronto ..depois era só deixar todas as noites uma luzinha nos corações das pessoas para iluminar a vontade de realizarem os seus desejos mais queridos que a estrelinha sempre os ajudava.
Então se a estrelinha nunca deixava sozinhos os desejos das pessoas porque seria que alguns ficavam perdidos e por realizar? A nuvem das desilusões era a única que sabia o quanto custava perder um desejo..
As pessoas por vezes desejavam com tanta força um sonho que ele ficava sufocado antes mesmo de vir ao mundo. Mas se todos os desejos fossem realizados pela estrelinha dos desejos quem daria valor aos desejos realizados?Realizar um sonho já não teria o mesmo sabor.Por isso a nuvem das desilusões lá está, escondida no céu para lembrar às pessoas que tudo o que se deseja pode ser desilusão se não for trabalhado com muito amor e carinho.


Daniela Pereira in "Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos de autor reservados

terça-feira, dezembro 22, 2009

L'Hiver...


Je suis la pièce principale de mon coeur

terça-feira, novembro 24, 2009

Livro Afectos Obsessivos -Promoção de Natal


Encomenda do Livro Afectos Obsessivos com dedicatória da autora-Promoção de Natal:

O livro tem como preço de venda 12,50 euros e a entrega pode ser realizada por Correio Verde caso opte por pagamento através de transferência bancária:
Neste momento estou a promover esta entrega por Correio Verde sem qualquer acréscimo de portes de envio
No caso de optar por envio à cobrança, realizo o registo da encomenda nos Correios e o envio é acrescido de portes:2,50 euros

Se pretender mais alguma informação basta contactar-me nesta página que terei todo o gosto em fornecer-lhe a informação solicitada.


Cumprimentos

Daniela Pereira

segunda-feira, novembro 16, 2009

A menina do coração de romã e os pássaros tristes...




Era uma vez uma menina que não tinha um coração igual aos corações de todos os meninos que corriam pelas ruas chocando contra os carros logo pela manhã.Esta menina tinha um coração mais doce...Não tinha um coração recheado de guloseimas mas tinha um travo doce...Tinha um coração de romã,vermelhinho e suculento.
Todas as manhãs a menina coração de romã vestia-se de papoila do campo e ia para a janela esticar o olhar para ver o fim do horizonte.Sonhava com barcos-livro que a levassem a ver o mundo numa folha de papel..Quando queria descansar o olhar e os sonhos,ela focava os pássaros que dançavam pertinho do seu olhar.Eram pássaros com a alma triste que voavam em círculos na esperança de encontrar uma nova semente que lhes devolve-se um pedacinho da alegria perdido.
A menina coração de romã tinha um coração tão grande e doce que nunca deixava um pássaro a morrer com fome de ternura.Ela abria a boca devagarinho e deixava os pássaros dentro dela entrar.Então os pássaros desciam com cuidado pela garganta da menina romã fazendo cócegas ao passar para a menina romã nunca deixar de sorrir e enchiam-lhe o peito com suaves melodias.Depois a menina romã abria o coração e os pássaros com a alma triste iam roubando algumas sementes até já não sentirem mais fome.Quando se sentiam com forças para de novo voar agradeciam à menina coração de romã por lhes ter matado a fome e levavam-na consigo a ver o mar...No fim do dia deixavam a menina coração de romã deitada no seu campo de papoilas com o coração ainda mais cheio e partiam felizes porque se sentiam ainda mais doces...

Daniela Pereira in " Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos Reservados

sábado, novembro 07, 2009

O monstro dos olhos cor de terra...





O monstro dos olhos de terra gostava de pavões e de fazer piqueniques com os camaleões que mudavam de pele para fugir dos mauzões...
O monstro dos olhos de terra não tinha pés para andar nem asas para voar mas viajava longe com o pensamento e nunca ficava preso a um só momento porque sabia galopar corajoso nas marés...
O monstro dos olhos de terra não era mau mas também ninguém lhe dizia que ele era bom ..ninguém lhe dizia "gosto de ti" e o monstro gostava de tanta gente que às vezes até lhes esquecia do nome e apontava todos num caderninho que nunca chegava ao fim...
O monstro dos olhos de terra metia medo porque tinha sempre os olhos inchados e nunca sorria..tinha a boca apontada em direcção ao chão e dos seus olhos caíam lágrimas mais pesadas que os rochedos que ele contemplava na praia.Por isso todos fugiam dele com medo que as suas lágrimas os pudessem esmagar.Mas o que ninguém sabia é que as lágrimas do monstro com olhos de terra só pesavam na alma dele...ao chegar ao chão eram leves e quentes..só sabiam a vapor...
Como ele gostava de ter um coração camaleão que esconde-se a sua dor plantada nos seus olhos de terra....Talvez mais ninguém tivesse medo do seu triste abraço se ele pudesse fingir que o seu coração também sabia sorrir..Então não teria mais uma sombra para carregar nas suas largas costas e seria mais uma montanha feliz por semear...

Daniela Pereira in Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio
Direitos Reservados

quarta-feira, outubro 28, 2009

Miragens de um sofredor...






Há um mar sem sal que me cheira a rio...
2 pedras no caminho que não consigo arrancar com os dentes...
e uma gaivota que não voa...só paira a meu lado
e ainda ontem me falava de sonhos e de marés...

Olhares sem fim e pontos de exclamação admirados por mim
que me rompem às dezenas os segredos guardados na mente
e as pétalas que vesti aos malmequeres sem orgulhos..
ficaram rosados e cheiravam a rosas sem espinhos...

Há trigos nas searas brancas de papel
e nos dedos há peixes frescos para os pescadores
que têm como isca um punhado de sonhos...
Vi um peixe anão na caravela do palhaço triste
que gritava "Não gosto de solidão!"
para as ondas do mar
que aplaudiam a sua coragem
afogando-lhe a garganta...

Vi um dente de leão que não era feroz
a baloiçar nas ventanias
como se não houvesse amanhã..
Se eu lhe cortar o pescoço será que ainda dança?

Há um mar sem sal e as minhas gotas despejadas num rio...
Esta noite tenho um segredo para contar
aos desertos deste mundo...
A água salgada não é para beber...
é para matar a fome às ilusões
que plantamos na areia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, outubro 15, 2009

Se todos os desejos se fizessem num só dia...


Foto de Daniela Pereira-

http://olhares.aeiou.pt/toda_a_cor_no_teu_ceu_foto2543572.html
Um dia coloco todos os meus sonhos numa mochila bem apertadinhos e levo o meu corpo a viajar por mil paragens...
Um dia faço das minhas pernas uma trepadeira e deixo-me ficar ao sol a florir...
Um dia corto uma folha de papel e construo um barco que me leve prontamente às margens dos meus desejos...
Um dia deixo de me ouvir e coloco brincos nas orelhas para chacoalhar todos os meus ecos...
Um dia volto a subir a uma árvore para imitar os frutos que nos ramos amadurecem...
Um dia acendo uma fogueira com uma chama que jamais me queime a relva fresca mas que me aqueça dos orvalhos...
Um dia ergo uma bandeira em todas as muralhas que deixei para trás dos meus braços porque não as consegui abraçar com a mesma força com que abracei a primeira pedra...

Um dia..um dia...

Um dia invento uma palavra que o mundo não conheça nem saiba definir e ficarei a rir ao vê-la crescer incompreendida ...
Um dia farei uma casa sem portas para todas as almas terem um lar aberto e não um abrigo em mim...
Um dia vou ver um espelho a olhar para mim sem vontade de me estilhaçar por azar...
Um dia peco nos sentidos com uma paixão tão gulosa que até o ar respirado será doce...
Um dia marco uma meta no chão e vou correr até vencer os cavalos que galopam o infinito...
Um dia escrevo uma canção sem voz e vou ouvi-la na sua bela mudez ao pé de um lago imaginando que todos as pedras me estão a aplaudir de pé....
Um dia recorto veludos vermelhos e faço um coração sem remendos costurado com pontos cheios...
Um dia faço um poema sem pensar que terá um fim...*

Daniela Pereira in Se todos os desejos se fizessem num só dia
Direitos Reservados

domingo, outubro 04, 2009

Palavra nocturna...

Escrevi o teu nome numa pedra...

Pensei em deixar-te
sozinho junto ao rio...
Ficar a ver-te parada
a adivinhar que
novos passos te iriam pisar...
Mas tive pena...
Tive pena de te ver com o corpo tão marcado
e então deixei-te adormecido
nos seios das sereias do costume...

Talvez não fosse por pena...
Talvez fossem ciúmes
ou a tristeza de saber
que não fui eu
a deixar enterrada em ti
uma marca tão profunda
e que por mim
o teu peito
ainda está livre.

Escrevi-me em ti
com o pólen das flores
onde me foste arrancar
e nada ficou
depois de todos os jardins
se despedirem das nossas noites..

Escrevi o teu nome no vento...

E ainda hoje te vejo
aos círculos voando
com todos os olhares
que deixas-te para trás das tuas costas
amontoados em caixinhas
que apertas na tua mão...

Talvez devesse soprar-te com força...
ou então atirar-te friamente contra o horizonte..
Talvez assim pudesses
também ver o chão
chegar perto de ti...

Mas hoje escrevo-te em mil folhas e nada mais...
Podemos sempre rogar
por mais asas abertas
e chuvas doces por cair..

Mas hoje escrevi o teu nome numa pedra...
por fim...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, outubro 01, 2009

Todos os pensamentos são permitidos se voarem dentro de mim

O céu seria perfeito se todos os pássaros de penas molhadas não ficassem perdidos nas nuvens a recordar o sol que fazia ontem...Quando brilham as memórias num peito chão..voam rasteiras todas as certezas do ninho...

Daniela Pereira in Todos os pensamentos são permitidos se voarem dentro de mim
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 29, 2009

Vasos (des)comunicantes


Se cada gesto mudado fosse a primeira pedra para construir a diferença..o mundo saberia que muros inflexíveis não prendem pensamentos com cimento fresco...


Daniela Pereira in Vasos (des)comunicantes
Direitos de autor reservados

segunda-feira, setembro 21, 2009

Mornas intenções





Quero andorinhas nos beirais do telhado
e folhas secas caídas aos pés da mesa...
Rostos para expor nas varandas,bem regados
para os ver a crescer nítidos e formosos..
Como os lírios selvagens que rompem raízes nos vasos
para por de pé as flores....

E o meu tapete de folhas secas para cobrir-me de chá de hortelã
até cheirar a pimenta nas mãos a arder.
Ardem luas no meu vestido
e há sois a pé coxinho inquietos nos meus seios.
Tenho sangue a saltar à corda nas minhas veias
e o coração parece estar concorrido com filas nas portarias.

Vou já!Não me esqueço de dizer...
Quero foguetes a estoirarem-me os olhos...
quero ver todo o fogo que tenho no meu olhar bem preso.
As estrelas levo-as pela mão até encontrar na escuridão
emprestada a luz própria do meu caminho.
Ainda escrevo mais um poema um poema para adormecer...
depois dispo-me de poeiras e fujo do ninho.

Daniela Pereira in Mornas intenções
Direitos Reservados
Fotografia @ Daniela Pereira

sexta-feira, setembro 11, 2009

Capas negras e um fado mal amado...




Improvável..imprevisível...impotente..

Aqui jazem problemas e soluções num trio incoerente..
marcham por caminhos desavindos
e não se abraçam mais
quando o medo
rasga a noite
numa escuridão nua...
Já não cruzam
olhares ao fundo da rua
e as paredes já não lhes sentem
os beijos de gato
segredados à luz da lua...


Foi em granito que te esculpi...
mais duro que o aço..
mais rude que a gralha que ri
enquanto imita a tua canção...
mais cristalino que o sal que me queima a boca.
Tens o ar das serras nos pulmões
e nas costelas que te erguem gigante
tens a dor dobrada
de quem se fez chão
para te ver quebrar mais uma onda...

Colhidos os morangos com a boca...
bebidos os suspiros
e inspirados todos os ramos de alfazema
só uma triste balada ficou
e um mar de órgãos imperfeitos
por transplantar..

Um pulmão que cheira a fumo
por todas as noites cravadas
à tua sã nicotina
que sabia a maçãs...
Um rim que não drena
do sangue as impurezas
e as belezas
injectadas nas veias...
Se eu pudesse tossir
todas as estrelas e as madrugadas
onde me costurei a ti...
Se eu pudesse expelir as lembranças...
as lembranças...
como se fossem corpos estranhos
morreriam-me as fraquezas...
E o coração?
Aquela chama por apagar...
E as pirâmides que desenhei nos teus desertos?
E as rosas com que enfeitei as tuas poeiras?
E as luzes púrpuras que acendi nos teus sonhos?
E os quadros de infância que bordei com risos e tranças?
E...E..E..e um pouco mais de um nada indivisível
a repartir em 3 tempos
nos ponteiros de uma agulha incontinente...

Aqui jazem problemas e soluções
com o verbo respirar
perdido e incerto...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 08, 2009

Juras drogadas...







Não há mar
numa fogueira à deriva...
nem brasas acesas
que sobrevivam
no fundo de um poço...
Porque não se queima o sal
com o calor de uma maré...
nem se incendeia a tristeza
só porque ateamos
uma chama mais profunda.

Não existem estrelas apagadas
a espiar-nos os olhos nas varandas...
nem um luar esperto
que no peito
da escuridão não se divida...
Porque a melancolia
guarda punhais adormecidos
a reluzir das lembranças...

Não há um rio licoroso
a boiar nas bordas do meu corpo...
nem beijos de moscatel
para afogar no perfume de um jardim...
Se na minha boca
não vieres beber
rosas com gosto...

A droga da solidão
já jurou que
não tem mais veias
por onde escorrer
com liberdade...
Mas não pode haver
mais juramento
sem videiras fartas por colher...
E sem céus dourados para caminhar...
todas as promessas
estão drogadas...

Há uma alucinação por desprender
da mente mal passada
e um sonho por remendar
no coração mal rasgado...
Depois...
há um poema abençoado
e uma lágrima que fica por tingir...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 01, 2009

6 em linha...





O que me faz falta é limpar as sombras do sorriso e todas as lágrimas que me sujavam o vestido...
Atirar com os arco-íris contra os lagos e beber água de todas as cores...
Pôr a terra no seu chão e escavar as montanhas à procura de mais nada recebendo com as mãos sujas mais um pouco de tudo o que dei...
O que me faz falta é deixar as estrelas a passearem radiosas por aí..um dia serei uma delas e terei uma imensidão de poeiras para contar...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, agosto 22, 2009

Vertigem seca...

Agosto 21/2009 23h50

Boa noite...Não penses que estou a despedir-me de ti, muito pelo contrário estou apenas a chegar.
Esta noite sinto-te diferente, pareces estar mais clara apesar desse teu tom de folha de papel envelhecida à luz de um candeeiro.
Ontem decidi que quando sentir vontade, virei sempre aqui visitar-te e falar um pouco contigo...Afinal tens sido a amiga mais fiel que eu até agora encontrei.
Venho aqui fazer aquilo que mais gosto de fazer...tu sabes...tracejar-me em ti..
Pensei até num nome para baptizar todas as horas que irei partilhar contigo...mas uma palavra pareceu-me pouco e estendi a corda.Em vez de um nome inventei logo uma frase inteira... "O diário de um coração aflito sem colesterol"
À primeira vista pode soar-te um pouco estranho...mas vais ver como faz sentido. Pensa assim...vou falar de um coração...do meu coração e de tudo o que ele me irá fazer sentir.O que ele já sentiu é importante mas acho que já perdi alguns sentimentos por aí..a eternidade nunca me ficou bem.
Inicialmente este coração terá alguns acessos de aflição...andará certamente perdido na busca de outros rumos, já cansado dos caminhos errados que cruzou.
Vais senti-lo fragilizado e embrulhado numa complexa alcateia de memórias que lhe infernizam a cabeça enquanto ele vai tentando escapar ileso de cada ataque sofrido ...Continuar vivo e a bater pode ser considerada a sua grande vitória, tudo o resto será uma humilde derrota.
Um pouco à semelhança de um coração doente, onde sabemos que a circulação é barrada por camadas e camadas de gordura..este coração também estará aqui a tentar lutar para sobreviver...entupido em desilusões.
Agora só quero falar-te no dia de hoje...da actualidade, como se me visses numa página de jornal cravado de notícias para dar.
O meu coração ontem andou no meio de uma pequena tempestade, mas curiosamente hoje acordou com uma tranquilidade que sinceramente até me meteu uma certa inveja.
Tudo, porque o coração andou tão calmo o dia inteiro, mas o corpo estranhamente deu sinal de alguma instabilidade ao raiar do fim do dia.
Acredito que a ondulação de humores do dia anterior, não terá exercido uma boa influência no funcionamento desta máquina que levo atrelada à massa de carne e ossos que me constitui humana.
Senti uma tontura repentina..uma coisa parva durante um gesto habitual que consistia em erguer a minha cabeça do chão.Ando destreinada na postura de corpo imbatível..
Por breves instantes não sabia muito bem onde tinha os pés porque o chão parecia que me queria sugar para algum buraco.
Não me preocupei muito, porque sabia que as minhas emoções estão intimamente ligadas às reacções do meu organismo.
Em mim, existem tensões que disparam e nervosismos que deviam supostamente ser relaxados... antes de acumularem ansiedades que podem explodir mais tarde como se fossem uma bomba..deixando-me em pedaços difíceis de apanhar.
No entanto...e já que hoje os meus pensamentos estão focados nas fraquezas corporais que possuo,devo confessar que me apercebi que estes olhinhos cor de terra...que já tiveram uma visão digna de um lince...estão a precisar de uma séria manutenção. Existindo mesmo, o risco de já não conseguirem enxergar o resultado de uma partida de futebol quando exibida no grande ecrã. Considero isto um assunto grave, mas como na área da saúde posso dizer que andei na chamada época alta no que diz respeito a doenças.A minha habilidade ocular foi-se adiando ...
Mas adiante, antes que comeces a pensar que virei hipocondríaca ...tendo em conta o que já passei, seria fácil olhares para mim com essa dedução bem afinada na tua cabeça.
Curioso, falar contigo está a deixar-me ensonada..talvez seja porque nunca me respondes e o silêncio gerado no quarto embala-me depressa.Por isso, vou deixar este tema em banho maria para ter ainda algum tempo para falar do meu coração com termos menos técnicos e mais subjectivos.Acho que algumas pessoas chamam a isso, falar com alma...eu não quero falar "com"..mas sim "da" alma.
Como já te tinha dito nalgumas linhas que ficaram para trás... o meu coração hoje esteve calmo. É raro vê-lo assim a conseguir tão grande feito..há imenso tempo que ele não tinha um dia tão tranquilo...quase em paz.
Acordou cedo..foi trabalhar e ainda conseguiu ter a coerência necessária para passar alguns instantes ao ar livre a querer sentir-se bem sem ter muito em que pensar.
Isso não quer dizer que ele já ande esquecido..nada disso, mas hoje simplesmente não sentiu grande necessidade de lembranças.
Brincou um pouco..imaginou outro tanto..idealizou lagos e recantos melancólicos onde pensa mais tarde descansar das suas próprias melancolias.
Hoje não perguntou ao mundo inteiro como ele estava..nem sequer fez essa pergunta (que já foi tão habitual) aquele pedaço fora do eixo que ele viu ser arrancado voluntariamente de si.
Não tem feito diferença alguma perguntar..por isso hoje não o fez. Existe sempre tanta estática no ar que não há resposta que ao coração chegue...isolou-se das perguntas como se elas fossem uma doença mortífera.
Logo, guardou a pergunta para si com medo de contaminar o mundo e desejou que ele estivesse bem e deixou o mundo satisfeito com o coração a bater lá pelos seus lados..
Vertiginosa esta sensação de estarmos sozinhos com uma memória que desvanece deitada ao nosso lado...
Se ela acordar diz-lhe que ainda não morri!


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
Direitos Reservados

sexta-feira, agosto 21, 2009

Digo-te depois...


20 de Agosto de 2009- 0 : 59m




Querida folha de papel....esta noite sinto-me estranha...pensativa. Deve ser ridículo para ti, ouvires-me a dizer isto. Já me conheces bem e sabes que eu em muitas outras noites me isolei aqui contigo ou com outra igual a ti a dizer o que sentia.
Tornou-se um vício difícil de superar...mas podes estar descansada que pelo menos eu não fumo.
Hoje foi um dia complicado..tive que amarrar algumas palavras na boca, mas algumas conseguiram escapar e fizeram o seu prejuízo.
Não fiquei triste porque desta vez não senti que tinha cometido algum erro, mas lamento que dizer as coisas...mostrarmos que defendemos aquilo em que acreditamos, consiga por vezes ser a tarefa mais complicada do mundo. Porque arrastamos algumas convicções que não são nossas nessa enxurrada de crer.
Custou-me ter feito parte daquele triângulo de discussões...Tenho a utopia que as palavras podem só dar origem a momentos de compreensão e harmonia. Acho sempre que vão entender claramente aquilo que estou a querer dizer com elas...
Mas cada pessoa pega na palavra que para si quer e deixa muitas delas de lado...alguma coisa..uma nuance...um pedido..uma desculpa fica a falar baixinho a um canto e é provável que passe despercebida.
Sei isso...apercebi-me disso, porque tenho tido a minha colecção de diálogos incompletos...de monólogos acalorados e de silêncios imprevistos.
A única explicação que encontro para todos estes factos comuns é a partilha imperfeita daquilo que queremos expor de nós mesmos quando achamos que o mundo certamente estará aqui para nos ouvir...
Por vezes penso...por vezes...mas quem é que eu quero enganar? Não é..."por vezes"..é sempre!
Eu penso sempre se existirá uma forma mais inteligente de comunicar com o ser humano.. Porque com os animais sentimos que é tudo tão fácil. Que cada gesto é apreciado...absorvido no instante em que ele parte de nós.
Não há tempo se quer para ser formarem as incómodas dúvidas de como será recebido...
Devia ter nascido cão...certamente seria um ser muito mais comedido e sensato!
Este tem sido provavelmente o ano da minha vida em que mais questionei o que me rodeia e tudo o que entrou ou saiu de mim.
Acho que me tornei incrivelmente chata..monótona..tremida e nunca tive tantas dúvidas em posição de assalto cá por dentro.
Percebi que acabo todas as minhas frases com um par bem dado de reticências alternado com os bem ditos pontos de interrogação.
Apesar de tudo, as dúvidas e os medos vão diminuindo a um bom ritmo e só isto me permite estar aqui a desfilar os meus pensamentos com a noção que não ficarão muito tempo só para ti...( tinha razão,não ficaram!)
Há muito tempo que deixei de esconder quem sou... é talvez o meu maior acto de coragem, mesmo que ele seja também a razão para muitas das minhas entorses e derrapagens.
Talvez tenha mesmo que ter cuidado com os vazios que vou encontrando nos meus degraus..preciso de aprender a não achar que eles me vão sugar todos os passos que ainda quero dar.
Olhar para eles como se eles fossem balões que ainda estão por encher. Esvaziei-me...amanhã arranjo uma forma ( imaginação é algo que não me falta) de me voltar a encher em vez de lamentar o espaço em branco que em mim ficou.
Tenho-me concentrado a reunir todos os defeitos e obstáculos que sei que vão surgir sempre que der um passo em falso.
Se eu fosse uma pessoa excessivamente organizada, diria que estaria a esboçar uma lista com os meus erros e todas as emoções que eles despertam em mim...
Mas não...vou apenas recolhendo pedaços aqui e ali daquilo que sinto a olho nu...
Acolho bastante a dor...
Espremo algumas lágrimas...
Maltrato alguns dos meus sorrisos..
Conheço novas entradas para o medo..
Retiro-me e depois atiro-me de cabeça nas compostas dúvidas...
Finalmente tento arrancar explicações...

Uns dias acordo cheia de ganas e esperança... noutros dias simplesmente apetece-me nem acordar.
Sabes, apesar de estar a falar com uma folha de papel, sinto que o estou a fazer com toda a clareza..mostrando o rio de pensamentos que me sobressaltou esta noite. Parece-me ser uma atitude de uma pessoa normal..de uma pessoa que talvez ultrapasse um pouco em alguns momentos a necessidade que as pessoas sentem de parecerem turvas naquilo que lhes corre no pensamento.
Eu acho que preciso de me sentir límpida em todas as minhas águas para me sentir pronta para regressar ao meu flutuar diário.
Isto fará de mim alguém que perdeu o juízo ou uma pessoa que simplesmente está farta de engolir tanta sujidade?
Digo-te depois...


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
Direitos Reservados

domingo, agosto 16, 2009

Foi doce...





Vou cantar à janela
que a vida é bela...
Que o meu amor
pode ter espinhos
mas tem rosmaninhos para dar..
Que a flor morreu
mas ainda tenho
que ter algures em mim
a sua semente...
Que a chuva que cai dos meus olhos
um dia vai deixar de ser tão salgada...

Foi doce o meu olhar
quando se enchia de ternura
Foi doce..

Queria uma cantiga de amigo ao pé de mim..
Um ombro para adormecer
quando me sinto cansada...
Uma mão para apertar a minha
e nunca mais a largar..
Queria caminhar...

Queria fazer poesia
por sentir magia dentro de mim..
Não queria ter palavras
só porque me apetece chorar...

A poesia é um sopro de vida
não é o lamento de quem se sente a morrer!
Queimem-me os lenços...

Se tenho palavras
que sejam para exaltar os sorrisos...
para mascarar a minha morte..
para inventar versos e canções..
para carimbar nas paixões..

Porque levas-te de mim tanto
para hoje sentir um pouco mais
o que ficou gravado nas paredes?
Asfixias-me a inspiração e já nada bate certo
na fragilidade dos meus dedos...
Deprimo as letras...deprimo as letras
e conduzo os versos
a um suicídio lento
porque não os deixo fugir
da onda triste
que me visita todas as noites...

Perdi o dom de fazer sonhar..
Fada azul sem varinha de condão..
Borboleta voando ás voltas...perdeu a flor..
Tinha olhos onde brilhavam estrelas..
Luzes no rosto e a escuridão
presa a um canto.
Por ironia...fui eu que a libertei!





Estou farta das palavras...
Estou farta de dizer o que sinto...
Apetecia-me enterrar bem fundo
a tinta e o papel..
Encerrar o meu corpo numa concha
e ficar a vê-lo a apodrecer!
Talvez, até queimar a alma...no Inferno
Fugir para uma mata e repartir a fome com os lobos
para ver se eles uivam mais alto que o meu peito
ao recordar os beijos dados ao luar.
E eu que adormeci na tua toca pensando que a dor nunca chegaria para me comer...
Como ela me devora sem dizer uma única palavra!

Uma poetisa deprimida está à janela
devorada em silêncio
a fingir que a vida é bela..
Enquanto o mundo a esquece...
Ai,como ela o merece!

Daniela Pereira in "Foi doce"
Direitos reservados

sexta-feira, agosto 14, 2009

Estão moribundas as violetas






Tens folhas no cabelo...
Não parecem caídas do Outono mas estão enrugadas
como se o vento as tivesse tentado engolir na primeira ventania que lhe saiu da boca..
Olho de perto... tens flores de papel no cabelo
São violetas de papelão pintadas com aguarelas..
Tens sombras negras ao espelho...
restos de ti que alguém de ti levou sem pedir..
Estás inteira ou deixas-te os teus pedaços num passo qualquer?
Está uma ave presa numa gaiola que canta até enrouquecer..
Não a ouves declarando-se às nuvens que lhe cobrem a voz?
Não quer mais chuva no jardim
nem gotas de água nas suas penas...
Que pena que o ar cheire ainda a tempestade...
Sopro-te as folhas do cabelo...
ansiosa invento um dia de sol
só para te ver dourada
com a pele nua
a dar vida às violetas ...
O Outono está moribundo no teu olhar...

Daniela Pereira in " Estão moribundas as violetas "
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