quarta-feira, agosto 12, 2009

É facil amar...o dificil é sentir que amamos...





Os dois lados do Amor e meio poema por escrever...

O lado bom do Amor...falar do lado bom do Amor é como falar de todas as coisas no mundo como sendo perfeitas.
Quando se ama até os defeitos nos convencem...porque simplesmente não há defeitos no amor...os erros são pequenos...os esquecimentos perdoáveis e todas as atitudes parecem já vir munidas de aceitáveis explicações que se aceitam alegremente...
A chuva é doce...o sol um saboroso pingo de mel...a Primavera é a estação dos amantes e dos rouxinóis...
As manhãs são adoradas e as noites mais desejadas do que nunca...
Um respirar faz-nos sorrir...um suspirar do outro ao nosso lado enche-nos de emoção..é quase um milagre partilhar um momento assim,mesmo que ninguém veja o nosso sorriso porque já dormem tranquilos...
O medo faz-nos lutar como feras e o desconhecido converte-nos em excepcionais aventureiros que nada temem...
O nosso sorriso é parvo e cola-se aos nossos lábios de 24 em 24h sem períodos para folgas ou descansos..como a nossa boca trabalha feliz quando fabrica um beijo!
O amor quando sorri para nós dá-nos a imortalidade...porque se morrermos abraçados é certo que subiremos aos céus...

E quando o Amor fica negro e o lado mau do sentimento vem ao de cima galgando a escuridão?
Falar do lado mau do Amor...é como falar de nada e de coisa nenhuma,porque já nada ali acontece...é dividir o que o Amor um dia uniu...é cortar em pedaços o corpo já sentido por inteiro...é vê-lo deformado em qualquer espelho..é quebrá-lo e imaginar os anos de angústia que nos vão olhar de frente.
Quando já não há amor, só os defeitos nos prendem a atenção..Tudo se nota! Aquela pequena nódoa caída no peito que antes não estava ali..aquela dúvida nojenta que ficou sem resposta..aquela culpa malvada que adoptamos como nossa e provavelmente não será a culpa de ninguém...
Os erros surgem demasiados grandes e já não se medem aos palmos...o mínimo deslize é desculpa para uma tempestade nos encerrar todos os caminhos que iam dar á luz e passamos a viver como morcegos..ávidos pela escuridão porque a claridade fere.
A chuva é fria...cai gelada nos ossos..o sol parece que perde o calor...o Inverno é a estação das despedidas e de todos os silêncios que crescem gordos e satisfeitos com os restos de uma separação.Aqui jazem os abutres e os corações abertos devoram!
As manhãs acordam com os olhos inchados e as noites são amaldiçoadas...trazem memórias e confusão.
Respirar é um alívio..por vezes pensamos que a escuridão até nos pode sufocar...ficamos hipocondríacos da dor e pedimos para encontrar o ar que gastamos nos gritos ao vazio.
O suspirar é a nossa língua quando enterramos os olhos no chão ao pé dos nossos ossos. Descobrimos que afinal temos fé e queremos acreditar...
O medo arrepia-nos e incrivelmente tudo nos mete medo...até a pequenez da nossa sombra..paralisamos quase sempre..damos um passo atrás onde o chão estava seguro. O desconhecido causa ansiedade e já não desejamos mais surpresas...
O nosso sorriso é puro...porque é raro. É quase uma jóia preciosa que só brilha lá no fundo quando ninguém a vê. Temos medo que alguém leve o nosso sorriso outra vez e o abandone bem longe de nós...Disfarçamos as nossas riquezas atrás das lágrimas e semblantes tristes ..baixamos as bocas em sinal de respeito pelos sorrisos que já nos foram roubados. O Amor foge...
Como a nossa boca por vezes já nem sabe o que fazer...bocejamos aborrecidos e apáticos mordendo os lábios até sangrar para a saliva recuperar uma percentagem do seu gosto.
O Amor quando chora põe os olhos na Morte e sente-a por perto quando se desfaz em lágrimas e ninguém o escuta..estende a mão e ela volta vazia..
Aqui descobrimos que somos mortais e que deuses são os outros...a felicidade foge se não a agarrarmos com força sem a pouparmos da liberdade.
É a mais incrível descoberta...não queremos morrer sozinhos...


Daniela Pereira in O Amor é uma invenção por acabar
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domingo, agosto 09, 2009

Um coração (in)válido




Se o meu coração fosse um barco
a navegar com velas vermelhas
pintadas contra o vento...
O meu amor seria a ilha deserta...
porque o meu desejo naufragou...

Se o meu coração fosse uma serra
já teria rasgado o horizonte
de alto a baixo
para encurtar as distâncias...

Se o meu coração fosse de chocolate
desconfio que hoje não se derreteria
à primeira chávena quente oferecida...
Mas não nega
que deixar de sentir frio por dentro
lhe ia saber tão bem...

Encomendei aos Céus...
Flores para dividir com a terra
que encontrar no meu caminho...
Quero tirar o cheiro a pó
que as pedras ganham
quando os passos andam de costas voltadas
a trocar a direcção às voltas da vida...
Visto malmequeres a todas as lágrimas
mais duras que chorei
e a minha dor já tão madura
há-de ostentar cravos verdes no pescoço
para se sentir original....
Porque a tristeza
quer-se sempre mais bela
para alguém a apreciar...

Sevilhanas e santolas arejadas
vão dançar em cima do destino
até ele me pedir a conta
reclamando que o meu direito à festa chegou ao fim...
Há-de haver um doce para a sobremesa
e um vinho rasca
para beber à noite num jardim...
Sonhos que ficaram á porta
com medo de pedir para entrar
e palavras rotas
que se descosem na boca
sem dinheiro para sair...

Quebrei mil tormentas
sem promessa de ver o limite da tempestade...
Dobrei perdões de joelho
ao vento que passava por mim a assobiar..
e ao fim ao cabo
nada de novo se alcança
num mar onde os sentimentos se afogam
e as recompensas ficam guardadas...

Há sempre um mar bravio que nos rouba a vida boa no meio da viagem...
Há corações inválidos que perdem o prazo para amar...
Joguem-nos borda fora que atrás vem carne branca para trincar...
Estes estão crus por dentro...sabem a sangue ao paladar...

Daniela Pereira in (In)validar
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domingo, agosto 02, 2009

Às Horas mortas...






à meia noite e trinta e sete a caneta escrevia um ponto final...

Hoje queria adormecer sem dar tempo para os pensamentos se instalarem. Gosto de lhes retirar todas as almofadas e encostos, na esperança que façam cama noutro recanto...bem longe do meu parapeito.
É para lutar outra vez? Para ir inventando um ou outro sorriso no vão da escada...Então invento um chão que me suporte o peso ao cair. Tudo para sofrer com o corpo mais leve...
Tenho uma rosa vermelha no coração...desfolhada por um belo milho rei e canto lindas cantigas com os dedos em arco e um rouxinol engripado na barriga. Sou rainha e o meu trono é decorado com letras azuis e versos brancos.
Queria dizer que amanhã vou saltar para outro lado onde os mortos renascem ,mas estranhamente sinto-me bem aqui...nesta realidade tão distinta dos meus sonhos.
Fiz bem em aterrar nesta montanha, para não ter que pedir ajuda quando quiser subir outro coração que se diga gigante ...
Já cá estou no alto...fitando o mundo tão pequeno a sorrir a preços bem baratos lá em baixo..é educado sorrir mesmo que no teu peito rebentem prantos...
Não me apetece sorrir..posso passar o meu sorriso para aquela alma que está ali ao lado,só para não me esquecer como se faz? Posso?..
E um grito..posso dar?
Daqueles gritos que nos arrancam os restos cravados a jeito e nos elucidam a mente quando se calam..
Expurgar os fogos que nos consomem por dentro com um par de lágrimas bem dado...
Tens razão devia pular como os macacos entre as revoltas e impotências que me cercam os ramos verdes no olhar...
Podia também traçar um projecto de fuga à incompetência sentimental atribuída à dor, realçando todas as linhas por onde caminhei à beira da estrada e onde fui atropelada ao primeiro passo em falso..e lá fiquei abandonada na berma com os sentidos desencontrados.
Igualar a estupidez de um silêncio à dureza de uma palavra libertada quando o mundo nos parece querer irremediavelmente fugir e a querer lhe dizer insistentemente .."Não fujas daqui!"
Não adormeci...tenho medo do amanhã, mas cruelmente ainda respiro...
Dar um murro na mesa por vezes não faz o coração parar e eu gosto quando sei que o meu ainda bate...
Estender a mão , não é promessa de receber outra mão apertada na volta..podemos receber um laço apertado ao pescoço ou regressar com a mão ainda mais vazia e sufocar de admiração... A lei da Vida teima em ser assim... distorcida..
Não vais chorar mesmo que os teus olhos implorem esse direito a uma descarga emocional de joelhos! És mais forte que todos os mares onde já te afogaste..tens a prova vida nos teus dedos que ainda estão secos e nas palavras que mesmo húmidas não param de jorrar alheias à tua mão que já se queixa dormente...
Mais um minuto acordada e conheces-te mais um pouco..vale a pena aldrabar o cansaço.
Vais fechar os olhos à tua luz,só porque a noite a razão em ti quer cegar?
És um padrão amargo no tecido mas és tão doce no rasgar...


Daniela Pereira in Às horas mortas
Direitos Reservados

domingo, julho 26, 2009

No teu encontro existe um Eu estranho...





quando a alma transborda...

No teu encontro..entre os espelhos e os canaviais da mente existe um Eu tão estranho para mim...
Tens o meu rosto, mas não és igual ao meu pensamento...tens fagulhas nos olhos e cinzas ruivas por apagar...
És a minha gema ao contrário...mas eu sou mais clara por dentro do que a galinha dos ovos de ouro que te habita os gestos...
Burros são os trapos que já foram vícios luxuosos mas baixaram as costuras só para que os visses com a cara em farrapos e por isso rasgaram a seda que traziam no pescoço...
Toco-te... prevejo tudo o que não vejo mas sinto..
Bola de cristal adormecida que o destino deu guarida só para adivinhar o teu futuro e tu foges para trás?
Sei que tens a mão do outro lado...no infinito e nas três dimensões onde foste feliz...
Queima a tua transparência quando voas com chamas na boca...lavei os ventos e as poeiras

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, julho 11, 2009

A escuridão também sonha com estrelas..




Foto da autoria de Daniela Pereira
(c) Direitos Reservados

"Não é permitida a sua reprodução sem autorização prévia da autora"


Fecho os olhos...por pouco via a lua nos meus olhos..bastava-me estender-lhe a mão.
De prata era o teu luar..de ouro a tua melodia...
Tenho uma teia presa aos meus cabelos de tanto unir pontas e nós no mesmo espaço de terra ...e poeira nos ouvidos que o silêncio cimentou numa só tecla tocada...
E o amor é um ponto de fuga para onde todos fogem com ilusões pintadas no olhar sempre de veias acesas e um coração por velar..
E matam-se as paixões com almofadas brancas que lhes abafam os gritos e renascem as escuridões e o luar fica à espera que o céu alise as pestanas para puder de novo deslizar na pele dos amantes e fazer-lhes um filho...
Boca seca...coração molhado..malmequeres sentados nas cadeiras e tulipas negras que te comem o pé da mesa...
Caracois no peito a rastejar e asas nas costas ..és um pássaro de fogo..fénix a festejar
Olhos abertos..coração parado no meio da sala..braços estendidos dançando num chão com todos os passos dados à volta do tapete..és uma borboleta com cores espalhadas no rosto...há flores no meu jardim e elas sonham
Fecho os olhos..por pouco era apenas Mulher...abro os olhos..ainda sou pedra de olhos posto na água que no rio é sempre tão doce...

Daniela Pereira
Direitos reservados

sexta-feira, julho 03, 2009

Liberdade denunciada




Cansa-me a incerteza dos poetas na doação ao mundo...
Os dedos por onde escorrem corações enlameados e outros tantos cobertos de laços e de promessas com calda de açúcar...
Se eles tivessem um punhal seria para cortar as veias ou as margaridas rasteiras no campo logo pela manhã...
São eternamente descobridores que não darão novos mundos ao mundo..apenas o olharão de forma diferente descobrindo-lhe os jeitos e os trejeitos com ganas de saber.
Cansa-me a irmandade dos Deuses e dos Anjos...sempre abraçados aos sonhos de alguém sentindo que os sonhos dos mortais serão sempre inferiores aos seus. E nós que queremos ser apenas perfeitos, porque as imperfeições condenam os desperdícios daquilo que falta sempre... suspiramos de mais..nós os que pertencemos à raça dos poetas! Imploramos até ao vento que passe que leve a brisa para outra direcção quando ela golpeia vendavais... esquecendo de pedir licença até para voar.
JUlgamos-nos livres de asas nas canetas com o peito a soletrar baixinho aquilo que não conseguimos dizer alto com medo que metade do mundo nos julgue almas amargas. E então lembramos amores e os aromas dos rosmaninhos como se cheirassem ao mesmo e ficamos podres quando a pele que se deita ao nosso lado teima em cheirar a papoilas...que injustiça. Dá vontade de esfregar a pele até lhe ver os ossos e apertar com força a medula para ver se ainda temos algo nosso para doar.
Cansa-me a incerteza dos poetas na doação ao mundo...
Por vezes parece que nos estendem esmolas..outras vezes parece que o mundo nos cobre de ouro e somos mesmo ricos. Ricos na dor sentida...ricos nas paixões incendiadas..ricos no amor carpido..ricos nas despedidas inesperadas...tão ricos e tantas vezes apenas nos sentimos sós. Às vezes só queria poder andar de alma rasgada pelas ruas ...sem ninguém a olhar...livre das minhas poeiras ..

Daniela Pereira in Liberdade denunciada
Direitos reservados

segunda-feira, junho 29, 2009

Alfabetizar....


Foto por Daniela Pereira
http://olhares.aeiou.pt/estranha_forma_de_vida_foto2877585.html



Planificar...fazer um plano partindo de um nada não realizado. Realizar uma ideia...esboçar traços num paralelo que nunca se cruza com a mesma curva mas que ergue pedras no desejo de construir muralhas.
Construir..acto de desmoralizar o caos tornando-o em algo indiscreto mas perceptível ao olhar mais competente mesmo cercado de sombras e de certezas não registadas.
Sonhar... inventar uma história sem pés nem cabeça acreditando que as personagens sorriem porque te acham graça e não porque te acham ridículo. Ridicularizar.. fingir que és perfeito e que as tuas imperfeições não importam no peso de uma balança. Equilibrar prós e contras disfarçando o desprezado com corações cor de rosa esculpidos numa árvore sem ramos..
Reacção..acto de ser emotivo perante uma acção animal e estranha às tuas rotinas. Deslocar a poeira debaixo do tapete para ver se existe pó no teu passado escovado debaixo da tua cama. Cabelos de ouro arrancados onde existiam caracóis negros caídos ...
Imortalizar... encontrar uma forma de não esmagar um sonho, imaginando que foi pura realidade contra todas as anotações que anunciam a morte do que nunca existiu...
Inteligência...propriedade
dos que julgam que todos os outros são apenas mais um conjunto de parvos iguais a todos os parvos que inteligentemente conquistam...O problema é quando os parvos percebem que o são e interrogam a inteligência sobre o rótulo que lhes pregou no peito e o arrancam à força procurando os miolos que estavam desactivados quando o corpo apagou..
Crédulo..aquele que acredita sem contestar que o céu é azul porque as nuvens chovem no terreiro dos outros..aquele que faz dos sentimentos um cavalo de batalha sempre com uma pomba da paz a vigiar ao longe a sua caminhada e não vê que existe sempre um caçador ao pé de si...
Maresia... a brisa que nos recorda das madrugadas e do perfume das ondas do mar sentidos num acaso..por acaso e sem acaso algum se desvanece...

Daniela Pereira in Alfabeto dos que nunca aprenderam a ler...
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quinta-feira, junho 25, 2009

A menina dos olhos de água ...





A menina dos olhos de água que trazia peixes no olhar afogou-se de peito aberto..
jurando que nem com a alma coberta de sal deixaria de ser doce
e chorou com o coração a transbordar de mel grosso..

Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, junho 21, 2009

Diário do que nunca escrevi em ti...


Foto pela a autora Daniela Pereira

É quase meia noite...a hora dos pardos e dos murmúrios inacabados.
Hoje escrevo apenas para a minha escuridão...mas sei que uma luz vigia-me..ténue e fraca ensonada com medo de me ver cegar quando cerro os olhos aparentando já algum cansaço em demasia...
Mas nenhum sonho me derruba sem que eu me liberte de todas as minhas fantasias...e os pobres dos pesadelos ficam em lista de espera, esperando o meu adormecer sossegados.
Faço tranças no cabelo para recuperar alguma da minha inocência....saudosa da minha doce escravatura... Talvez não saibas, mas o monstro aqui um dia já foi criança ingénua ao pé de ti...
Lembro-me de ti e choro...talvez chore porque já te esqueces-te ou talvez soluce apenas porque há muito tempo atrás eu nunca te conheci...
Recordo com precisão de todos os recantos em que te beijei e todo o amor sentido que deixei espalhado com as tuas roupas, só pela pressa de te amar antes de não te ter aqui...no mesmo espaço desocupado em mim onde já não te tenho..
Afirmo com toda a determinação que os lençóis da tua cama eram sempre brancos e que a colcha que nos cobria no Inverno respirava em japonês e via filmes eróticos legendados a preto e branco para disfarçar o vermelho que lhe corria nas veias...tudo para não estragar o nosso cenário romântico.
Reconheço o aroma a rosas das velas que guardavas religiosamente no fundo de uma gaveta e todas as músicas que esperavam por nós em cima da mesinha de cabeceira..
E lembro-te até...fiel à estupidez que existe em todas as memórias desconexas...e lembro-me até daquela dança...daquela valsa abraçada com a tua roupa no meu corpo, despida do resto do mundo guiada só por ti...ali perdi a razão com gosto na melodia dos teus passos.
Tinhas uma lua cheia pendurada no tecto e todas as noites tenho que confessar que sentia uma vontade irresistível de a roubar só para mim para te deixar nu de toda a escuridão e sorria matreira enquanto respiravas ronronante.
Nunca vi o sol nascer no teu quarto, porque não me lembro de alguma vez ter adormecido quando desejava apenas ver-te a sonhar....Era mais feliz acordada, desperta de qualquer tentativa de encontrar um ponto fraco naquela ilusão e depois era ver-me a amar de olhos abertos pela noite fora...
Já corri descalça no teu chão depois de refrescar o corpo na tua banheira..Repara que digo sempre "tua" porque nada neste espaço foi um dia também um pouco meu...passar ali rasando perfume no corredor não te mudou os cheiros entranhados no design das paredes.
Tinhas umas lareira na sala, que por acaso nunca vi acesa...mas nunca senti gelar uma só emoção mesmo sem as labaredas crispando na tua fogueira... .
Fugia do frio calcando ligeira o negro do tapete e pulava para o teu leito feito sempre à
tua medida..
Partias e repartias livros e construções projectadas com o pó instalado nas prateleiras...Candeeiros à solta e outros tantos suspensos por um fio ou enroscados em teias complexas que não os deixavam cair ao chão... num equilíbrio perfeito, todos ficavam desejosos de iluminar a tua fácil solidão.
Tinhas gosto a tabaco e a todas as guloseimas que durante a tarde engolias..confundias-me os sentidos quando me beijavas com tantos sabores encruados na língua .
E os teus quadros? Tinhas quadros traçados por ti a exaltar a cor das paredes com amores passados que se exibiam em poses sensuais lembrando instantes onde o teu chão foi um enorme colchão de água...
No teu quarto nada te era familiar..apenas molduras sem rosto esperavam que um dia lhes devolvesses alguma alma e ficavam a olhar insistentemente para ti à espera que ainda as reconheças depois de despejadas das muralhas do teu castelo encantado.
Na sala tinhas ainda um sofá branco onde cavalgavas em mim quando o teu corpo adivinhava para onde queria ir o balanço do meu...e ali descansavas as tristezas e saciavas a tua fome por entre montanhas arrepiadas molhadas pela tua boca...
E trocávamos carícias só por trocar..porque era bom ter o que partilhar e um dia prometemos que nada ficaríamos a dever um ao outro porque teríamos sempre algo para dar...e os meus olhos brilhavam quando te sentiam numa cumplicidade que sussurrava perto de mim e afinal..afinal desconfiavas de todas as promessas com pensamentos que iam para longe...
Conhecia-te as curvas do pescoço..o peso das tuas mãos afundadas na minha carne e enterradas bem fundo na minha alma..adivinhava porém quando ias soltar aquele sorriso oblíquo e até a pele das tuas orelhas sabia ser presa a cativar por mim...
Por uma suposta curiosidade na tua cozinha não havia pão quente pela manhã...
A madrugada era quem nos alimentava sempre que nos ouvia os gemidos e as noites foram sempre acolhedoras para contarmos as horas com paixão...
Por vezes quando o silêncio se fazia sentir entre nós...eu erguia os dedos no ar como nas carteiras da escola e desenhava-te no vazio preenchendo-te pedaço por pedaço na união do meu olhar...depois repetia-te gulosa já nos teus braços e com toda a minha escrita amarga e doce fluías em mim como se fosses o meu mais rico poema...

Tristes são as memórias que já não faz sentido rever...porque sabemos que hoje florescem sem o calor das mãos que outrora as afagavam para que elas se pudessem fechar encontradas.

Felizes são os espinhos que nada têm a temer das feridas que consentem...

Olho para o relógio e as horas pardas ainda cá estão..são meia noite e meia eu com tanto ainda para dizer. Desculpa, mas ouço uma voz dentro de mim que me grita a medo vinda de algum canto virado do avesso... "Para ti poetisa, acabaram-se as folhas em branco e o coração a bater...adormece mais linda e segura porque não há mais nada para o teu pensamento decorar...porque tu já conheces esta história de cor...

The End is now..

Daniela Pereira in "Musas para trás das costas"...
Direitos Reservados

quarta-feira, junho 17, 2009

Drop

Porque o amor só pode ser simples para quem simplesmente nunca se atreveu a amar...
Todo o sorriso que morre tem que renascer da última lágrima até que o nosso rio chegue a um fim...
Porque o amor só pode ser chuva quando refresca e sol quando nos aquece...mas de pouco serve se numa tempestade não fizer dos braços um guarda-chuva para nos abrigar e se dos girassois desfolhados não guardar uma única semente...
Toda a magia se extingue quando o olhar desconhece o que era uma sombra de nós próprios de tanto a vermos ao espelho...depois sopramos o pó que ficou nas lembranças e nas marcas que ainda te parecem querer perfumar a pele... Trocamos de rosto...vincamos decisões e explicações sem nada saber para além de uma carne que sabe a vinho do Porto envelhecido....ironicamente sentimos que estamos mais sóbrios do que nunca e mergulhamos no desconhecido outra vez cheios de coragem...

* my sweet child

Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, junho 07, 2009

Das pedras do teu chão fiz-te um caminho...





Caminhou...caminhou decidida a ir lado nenhum...
Partiu à procura de nada, certa que só assim o "tudo" a encontraria...reconhecendo-a pelo vazio que levava bordado junto ao peito.
Pensou que o Sol poderia ser o pote de ouro que em sonhos os duendes lhe falavam...e esqueceu as estrelas inventadas sorrindo para as cascatas...
E se todas as aves fossem douradas?
Mataria a fome de todos os corações pobres com penas e ouro...
Mas se as aves do paraíso fossem mortas...não ficariam mais tristes os jardins?
Porque não pintá-las de azul e pedir-lhes que o mar se acalme outra vez?
Vingamos o tom que nos foi roubado e exigimos de todas as pedras do chão um rigoroso silêncio...Não haverá uma segunda oportunidade para aquele grito em vão...
Fez círculos na parede... mas o maior apesar de ser de linha fina não se fez rogado e engoliu todos os pequenos só porque pesavam toneladas nas cores sóbrias da parede....
Comem-se uns aos outros...assim como se devoram as Mulheres quando um Homem se sente mais só...
Partimos à procura de "tudo" com os olhos cheios de um nada esperançados que o amanhã nos erga das memórias célebres taças...
Existem vitórias que sabem a pão caseiro e vinho branco em cima da mesa...
Existem derrotas que cheiram a tabaco e a sofás de pernas curtas...
Mas caminhou com o horizonte queimando-lhes as entranhas...sentindo as rugas que lhe apertavam o pescoço e as mãos amputadas que ainda lhe percorriam o corpo à procura de carne para trincar...
E os olhos já não tinham espaço para o rio que caminhava junto dela...o tempo parecia parar sempre que ela sorria...
Convencido que aquele sorriso não ia durar para sempre apenas por ela o futuro chorava...

Daniela Pereira in " Poeticamente falando do corpo para não prosear a alma"
Direitos Reservados

terça-feira, maio 26, 2009

pequeno...ALMOÇO





Doi-me o céu do meu corpo e alimentá-lo a estrelas cadentes já me enjoa...
Doi-me o jardim da minha alma e plantá-lo com nespereiras já não me mata a fome...
Sinto os sonhos a vomitarem por mim mesmo de estômago vazio..este chá arranha-me a garganta mas não sais para fora nem com um impulso vesicular...chove-me o coração por dentro em gotas de chumbo grosso.
Um analgésico para as dores, porque o corpo precisa!
Um analgésico para a alma porque desconfias da inteligência que te bate à porta e te diz..."cuida de ti" e loucos são os outros de quem sempre quiseste cuidar e hoje te chamam assim sem pensar em ti....
Doi-me a palavra que não disse com bolachas e chocolates a entupirem-me a boca...
Doi-me a palavra que disse com chá de limão na língua...
Doi-me a frase que deixei sair polvilhada a sal...
Soro açucarado para as veias porque o teu corpo desidratou...
Não há um soro açucarado para espetar em cheio no coração quando o dia amarga?....

Daniela Pereira in "Resíduos vesiculares"
Direitos Reservados

foto na galeria olhares: http://olhares.aeiou.pt/pequenoalmoco_foto2796643.html

segunda-feira, maio 25, 2009

Pintas com morangos...

Foste semeada à beira mar... para que as ondas alimentassem o teu corpo e os búzios gravassem os teus gritos de semente a germinar...
Mas foi o mar que comeu o teu corpo só porque sabias a sal e todos os peixes se sentiam em casa arpoados na tua boca...
Valeu a pena nasceres de pé nu na areia e com a cabeça voltada para a lua?
És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...só no chão reconheces que ainda não estás madura e choras a pele que te foi arrancada com todos os segredos que deixaste fugir por entre os dedos molhados...A lua elogiou as tuas fantasias e no luar escreveu-te a alma num só poema mas rasgou-te o coração num mil folhas a desgosto...
Valeu a pena nasceres despida de silêncios e de beijos sem sumo?
Laranja ou limão?
Pau ou pedra?
Cresci com raízes enterradas numa folha de papel perfumada amando loucamente cada rasgo que trago dentro de mim...







Valeu a pena as lágrimas e a perdição...
Valeu a pena fazer um filme com o Eduardo mãos de tesoura a recortar o céu só para mim ...
Valeu a pena viajar por mares desconhecidos com um Pirata das Caraíbas que respirava mistérios pela boca...
Valeu a pena ser a Bela Adormecida à espera "daquele" lobo encantador ao acordar...
Hoje sou a bruxa má de todos os filmes...que bela ironia

És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...
Laranja ou limão na tinta com que escreves a tua história?
Deixa lá...
Pintas com morangos e velas acesas...



Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, maio 17, 2009

Asa e meia..borboleta...





Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Levas o arco-íris mais que perfeito na tua pele de seda e o sol até cora ao ver-te passar...
Sobrevoas a lixeira dos outros e lanças perfume em todos os restos esquecidos...
A noite adora ver-te sonhar livremente e louca quando danças ao som do luar rasgando palavras de fogo no horizonte...Que louca és borboleta quando atiras o teu coração pela boca e ficas a vê-lo suplicar o teu amor...
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Amas os lírios com a mesma intensidade que amas qualquer folha caída que vês no chão...
Amas o mar que te amedronta e mesmo assim não deixas de o amar...Que destemida és borboleta que voas com espumas passadas enroladas no teu corpo...
Que orgulho sinto de ti borboleta porque és diferente das borboletas que vejo partir rancorosas...tu apenas chegas fiel e doce e ficas eternamente fundida nas pétalas de um qualquer jardim de flores de aço...
Tens mel no coração e não tens vergonha de dizer que te falta o fôlego para o próximo voo porque tens medo de voltar a cair amarga..
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia e de uma alma remendada para voltar a sonhar...
Se te esmagarem o corpo sabes que a tua alma voará por ti...
Asa e meia borboleta..asa e meia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, maio 13, 2009

no words

Triste...definição de tristeza não possuo e mesmo assim sinto-a em mim....
A ausência de sentimentos é uma mentira que nunca devia ser pronunciada por nenhuma alma..definição de vazio..acreditar que não sentimos nada dentro de nós...definição de mentira...acabei de a dar,porque até vazia de um alguém esse alguém nunca deixa de existir no meu sentir...verdade

segunda-feira, maio 04, 2009

Heart sound





É música para os meus ouvidos tanto silêncio...
Em todas as notas que ficaram por tocar..ficou um grito por nascer..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
E nos telhados já corri louca e vagabunda..felina madrugada que te fez partir..
E já contei tantas histórias e inventei tantos finais sem me lembrar sequer de onde atracavam os inícios que me ficaram a deriva da mente...
E abanei a cabeça para dizer Não e a música tocava lá bem ao fundo e os dedos diziam Sim e a boca reconhecia o apelo de um "Já"..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
Posso ouvir rosas a respirar no jardim e todos os tons do vento...posso engolir pássaros sem os mastigar e ficar a vê-los a voarem no estômago..
Sou tão feliz assim!
É musica o que ouço..está parado o coração?
Que me importa...amanhã bate outra vez noutro compasso...

Daniela Pereira in O coração é uma bomba prestes a rebentar....

Direitos Reservados

http://olhares.aeiou.pt/heart_sound_foto2739723.html

sábado, abril 25, 2009

Ode ao carrasco do amor...




Já respirei!...

Ia jurar que já tinha respirado
mas o sangue ainda ferve
e nas veias corre
sem previsões para abrandar...

É pele que cravas nas unhas ou são máscaras que te caem da carne
agora que despis-te a tranquilidade que te vestia o rosto?

Tens os olhos inchados e o nariz está torto
por tantas verdades em ti suportadas...

Vi-te ontem...trajado de bom menino
chorando aos pés de alguém...
Ajoelhei-me e rezei..
pedi ao infinito para te roubar a leveza da voz...
para que o tempo fosse implacável
a sufocar-te em lembranças..
Por cobardia confesso
que menti em todas as preces
e que ontem pela primeira vez
não pensei em ti...
Não te deixes enganar pelas palavras...
estás calado aqui dentro!

Respira!
Já respirei..
jurou um pulmão
esfomeado por um pouco de ar..

Dou uma gargalhada
e a saliva já me cospe o sangue
do último murro que do meu peito
fez carne ferida...
Que gosto terá o ar quando é puro?

É pele que cravas nas unhas ou o teu choro é de pedra agora...
que me farejas de longe todos os ossos?

Tens a boca grande e os teus dentes trincam sobras
como se o teu estômago fosse a única sobremesa que engoles...
Lá bem no fundo ainda exibes orgulhoso
restos do último piteu
que te jazia no prato aquecido...
Enriqueces pela ponta da língua...
nunca pela ponta dos dedos...

Inspira..
Já inspirei
acena um pulmão
vagamente interessado no meu novo respirar..

Fecham-se as bocas com fome e a sede de sufocar mata-se pelo nariz..
porque das peles expiradas já nada resta...
Foi o carrasco do amor que já me levou a alma
para o cume das montanhas
onde o meu sonho fala sempre mais alto que a dor...
O corpo dorido?..
esse atirei-o ao mar cansada de tantas alianças...


Respira...

Já respirei...

Daniela Pereira in " O amor pressupõe dois lados opostos"
Direitos Reservados

segunda-feira, abril 20, 2009

Gritar de tras para a frente...


Se eu não disser nada terei no silêncio a contenção de um tudo?


Sinto um amargo na boca e a voz desce dormente para o fundo da garganta...o choro rasga-me todos os gritos e no entanto ainda guardo sozinha um sorriso dentro de mim.
Que bela lutadora eu sou! Já bati nas paredes 4000 vezes e todas as nódoas se voltaram contra mim. Chamam-me estranho ser por querer perto de mim o que me faz bem...
Irreal e sonhadora por acreditar num sentir...estranha forma de vida um dia nasceu em mim.
Pega-me ao colo anjo invertebrado ..pega-me ao colo que estes passos já não me levam a lado nenhum...
Se eu rodopiar um pouco mais devagarinho,alinhas-me a alma que ficou fora dos eixos?
Às vezes posso jurar que vejo o mundo ao contrário...que os rios estão secos e que os jardins são todos de cimento.Que as flores são cinzentas e que as crianças correm apenas porque fogem dos papões...já não trepam às árvores nem fazem desenhos com as pedras do chão...
Que em todas as nuvens existe uma chuva por cair e que em todos os sois se escondem buracos negros para engolir num dia marcado toda a minha luz..
Não existem lágrimas que durem para sempre, nem amores que sejam sentidos em vão...mas existem vazios e corações molhados em todas as ruas do amor.
Há punhais por cima de todas as cabeças prestes a cair e apunhalar-te a beleza das memórias em cada hora que sai do relógio...
Há fitas vermelhas despidas dos cabelos e beijos esmagados nas mãos...
Há um mar que nos quer afogar e uma onda que nos salva incomodada pelo gosto doce que temos na pele..somos cuspidos para fora da revolução como se os lobos pudessem ser cordeiros mansos e as formigas soubessem como trazer a paz às guerras de um gigante...
Ai se os anjos fossem mesmo desprovidos de sexo poderiam viver eternamente a sentir o amor dos humanos..porque só ele em nós é imortal. O corpo é um pedaço de carne que a dor apodrece...imoral é deixar que a alma morra...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, abril 18, 2009

A fórmula dos amantes





O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!
Não chores à minha frente
nem me cortes o pescoço...
Sabes que a dor não é minha
e o teu sangue suja-me o rosto.


O mundo é um desfile de corpos bem apurados...
então diz-me donzela
porque não tiras já a roupa
nos meus lençóis perfumados?
Já te disse...Je t'aime e ternamente amei-te em francês .
Não te faças de rogada e vem foder loucamente com este belo português!

Tens uns olhos tempestivos e os teus beijos ..até são frouxos..
que importa cinderela...só quero trincar a carne tenra das tuas coxas.
Podes também dar-me os teus seios ,nesta festa o corpo é rei.
Matas-me a fome por gosto
e explorar-te livremente faz parte da minha lei!

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!

Dar flores e namorar são provas de pouco uso,...
vamos mas é rebolar lá para as dunas do Araújo!
Amo-te tanto que o meu corpo não sabe estar parado à tua beira...
Dizem os astros sabidos que quero lamber-te a pele para a vida inteira!


O mundo é um catálogo de paixões entusiasmadas...
Hoje pinto-te nas paredes
és a mais bela das minhas musas...
Vem deitar-me ao meu lado que esta solidão já arrepia...
Sabes que amanhã já não estou cá
e aproveita porque facilmente desapareço por magia.

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã tu já não prestas!

Nesta corrida contra o tempo
O amor já não tem posto...
namorar é solitário,
vamos fazer uma orgia
porque sexo a três é que dá gosto!

O mundo é um catálogo de relações temperadas às pressas...
Hoje amo-te com cuidado...porque amanhã linda menina..
tu já não prestas!

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, abril 16, 2009

Haverá sempre esperança no fim de uma utopia...




Penso que a vida é feita de encontros desnecessários e de desencontros desperdiçados em ruas com cruzamentos mal calculados...
Talvez fosse bom parar um pouco e ficar a olhar apenas para a perfeição das estrelas...


Haverá sempre um sorriso atrás do espelho desejando a eternidade das sombras...
Uma pintura nos lábios que não combina com o desenho idealizado na tela..."falta-lhe algo" pensarás tu quando vês o teu sorriso a desmaiar cansado...
Faço caretas ao espelho..talvez assim ele mude a expressão da sua tristeza para traços menos duros. Vou alugar um palhaço a um circo qualquer que encontre a actuar na estrada...Afinal ter sonhos não é proibido..e o algodão doce não engorda a alma

Daniela Pereira

terça-feira, abril 14, 2009

Conjunções despropositadas




Tenho tantas palavras entaladas cá por dentro..que o melhor é trincá-las com força quando tocarem nos meus dentes.

Prefiro migalhas a pedras duras..prefiro pão tostado a um pedaço de chão. E as palavras rimam e nada dizem umas às outras...conheço-as assim. Pesadas no toque e doces no olhar..meras palavras.Conjunções despropositadas e pronomes por vezes tão impessoais que de longe não me parecem descrever nenhum pedaço de gente...mas ao perto sou um micróbio debaixo de uma lente que o tempo não consegue ampliar. E fico assim..pequena a abraçar alguma poeira que deixei cair...

Prefiro cravos vermelhos às margaridas amarelas...prefiro um mar resmungão aos calados rios turvos. E as palavras não rimam e tudo dizem umas às outras mas esqueceram-se de aprender a ouvir aquela letra minúscula que ficou presa ao teu rodapé...E ela balança..balança e o vento não lhe pede para voar e ela casmurra vira-se de pernas para o ar só para contrariar...

E as palavras rimam e chocam umas com as outras..acho que querem dançar..mas há quem diga que querem mesmo é fugir da vergonha. De boca fechada sempre serei o vosso destemido ninho...



Daniela Pereira in "Despropósitos aceitáveis"
Direitos Reservados

sexta-feira, abril 03, 2009

O céu fica ali mesmo ao lado...




.E se todas as escadas tivessem como destino mais próximo o céu...subias mais um degrau ou ficavas parado a pisar a porcaria que brilha do teu chão?
Hoje o céu está mais azul e as nódoas do teu peito têm aroma a limão...
Há uma lua deitada no fundo de um poço..jura a pés juntos que já fez nascer no seu regaço pedaços de luar. Porque dizes que é mentirosa..se quando pedias estrelas ela dava-te imediatamente todas as que tinha na mão?
Hoje o céu está mais azul..eu sei! Pintei-o às pressas antes de adormecer com a tinta desbotada da camisa de dormir...Ontem estavam mais vivas as cores, mas chorei e o veludo enfraqueceu....tenho pena,porque o azul sempre foi a minha cor.
É injusta a chuva que cai quando o sol está farto de esperar para me ver...dá-me raiva ver aquelas nuvens mal paradas que não atam nem desatam no meio do caminho. Lembram-me a inflexibilidade da tua mente.Tenho vontade de lhes dar pontapés até as ver cair de lado...
Há um mar que descansa tranquilo nos meus olhos...são gotas ainda não caídas a aguardarem a sua vez na borda do rio...e a lua lá no fundo a jurar que é verdadeira.
Se eu descer mais um degrau na tua escada,será que o céu ainda se recorda do meu encanto?

Daniela Pereira in "O céu é mesmo ali ao lado.."
Direitos Reservados

sexta-feira, março 27, 2009

Suicídio imprevisto



Eterna sangria...

Mato o meu amor por ti e fico a olhar para o peito que ainda sangra..lentamente quero esquecer o que os olhos já viram. Talvez se eu fosse uma vez mais cega não me visses rodar os lençóis na cama à procura do teu cheiro no branco.
Tenho que matar o meu amor por ti..ouvir os teus gritos..comer e calar.Fiz um punhal aguçado das palavras que me deixaste nas insónias e é com ele que te mato. Perfuro as memórias vezes sem conta, para ter a certeza que amanhã não haverá restos do teu riso nem pegadas do teu corpo pesado em cima do meu.O anjo perdeu a humanidade e converteu-se numa fera sem perdão...Tiro-te os olhos se voltas a olhar para mim! Mas tu também já não olhas...não me viste chorar nem suplicar ao teu Deus que fosse brando com a minha dor. As lágrimas confesso que durante algum tempo tinham travo a mel...era a saudade a refrescar a loucura..ainda meiga e doce. Hoje as lágrimas não têm sabor, não me sabem a nada e apenas me molham o rosto piedosas. Sinto-te..mato já o meu sentir se me trair a voz e me libertar os dedos...não te quero sentir..dás-me arrepios na alma e ela já tem tanto frio.
Mato o meu amor por ti...e eu não sei matar..
Sei fazer florir rosas nos desertos e erguer escadas para te ver chegar mais longe nos teus sonhos...porque me cortas hoje as pétalas e me esmagas as pernas?Quero caminhar nas brisas mornas das tuas costas...
Mato o meu sonho onde a tinta rosa pingava da tua boca...estranhamente aprendeste a fórmula dos pesadelos e na escuridão me injectas sombras e monstros de fumo negro...
Era tão fácil se tivesses sido apenas um sonho ruim...assim esquecer-te seria uma morte natural e não um suicídio

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, março 24, 2009

..................................................

POSSO GRITAR AO MUNDO INTEIRO QUE JÁ NÃO TE ENTENDO E QUE ISSO FAZ-ME SOFRER?
PRECISO DE VOLTAR A ACREDITAR EM TI...

O ódio odeia-me mais do que tu...




Posso odiar o teu ódio ou estou a ser repetitiva na expressão do meu pensar?
Posso ordenar ao passado que se faça uma pintura invisível ou será que vou quere-lo para sempre pintado de muitas cores?
Hoje lembro-me dos tons rubros e das chamas mal apagadas que ficaram acorrentadas ao teu leito...é vermelha a cor. Estupidamente original recordar-te assim... como uma papoila que fugiu apressada do vento.
Podias ser rosa também....mas as rosas dão-se aos amantes e não aos inimigos sem rosto.A não ser que tu queiras que eu te encha a memória com espinhos... perfurante já é mesmo a dor,para quê fingir que ela não é imutável se ela não se cansa de mudar a pele sem se deformar? Ao menos digo-te que ela pode mudar de rosto...de hora ou de pressentimentos que eu ainda sei senti-la a regressar.
Queres que te odeie? Vais ter que esperar..ainda estou ocupada a recordar como te amei...

Daniela Pereira in O ódio odeia-me mais do que tu...
Direitos Reservados

domingo, março 22, 2009

Poesia Declamada

Carta escrita na areia molhada





Hoje queria vomitar o tempo



Carta a um mundo filho da mãe





Poesia declamada por Daniela Pereira,com poemas extraídos do livro Afectos Obsessivos

sexta-feira, março 20, 2009

O Homem que não usava a cabeça para pensar...




Era uma vez um Homem que não usava a cabeça para pensar... Sabia que a tinha, logo ali acima dos ombros mas não sabia para que é que ela servia. Achava a cabeça, um pedaço de si perfeitamente irritante e pesado. Por isso só a usava quando precisava de contrariar alguém porque sabia que abanando-a com força demonstrava o seu repúdio com um valente Não. Ou então abanava-a mais devagarinho de baixo para cima e dizia que sim as coisas que lhe apetecia ter.
Este Homem, era um Homem como todos os Homens e tinha um corpo igual a todos os corpos ...no entanto achava que era mais perfeito que todos os outros. Costumava mesmo dizer que o mundo a sua volta era desinteressante e que geralmente só olhava para ele porque podia encontrar algo que lhe pudesse servir. De resto o mundo era perfeitamente dispensável e vazio...só servia mesmo para fazer de cenário as suas fantasias.
O Homem que não usava a cabeça para pensar olhava sempre com algum desdém para as pessoas que andavam sempre com os braços abertos preparadas para abraçar. Aquilo metia-lhe uma certa confusão...dar abraços por dar...sem estar à espera de receber algo em troca? É absurdo de mais..os braços são bons é para apertar nas paixões e para agarrar com força um bom prato. O que ele gostava de um bom prato cheio de comida ..mas não uma comida qualquer. Refeições normais, daquelas refeições que alimentam e são saudáveis eram um desperdício...ele gostava era de bolos.
Sim..de bolos e quanto mais doces melhores. Se ele pudesse usava as mãos para pegar em todos os bolos do mundo e metê-los dentro da... barriga. Isso sim, era usar as mãos com inteligência.
Agora usas as mãos para firmar um perdão..para agarrar alguém que estivesse a cair sem salvação..isso seria infantil. Cada um sabe de si e quem não quer males não se mete neles...esta lição aprendeu-a ele com o tempo e só ela lhe interessava quando tinha que colocar as mãos atrás das costas fingindo nem olhar para as desgraças dos outros.
Este Homem achava que não precisava de pensar, porque já tinha nascido um génio e nada mais tinha a absorver para dentro de si... por isso a cabeça era quase só um enfeite. Podia usar um relógio novo e caro ou então um lenço no pescoço de cores berrantes..mas não porque isso seria ser demasiado banal e ele detestava banalidades e ser igual aos outros..aqueles seres hipócritas que caminhavam por ironia à frente dele na rua. Então este Homem usava como enfeite nada mais nada menos do que a sua cabeça. É verdade que ele a estimava bem..penteava-lhe os cabelos, colocava água de colónia no rosto. Queria sempre que ela saísse bem arranjada à rua..já que tinha que a suportar no corpo ao menos que tivesse um bom aspecto. Até porque junto com a cabeça vinha um rosto que tinha uma boca cheia de dentes e sempre que ele abria aquela boca e os dentes vinham espreitar cá para fora as pessoas olhavam com mais facilidade para ele e isso de alguma forma devia ser considerado vantajoso.
Um dia o Homem que não usava a cabeça para pensar decidiu ir dar um passeio até a beira mar. Mas como detestava caminhar sozinho, lembrou-se de convidar a Mulher que não usava as pernas para andar para ir com ele. Na verdade ele queria mesmo era a companhia da Mulher que só usava a boca para beijar, mas ela essa tarde estava muito ocupada a beijar outro Homem qualquer.
Então o Homem que não usava a cabeça para pensar foi buscar a casa a Mulher que não usava as pernas para andar..
Como a Mulher não sabia que as pernas serviam para andar tinha o vicio de se deslocar sempre ao colo dos outros e era assim que ia para onde queria...Por isso o nosso Homem lá teve que pegar nela ao colo e lá foram os dois caminhando..perdão, os dois não...porque apenas ele caminhava arrastando o peso dela. Ele lá treinava o seu poder de conversação falando-lhe da beleza dos pássaros quando a brisa lhes tocava...do brilho que ela tinha no cabelo e da emotividade do seu olhar, sempre com os dentes de fora a endireitar sorrisos. Só que a Mulher que não sabia que as pernas serviam para andar, passava a conversa toda a tentar enrolar as pernas nele e a apertar-lhe o pescoço com medo de cair de alguma altura mais alta.
Que Mulher aborrecida e chata dizia-lhe o instinto, mas a verdade é que tinha umas pernas magnificas dizia-lhe o olhar e geralmente ele ganhava sempre o duelo. É um sacrifício que ainda vai valer a pena decidia o Homem que não usava a cabeça para pensar...não precisava de reflectir sobre a questão porque era mais do que óbvia a resposta. E lá iam eles pela areia com o Homem quase a perder o fôlego de carregar nos braços aquelas pernas pesadas mas compridas.
Finalmente o Homem que não usava a cabeça para pensar e a Mulher que não sabia que as pernas serviam para andar, chegaram a um lado qualquer e o Homem pensou que iria colher o fruto do seu árduo trabalho. Mas qual não foi o seu espanto, quando a Mulher que não sabia que pernas serviam para andar queixou-se do calor e disse que queria ir tomar um banho naquela água imensa que parecia tão fresquinha . O Homem fez-lhe a vontade e preparava-se para pousar a Mulher na areia quando ela de repente começou a resmungar e a dizer-lhe se ele estava louco por querer colocar as suas pernas na posição vertical..posição essa que as pernas dela não conheciam de tanto estarem habituadas a posição deitada. A Mulher não esteve com meias medidas e exigiu que o Homem a levasse ao colo até ao mar para proteger as pernas dela das ondas...ele teria que afastar todas as ondas para ela não ficar com as pernas molhadas mas só com elas refrescadas pela aragem. Que grande chatice para o Homem que não usava a cabeça para pensar, mas como não era Homem de fugir a desafios principalmente quando as recompensas eram altas e esguias, ele avançou com a Mulher ao colo cheio de instinto e de orgulho na sua força.
Inicialmente aquela caminhada pelas águas com a Mulher agarrada a si como uma lapa e aos gritinhos pareceu-lhe fácil de ultrapassar e deliciosamente uma peripécia aventureira.
O pior foi quando o mar se enfureceu com a presença daqueles dois intrusos estranhos agarrados um ao outro como se fossem polvos e decidiu enxutá-los dali com vagas alteradas.
O Homem que não usava a cabeça para pensar começou a sentir dificuldades em se manter erecto com tantas ondas a chicotearem-lhe o corpo e aquela Mulher alta e esguia de repente começou a pesar toneladas e já tinha mais aspecto de baleia do que de sardinha fina.
Mas não a ia largar...se havia coisa que o Homem que não usava a cabeça para pensar sabia ser...era ser teimoso e como rei da teimosia lá continuava com a Mulher colada a si a apertar-lhe cada vez com mais força e desejo as carnes do seu pescoço. Era verdade que ele até já estava a sentir alguma falta de ar, mas em pleno acto todos sentimos alguma asfixia temporária,logo aquela sensação de estar a sufocar era perfeitamente natural para ele e não lhe causava nenhum transtorno.
O mar sentindo a teimosia daquelas pobres criaturas, foi-se tornando mais arrogante e com vontade de lhes fazer frente e resmungou com muito mais força. Com tanta força mas com tanta força que o Homem e a Mulher já andavam aos rebolões no meio das ondas mas sem nunca se largarem, parecia mesmo que as mãos dela se tinham fundido ao pescoço e os braços dele já pareciam prolongamentos exaustivos do rabo dela de tanto a apertar por entre os dedos. Noutra situação aquela sensação “apalpativa” seria até bem vinda, mas numa situação de morte iminente era mais considerada pelo Homem uma sensação aborrecida...Que estranho ele sentir algo assim...
mas as pernas dela..as pernas dela eram hipnóticas e o Homem não conseguia deixar de olhar para elas. Bem, era verdade que estava prestes a afogar-se e a levar aquelas pernas tão fantásticas direitinhas para o cemitério dos Prazeres mas ao menos iria morrer sorrindo. Isso servia-lhe de consolo enquanto a sua vida se extinguia lentamente...
Se ao menos o Homem que não usava a cabeça para pensar tivesse pensado noutra coisa para além de uma belas pernas saberia que o ar faz falta para respirar...


Daniela Pereira in Contos sem pés nem cabeça..
Direitos Reservados

domingo, março 15, 2009

Poema de Domingo à tarde...





Não tenho os dedos sujos de tinta esta tarde...
Só exibo restos de gotas de vinho tinto e de corações enlameados.
As letras foram à rua por instantes...
Pobre poeta que queimou ao sol toda a sua escuridão...
Silenciou a lua só por um dia...dizem os amantes.
Mas todos dizem qualquer coisa quando mais nada têm para dizer...


Daniela Pereira in Em todas as palavras nada te direi...
Foto por Daniela Pereira
Direitos reservados

quarta-feira, março 11, 2009

Limonada primaveril



Vamos colher doces frutos com polpa ácida e dizer que o ouro escorre pelas nossas bocas?
Em amarelo pinto os sonhos e as aventuras que abraço...tenho raízes mais fortes nas pontas dos dedos ...

E os limões nas minhas mãos também dançam ao sol...

Daniela Pereira

domingo, março 08, 2009

Mulher




..E sou Mulher..

nos sonhos e nas lembranças...

na pele despida

e na carne tragada...

nos olhos mal chorados

e na escuridão adormecida...

E sou Mulher...

no Amor perturbador e desgraçado

Hoje pela Dor enamorada...

porque sou alma viva ...

E sou Mulher..

nos sonhos e nas lembranças...

nos beijos e esperanças..

sou ave sem destino ..

Curva a 180º numa estrada deformada...

Ângulo recto destemido

que não se perde em promessas obtusas

Porque só com linhas infinitas alguém a cruza...



Daniela Pereira in A Mulher é um mundo maior...
Direitos Reservados
Foto em blueiela galery in http://olhares.aeiou.pt/curva_a_180o_foto2601975.html

quarta-feira, março 04, 2009

Revista literária- Alterwords





Olá a todos



É com muito prazer que informo que já se encontra disponínel o site da nova revista literária on line, a "Alterwords"...

A "Alterwords" é um projecto que visa dar a voz a todos os que amam as palavras..anónimos e não anónimos...vindos da luz ou da escuridão...

Os autores residentes desta revista são:

Bruno Pereira

Carla Ribeiro

Daniela Pereira

Liliana Duarte

Liliana Lopes

Miguel Pereira

Susana Carvalho Machado

Susana Catalão

Nesta revista as palavras são livres e sem margens a limitar a inspiração...podem saborear contos, poesia, prosa,curiosidades literárias,arte e cinema..porque a cultura não é um vício letal..vamos drogar o mundo com palavras e pensamentos
http://alterwords.webs.com ---Site para download da Alterwords-1º e 2º volume

Daniela Pereira

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O primeiro olhar..um ultimo amor-IV parte




O primeiro Olhar


Ele e Ela...Ela e Ele...


Depois de rostos difusos e palavras sem som, Ele quis ver-lhe os contornos..a cor dos olhos quando o sol os iluminava..Ela quis ver se o sorriso dele era mesmo tão doce como ela imaginava...
Já tinha sonhado com Ele, com palavras animadas a bailar na escuridão..com olhos parados num ponto só cruzando desejos. E Ele? Onde a guardava nos seus sonhos? Seria em abraços de espuma ou em abraços de chumbo com o corpo pesado em cima do dela?Existiria tempo para decorar-lhe os gestos e a altura dos ombros..ou seria tudo tão fugaz que só de suspiros viveriam todas as lembranças?
Ela arriscou conhecer aquela alma que tanto a fascinava pela diferença que dotava na humanidade que nele parecia existir...Tinha doces palavras...ternas preocupações...meigas dores e um vazio que nada parecia conseguir extinguir...metia-lhe pena mas ao mesmo tempo sentia carinho por aquela alma que parecia caminhar sem direcção. Então,Ela abriu-lhe o coração de par em par.. limpou poeiras passadas que por lá ainda andavam...encheu de flores todos os vasos de sangue que jaziam nas mesas...desenhou floreiras para encaixar nas varandas...lavou do chão as lágrimas...rasgou da carne todas as amarguras e acreditou que ia ser feliz fazendo sorrir aquele anjo de asas pendidas.
E Ele veio até Ela, vestindo preto na pele e cuspindo fumo nervoso pela boca com um olhar cabisbaixo surgiu por detrás das sombras e Ela sentiu que as palavras lhe iam fugir na garganta como loucas...que os braços iam ser meigos demais e que o seu sorriso ia ficar muito exposto naquela tarde de chuva adocicada...e assim foi. Ela sorriu..ela abraçou..ela deixou sair todas as palavras que molhou no mel, só porque o queria ver a sorrir.
E eles falaram dos seus feitos..dos seus defeitos também e as mãos procuravam agarrar o que ambos já tinham perdido como se o outro pudesse ter algo melhor do que o seu sonho, se pelo menos sonhassem juntos...todos os sonhos seriam possíveis.
E os dedos dela sentiam-se macios enrolados nos dedos dele...e o corpo dela sentia-se protegido amparado na sombra dele...e os olhos dela esqueceram a chuva que neles ontem caía e viram o sol a aquecer-lhe a testa e o coração dela sabia que os seus corações antes de anoitecer iam conhecer-se num mesmo beijo...


Era tarde...mas não tão tarde
para a lua acordar por entre as nuvens
Era cedo..mas não tão cedo
para dois estranhos não se abraçarem
numa tarde de chuva...
E o medo?
Onde ficou o medo de sofrer outra vez?
E a razão?
Onde esconderam a razão...?
Talvez debaixo do vestido
no meio do veludo tremido...
ou no bolso da camisa
encostada ao corpo humedecido...
Era cedo..
era cedo para alma se despir...
mas despiu-se e a nu deixou todos os beijos
que por respeito a dor passada
do mundo Ela escondia...

Daniela Pereira in Poeticamente falando de corpos para prosear a alma
Direitos Reservados

sábado, fevereiro 21, 2009

Infinita....fusão



Já nada me separa do frio das pedras e da negritude das sombras....
No meu corpo já se fundem as dores e o musgo dos meus passos...

Daniela Pereira
D.R

Foto por Daniela Pereira in www.olhares.com/blueiela

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Rostos



Rostos



Ele e Ela..Ela e Ele...


Buscavam nas sombras descobrir os seus traços...

Ele pediu para ver se o rosto dela hoje brilhava como em todos os retratos e se os seus olhos ainda sonhavam...

Ela achou que ele ia achar que ela não estava bela..que a simplicidade do seu sorriso ia deixá-lo desiludido..apeteceu-lhe dizer que não. Que hoje tinha a pele sem cor...que a luz do candeeiro a deixava coberta de manchas e tons incandescentes...mas em vez disso passou as mãos pelos cabelos e compôs o sorriso com medo de ele lhe falhar a qualquer momento...

E Ele viu-a sorrindo...e disse que ela tinha uns olhos bonitos..cheios de alma no olhar. Que ela era bela... que o coração dele ia saltar do peito..que sentia um impulso de correr até encontrar o seu rosto esperando por ele...

E ela sorriu com um sorriso corado e pintado com girassóis amarelos e tulipas vermelhas...

Ele perguntou-lhe se ela queria conhecer o rosto do patinho feio que ele era...Ela sorriu e disse que o achava bonito..que não acreditava que ele era um patinho feio e que o imaginava com contornos de cisne.

E ele surgiu no meio da escuridão com um rosto marcado de cinzentismo mas com um olhar repleto de um brilho que ela não sabia de onde nascia...Ele disse que era feio...que tinha um rosto cansado...olheiras pintadas nos contornos dos olhos ..a boca torta e o nariz era grande.

Todos os defeitos sairam da boca dele como se a quisesse convencer que ele tinha perdido toda a beleza perante a beleza dela...mas todas as perfeições nela ficaram marcadas.

Ela olhou para o rosto dele...e o seu olhar perdeu-se a decorar cada curva..e desenhou-o em metades e em rosto inteiro na sua cabeça para não mais esquecer aquela visão misteriosa que se erguia no nevoeiro.

Ela disse que ele era belo...ele sorriu fingindo corar envergonhado e foi mostrando todos os quadrantes que lhe moldavam a face e toda a escuridão ficou pequena para tanto sol...

E ali ficaram os dois a olhar um para o outro..sem se verem..sem se tocarem mas prisioneiros das palavras e das sombras despidas em cada olhar...



Hoje são apenas flores mortas pelo chão....

o patinho feio tirou as penas macias que faziam dele cisne e a bela continua com os seus olhos de cristal tristemente humedecidos...



Daniela Pereira in "Poeticamente falando de corpos para prosear a alma"
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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Poeticamente falando de corpos para prosear a alma





A descoberta



Ela e Ele...Ele e Ela...


Ela quis conhecer o mundo dele e ele envergonhado foi-lhe dizendo que era apenas vapor no toque.

Falou-lhe de sonhos que gostava de construir com as suas mãos e de almas perfeitas que aprisionava apenas com o olhar. Ela achou fascinante o modo humilde como ele lhe abria a porta do seu mundo e quis saber mais...

E ele então falou-lhe do gosto que sentia quando lia os sentimentos que ela bordava a fogo no papel. Que se reconhecia em tantos deles, que já tinha sentido aquele sabor que ela dava ao beijo...que já tinha visto em alguma esquina a mesma lágrima que ela fizera cair delicadamente no seu rosto .Que era apaixonante como os seus dedos despiam facilmente os corações e confessava que também ele tinha vontade de no coração dela entrar.

E ela estranhamente tão dotada nas palavras, via nascer cordas na garganta que lhe amarravam as palavras atrás das costas e onde um rio geralmente fluía restavam apenas algumas gotas que jorravam de mansinho.

Então ele sorriu inspirado e colou asas nos corpos e estendeu ideias luminosas com a mão e mostrou a ela como era encantado o mundo que moldava com a sua mente criativamente esfomeada.

E as palavras correram perante os olhos dela criando cenários tão belos de tão simples que eram...

Ele contou-lhe segredos...desejos escondidos no fundo da alma..casas brancas erguidas por entre azuis celestes e as ondas de mares temperados. Terras quentes, onde até a chuva era dourada porque sol nunca partia no seu horizonte. Jardins de mil cores semeados em varandas e baloiços no jardim para conchegar tanta vontade de voar.

Ela confessou-lhe que tinha medo do mar..que um dia o mar a quis levar para longe e ela não queria ainda partir. No entanto lembrou-se que nem o medo a impedia de amar olhar o mar e de escrever na areia muitos dos seus segredos...Ele sorriu e disse-lhe que o mar o fazia sentir mais leve naquele seu corpo de gigante e que quando entrava para o explorar todos os seus pensamentos ganhavam vida...disse-lhe que um dia a queria levar para dentro do mar...Iriam de mãos dadas e ela iria sentir-se segura porque ele jurou que nunca a iria largar..e ela sorriu confiante.

E enquanto bailavam naquela dança de palavras e de mundos a descobrir, a chuva caía lá fora e o frio era tanto que fazia chorar os vidros das janelas,mas por um motivo qualquer naquela noite havia calor para dar.



Existem mundos encantados

a surgir na palma de uma só mão..

existem mãos abertas que os querem sentir...

Olhos que cativam palavras

e dedos que fascinam as curvas perdidas no tempo...

E o tempo ali não passa...

e os retratos são feitos de cera

e os corações são todos marmoreados ..

Os sonhos são de areia...

ternamente temperados

colhem conchas nos ouvidos

e o mar mete medo

mas existem gigantes sempre prontos para a frágil donzela salvar...

Existem mundos enfeitiçados

com a magia de uma varinha de condão...

existem fadas de olhar doce e abraços amendoados

anjos com asas coladas

e lâmpadas infinitas iluminando toda a escuridão...

Torres de carne que rompem excitadas das ondas do mar

em busca de uma paixão

e com os olhos brilhando sonham

com amores entranhados na pele

que lhes matem a fome

de uma estranha solidão...

Daniela Pereira in Poeticamente falando de corpos para prosear a alma

Direitos Reservados

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Poeticamente falando de corpos para prosear a alma




"A aproximação"....


Ele e Ela..Ela e Ele..

Ele sorriu para ela e ela sorriu para ele e como duas crianças sorriram os dois.Ele deu-lhe palavrinhas doces e desenhou-lhe flores no papel,dizendo que o coração dele batia mais alto.

E Ele chorou dizendo a Ela que o mundo só lhe queria fazer mal..que todas as almas que encontrou lhe pareciam vazias e que estava cansado de falhar...

Ela achou tão bonito que todos os gestos dele lhe pareciam especiais..e lá ficaram eles de mãos dadas mesmo com elas separadas por duas telas envidraçadas trocando sorrisos envergonhados à espera que um milagre molecular acontecesse...

E Ela achou que era bom voltar a ser criança,para acreditar em histórias de encantar e em promessas feitas com a cabeça encostada nos ombros e os olhos a brilhar.

E Ele prometeu que ela ia sonhar e ele ia pintar-lhe o retrato com a tinta negra que lhe escorria dos olhos..fez-lhe festas nos cabelos e enrolou-se no corpo dela como se ela fosse uma onda que o iria tragar...e Ela abraçou-o despida de preconceitos e plena de sentimentos jurou que o ia amar...e amou..

Doces são as palavras...

e doces foram as verdades não contadas

para a magia não fugir...

Belos foram os dias percorridos de mãos dadas

e com sorrisos acabados de tingir...

Belas foram as noites e as madrugadas

com o peito inocentemente a sorrir..

Doces são as palavras..

e doces são os malmequeres que desfolhamos a preceito

saltando pétalas só para ouvir "que bem que me queres"

da flor mais querida que apertamos com carinho nos dedos...

E as doces palavras sobem-nos à cabeça como nos sobe o espumante para nos apagar as memórias e as tristezas...

E o mundo mais uma vez é lindo..e tem estrelas que nunca mais acabam traçadas nas caudas dos cometas...e o mar imponente deixa de meter medo e inspira-nos a mergulhar...e os pudores deixam de existir e o nosso corpo já se despe rotineiramente até ao topo da alma..e até o pó nos cheira a rosas e as pedras da calçada posso jurar que cheiram a jasmim...

Vamos falar de amor nas próximas linhas?...

Não..vamos falar de corpos e de sedes avultadas ..

Daniela Pereira in Poeticamente falando de corpos para prosear a alma

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Já não me reconheço nas sombras e nos reflexos...




Queria gritar mais alto que o som...
queria dizer-te que nas minhas veias corre uma dor rubra que é ácida quando me jorra da boca...
E eu grito...e eu grito todas as dores...todas as lágrimas..todas as perguntas que ficaram sem resposta mas o teu eco silencia-me...não o ouço...não vejo a tua voz a cruzar com as andorinhas e eu morro mais um pouco...
Puxo-me para um buraco onde possa fugir da pressão exercida no peito por não te sentir..por não te cheirar os passos nem engolir as curvas do pescoço.
Asfixio o ar que devia respirar com orgulho..danifico os sorrisos com os maxilares cerrados com força...crio rugas na pele e dispo-me de perfumes.Ainda semeio o meu jardim com lágrimas de carne que adubam a terra onde teimosamente nasces e continuas a ser o cravo mais bonito no meu jardim ...
E eu...a mesma pétala perdida de sempre tentando agarrar a esperança no verde das tuas folhas...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

segunda-feira, janeiro 26, 2009





Se eu não faço falta ao mundo...leva-me daqui meu Deus!

Se o mundo está cheio de seres surdos e mudos e os meus gritos de dor já não são ouvidos e são descartados como se nada fossem..deixa-me morrer!

Se o amor que sinto dentro de mim não serve se quer para construir elos e carinhos,deixa-me seca a apodrecer a um canto..

Se sirvo para ser flor apenas nas noites mais desertas não me deixes mais despir a alma e segura-me o corpo debaixo de sete palmos de terra...

Se não consigo dizer o que sinto com as palavras...se elas não chegam a quem deviam chegar...esmaga-me os dedos para eles se calarem e deixarem de escrever o meu coração em folhas que nunca deixarão de ser vazios sem calor para dar...

Deixa-me morrer! Se me queres ver a mingar todos os dias porque o corpo doente e fraco não me deixa resistir nem me dá forças para lutar..então baixa-me os braços e leva-me a desistir. Não me faças mais enfrentar esta dor de frente porque ela já é mais forte do que eu..e eu já não a sei combater com as minhas armas.

Leva-me daqui Deus..dá-me um pedaço de alguma coisa que seja só para mim...que eu não tenha mais como perder.

Faz-.me eterna nos gestos..enterra-me bem lá no fundo e esquece-me..

Daniela Pereira

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Leva-me os pedaços e as brisas dos cabelos




Rasgo-me...


Já me cansei de me dar inteira


as brisas que por mim passam...


Corto-me...


Começo pelos pensamentos que trago enrolados na cabeça...

corto-os bem fininhos...

pequena tiras de aço cromado

que nada consegue derrubar...

Desço até ao pescoço

com a faca bem afiada

já suja de sangue..

marco-te com cruzes e corações à beira mar

Recordo-te e paro a olhar para o sinal...

parece que ainda vejo as estrelas a sorrir

e o teu cheiro a espiar-me por debaixo dos meus cabelos...

Afinal foi só ilusão...

Rasgo-me...rasgo-te..rasgo-o a ele e a ela e a todos os outros que não vejo...

Rasgo o vestido e a beleza que me cobria o corpo

com panos pintados de branco

e flores costuradas em rendas transparentes...

Cheira-me a velhas promessas

e a desculpas esfarrapadas espumando no fundo da linha..

Amanhã seria especial...

mas já não há amanhã nas nossas vidas..

Lembro-me da chuva a cair e eu de lhe ter adorado o gosto..

Logo eu que odeio chuva a molhar-me o rosto!

Mas um dia a chuva soube-me a mel na boca

e eu gostei de a ver chorar só para mim

gotas doces e olhares amanteigados...


Corto-me...


Leva lá o meu pedaço..

tu que coleccionas memórias

como se fossem ternos troféus..



Rasgo-me...


Já me cansei de me dar inteira


as brisas que por mim passam...


Daniela Pereira

Direitos Reservados


terça-feira, janeiro 13, 2009

(Des)igualdades informais...





Somos iguais nos nossos corpos mas tão diferentes nos nossos gestos...
Tu és a chama que me afoga...
Eu sou a lágrima que te queima...
Apagas-me o sal desta boca..já amanhã?

Daniela Pereira