quarta-feira, outubro 12, 2005

Compra-me o sorriso daquela montra...



Esta manhã, Clara saiu de casa com um andar despreocupado e os bolsos vazios. Hoje ela sabia que não teria nada para comprar com moedas porque os seus beijos serviriam de pagamento. Além disso o seu objecto mais cobiçado estava ainda plantado num jardim com os pés bem assentes na terra apenas baloiçando para o vento que soprava descontraído. Era bonita aquela tulipa negra que ela tinha visto ontem à noite durante o seu passeio nocturno. Poderia não a ter visto, mas ontem estava um luar tão luminoso e com as estrelas como lanternas ,Clara não teve dificuldade em descobrir aquela flor erguida na relva.
Durante largos minutos, ela ainda ficou de olhos semicerrados a imaginar que alguém passaria ali e gentilmente colheria aquela preciosidade para ela e com um sorriso rasgado estenderia a mão para depositar aquela flor junto do seu peito.
A noite estava tão silenciosa , que o seu suspiro profundo ecoou na paisagem calada e a pobre rapariga sentiu que o seu rosto adquiria um tom avermelhado impróprio para a sua tez normalmente caiada. Mas como ela estava ali sozinha foi-se esquecendo do embaraço e sorriu deliciada com a sua fantasia inocente.
Agora e depois de uma noite bem dormida, Clara já não sonha e apenas caminha pela rua olhando a realidade que a cerca. São duas e um quarto, e os corredores do centro comercial enchem-se de saltos altos barulhentos e conversas animadas, mas Clara mantém a sua boca bem fechada enquanto se vai desviando agilmente de alguns sacos que surgem na sua direcção sem mostrarem disponibilidade para evitar um choque que se aparenta iminente.
As montras são apetitosas ao olhar, recheadas de tentações sedosas e coloridas fazendo crescer os rostos colados aos vidros das montras .Clara ,é apenas só mais um rosto encantado entre tantos ,que já ocupam o seu espaço naquele circo de ilusões. Mas um desvio rápido do olhar para aquele rectângulo de cartão discretamente pendurado nos manequins faz perder toda a magia daquele momento. De repente, os charmosos manequins tornam-se disformes aos olhos de Clara, e aqueles tecidos luxuosos que lhes vestem o corpo de plástico parecem-lhe agora trapos velhos. Para que quero eu trapos velhos? Pergunta entre os dentes , enquanto baixa a saia que encorajada por mais uma rajada de vento teima em lhe por a descoberto as pernas franzinas .
Num gesto impulsivo, põe a mão na carteira vazia e vai invejando os sorrisos que saem das lojas brilhando como novos. No seu pensamento regressa então a imagem daquela tulipa negra combinando com os seus olhos de carvão e também ela sorri ...e eu juro por Deus que aquele sorriso era o mais bonito de todos os que estavam à venda naquela montra.

Daniela Pereira

quinta-feira, outubro 06, 2005

Entrevista na 1ª Edicção do E-Zine do fórum Bad Book's d'ont Exist

Olá a todos que por aqui divagam neste cantinho de poesia :)

Queria deixar-vos aqui um link para acederem ao E-Zine do Bad Books D'ont Exist e ficarem a conhecer um projecto de grande qualidade onde podem encontrar um espaço para uma leitura agradável.
Está também presente neste projecto uma pequena entrevista que dei a este fórum onde falei um pouco sobre alguns segredos que estão por detrás da elaboração do meu livro "Cortar as palavras num só golpe" e onde revelo mais alguns pedaços da minha alma.
Espero que disfrutem deste convite com prazer :)


beijinhos

Blue

quarta-feira, outubro 05, 2005

Amor demoníaco



Com uma alma de anjo
e um corpo esculpido pelas mãos do diabo
entrego-me ao teu amor
e sucumbo na tua paixão sem me debater.

Olho nos teus olhos
e vejo um mar imenso a explorar.
São ondas de rebeldia
e marés infinitas de calmaria
oferecidas num longo beijo molhado.
Bocas divagando no mesmo barco
sempre à deriva sem rumo traçado
nem pele onde atracar.

Em instantes dementes
soltamos os corpos ao vento
e agarrado nas minhas asas
viajas por entre mares de mel
e jardins de tulipas negras
fascinado com o pôr de sol
que pintei no céu só para ti.

Depressa chega a noite
com o sol adormecido debaixo do braço
caminhando passo a passo
para não o acordar.
Eterna cúmplice dos nossos pecados
ela estende os lençóis na cama
e chama por nós cheia de desejo.

VINDE A MIM AMORES IMPOSSÍVEIS
EM ENTREGAS DESMEDIDAS SEM HORA A LIMITAR.
CORPOS RECHEADOS DE HORMONAS
COM ALMAS INCENDIADAS ATEADAS NA BOCA.
LIBERTEM O DEMÓNIO QUE ESSA PAIXÃO ENCERRA
E QUEIMEM O MUNDO À VOSSA VOLTA
SEM TEMER MORTOS OU FERIDOS DEIXADOS PARA TRÁS.
UNAM OS VOSSOS PEDAÇOS
NUM MESMO TODO
CORTANDO AS AMARRAS QUE OS SEPARAM
E FUNDINDO OS VOSSOS RESTOS COM DOÇURA...

Ouves o grito da noite, meu amor ?

Sussurra palavras sedutoras com delicadeza
e suspira com o suor tatuado no rosto
adivinhando os nossos desejos escritos na pele.

Deixa-me responder ao seu apelo
e não me peças para pensar nos limites do meu corpo
porque esta noite quero entregar-te a minha alma.
Quero arder no seio desse amor demoníaco
e dar a provar a tentação da carne à tua boca
durante horas sem fim
até que deste anjo azul nada mais reste
que meras penas queimadas espalhadas pelo chão.
Daniela Pereira

quarta-feira, setembro 28, 2005

Deixa-me só escrever estas linhas antes de voltar a sorrir...



Deixa-me só escrever estas linhas no papel antes de esboçar o meu sorriso rotineiro...

Estava aqui a pensar, que não é fácil olhares para o lado e não veres ninguém por perto. Parece que dói aqui dentro, quando pedes ajuda e nenhuma voz ecoa uma resposta. Tens aquela sensação dolorosa, e eu acho que ainda te lembras dela se te esforçares um pouco...daquela sensação imensa de vazio.
Pois é, meu caro amigo, estás simplesmente sozinho! E não tens como o negar, porque toda a gente o vê.
Olhas para aquilo que tens de teu e chegas à brilhante conclusão, que não tens nada. Uma vida própria é uma miragem, porque o destino te pregou uma partida e tu não soubeste vencer o desafio. Então achas preferível esconder a cabeça num buraco bem fundo e enterrar o teu mundo ainda a esbracejar.
E as pessoas que sempre estiveram sentadas contigo prontas para uma boa gargalhada onde estão agora?
Estão a viver porque foi para isso que foram feitas...para viver de cabeça bem erguida.
E tu, onde estás tu? Preso naquele quadradinho que tu chamas de vida, naquele quadradinho tão pequeno que dá para conhecer todos os cantos num passo apressado em apenas um minuto.
Até que essa caixa onde vives não é feia! Todos te dizem que é bem simpática, acolhedora, sempre bem arranjada e aquela jarra de plástico que tens na mesa com o formato de um coração dá-lhe sempre um ar primaveril. Mas fazes bem em esconder sempre as tuas lágrimas no teu peito de cinzeiro, quando chegam os teus convidados. Assim não os assustas logo e eles ainda permanecem no teu lar durante algum tempo. E tu gostas de os ter ali, não gostas? Sei que sim, não adianta negares porque tu não te dás bem com a solidão mesmo que insistas em te isolares nos teus sonhos.
A solidão causa-te arrepios nas costas porque tens o frio colado na pele e o calor da recordação daquele abraço já arrefeceu. Recordação... que engraçado usar esta palavra, até porque é a palavra que melhor te define agora. Tu não passas de uma eterna recordação na vida dos outros!
Eles recordam o teu sorriso esculpido para a fotografia, a tua graciosidade a dançar e a exibir o corpo, a chama dos teus beijos quentes, a metamorfose da menina docemente romântica numa gata com as garras cravadas na cama ...pensando bem, até que não és uma recordação má de todo.
Estás a ver? Não percebo porque é que ainda te queixas com tantas palavras azedas na boca...

Daniela Pereira 28/09/05

quarta-feira, setembro 14, 2005

A minha última gota de sangue



Preguei com pensamentos de aço
o coração aos dedos e fui sangrando por aí...

Deixei uma gota de sangue na praia
quando repousava a inquietude da alma
num chão de areia quente
com os olhos hipnotizados
pela beleza de um silêncio imortal.

A segunda gota caiu no mar
e ali ficou
misturada numa infusão de verde e azul
com sabor salgado.
As veias nem lhe sentiram a falta
imersas naquele liquido multicolor
e ela lá foi
apaixonada por uma alga castanha
que encontrou flutuando à deriva.

Depois de perder a segunda gota
senti uma leve tontura
e as pernas a fraquejar
mas ainda havia muito vermelho
para pintar os meus passos no chão.

Ergui de novo o corpo
e caminhei em direcção à lua sentimental
com a lentidão amarrada ao andar
enquanto salpicava as nuvens
com pingos cor de fogo.
Depois beijei com os lábios palidamente serenos
a pele dos meus dedos
e na sofreguidão daquele beijo
roubei ao peito a última gota de sangue.

Daniela Pereira 29/08/05

domingo, setembro 04, 2005

Consciência muda




Se estou a escrever estas palavras, então é porque perdi o juízo de vez! Só alguém completamente enlouquecido pela dor, tem a capacidade de desabafar para uma plateia vazia.
Eu, até já representei algumas vezes no palco... já fingi mágoa com o coração transbordando de felicidade fingindo ser outra pessoa ,mas nunca tive a inteligência de ocultar o meu sofrimento na vida real.
Acho sempre que depois de o partilhar ele diminui de intensidade e vai perdendo a força... e julgo, que quase sempre é assim...mas é este QUASE que nos fere mais quando com ele chocamos de frente.
Sempre disse que as palavras são poucas para tantos sentimentos espalhados... elas contam-se pelos dedos da mão e repetem-se, repetem-se incessantemente atiradas de uma margem para a outra no papel.
As palavras cansam e também se sentem cansadas quando percebem que só constróem frases sem sentido. Alguém tapou os ouvidos ao mundo e já ninguém te consegue ouvir mesmo que tu grites em cima da ponta do seu nariz. Estão todos surdos à tua volta, pensas tu magoada... mas estarão mesmo surdos? Já pensaste que essa surdez pode ser intencional e que eles apenas não te querem ouvir porque o resto do mundo tem uma voz mais bonita do que a tua? Não , claro que não pensaste!!! És orgulhosa demais para pensares que não passas de um grão de terra igual a tantos outros que pisas todos os dias quando caminhas.
Gostas de acreditar que és especial, que és única nessa tua maneira de ser eternamente sonhadora.
Mas, deixa-me que te diga e faço-o de cabeça fria sem estar drogada por emoções...NÃO ÉS!!!
Existem muitos mais iguais ou bem melhores do que tu e nem precisas de procurar muito...abre os olhos por uma vez que seja na tua vida.
Se estás a escrever estas palavras é porque te sentes novamente sozinha no mundo. Tu sabes que esse sentimento faz doer, até já conheces com precisão o volume das lágrimas que derramas sempre que esse momento chega.
Então, porque tentas encontrar sempre um culpado para as feridas que tu mesma reabres quando te deixas afogar na dor! Não faz sentido... tenta não pensar nela talvez ela assim desapareça.
As nuvens não se afastam sempre depois da chuva cair e não é sempre um sol radioso que recebes como prémio de consolação pelos dias cinzentos? Claro que sim, pelo menos até que outra tempestade se instale no teu horizonte.
Mas se é realmente assim, porque é que ainda tens os olhos inchados e vermelhos? Onde é que está esse sol que te prometeram com um sorriso rasgado na boca? Não o consegues ver, pois não?
Nem sequer entendes, porque é que não consegues apagar da folha as inúmeras interrogações que não param de aparecer na tua cabeça!
Como tu gostarias de ter todas as respostas para os teus medos guardadas na palma da tua mão...Era bom, não era?
Não sofrias ao tentar adivinhá-las nas noites em claro, nem tão pouco irias sentir esse vazio que te incomoda a crescer dentro de ti.
As palavras não deixam de fluir nos teus dedos e ainda escorrem na pele porque sentes que tens muito para dizer e já não consegues estar calada.
O silêncio sempre te incomodou e encerrares a alma numa gaveta nunca fez parte dos teus planos.

Então ,fica para aí a chorar e a rabiscar folhas de papel no escuro se achas que isso te acalma.... se calhar é o melhor que fazes.

Daniela Pereira

segunda-feira, agosto 29, 2005

Sonho numa noite fria de Verão



Este corpo é carne envolvida
em seda macia ao toque.
Esta alma é uma escultura de vidro
transparente aos olhos que a imaginaram sem defeitos.

E as tuas mãos o que são?

Uma perfeição esculpida com dez dedos delicados
que desvendam os segredos da minha pele
com os olhos fechados.
Posso jurar-te sem mentir
que eles sabem a mar
quando os lambo das tuas mãos
à luz das velas apagadas.
Essas tuas mãos são tão quentes...
É como se as tivesses posto na brasa
antes de as derreteres no meu umbigo.
E como são belas...
Mais belas que aquele jardim
que encontramos escondido nas nuvens
onde tu e eu
caminhamos salpicados de areia branca.

E esse beijo com gosto furtivo?
Ai, esse beijo...

Levou-me à lua num milésimo de segundo
enquanto os meus lábios explodiam numa paixão acalorada.
Roubou-me os sentidos
quando a tua língua
se enrolou na minha
e lá ficou mastigando calmamente
a minha boca macia.
Então lembro-me vagamente
de me deixar cair nos teus braços
na certeza que me abraçavas.
E ali fiquei suspensa por longos momentos
numa queda em câmara lenta
até ouvir o tempo desiludido
sussurrar-me ao ouvido
que o meu sonho chegara ao fim.
Nesse instante abri os olhos
e senti frio em plena noite de verão

Daniela Pereira

quinta-feira, agosto 25, 2005

Uma rosa da rua e um homem só




Hoje encontrei no caminho
uma flor solitária.
Tinha um doce aroma a baunilha
e nas pétalas uns lábios vermelhos bem pintados.

Olhei para a desgraçada
presa no chão empedrado
e ela curvou-se na minha direcção
apoiada numa brisa delicada.
Medi-lhe os contornos
esticando o olhar até ao seu limite
e com o sangue fervendo
roubei-lhe o perfume do peito.

Sem pensar ...
aproximei-me da sua fragilidade
docemente encantadora
com as más intenções
ocultadas nos dedos cruzados.
Então, não resisti e toquei-lhe...

Toquei-lhe
para sentir o seu corpo de seda
num toque fugaz.
Depois espetei os dedos nos seus cabelos de espinhos
e bebi-lhe a alma com a boca molhada.
Quando a esvaziei por completo
ela desnudou a sua inocência só para mim
e com as mãos frias estendidas
implorou-me que comprasse
a rua onde caminha
com notas bordadas no vestido.

Daniela Pereira 25/08/05

sexta-feira, agosto 19, 2005

Carne licorosa



Da varanda do hotel
vou recolhendo o ontem em lembranças de espuma.
Fundo momentos com o mar
e fico a vê-los morrer na serenidade
de uma onda quebrada.

Viajo quilómetros
com os olhos embarcados na saudade
e vou sorrindo
para o céu azul que espreita
as minhas mãos vazias de suspiros.

Vou perdendo sonhos na areia
como se fossem migalhas.

Depois ao regressar à praia no fim da tarde
já não os encontro
porque partiram à deriva
nas asas de uma gaivota alucinada.

Então...
afogo sentimentos numa taça de vinho
servida bem gelada
para não destoar com o frio cravado no coração.
Perco-me em tradições
que não são minhas
e cultivo sorrisos frágeis
nas folhas de uma videira.

Á noite, deito-me embalada
pelo som de uma gaita de foles embruxada
e não me reconheço
naquele papel de feiticeira.
Não quero acreditar
que seja eu
quem está reflectida naquele espelho...
Mas os olhos não mentem
e naquele momento mágico
sou apenas mais um corpo
bem regado a licor.

Daniela Pereira

quinta-feira, agosto 11, 2005

Trovoada matinal





Hoje sei que acordei...
Como sempre acordo
com os pensamentos encostados no meu ombro.
Sempre com aquela vontade imensa de fugir...
De correr sem nunca mais parar
e deixar para trás o mundo.
O Mundo...
Aquela bola gigante
onde rodopio de olhos fechados
e com pregos cravados nos pés descalços
inocentemente mergulhados na brancura das nuvens.

Hoje sinto que as palavras de nada me vão servir
Precisava de as multiplicar por mil
e teriam de ser todas sussurradas
com suavidade.
Ditas com ternura e
escritas com a alma despida
para eu voltar a acreditar nelas.

E o mar azul que tanto admiro?
Hoje tinha que ser pintado de novo
com cores mais garridas
Porque o verde das algas
e o azul das águas hoje não vão disfarçar o breu instalado no olhar.

Procuro por entre as caixinhas de música
uma melodia que me acalme e
embale esta tristeza que me vigia de perto.
Enquanto os sons se espalham na sala
voando em todas as direcções
com emoções amarradas nas asas
eu toco lentamente com finos dedos
mais uma tecla ocasional
e fico à espera pacientemente que a profundidade de um poema
engula a tempestade que troveja no meu corpo.

Daniela Pereira

segunda-feira, agosto 08, 2005

Embarcar na cama ao lado



Abriu o caderno lentamente
mais ou menos no seu meio
e escancarou-lhe as páginas em cima da mesa.
Hoje decidiu rabiscar uma palavra vagabunda
e uma linha escrita ontem
é terminada apressadamente com um ponto final desfocado.

Salta algumas folhas distraídamente
ainda habituada à precisão do toque de um teclado
e com as letras cabisbaixas chora no papel.
Mas no seu pranto não se esquece
de perseguir a fantasia com a mãos sujas de tinta
e vai pintando um mundo que não é o seu
com palavras tímidas expelidas da boca.

Não é uma mulher original...
Nem sequer se distingue das outras
que o homem esculpiu para decorar a monotonia do seu jardim.
Não tem asas de anjo
mas voa rente aos sonhos
e rouba-lhes todas as noites pedaços do seu encanto
apenas porque isso a faz sorrir.

Pega fogo aos olhos com paixão
na certeza de ver o pôr do sol forrado no olhar
e a escuridão da alma reduzida a cinzas.
Perde-se em desejos carnais
deitada num colchão de delírios
com os lençóis cobrindo-lhe os seios apetecidos.
Atinge a lua num grito agudo
enquanto o corpo treme de prazer
aguardando ansiosamente a chegada da próxima onda musculosa.

Mas não se sente segura naquele mar de abraços inconstantes
A pobre mulher docemente sonhadora...

Então, quando a madrugada bate à janela
desce do barco das ilusões
e com as unhas vai abrindo estradas
na esperança de finalmente descansar na segurança
da cama ao lado.


Daniela Pereira 07/08/05


terça-feira, agosto 02, 2005

Eu reflectida na tua janela



Não me conheces...
Ninguém me conhece por inteiro.
Porque sou apenas mais um caco
daquele vaso partido na sala.
E é o pedaço mais bonito,
o que tem mais cor que exibo cheia de orgulho
nas mãos esmaltadas com palavras...
Aquele pintado com sorrisos nas pétalas
e ilusões nas folhas.
Mas se olhares de perto
vais notar os cortes
que fiz nos joelhos
quando tentei saltar para o topo do mundo.
Quando quis fugir dos meus medos
e atrever-me a virar para sempre as costas à minha realidade
com toneladas de sonhos aconchegados no peito.
Mas deixei o mundo partir
e fiquei a acenar no cais
enquanto fazia amor com os teus olhos.

Não sabes que danço bem...
Acho que sou a maior bailarina do universo
quando solto o meu corpo
ao som de uma cascata de emoções
e fundo a minha alma às notas que bailam na pista.
Ganho asas quando solitária
serpenteio a carne no calor da noite
e sabe tão bem essa liberdade de borboleta temporária.

Nunca viste a revolta que guardo escondida na gaveta
mesmo por debaixo do caderno dos poemas.
A vergonha de atirar oportunidades pelo chão
como se fossem berlindes coloridos
apenas por não ter coragem de sentir a dor a estalar nos dedos.
É preferível rasgar mais uma folha
e atirar a raiva contra a caneta
para me sentir menos culpada por não tentar.

E sabes que também choro?
Claro que sabes...
Passo o meu tempo a chorar no teu ombro
e a cobrir as tuas palavras serenas com sal.
Sou quase uma nuvem carregada
pronta a molhar qualquer deserto
que se pendure nos meus braços.

Não me conheces...
Porque eu não quero dar-me a conhecer
e adoro imaginar que sonhas com os meus mistérios
sempre que invado sorrateira as tuas noites
com versos perfumados presos às ondas do cabelo.

Daniela Pereira 31/07/05

segunda-feira, agosto 01, 2005

Partem-se pedras



Partem-se pedras abandonadas na alma
martelando flores nos dedos ansiosos por uma carícia.
Virando de pernas para o ar
o relógio da cozinha
esperando que o tempo retroceda.
Escrevendo as palavras ao contrário
cravando o bico da caneta à direita da folha
e deslizando suavemente pelo papel.
Desenhando com a tua mão esquerda irrequieta bocas amanteigadas no tecto
enquanto dos teus olhos vão pingando gotas de mel.

Barras o corpo nos lençóis
e vais dourando a pele
enquanto dás voltas na grelha
para atingires o tom perfeito.
Gritas baixinho
porque tens a garganta entupida
com os pedaços de vidro que engoliste esta noite.

Porque sabes que uma moeda oferecida a um pedinte
não lhe enche a barriga
insistes em furar o teu coração
para que dele caiam sempre migalhas doces
prontas a alimentar uma alma carente
que encontres por aí
nas tuas caminhadas sonhadoras.

Por agora vagueias tranquilamente
com as mãos incendiadas
em nuvens de chuva ácida
com palavras básicas protegendo a fragilidade da tua pele.
E vais partindo pedras incessantemente
Uma a uma
Devagar...
sem sentires pressa nenhuma.
Porque a tua alma é profunda
e ainda tens muitas flores para semear nos teus ossos.

Daniela Pereira 31/07/05




domingo, julho 31, 2005

Gritar com os dedos



ESCREVE...escreve todas as palavras
que te assaltarem a mente
e não hesites em prendê-las no papel
se sentires que elas tentam fugir dos teus lábios.

MATA... mata todos os espaços em branco
afogando-os em rios de tinta preta
até deslumbrares algumas letras confusas
boiando nas tuas folhas .

BEIJA...beija todos os teus versos
com a intensidade que te rasga a alma
e mancha as tuas palavras de batom
enquanto o teu coração segura a caneta na boca

CHORA...chora todas as tuas lágrimas
mas não as deites fora num mísero lenço de papel...
Faz delas andorinhas
e deixa-as chocar com o mar salgado
até que as ondas lambam todo o seu sal.

Depois, espera com as mãos bem abertas
que chovam sorrisos
das nuvens que pintaste logo pela manhã
com os olhos vendados.

Daniela Pereira 27/07/05

quarta-feira, julho 13, 2005

Pensamentos ainda em branco...




Não consigo escrever um poema que abranja tudo o que sinto... faltam-me as palavras de um novo dicionário inventado ao luar.
Foram cem, provavelmente seriam talvez duzentas as folhas que escrevi agarrada a um coração entorpecido de paixão.
Saltei as noites com os olhos abertos e os pensamentos girando na cabeça roubaram-me o sono .
Preguei os dias no peito e fui cravando os desejos incessantes cada vez mais fundo para não os perder enquanto caminhava numa estrada vazia algures no tempo.
Amei com uma garra que julgava já não possuir, porque alguém a teria arrancado à força durante a minha última queda. Amei?...Não amei, amo e amo cada vez mais num silêncio que me trespassa e corta –me o corpo em finas fatias de pele suada. Respondo à sua chamada com os braços abertos sempre prontos para aquele abraço esmagado de ternura. Sempre com sorrisos despidos nos lábios num strip lento e os beijos quentes ardendo no céu da boca.
Dispo-me para ti... lavo dos olhos as lágrimas ácidas com a suavidade de um óleo de rosas e percorro o rosto com uma fina camada de creme hidratante para ocultar o deserto traçado na cara pelas mãos secas da saudade.
Escolho aquele perfume que sei que anestesia os teus sentidos e enrolo-me no teu corpo como um animal assustado pedindo abrigo.
Sinto o teu calor aquecendo cada pedaço nu que aconchegas e converto-me numa fera com os olhos fulminando a escuridão e rasgo a tua alma com os meus dedos.
Depois não me recordo de mais nada...calo os sons da noite , engulo os gemidos com água na boca e adormeço tranquila com uma folha de papel na mão ainda em branco.

Daniela Pereira- 13/07/05

segunda-feira, julho 04, 2005

Na calada da noite



Tenho saudades...
Do meu todo
Do teu nada
Daquele tempo que eu parava
sem precisar de abanar o relógio
retorcido na apressada caminhada dos minutos.
De tatuar mais um beijo abafado
numa almofada de palavras aconchegantes
escritas no silêncio de uma noite de cetim.

Da lua a rasgar o céu
com lâminas de prata
deixando desejos fragmentados
incorporados nas estrelas
que brilhavam solitárias
no vazio do meu regaço.

Dos meus olhos escuros
projectando sombras na parede
na presença de um sol
encalhado nas pestanas
e repartido com generosidade
numa pele morena arrefecida
na frieza de uma solidão.

Tenho saudades...
De sorrir
com a boca enfeitada de rosas rubras
e a satisfação
espelhada nos lábios
pintados de fresco.
.
Do aroma
a maresia
que os teus olhos
espalhavam nas tardes partilhadas
na transparência de uma tela de vidro.

Da onda de calor invadindo o inverno dos nossos corpos
deitados numa lareira imaginada por mim
com a chuva pingando dos dedos
sempre pronta a apagar alguma chama esquecida por ti
antes de partires para o teu mundo real.

Tenho saudades
e este sentimento não me abandona nem por um segundo
mesmo depois de ter tentado mil vezes
na calada da noite
afogá-lo num imenso mar de lágrimas sorridentes.

Daniela Pereira 04/07/05

quinta-feira, junho 30, 2005

Suborno em três actos




Ontem subornei as estrelas com duas moedas
na mão e pedi-lhes que brilhassem só para mim
durante toda a noite.
Não me esqueci de ti e guardei uma
para ir decalcando no teu olhar
enquanto o sono não vinha.

Hoje subornei o sol com três brilhantes
nos dedos e murmurei-lhe um pedido.
Queria que se fundisse ao meu corpo
lentamente e tatuasse na minha alma
um coração em chamas.

Amanhã vou subornar os pássaros no jardim
com quatro assobios roubados ao fundo da garganta.
Depois vou contar-lhes um segredo
e com a voz bem aprumada
vou ao som das guitarras penduradas nas árvores
cantar num fado esta saudade que sinto de ti.

quarta-feira, junho 08, 2005

Corpos em Fogo

Olá!

Queria através desta mensagem anunciar-vos o evento Corpos em Fogo a realizar pela Corpos Editora e convidar-vos a comparecer no dia 16 de Julho depois das 21h30 no Hartes bar na praia da Madalena ao lançamento do meu livro "Cortar as Palavras num só golpe".
Em baixo deixo a programação de todo o evento e o link para uma página informativa mais detalhada.

A todos queria deixar um grande beijo e dizer-vos que gostaria de contar com a vossa presença.

Daniela Pereira

Junto segue a programação de todos os eventos.

>>>A Corpos em Fogo- Hartes bar: http://www.hartesbar.com/



>>11.Junho.2005 (Sábado) - Actuação dos Reckless e de Hugo Moss - >Apresentação do CD À Boca do Amor de Ex-Ricardo dePinho Teixeira e Ironic Salazar - Lançamento do livro Prelúdios do Nada de Luís Viana Romero - Apresentação dos livros Escandalosamente Ela de Mirandulina Rego / Guerrelheira da Emoção de Ema Correia / Caminhos de Luís Ribeiro - Pintura ao vivo por Ema Correia e Mirandulina Rego

>>18.Junho.2005 (Sábado) - Actuação dos Sonsdoficina e dos Papel - >Apresentação dos livros Viagens num Mundo Imperfeito de Raquel Queirós / Sensação de Mundo de Cláudia Martinho / 13 de Francisco Fardilha

>>24.Junho.2005 (Sexta) - Actuação dos Quetzal´s Feather e dos Puro Naif - Apresentação do livro Estrelas (de)Cadentes de Cátia Rodrigues - Projecção Vídeo e apresentação do livro Off de Lara Mendes

>>25.Junho.2005 (Sábado) - Actuação de Miguel Pereira e dos Limbo - >Apresentação dos livros Alma do teu Ser de Miguel Nascimento / Supernova de João Páris

>>02.Julho.2005 (Sábado) - Actuação dos Papaformigas e dos Sépia - >Apresentação do livro Eco do Silêncio de Sérgio Guerreiro - Actuação do Projecto Ode Odium - Lançamento do livro de Isabel Duarte

>>16.Julho.2005 (Sábado) - Final do Concurso de Bandas - Lançamento do livro Cortar as Palavras num Só Golpe de Daniela Pereira - >Apresentação do livro Segredos da Gaveta de Ana Caeiro
.

Mais em http://spaces.msn.com/members/kostapedro/

>>A entrada no recinto são 5 euros que serão descontáveis em livros e Cd´s.>

sábado, junho 04, 2005

Ontem, o que foi o tempo?


Ontem vi o tempo a correr
em frente aos meus olhos
e fingi que ele estava parado.
Fui lentamente travando o relógio
com palavras disparadas para o silêncio à velocidade da luz.

Nem as deves ter escutado todas
porque muitas ficaram retidas no vácuo das horas.

Uma imensidão de letras e sinais
povoaram a casa de papel caiada de branco
e tiveram um sol que na noite as fez brilhar
a cada segundo reflectido na janela.

Não pintei um arco-íris na folha
porque o nosso tempo tem minutos coloridos
sempre que te abro a porta do meu mundo.

Pendurei cortinas castanhas nos meus olhos
para as cerrar quando uma onda de tristeza
invadisse o meu olhar desprevenido.
Tive o mar roçando os meus pés
mas evaporei-o no ar quente da tua presença
esquecendo o frio soprado pela boca gelada da ausência.

Ontem enquanto o tempo às escondidas
escoava apressado pensando que eu não o via,
as minhas mãos foram uma mesa
sempre posta com palavras de veludo
para saboreares .
O meu coração mais uma jarra
com flores enamoradas adormecidas ao peito
de sorriso vermelho pintado nas pétalas.

E o tempo?
Ontem o que foi o tempo?
O tempo foi somente uma barreira de cristal
estilhaçada com palavras aguçadas pensadas em segredo.




quarta-feira, junho 01, 2005

Estás louca?



Parte-me o espelho
para eu não ver mais este rosto inútil.
Estilhaça a escuridão dos meus olhos
com um tiro certeiro
e não receies errar
porque vou colar a cara ao vidro.
Posso até escolher a pedra se quiseres!

Rasga-me o corpo
e corta as minhas roupas em farrapos.
Tens uma tesoura à tua espera
na caixa de costura
porque não vou mais
coser sorrisos nos teus braços.

Quebra-me os ossos
com os teus músculos de aço
e essas mãos de ferro.
Fura-me a pele
e espeta-lhe fios de seda
para dominares os meus gestos
como se eu fosse uma reles marioneta.

Pinta-me a janela de negro
e põe fim aquele sol
que não quer deixar de brilhar
em todas as manhãs que acendes no quarto.
Prende os meus olhos com fita cola
sempre que os vires
a olhar para ti hipnotizados
e lava-me a boca com sabão
quando ela te gritar palavras apaixonadas.

Quando eu escrever no papel que te amo
Responde-me em silêncio...
ESTÁS LOUCA!!!