quinta-feira, julho 27, 2006

Carta a um mundo filho da mãe



THE  FROG  KING-BY  DEVIANTART


Olho para a folha em branco sentindo que tenho tanto para lhe dizer, mas as palavras estão com dificuldade de sair. Parece que estão perras, e como portas velhas e ferrugentas vão rangendo por entre os dentes. Uma folha vazia se calhar saberá dizer mais sobre mim do que uma folha cheia de palavras absurdas e caóticas. Hoje as minhas palavras estão assim...absurdas nas ideias e caóticas nos actos que definem.
Penso e sobretudo penso, para quê pensar? Para quê procurar respostas debaixo dos tapetes empoeirados quando sabemos que as nossas perguntas já não são lógicas.
Acreditar? Em quê e em quem, se todos e mais algum acabam sempre por trair a tua confiança mais tarde ou mais cedo.Porque quer queiramos quer não o egoísmo existe dentro de qualquer ser humano e isso não mudará nunca mesmo que teimes em não sair da tua terra dos sonhos.
Ainda agora comecei a escrever e as palavras já me começam a enjoar, como um prato de sopa que comes a seguir ao outro só porque o servem na tua mesa e tu por educação tens o cuidado de não recusar mesmo tendo a barriga cheia. Enfias uma colherada para a boca e com o ar enjoado disfarçado finges apreciar o seu paladar.
É com esse mesmo ar dissimulado que eu olho para o espaço ainda por preencher nesta folha. Não tenho paciência para escolher as palavras...sinto a mente preguiçosa e são os dedos que comandam o vaivém do teclado. Dançam alucinados num chão pintado de preto e com passos rápidos e precisos marcam o compasso da sua dança.
Que se lixem as formalidades e o pudor, hoje apetece-me ser filha da puta nos gestos e cabra nos pensamentos. Não ter pena de ninguém, porque ninguém merece ser vítima desse sentimento humilhante. Não vou lavar os meus gritos com sabão rosa ,só porque eles me saem sujos e roucos da garganta.Quero-os mesmo assim...porcos e grosseiros porque eles nasceram no berço imundo da frustação e quem estiver na direcção deles que se proteja porque vai levar com eles em cheio na alma.
Vou usar palavras directas e vou cortar nos tempos de espera,como se este dia fosse dominado por um contra relógio de vida ou de morte...ou dizes o que eu quero ouvir ou podes cair fulminado pelos meus olhos porque eu não vou esperar que o meu tempo de sanidade chegue ao fim só porque quero ouvir o teu sim.
Sim...fizeste a escolha certa!...
Sim...esse era o caminho a seguir!...
Sim...fazes-me falta!...
Sim...preciso de ti!...
Porra, será tão difícil assim dizê-lo só porque não o sentes agora?
Tu que encantavas as almas penadas com promessas de um inferno melhor, já não sabes inventar uma chama? Quando é que perdeste esse teu dom?...não me apercebi devia estar distraída a inventar poemas inspirada nos anjos que sobrevoavam as minhas noites.

Ohhh mundo filho da mãe,quando é que desististe de mim?



blueiela-27/07/06

terça-feira, julho 25, 2006

Onde está o beijo que deixei na tua boca?


















Foste embora?
E onde está
o meu beijo de despedida?

Vou ficar
com a minha boca húmida de desejo
com tanta secura
que deixas-te nos meus lábios.
Morrerei de sede esta noite
porque não me deste de beber
das tuas palavras
antes de adormecer.
Não dormirei
e os meus olhos abertos
trespassarão a escuridão
como faróis alucinados
até o dia romper no horizonte.

Porque foste embora
sem me ouvires dizer
que foi bom
estar ali contigo outra vez?
Que por alguns minutos as horas tiveram mais cor...
Que a escuridão que por vezes vive em mim
enfraqueceu com o teu sorriso
e no meu peito
até houve tempo para gozar uma tarde de sol...

Dei-te um abraço
com os braços estendidos
e tu abraçaste-o ...
Foi boa
a ilusão da prontidão daquele abraço.

Mas e o meu beijo...?
Porque não lhe deste
o calor da tua boca
se foi na tua direcção
que ele partiu doce e ofegante?

Não importa o porquê
da falta de um gesto
se ele já não tem a força da ternura que o envolvia...
Por isso
sem explicações
embalo-te com palavras quentes
mesmo sabendo que à tua alma
chegam já geladas.

Boa noite...
Dorme bem
Sempre com o meu beijo ao teu lado
Porque este beijo
não receia mais o teu silencio
e a ti se dá
sem mais palavras...

Blue-24/07/06

sexta-feira, julho 07, 2006

Sussurros e Poesia-Parte IV



Os pássaros não sabem tocar guitarra...


Fecha as luzes...
Porque esta noite quero levitar no escuro
e fazer do meu corpo
carne incognita...

Agora reparo... Ainda tenho a minha pele a descoberto e o seu brilho denuncia a minha presença nesta escuridão fingida. Porque não usas as grutas do teu corpo para me engolires por completo na tua sombra?Assim tu e eu poderíamos ser neste quarto o mesmo nada por momentos...Não existiriam culpas nem arrependimentos se tudo mudasse aqui, se o meu mundo virasse o teu de cabeça para baixo e se esta tontura fosse eternamente sentida. Não me importo que no meu mundo as memórias deixem de caminhar para trás, e que elas mesmo , passem a comandar o meu futuro...porque sei que o farão orgulhosamente de cabeça erguida. Então...puxo-te para os meus braços até sentir que já não receias que te deixe cair e ato-me a ti como se fosse um nó cego para que não possas fugir do meu olhar.

Depois...
Peço-te que
pegues neste pedaço de carvão
e que escrevas a preto nas paredes
NÃO OLHEM!!!
Para que todos os olhares
que desafiarem
a noite curiosa
sejam atraiçoados
e deste festim preparado
apesar das promessas
nada lhes seja revelado.

Gosto de segredos
guardados a dois
E tu...não?




Thumbing My Way
By Pearl Jam
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Fecho os olhos...
Já te encontrei
vagueando neste sonho perfeito
com os olhos cravejados de doçura
e naquele instante
juro por Deus
que a visão é um dom desnecessário para mim...

Sinto que caminhas atordoado na minha direcção...os teus passos estão confusos, como se não percebesses porque estás aqui...
Mas porque tentas tu ainda perceber a razão dos meus sonhos?Nos meus sonhos nada faz sentido porque tudo se entrega sem pensar e o chão que pisas tem a cor que eu escolhi mesmo que não a conheças. Não ouves pássaros a chilrear nesta paisagem,pois não?Porque até a musica que compoe este cenário ideal foi escolhida por mim e como os pássaros não sabem tocar guitarra e o bater dos seus bicos não tem a mesma força de uma bateria eles deixaram de ter importância.Por isso guardei-os nesta gaiola forrada de veludo vermelho que dentro de mim transporto. Quando os quiseres ouvir so tens que encostar o teu ouvido ao meu peito e eu prometo que nas minhas penas adormecerás sempre tranquilo...



Porque resistes?
Porque te debates
agora que sabes
que eu
nunca farei sentido
entendida como um comum mortal...

Tenho demasiados sonhos
Aprisionados na cabeça
para acreditar
que sonhar contigo
nunca será real...
Por isso
esta noite...
só por esta noite
sonhas comigo?


Daniela Pereira-07/07/06

sexta-feira, junho 30, 2006

Extinção



Se o mundo

já não suporta

ouvir-me gritar

o que sinto...

Então,ficarei quieta

num canto escuro qualquer

em absoluto silêncio

até que ele

se digne a estender-me

novamente a mão.

E se DAR

não for mais sinónimo de RECEBER

no dicionário dos mortais...

Então nada darei de mim

enquanto esta alma permanecer vazia.


Daniela Pereira-30/06/06
 

domingo, junho 18, 2006

Sussurros e poesia-Parte III-Respirar num gesto pensado




Inspiro fundo...
E porque já não respirava à tanto tempo
deixo que os meus pulmões
recordem lentamente o gesto.
Sem pressas
deixo o ar suspenso
e não lhe apresso a viagem.
Ouço o mar
ofegando nas paredes do meu quarto
e em silêncio
absorvo o cheiro da maresia impregnado nos lençóis.
A pele fica roxa
enquanto aprisiono o ar
e mesmo que sufoque
sei que não desistirei de dominar
este corpo que é só meu
por uma herança
que a alma deixou na carne.

Sinto que perco as forças
e a vertigem
é um acto pensado
nesta libertação forçada da mente.
Os olhos fecham-se
e o mundo são imagens desfocadas à minha volta
sem rostos cerrados
nem rugas nas palavras
porque o silêncio não envelhece...

Passaram apenas alguns minutos desde aquele momento em que decidi respirar profundamente ao sabor da poesia. Agora que prendi por momentos as palavras com cordas pretas e as esmaguei contra paredes brancas, sinto que chegou a hora de as deixar soltar o ar calmamente enquanto caminham por estas longas linhas sem a poesia pesando nas costas.
Posso então abrir os olhos descontraída e ver que o meu mundo ainda está perfeito mesmo que nunca deixe de ter recantos imperfeitos à primeira vista.
Inspiro...e expiro devagar
E ao sabor desta loucura que é respirar começo-me a sentir como se fosse apenas mais uma onda que o mar alberga nos seus braços numa sintonia perfeita com a natureza. Mas como nada é eternamente perfeito dou por mim a rebentar ilusões contra um muro de areia improvisado à beira mar.
Então dou uma abanadela ao meu corpo para que saia daquele transe e regresso ao sufocar da vida...

Daniela Pereira-18/06/06

domingo, junho 04, 2006

Elogio fúnebre a um NADA...



Não és nada
e nunca foste nada
para os outros
que são tudo para ti.
Nem mesmo aquele ínfimo pedaço
que de ti deste
julgando ser o teu maior pedaço
chegou para preencher
algum espaço no céu com o teu nome.

És um vazio na terra
que nada tem por dentro
para além de sentimentos ocos
e emoções emprestadas .
Não tens vida própria
e vives à custa dos outros
esperando alimentar os teus sonhos
com as migalhas que os outros te dão
em troca do pouco que lhes dás.

Depois é ver-te a escrever como louca
a pensar que alguém escuta as tuas palavras
e só porque as carregas com toda as tuas forças no papel
julgas estupidamente
que podes assim deixar alguma marca.
Mas não...
Digo-te que não deixas nem um traço
porque és apenas pó
e o vento sopra-te rapidamente da folha sem remorso algum.

Não amas
e nem sequer podes mais amar
com esse coração assim desfeito
por tantos medos aguçados.
É que tu sabes bem
que assustas qualquer sentimento
que passeie alegremente pelo teu peito
com todo esse medo que tens colado a ti
e nem sequer te importas.

Já não enfrentas o mundo...
Se é que alguma vez o enfrentaste de frente
porque sempre te vi fugir
como um cachorro assustado.
Já não sabes como se luta
porque te esqueceste como isso se faz
de tanto estares
enfiada nesse teu buraco seguro
cercada de fantasias.

Esperneias...
Gritas e choras
e enquanto te debates sozinha
por entre dúvidas e certezas
nos teus pensamentos mal amanhados
vais suplicando
como um peixe fora de água

que te deixem ao menos respirar.

Então, hoje sei que olhas sufocada
para aquela caneta
que tantas vezes te fez sorrir
e até ela baixa os olhos
perante toda essa tristeza
que adivinha estar estampada nesse teu rosto.
E tal como tantos outros
ela também já se sente enfadada
das tuas lamúrias sem nexo
que esculpes com as tuas mãos
nas curvas da poesia morta.
Agora ela só quer
procurar outros poetas
que saibam celebrar com as palavras
essa vida que tu
já não tens nos teus dedos.

Daniela Pereira-04/06/06

P.S:Imagem by DeviantART

Remendar o frio nas tuas costas...




Ouves-me vento?
Ou será que os meus gritos e lamentos
são tão fracos
que nem com a boca encostada ao teu ouvido
consegues-me escutar?
Se calhar toda a dor
que me tem corroído por dentro
já chegou à garganta
e queimou-a de tal maneira
que nenhum som sai dela
e se a mudez se apoderou das poucas palavras que nela sobreviveram
então o silêncio poderá ser agora a minha voz.

Cruzo os braços mais uma vez
e fico novamente à espera do teu sinal
sossegada no meu canto
aninhada em choros e pensamentos
até sentir a noite afogar-me num mar de papel branco.

Depois abro a janela todas as manhãs
na esperança que o dia esteja diferente
que ele tenha acordado com mais cor para mim.
Mas não...só se eu tivesse sonhado
porque o céu ainda está pintado de negro
e as nuvens permanecem salpicadas de cinzentismos.

Então resignada com o meu triste fado
volto a fechar a janela
com dois murros no vidro
para depois desiludida virar as costas ao mundo
fingindo uma atitude de pura rebeldia.
Mas na verdade...
E o meu mundo sabe-o tão bem...
Apenas desejo que ele me toque
nem que seja ao de leve no ombro
e mostre alguma gratidão
pelos buracos que tantas vezes lhe remendei nas costas
para que nunca sentisse este frio medonho
que em mim hoje sinto.

Daniela Pereira-04/06/06

quarta-feira, maio 10, 2006

Hoje queria vomitar o tempo...




(escrito ao som de “Butterflies and Hurricanes”-Muse)



Butterflies
By Muse
BestVideoCodes.com


Passa o tempo devagar
naquele relógio que aparafusei na cabeça
e nada sei ainda...
Então pergunto sem cessar
Se estou certa...
Se este medo tem alguma razão de ser...
Se estas lágrimas ainda fazem algum sentido.
Depois lembro-me dos sorrisos
que já galoparam em cima dos ponteiros
quando os sonhos tinham o aroma dos nossos passos
e não encontro motivos
para que a areia hoje esteja assim tão salgada.
Já nem vejo o mar à minha frente
porque agora os meus olhos
preferem a melancolia de um rio
para pintarem tranquilamente o seu pranto...
Então porque sabem a sal os meus dedos?
Estou enjoada...
E sempre que os meto à boca
apetece-me vomitar com esta caneta seca
todas as palavras salgadas
que me dão a volta ao estômago
porque este silêncio amargo e doce dá-me vómitos.

Daniela Pereira-10/05/06

sexta-feira, abril 28, 2006

“Ao som de Spiralling de Antony and the Johnsons”




Perdoa-me porque consinto
Que estas lágrimas voltem a cair
Mas não consigo ensinar
Ao meu peito
Que a tristeza não tem valor.

Se hoje ouço melodias
Com os olhos molhados
Quero que saibas
Que não culpo a tua voz
Por nenhum momento de silêncio
Porque Só o meu coração
É culpado
Por amar tanto as tuas palavras.

Talvez se não ouvisse
Mais nenhuma música...
Se tapasse os meus ouvidos
Com muita força
Podia ser que estas notas sofridas
Não ecoassem dentro de mim
E que neste relógio
Que trago pregado na pele
Os minutos finalmente deixassem
De caminhar na areia do tempo
Com passos tão marcados.

Perdoa-me por continuar a afogar-me
Em todas as tempestades
Que se abatem na minha mente
Sem nunca tentar nadar
Para atingir a segurança de uma terra firme...
Mas acredita que os meus braços
Já não têm mais forças
E recusam todos os meus pedidos
E eu já não sei mais
Em que direcção
Devo largar os meus gritos de socorro
Porque o meu olhar confundiu o Norte
Ao se perder numa imensidão de estrelas
Todas as noites tentando adormecer
Sem te ter ao meu lado.

Ai, se eu pudesse escolher
Cada palavra que escrevo
Nenhuma soaria com esta dor
E todas estariam sempre
Para ti sorrindo
Com um brilho feiticeiro no olhar
Da primeira até
À ultima linha.

Por isso perdoa-me...

Mas não consigo evitar
Que elas por alguns momentos
Baixem os olhos entristecidas
Mesmo quando eu lhes afago a cabeça.

Só queria saber qual é o segredo
Para se estar sempre a sorrir
Sem fingir que se é feliz...
Como se pode desejar
Um corpo com fervor
Sem lhe poder tocar
Sabendo que só em sonhos
O poderás cobrir de beijos.
Como beijar uma boca
Com os beijos mais quentes
Sem sentir o calor desses lábios
A aquecer os teus.
Como sacudir os pensamentos
Para que eles não fiquem inertes
Seduzidos por um rosto
Que não lhes sai da cabeça.
Como fazer parar
A inspiração que te corre nas veias
Sempre que pensas em alguém.
Como calar nos teus dedos
Todos os sentimentos
Sem os amarrares atrás das tuas costas
Para que possas
Ter sempre as mãos soltas
Para dar uma carícia.

Porque me fizeste assim Meu Deus?
Porque não consigo odiar quem não me ama
E porque amo eu
Quem apenas não me odeia?
Porque vejo magia no brilho de uma estrela
Se todas brilham com a mesma luz?
Porque amo com tanto fogo
Estas palavras
Se na verdade és tu que eu queria poder amar?
De que me serve
Inundar os teus dias e noites
Com beijos e carinhos
Se nunca mais te vou ouvir dizer
Que eles são a tua alegria?


Ao azul deste céu
Não perguntarei mais nada
Porque sei que haverá
Sempre uma nuvem ocultando a resposta
No azul deste mar
Não deixarei flutuar
Mais nenhuma dúvida
E todos os pontos de interrogação
Que surgirem neste peito
Espero bem que as ondas os levem para longe de mim
Porque assim saberei
Que só salvarei as certezas
Quando estender o meu braço.



Talvez se soubesse
Como emparedar
Um coração na carne
Ele já não batesse mais
Sempre que sente os teus passos
E eu não ficasse mais
À espera do teu longo abraço
deitada nesta cama
Com cravos vermelhos
Desfalecidos aos meus pés


Por isso perdoa-me por todas as lágrimas
E por todos os sorrisos
Que trago dentro de mim
Sempre que tocas levemente no meu rosto
Porque não é apenas pele
Que sentes debaixo desses dedos...
É a minha alma que a ti se dá por inteiro com prazer.


Agora que deixei que estas palavras
Vissem a luz do dia
Sei que esta escuridão vai passar...
Por isso perdoa-me
Por não as deixar sempre
no escuro aprisionadas
longe do teu olhar sorridente
mas preciso de ver por momentos o sol
e só assim dissipo as minhas nuvens
para poder renascer para ti sorrindo...

Blue-27/04/06

quinta-feira, abril 20, 2006

O sexo e as palavras




Porque procuras o prazer
em cada canto da noite?
Em cada sombra da rua...
Mesmo sabendo
que elas para ti só se despem
na ânsia de sentir calor
na frieza da cidade.

Porque tens que embriagar
a tua vida errante
com gemidos fáceis
para puderes sentir
que o sol te queima
o corpo mesmo na escuridão?
Não preferes aconchegar essa nudez
no seio de uma alma que em chamas
arda por ti em silêncio?

Apenas te pergunto isto
porque sei bem
que assinas poeta
em todas as palavras apaixonadas
que cospes da boca
e admira-me muito que
ainda não saibas que de madrugada
toda as paixões se desvanecem como fumo.

Tu sabes que faço amor
como ninguém
com meia dúzia de palavras acesas
porque já me ouvis-te gritar louca de prazer
com as pernas escancaradas nesta folha...

Então porque insistes demente
em desejar a noite por inteiro?
se no fundo tu também sabes
que nada dá mais prazer
que amar incessantemente ao luar...


Daniela Pereira-20/04/06

sábado, abril 15, 2006

Sussurros e poesia-Parte II



Se alguém te perguntar se estás triste, sorri e mente. Não mostres os teus olhos vermelhos porque os homens preferem vê-los pintados de outra cor. Quando sentires frio dentro de ti, cobre-te de luxúria e prazer e espera que o teu corpo aqueça. Por precaução, costura o teu passado no decote e espera que num momento mais quente o rasguem de olhos fechados para não o verem...o mundo é mais compreensivo quando é cego.
Depois embrulha o teu corpo numa fita veludo e aguarda que um olhar te deseje como presente, mas não esperes receber flores da mão que te despir. ..porque as rosas são para os contos de fadas e tu perdeste a tua magia quando arriscaste amar a sério alguém. Agora do amor que sentes só mereces uma coroa de espinhos e as flores nunca serão para ti.
Então não chores nessa janela porque ninguém te vê por detrás desse vidro empoeirado , és invisível aos olhos de quem por ela passa . Sempre foste assim, apenas já não te lembravas de como era senti-lo...
É por isso que te refugias nas palavras como um vagabundo que procura abrigo em cada canto da rua? Não encontras palha para fazer o teu ninho e então gritas com elas para libertares toda a tua fúria contida. E porque gostas de manter aquela imagem suave e doce que acalma os outros sorris...e quem te acalma a ti, quando sentes que vais explodir em pedaços? Olhaste bem em teu redor?
Não te admires se não vires ninguém e não te belisques porque não é um sonho...é apenas o teu maior pesadelo.


Rebellion (Lies)
By The Arcade Fire
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Porquê ter medo da solidão
se a solidão é a tua única companhia?
Porque choras quando olhas
Para as paredes vazias?
Foram só recordações que delas arrancaste...
Tens tela e pincéis
Então, porque não pintas novos quadros?
Tens tantas cores nos reflexos das tuas lágrimas
Porque não tentas
pintar um arco-íris nos teus olhos...
Não desistas
De imaginar que salpicas o céu
Só porque Deus
Fez os teus olhos com a cor da terra...
Porque a tua imaginação
Tem asas
Sabes bem que o chão nunca poderá ser a tua casa...

Se tiveres de voar sozinha, então não receies a solidão do teu voo porque os pássaros abrirão caminho por entre as nuvens e o sol não te faltará. Tu és como eles e vives cantando sentimentos por isso nunca te pedirão que silencies a tua dor nem que escondas os teus desejos por conveniência só porque temem as tuas tempestades.
Tens nos dedos a força da liberdade das palavras e a coragem para encher o céu com palavras apaixonadas mesmo que o mundo teime em caminhar com os olhos postos no chão...
Pelo menos tu sabes como fazer dos teus lábios rebuçados e escolhes livremente as bocas que os poderão provar... não te limitas a distribuir a mil porcos os teus beijos como se fossem guloseimas só porque por eles salivam.

Por isso...

Beija estes lábios
que em chocolate
foram moldados
e deixa-te ficar assim
perdido na minha boca
até que o meu corpo
se ofereça a ti como sobremesa.
Depois com o meu coração nas tuas mãos
caminha lentamente
até aquela janela empoeirada onde eu chorava...
Então, abre-a com cuidado
para eu não a ouvir gemer
e solta-me com os olhos fechados
porque eu só
sei voar na escuridão...

Daniela Pereira-15/04/06

sexta-feira, abril 07, 2006

Sussurros e poesia-Parte I




Shiu não digas nada, por favor! Não corrompas a lealdade deste silêncio a dois e escuta comigo o que ele nos segreda enquanto sonhamos...

Não existe mais nada numa paisagem em chamas
para além de sombras e labaredas
que abraçadas com paixão
alimentam um fogo
com sonhos húmidos.

Tens carne que cheira a queimado
cravada na tua pele
e esse odor forte
que sentes quando inspiras
vem dos meus pedaços
que no teu coração arderam.

Espera, não grites ainda ....espera que eles te queimem por completo a alma. Depois sim, grita à vontade mesmo que eu já não te oiça. Porque esse teu grito vai-me encher de prazer enquanto dispo este corpo fútil de todas as sensações humanas para deleitar os teus sentidos com as minhas miragens. Podes vir comigo se quiseres, porque nesta cama vestida com lençóis de carne há sempre lugar para mais um...
Mas não venhas já, dá-me tempo para apagar todas as luzes do quarto porque quero a tua imagem à luz de velas forrando as paredes. Só assim o quarto ficará acolhedor para te perderes em devaneios mais quentes.
E na penumbra apenas te verei a ti porque só para ti farei poesia no escuro... para o resto do mundo estarei cega e muda...

Dois corpos nus
ainda vestidos
contorcem-se de costas voltadas
num êxtase solitário.
Não existe mais nada neste quarto
que deixei em chamas...
Nada mais escuto agora
que a noite se deitou em mim...

Só estes sussurros que escapam da minha boca
tentados pela poesia que declamas com o teu corpo...

Daniela Pereira-07/04/06

segunda-feira, março 20, 2006

Um céu caiado no silêncio


Nas palavras que escrevo
por uma estranha vontade
tenho um grito enjaulado.
À noite é uma fera cativa
que atiço com paixão
acenando com um corpo nu na minha mão.
De dia é um pássaro mudo
com sonhos costurados na alma
que o mundo por compaixão
vai deixando voar livre neste céu
que ainda cheira a silêncio pintado de fresco.

Daniela Pereira-20/03/06

sexta-feira, março 17, 2006

Com raiva me deito e com egoísmo me levanto...



Hoje é raiva que inunda o meu sangue não é mais a tolerância ou compreensão... É simplesmente raiva pura.
É difícil admitir como ser humano que sou, que basta apenas um minuto para destruir toda a sensibilidade de uma pessoa, mas não duvido que as palavras erradas no momento certo são como catalisadores para os maus pensamentos acelerando sentimentos negativos que temos em estado latente espalhados por todo o corpo.
Basta que se faça uma mistura explosiva com duas gotas de egoísmo e três de indiferença para que toda a confiança que temos em estender a mão ao mundo se converta num punho fechado.
Hoje deixei cair a primeira gota desta receita cruel e fi-lo deliberadamente sabendo que muitas outras se irão juntar a esta e numa acidez sem limites vão corroer tudo à sua passagem. Reduzindo até as memórias mais suculentas a uma mera pilha de ossos que até os cães vadios rejeitarão só para não sentir o sabor a podre que elas trarão às suas bocas .

Então, seja feita a Vossa Vontade...

Que a ternura seja enterrada num buraco bem fundo
de onde nunca possa fugir...
Que a doçura se funda
ao mais amargo fel
para que jamais mel pingue da minha boca.
Que as lágrimas não me recordem mais
porque chorei sem culpa nenhuma
para que eu nunca mais me sinta culpada
por ser quem hoje sou.

Que nestas palavras fique carimbado o meu desejo de ser livre e de viver pensando exclusivamente em mim e não nos outros. “Só os meus sentimentos interessam”, vou dizer vezes sem conta enquanto estiver a bater com a cabeça nas paredes tentando acreditar nas palavras que saem da minha boca.
E como crente nesta nova filosofia de vida, não deixarei de rezar todas as noites com imenso fervor
pelo egoísmo que nasce sempre nos ventres desiludidos das mulheres, porque hoje sei que nele encontrarei a derradeira salvação para a minha alma.

Daniela Pereira-17/03/06

sábado, março 11, 2006

A tolice de um sorriso que não queria aprender a chorar...



Tenho sorrisos para quem os pede e tenho sorrisos mesmo para quem não os quer...Sempre fui assim, uma mulher de boca larga. Que me importa que o mundo não os queira ver e prefira um rosto lavado com lágrimas? Eu tenho sempre um sorriso pregado na boca e nem a sujidade agarrada às lágrimas consegue conspurcar a sua inocência.
Que tolo é este meu sorriso! Sempre debruçado à janela olhando sonhador para um céu que nunca muda de lugar e na cor só de tom oscila. Mas ele gosta de sonhar que o mundo ainda tem emenda e que a crueldade das pessoas é passageira. Talvez por isso acredite que o céu não é só pintado de azul e que por detrás de uma nuvem existe sempre um arco-íris que espreita.
À noite olha com admiração para as estrelas ...suas eternas heroínas e inveja a capacidade que elas têm de encher de luz um mundo de escuridão. Também ele queria ter essa magia guardada na ponta dos dedos para dormir sempre aconchegado num abraço luminoso.
Que distraído que é este sorriso! Deixa-se estar ali parado debaixo de tantas nuvens carregadas que daqui a bocado é mais um sorriso encharcado que vem à rua...
Mas ele gosta de chuva e daquela frescura que teima em pingar nos seus lábios sempre que uma nuvem chora com ele. Que lhe importa se as gotas quando caiem do céu são pesadas para a sua pele tão frágil?
Ele quer é sentir que ainda existe vida num mundo de sentimentos mortos e a chuva dá-lhe essa sensação.
Eu tenho sorrisos para quem os quer...tenho este mas tenho mais alguns para escolha.
São doces e amargos...tenros e duros...fortes mas sem perder a fragilidade de serem naturais.
Não usam maquilhagem nem acessórios para ficarem mais vistosos aos olhos de quem os cobiça...
Preferem um sorriso a dois do que dois sorrisos perdidos por momentos numa multidão de risos.
Sorriem com um bom banho de espuma mas também gostam de sentir a secura na boca quando se sentem envergonhados. São sorrisos simpáticos...acho eu que já os conheço bem. Se calhar existem olhos que os olham desconfiados quando eles por vezes se fecham irritados. É normal porque ninguém gosta de ver um sorriso descontente...
Que sinceros são estes sorrisos que mesmo quando mentem ...mentem para fazer sorrir. Pode-se mentir com um sorriso na boca? Acho que sim...a alegria também pode ser um estado de fingimento basta não saber como ser alegre mesmo quando a alegria está colada nos nossos ombros.
Eu também tenho sorrisos tristes para oferecer, daqueles tímidos e encabulados que se movem no silêncio preferindo as sombras para recolher os seus passos quando caminham até ti.
São sorrisos tolos porque nunca aprenderam a chorar e por isso encerram a tristeza dentro de si como se o coração pudesse ser para sempre uma concha...


Daniela Pereira-11/03/06




sexta-feira, março 03, 2006

Filmar retalhos


Tenho saudades...
Saudades de expor apenas para ti
a minha vida em minutos
como se ela fosse uma curta metragem
que gostavas de ver despida na tela.
Não fiz pipocas para esta sessão de cinema
mas as minhas palavras
também estalam nos dentes
basta que as trinques com força.
Nos olhos guardo religiosamente uma pedra de sal
e se hoje não as quiseres tão doces
posso derramar uma lágrima
para as deixar ao teu gosto.

Mas agora não penses nos sabores
que te darei a provar
e deposita apenas na cadeira o teu corpo tenso
que eu vou baixar as luzes
e relaxar-te com carícias nas palavras.
Não temas mais a escuridão que foco no olhar
porque ela nunca será tua
e porque aprendi a afiar os olhos como tesouras
para recortar as nuvens
em mim apenas encontrarás luz.


Estás bem assim?
Ainda te sentes confortável no meu mundo?

Então, deixa-me aquecer os dedos
com o ar quente que me sai da boca fria
e escrever na pele um novo guião
para o filme da minha vida.
Mas não quero que me obriguem
a imaginar finais numa história que se quer infinita
porque só para respirar saudades permitirei intervalos.

Blue-02/03/06

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Condeno-te ao passado...


No tempo fiz-me eternamente passado
e odeio-te mundo por me teres
condenado a viver de memórias.
Por ti maldito
sou um vampiro sedento
que à noite suga momentos da alma
só pelo desejo de sentir
que ainda lhe corre vida nas veias.
Cada gota de sangue que de ti consigo beber
é néctar doce para os meus lábios
e mesmo morta para ti
é nos teus restos suculentos
que me alimento.


Daniela Pereira 20/02/06

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Quem lê poemas tristes com sorrisos na boca?




Hoje sou uma folha solta ao vento
que o amor um dia escreveu por engano.
Sinto-me perdida
assim rasgada em mil pedaços
e num rodopio infernal
deixo-me assolar pela dor
enquanto espalho versos pelo chão
com palavras tristes
que o mundo não lê com o sorriso estampado na boca.

Então, que a poesia
se cale para sempre nos meus dedos
e que a solidão seja a esmola amarga do poeta.

Daniela Pereira-15/02/06

domingo, fevereiro 12, 2006

Escrever poesia no escuro



A noite vai longa debruada pela escuridão
mas não consigo adormecer...
Como posso esquecer um amor tão forte
que até me arranca poemas a sangue frio do peito
conduzindo os meus dedos solitários pelo papel
mesmo com a luz apagada?

Então, escrevo versos no escuro
e engano as sombras do meu quarto
desenhando o teu corpo iluminado nas paredes
com os olhos marejados de desejo.

Depois segredo com a boca na almofada
quase num silêncio sepulcral
sem que me ouças
que ainda te amo
e o meu corpo grita-lhe ao ouvido
que inveja os lençóis deitados na tua cama.

E a noite persiste na minha alma...

Daniela Pereira 12/02/06

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Saudades da inocência



Perco o olhar e deixo-o a divagar solitário como se fosse um vagabundo e nos meus olhos acolho a saudade com carinho. Inspiro fundo e fico prisioneira de um ar doce onde sucumbo numa lenta asfixia que me dá prazer. Já vou longe montada no dorso dos meus pensamentos mas o meu corpo ainda está petrificado numa cadeira de baloiço irrequieta. Embalada nos braços reconfortantes de uma melodia, vou sentindo os músculos sonolentos pedindo para adormecer e hipnotizada pelas emoções que me toldam a alma obrigo-os a ficarem despertos por mais alguns minutos apenas. Porque sabe tão bem sentir este balanço nas nuvens ao som desta música de embalar enquanto viajo no tempo. Fecho então os olhos sem saber mais como posso resistir ao apelo da escuridão temporária que invade a minha tarde triunfante .Mas deixo apenas um grão de areia por escoar nos meus dedos para que a alma tenha tempo para silenciar as batidas do peito e depois sopro o presente da minha pele.Então regressam as tranças negras ao meu cabelo e rebelde faço beicinho limpando o batom dos lábios com a palma da mão enquanto vou dando gargalhadas sem me preocupar que os vizinhos possam ouvir o meu riso e estranhem a falta das lágrimas caindo no meu rosto triste por natureza. Nas mãos acaricio alegremente uma flor e vou brincando com as pétalas invejosa por reconhecer tanta beleza esculpida num único ser terreno. Subitamente dou por mim desejando ter feições de uma deusa só para a humilhar e roubo-a para enfeitar o meu corpo de mulher. Então, cresce-me nas pernas uma vontade de voltar a correr pela floresta só para me esconder das sombras reprovadoras ,que me perseguem ,trepando às árvores para depois atirar-lhes caretas empoleirada nos ramos. Lentamente vai nascendo um sorriso nos lábios despidos de cor e relembro a miúda traquina com mil ideias mirabolantes guardadas nos bolsos que cautelosa e com medo dos olhares curiosos escondia os seus preciosos sonhos nos corações de borracha das bonecas. Numa pura diversão sabia inventar brincadeiras sem fim sentada à porta de casa e rodeada de amigos coloria as horas com os dedos sujos de tinta. Depois deixava a marca da sua alegria estampada nas paredes da rua e partia ao pé cochinho para mais uma aventura com um punhado de terra dourada brilhando nos olhos.

Daniela Pereira