quinta-feira, março 04, 2010

O Inferno fica sempre à escuta...






Se todos os seres tivessem alma em vez de dois neurónios certeiros...
não existiriam rios manchados de impurezas nem vagabundos perdidos na rua à espera que a chuva fosse feita de gordos tostões para puderem encher os bolsos vazios..

Se as mãos do Homem fossem mãos de pescadores a fome do mundo morreria no fundo da barriga de um peixe e o pão dos pobres teria fermento...
De magras carcaças o Céu
já está tão cheio!
Mas a Natureza parece que nos quer engolir num leito de terra e pastas de lama
e o Céu hoje é pasto de anjos...

E o Homem grita que tem fome de calmaria e pede uma chuva branda e mares adormecidos... mas o Inferno fica sempre à escuta com as mãos a tremer de frio.


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados

Foto by @Daniela Pereira

segunda-feira, março 01, 2010

Ainda fico de braços abertos...

Goldfrapp-It's Not Over Yet(Grace & Klaxons Cover)






Ainda não terminei as lágrimas e os laços desapertados
que me deixam solta nos vazios temporários...
Não posso entristecer..porque estar triste é perder forças..
Porque estar cansada...
ser flor cortada ao meio é dispensável num mundo que se quer inteiro.
Ainda não terminei as lágrimas e os cansaços...
Ontem vi um sorriso à espreita e pedi-lhe um abraço parada junto à porta..
mas ele não me viu ..
acho que se esqueceu que eu costumo estar ali de braços abertos...

Daniela Pereira
D.R

sábado, fevereiro 27, 2010

Insólitos Descartáveis I

Insólitos Descartáveis- Excerto do texto "Somos cães que as larvas desprezam"






Não quero ser arrogante nas palavras que exalo, mas a arrogância aqui faz todo o sentido. Estou a olhar o mundo que está lá fora e sinto nojo por senti-lo assim....bruto e grotesco. As pessoas parecem uma matilha de cães esfomeados lutando pelo melhor pedaço que a vida lhes atira ao chão.. e como cães que são mostram-se bichos rudes e insensíveis não hesitando em morder os fracos e derrotados até ficarem com os dentes bem cravados na carne... porque neste mundo só os vencedores merecem comer. Vale tudo para se ser feliz neste planeta de mesquinhez e cobardia! Queres ser feliz ? Então, não penses mais porque a maneira mais fácil de lá chegares é devorares a felicidade dos outros...engole-a só para ti...tira-lhe o ar e depois deixa-a seca e vazia num canto qualquer da tua rua. De preferência, num canto escuro, só para que ninguém veja o teu trabalho sujo a brilhar na sujeira que amontoas na tua alma. Não podes ser descuidado e deixar á mostra de todos, as lágrimas daqueles que espezinhaste porque ainda rompes a tua máscara e toda a gente vai saber que és um monstro horrendo. Montaste ao meu coração um cenário lindo de morrer! Só podia porque no fim ele será o meu cemitério ...e a morte de um sentimento tem que ser celebrada com euforia e cor. Fico a rir dos teus rios límpidos e cristalinos, onde a água é na tua dimensão imaginária um objecto de pureza extrema. Achas que não consigo ver que ela está conspurcada de restos maltratados? Louco e inocente...é isso que és! Tenho olhos de breu, mas ainda consigo ver para lá da mentira porque a verdade nunca me enganou e sabe bem guiar os meus passos. Iludiste-me... enfeitiçaste-me com palavras doces e lenga-lengas, mas o meu peito sempre desconfiou dessa doçura reforçada. Batia mais forte...é certo que batia! Mas em todas as corridas que fazemos o coração acelera mesmo que tu vás direito a um precipício ...ele não pára. Não escolhe porque bate...apenas sente debaixo de um emaranhado de músculos entalados na carne e abraçados por sangue que tão depressa ferve como congela a uma velocidade estonteante.
O mundo gosta de pregar sermões aos peixes... de cuspir amabilidades e falsas certezas pela simplicidade do acto. Ser sincero é muito mais trabalhoso! Custa sofrer quando se diz uma verdade e ela é sentida até à raiz dos teus cabelos....imagina-a como uma dor dentes...

Daniela Pereira in Afectos Obsessivos (Excerto do texto “Somos cães que as larvas desprezam”),Edições Ecopy 2007

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Aproximações


Todas as recordações guardam perfumes e gotas de sal em frascos de vidro fosco..Todos os teus passos têm cheiro a passado..gosto a presente e gestos para memória futura...O resto..o que não nos marca...o vento sopra como folhas castanhas que o Outono desprezou




E quando dançamos...dançam aos nossos pés todas as estrelas caídas na maré dos nossos sonhos...E todos os jardins ganham cor nos amontoados de terra que ninguém quis florir...Já tens margaridas brancas penduradas nos cabelos e nos teus lábios rosas de carmim ganham mais carne...Mas quando dançamos a tua alma é fresca brisa que me arrefece até aos ossos..


Daniela Pereira
Direitos de Autor Reservados


segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Afago ...


E
nos teus olhos vi o sol poisar aos pés da lua todos os teus segredos...
as tuas viagens nocturnas pelos telhados e as marcas das tuas passagens
gentis.. Afago-te...já não pareces cansada mas apesar de tudo...ainda
descansas


Daniela Pereira

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Quando uma chama respira na tua boca..morre uma cinza nos teus cabelos..


Vamos celebrar as palavras como quem festeja os anos que passam..
Os anos que correm nas tuas veias,apenas se virares o mundo de pernas para o ar...
Se não, o chão pára a ver-te silenciar o coração
como se tu fosses uma rosa sem espinhos
que o vento não perdoa...

Vamos dizer que estás vivo..
Que a água que te molha os pés e te faz espirrar
já foi um rio num dia que passou
na folha escrita do teu calendário...
Sei de fonte segura que te rasgaram algumas vezes...mas tu não te fizeste página rasgada e rasuraste as tuas feridas mais profundas lambendo o mel que te colou..
E morreram os teus amargos de boca
esmagados pelo peso daqueles dedos que gritavam...
LIBERDADE

E se as palavras te disserem...
Sentes medo ?

Tu vestes um sorriso..
como quem veste a pele de um filho acabado de nascer
e com todas as tuas forças
proteges a tua boca de todos os frios de Inverno
que já viste em ti mil vezes renascer...
Depois ficas sossegada no teu mundo
a desenhar luas no tecto
e a tatuar estrelas nos tornozelos
à espera que peixes dourados
vejam em ti uma onda de água doce
reflectida num espelho...
Não te partes...
Queres-te inteira
a saborear os mergulhos
e já não és mais um resto de ser...
És borboleta que desponta ao pôr-do-sol..
És orvalho com folhas por beijar...
És castiçal de luz e a escuridão já não te vela...

"Se as tuas palavras estão vivas
e o teu coração bate tão depressa no respirar de cada uma delas..
então menina dos olhos de terra
tu só podes ser alegremente
um belo poema imortal..."


Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Aqueles gestos nas horas vazias...


Perfumes ácidos nas tuas pétalas mais doces...
Chuvas corroídas nas veias...
Eternamente ...uma desfolhada de ternura na eira do meu peito...

Daniela Pereira

Direitos de Autor Reservados...Foto e texto da autoria de Daniela Pereira



domingo, janeiro 10, 2010

Meio sonho acordado...



Foto por Daniela Pereira
Direitos Reservados



Jamais me fiz ao Mundo
sem caminhar com os olhos
olhando de frente a maré...
Já rasguei ondas e vendavais
com os dedos cortando chapa...
Existem telhados que são de vidro
e o meu coração há-de ser sempre
uma fina vidraça e nada mais..

Se fechar os olhos vou dormir
e o resto do mundo
há-de permanecer acordado
dando vivas à sua existência experimental...

Porque não vamos ser fadas ou cardeais por um dia...
só para desventrar a melancolia?
Apetece-me ter asas nas costas e escamas na pele
para não me afogar nos meus voos ..

Deixa-me ser mais um grão de poeira
amansado pelo cansaço
para eu dormir tranquila este chão de areia...


Jamais me fiz ao Mundo
sem lhe perguntar
porque não há respostas
para a tristeza de um olhar e para o singelo grito de mudança...

Se fechar os olhos vou dormir e tu coração de maçã vais dormir comigo com os cabelos cheirando ao pomar da manhã...

Daniela Pereira in "Meio sonho acordado"
Direitos de autor reservados

quinta-feira, janeiro 07, 2010

A estrelinha dos desejos e a nuvem das desilusões





Era uma vez uma estrelinha que brilhava mais do que todas as outras estrelinhas penduradas lá no céu...
Esta estrela tinha um brilho invulgar porque alimentava-se dos desejos que todas as pessoas do mundo lá de baixo iam atirando ao vento que passava..
Mas também havia uma nuvem lá no céu...cinzenta e mal encarada. Era a nuvem das desilusões que chorava sempre que alguém não conseguia realizar um sonho,porque sentia um coração mais apertado. Quando isso acontecia, a pobre nuvem cinzenta espremia o coração e todo ele se desfazia em grossas gotas de chuva salgada.
A estrelinha dos desejos não gostava muito da sua vizinha,porque era triste e sempre que a via tão chorosa lembrava-se que algum desejo não se realizava.A estrelinha era muito esforçada,passava os dias a viajar de país em país a escutar os desejos que as pessoas deixavam sussurrados na cabeceira.Depois fazia uma lista com todos os desejos gravados em tinta azul que as borboletas traziam às escondidas de algumas flores mais distraídas e pronto ..depois era só deixar todas as noites uma luzinha nos corações das pessoas para iluminar a vontade de realizarem os seus desejos mais queridos que a estrelinha sempre os ajudava.
Então se a estrelinha nunca deixava sozinhos os desejos das pessoas porque seria que alguns ficavam perdidos e por realizar? A nuvem das desilusões era a única que sabia o quanto custava perder um desejo..
As pessoas por vezes desejavam com tanta força um sonho que ele ficava sufocado antes mesmo de vir ao mundo. Mas se todos os desejos fossem realizados pela estrelinha dos desejos quem daria valor aos desejos realizados?Realizar um sonho já não teria o mesmo sabor.Por isso a nuvem das desilusões lá está, escondida no céu para lembrar às pessoas que tudo o que se deseja pode ser desilusão se não for trabalhado com muito amor e carinho.


Daniela Pereira in "Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos de autor reservados

terça-feira, dezembro 22, 2009

L'Hiver...


Je suis la pièce principale de mon coeur

terça-feira, novembro 24, 2009

Livro Afectos Obsessivos -Promoção de Natal


Encomenda do Livro Afectos Obsessivos com dedicatória da autora-Promoção de Natal:

O livro tem como preço de venda 12,50 euros e a entrega pode ser realizada por Correio Verde caso opte por pagamento através de transferência bancária:
Neste momento estou a promover esta entrega por Correio Verde sem qualquer acréscimo de portes de envio
No caso de optar por envio à cobrança, realizo o registo da encomenda nos Correios e o envio é acrescido de portes:2,50 euros

Se pretender mais alguma informação basta contactar-me nesta página que terei todo o gosto em fornecer-lhe a informação solicitada.


Cumprimentos

Daniela Pereira

segunda-feira, novembro 16, 2009

A menina do coração de romã e os pássaros tristes...




Era uma vez uma menina que não tinha um coração igual aos corações de todos os meninos que corriam pelas ruas chocando contra os carros logo pela manhã.Esta menina tinha um coração mais doce...Não tinha um coração recheado de guloseimas mas tinha um travo doce...Tinha um coração de romã,vermelhinho e suculento.
Todas as manhãs a menina coração de romã vestia-se de papoila do campo e ia para a janela esticar o olhar para ver o fim do horizonte.Sonhava com barcos-livro que a levassem a ver o mundo numa folha de papel..Quando queria descansar o olhar e os sonhos,ela focava os pássaros que dançavam pertinho do seu olhar.Eram pássaros com a alma triste que voavam em círculos na esperança de encontrar uma nova semente que lhes devolve-se um pedacinho da alegria perdido.
A menina coração de romã tinha um coração tão grande e doce que nunca deixava um pássaro a morrer com fome de ternura.Ela abria a boca devagarinho e deixava os pássaros dentro dela entrar.Então os pássaros desciam com cuidado pela garganta da menina romã fazendo cócegas ao passar para a menina romã nunca deixar de sorrir e enchiam-lhe o peito com suaves melodias.Depois a menina romã abria o coração e os pássaros com a alma triste iam roubando algumas sementes até já não sentirem mais fome.Quando se sentiam com forças para de novo voar agradeciam à menina coração de romã por lhes ter matado a fome e levavam-na consigo a ver o mar...No fim do dia deixavam a menina coração de romã deitada no seu campo de papoilas com o coração ainda mais cheio e partiam felizes porque se sentiam ainda mais doces...

Daniela Pereira in " Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio"
Direitos Reservados

sábado, novembro 07, 2009

O monstro dos olhos cor de terra...





O monstro dos olhos de terra gostava de pavões e de fazer piqueniques com os camaleões que mudavam de pele para fugir dos mauzões...
O monstro dos olhos de terra não tinha pés para andar nem asas para voar mas viajava longe com o pensamento e nunca ficava preso a um só momento porque sabia galopar corajoso nas marés...
O monstro dos olhos de terra não era mau mas também ninguém lhe dizia que ele era bom ..ninguém lhe dizia "gosto de ti" e o monstro gostava de tanta gente que às vezes até lhes esquecia do nome e apontava todos num caderninho que nunca chegava ao fim...
O monstro dos olhos de terra metia medo porque tinha sempre os olhos inchados e nunca sorria..tinha a boca apontada em direcção ao chão e dos seus olhos caíam lágrimas mais pesadas que os rochedos que ele contemplava na praia.Por isso todos fugiam dele com medo que as suas lágrimas os pudessem esmagar.Mas o que ninguém sabia é que as lágrimas do monstro com olhos de terra só pesavam na alma dele...ao chegar ao chão eram leves e quentes..só sabiam a vapor...
Como ele gostava de ter um coração camaleão que esconde-se a sua dor plantada nos seus olhos de terra....Talvez mais ninguém tivesse medo do seu triste abraço se ele pudesse fingir que o seu coração também sabia sorrir..Então não teria mais uma sombra para carregar nas suas largas costas e seria mais uma montanha feliz por semear...

Daniela Pereira in Contos sem pés nem cabeça mas de coração cheio
Direitos Reservados

quarta-feira, outubro 28, 2009

Miragens de um sofredor...






Há um mar sem sal que me cheira a rio...
2 pedras no caminho que não consigo arrancar com os dentes...
e uma gaivota que não voa...só paira a meu lado
e ainda ontem me falava de sonhos e de marés...

Olhares sem fim e pontos de exclamação admirados por mim
que me rompem às dezenas os segredos guardados na mente
e as pétalas que vesti aos malmequeres sem orgulhos..
ficaram rosados e cheiravam a rosas sem espinhos...

Há trigos nas searas brancas de papel
e nos dedos há peixes frescos para os pescadores
que têm como isca um punhado de sonhos...
Vi um peixe anão na caravela do palhaço triste
que gritava "Não gosto de solidão!"
para as ondas do mar
que aplaudiam a sua coragem
afogando-lhe a garganta...

Vi um dente de leão que não era feroz
a baloiçar nas ventanias
como se não houvesse amanhã..
Se eu lhe cortar o pescoço será que ainda dança?

Há um mar sem sal e as minhas gotas despejadas num rio...
Esta noite tenho um segredo para contar
aos desertos deste mundo...
A água salgada não é para beber...
é para matar a fome às ilusões
que plantamos na areia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, outubro 15, 2009

Se todos os desejos se fizessem num só dia...


Foto de Daniela Pereira-

http://olhares.aeiou.pt/toda_a_cor_no_teu_ceu_foto2543572.html
Um dia coloco todos os meus sonhos numa mochila bem apertadinhos e levo o meu corpo a viajar por mil paragens...
Um dia faço das minhas pernas uma trepadeira e deixo-me ficar ao sol a florir...
Um dia corto uma folha de papel e construo um barco que me leve prontamente às margens dos meus desejos...
Um dia deixo de me ouvir e coloco brincos nas orelhas para chacoalhar todos os meus ecos...
Um dia volto a subir a uma árvore para imitar os frutos que nos ramos amadurecem...
Um dia acendo uma fogueira com uma chama que jamais me queime a relva fresca mas que me aqueça dos orvalhos...
Um dia ergo uma bandeira em todas as muralhas que deixei para trás dos meus braços porque não as consegui abraçar com a mesma força com que abracei a primeira pedra...

Um dia..um dia...

Um dia invento uma palavra que o mundo não conheça nem saiba definir e ficarei a rir ao vê-la crescer incompreendida ...
Um dia farei uma casa sem portas para todas as almas terem um lar aberto e não um abrigo em mim...
Um dia vou ver um espelho a olhar para mim sem vontade de me estilhaçar por azar...
Um dia peco nos sentidos com uma paixão tão gulosa que até o ar respirado será doce...
Um dia marco uma meta no chão e vou correr até vencer os cavalos que galopam o infinito...
Um dia escrevo uma canção sem voz e vou ouvi-la na sua bela mudez ao pé de um lago imaginando que todos as pedras me estão a aplaudir de pé....
Um dia recorto veludos vermelhos e faço um coração sem remendos costurado com pontos cheios...
Um dia faço um poema sem pensar que terá um fim...*

Daniela Pereira in Se todos os desejos se fizessem num só dia
Direitos Reservados

domingo, outubro 04, 2009

Palavra nocturna...

Escrevi o teu nome numa pedra...

Pensei em deixar-te
sozinho junto ao rio...
Ficar a ver-te parada
a adivinhar que
novos passos te iriam pisar...
Mas tive pena...
Tive pena de te ver com o corpo tão marcado
e então deixei-te adormecido
nos seios das sereias do costume...

Talvez não fosse por pena...
Talvez fossem ciúmes
ou a tristeza de saber
que não fui eu
a deixar enterrada em ti
uma marca tão profunda
e que por mim
o teu peito
ainda está livre.

Escrevi-me em ti
com o pólen das flores
onde me foste arrancar
e nada ficou
depois de todos os jardins
se despedirem das nossas noites..

Escrevi o teu nome no vento...

E ainda hoje te vejo
aos círculos voando
com todos os olhares
que deixas-te para trás das tuas costas
amontoados em caixinhas
que apertas na tua mão...

Talvez devesse soprar-te com força...
ou então atirar-te friamente contra o horizonte..
Talvez assim pudesses
também ver o chão
chegar perto de ti...

Mas hoje escrevo-te em mil folhas e nada mais...
Podemos sempre rogar
por mais asas abertas
e chuvas doces por cair..

Mas hoje escrevi o teu nome numa pedra...
por fim...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quinta-feira, outubro 01, 2009

Todos os pensamentos são permitidos se voarem dentro de mim

O céu seria perfeito se todos os pássaros de penas molhadas não ficassem perdidos nas nuvens a recordar o sol que fazia ontem...Quando brilham as memórias num peito chão..voam rasteiras todas as certezas do ninho...

Daniela Pereira in Todos os pensamentos são permitidos se voarem dentro de mim
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 29, 2009

Vasos (des)comunicantes


Se cada gesto mudado fosse a primeira pedra para construir a diferença..o mundo saberia que muros inflexíveis não prendem pensamentos com cimento fresco...


Daniela Pereira in Vasos (des)comunicantes
Direitos de autor reservados

segunda-feira, setembro 21, 2009

Mornas intenções





Quero andorinhas nos beirais do telhado
e folhas secas caídas aos pés da mesa...
Rostos para expor nas varandas,bem regados
para os ver a crescer nítidos e formosos..
Como os lírios selvagens que rompem raízes nos vasos
para por de pé as flores....

E o meu tapete de folhas secas para cobrir-me de chá de hortelã
até cheirar a pimenta nas mãos a arder.
Ardem luas no meu vestido
e há sois a pé coxinho inquietos nos meus seios.
Tenho sangue a saltar à corda nas minhas veias
e o coração parece estar concorrido com filas nas portarias.

Vou já!Não me esqueço de dizer...
Quero foguetes a estoirarem-me os olhos...
quero ver todo o fogo que tenho no meu olhar bem preso.
As estrelas levo-as pela mão até encontrar na escuridão
emprestada a luz própria do meu caminho.
Ainda escrevo mais um poema um poema para adormecer...
depois dispo-me de poeiras e fujo do ninho.

Daniela Pereira in Mornas intenções
Direitos Reservados
Fotografia @ Daniela Pereira

sexta-feira, setembro 11, 2009

Capas negras e um fado mal amado...




Improvável..imprevisível...impotente..

Aqui jazem problemas e soluções num trio incoerente..
marcham por caminhos desavindos
e não se abraçam mais
quando o medo
rasga a noite
numa escuridão nua...
Já não cruzam
olhares ao fundo da rua
e as paredes já não lhes sentem
os beijos de gato
segredados à luz da lua...


Foi em granito que te esculpi...
mais duro que o aço..
mais rude que a gralha que ri
enquanto imita a tua canção...
mais cristalino que o sal que me queima a boca.
Tens o ar das serras nos pulmões
e nas costelas que te erguem gigante
tens a dor dobrada
de quem se fez chão
para te ver quebrar mais uma onda...

Colhidos os morangos com a boca...
bebidos os suspiros
e inspirados todos os ramos de alfazema
só uma triste balada ficou
e um mar de órgãos imperfeitos
por transplantar..

Um pulmão que cheira a fumo
por todas as noites cravadas
à tua sã nicotina
que sabia a maçãs...
Um rim que não drena
do sangue as impurezas
e as belezas
injectadas nas veias...
Se eu pudesse tossir
todas as estrelas e as madrugadas
onde me costurei a ti...
Se eu pudesse expelir as lembranças...
as lembranças...
como se fossem corpos estranhos
morreriam-me as fraquezas...
E o coração?
Aquela chama por apagar...
E as pirâmides que desenhei nos teus desertos?
E as rosas com que enfeitei as tuas poeiras?
E as luzes púrpuras que acendi nos teus sonhos?
E os quadros de infância que bordei com risos e tranças?
E...E..E..e um pouco mais de um nada indivisível
a repartir em 3 tempos
nos ponteiros de uma agulha incontinente...

Aqui jazem problemas e soluções
com o verbo respirar
perdido e incerto...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 08, 2009

Juras drogadas...







Não há mar
numa fogueira à deriva...
nem brasas acesas
que sobrevivam
no fundo de um poço...
Porque não se queima o sal
com o calor de uma maré...
nem se incendeia a tristeza
só porque ateamos
uma chama mais profunda.

Não existem estrelas apagadas
a espiar-nos os olhos nas varandas...
nem um luar esperto
que no peito
da escuridão não se divida...
Porque a melancolia
guarda punhais adormecidos
a reluzir das lembranças...

Não há um rio licoroso
a boiar nas bordas do meu corpo...
nem beijos de moscatel
para afogar no perfume de um jardim...
Se na minha boca
não vieres beber
rosas com gosto...

A droga da solidão
já jurou que
não tem mais veias
por onde escorrer
com liberdade...
Mas não pode haver
mais juramento
sem videiras fartas por colher...
E sem céus dourados para caminhar...
todas as promessas
estão drogadas...

Há uma alucinação por desprender
da mente mal passada
e um sonho por remendar
no coração mal rasgado...
Depois...
há um poema abençoado
e uma lágrima que fica por tingir...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

terça-feira, setembro 01, 2009

6 em linha...





O que me faz falta é limpar as sombras do sorriso e todas as lágrimas que me sujavam o vestido...
Atirar com os arco-íris contra os lagos e beber água de todas as cores...
Pôr a terra no seu chão e escavar as montanhas à procura de mais nada recebendo com as mãos sujas mais um pouco de tudo o que dei...
O que me faz falta é deixar as estrelas a passearem radiosas por aí..um dia serei uma delas e terei uma imensidão de poeiras para contar...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, agosto 22, 2009

Vertigem seca...

Agosto 21/2009 23h50

Boa noite...Não penses que estou a despedir-me de ti, muito pelo contrário estou apenas a chegar.
Esta noite sinto-te diferente, pareces estar mais clara apesar desse teu tom de folha de papel envelhecida à luz de um candeeiro.
Ontem decidi que quando sentir vontade, virei sempre aqui visitar-te e falar um pouco contigo...Afinal tens sido a amiga mais fiel que eu até agora encontrei.
Venho aqui fazer aquilo que mais gosto de fazer...tu sabes...tracejar-me em ti..
Pensei até num nome para baptizar todas as horas que irei partilhar contigo...mas uma palavra pareceu-me pouco e estendi a corda.Em vez de um nome inventei logo uma frase inteira... "O diário de um coração aflito sem colesterol"
À primeira vista pode soar-te um pouco estranho...mas vais ver como faz sentido. Pensa assim...vou falar de um coração...do meu coração e de tudo o que ele me irá fazer sentir.O que ele já sentiu é importante mas acho que já perdi alguns sentimentos por aí..a eternidade nunca me ficou bem.
Inicialmente este coração terá alguns acessos de aflição...andará certamente perdido na busca de outros rumos, já cansado dos caminhos errados que cruzou.
Vais senti-lo fragilizado e embrulhado numa complexa alcateia de memórias que lhe infernizam a cabeça enquanto ele vai tentando escapar ileso de cada ataque sofrido ...Continuar vivo e a bater pode ser considerada a sua grande vitória, tudo o resto será uma humilde derrota.
Um pouco à semelhança de um coração doente, onde sabemos que a circulação é barrada por camadas e camadas de gordura..este coração também estará aqui a tentar lutar para sobreviver...entupido em desilusões.
Agora só quero falar-te no dia de hoje...da actualidade, como se me visses numa página de jornal cravado de notícias para dar.
O meu coração ontem andou no meio de uma pequena tempestade, mas curiosamente hoje acordou com uma tranquilidade que sinceramente até me meteu uma certa inveja.
Tudo, porque o coração andou tão calmo o dia inteiro, mas o corpo estranhamente deu sinal de alguma instabilidade ao raiar do fim do dia.
Acredito que a ondulação de humores do dia anterior, não terá exercido uma boa influência no funcionamento desta máquina que levo atrelada à massa de carne e ossos que me constitui humana.
Senti uma tontura repentina..uma coisa parva durante um gesto habitual que consistia em erguer a minha cabeça do chão.Ando destreinada na postura de corpo imbatível..
Por breves instantes não sabia muito bem onde tinha os pés porque o chão parecia que me queria sugar para algum buraco.
Não me preocupei muito, porque sabia que as minhas emoções estão intimamente ligadas às reacções do meu organismo.
Em mim, existem tensões que disparam e nervosismos que deviam supostamente ser relaxados... antes de acumularem ansiedades que podem explodir mais tarde como se fossem uma bomba..deixando-me em pedaços difíceis de apanhar.
No entanto...e já que hoje os meus pensamentos estão focados nas fraquezas corporais que possuo,devo confessar que me apercebi que estes olhinhos cor de terra...que já tiveram uma visão digna de um lince...estão a precisar de uma séria manutenção. Existindo mesmo, o risco de já não conseguirem enxergar o resultado de uma partida de futebol quando exibida no grande ecrã. Considero isto um assunto grave, mas como na área da saúde posso dizer que andei na chamada época alta no que diz respeito a doenças.A minha habilidade ocular foi-se adiando ...
Mas adiante, antes que comeces a pensar que virei hipocondríaca ...tendo em conta o que já passei, seria fácil olhares para mim com essa dedução bem afinada na tua cabeça.
Curioso, falar contigo está a deixar-me ensonada..talvez seja porque nunca me respondes e o silêncio gerado no quarto embala-me depressa.Por isso, vou deixar este tema em banho maria para ter ainda algum tempo para falar do meu coração com termos menos técnicos e mais subjectivos.Acho que algumas pessoas chamam a isso, falar com alma...eu não quero falar "com"..mas sim "da" alma.
Como já te tinha dito nalgumas linhas que ficaram para trás... o meu coração hoje esteve calmo. É raro vê-lo assim a conseguir tão grande feito..há imenso tempo que ele não tinha um dia tão tranquilo...quase em paz.
Acordou cedo..foi trabalhar e ainda conseguiu ter a coerência necessária para passar alguns instantes ao ar livre a querer sentir-se bem sem ter muito em que pensar.
Isso não quer dizer que ele já ande esquecido..nada disso, mas hoje simplesmente não sentiu grande necessidade de lembranças.
Brincou um pouco..imaginou outro tanto..idealizou lagos e recantos melancólicos onde pensa mais tarde descansar das suas próprias melancolias.
Hoje não perguntou ao mundo inteiro como ele estava..nem sequer fez essa pergunta (que já foi tão habitual) aquele pedaço fora do eixo que ele viu ser arrancado voluntariamente de si.
Não tem feito diferença alguma perguntar..por isso hoje não o fez. Existe sempre tanta estática no ar que não há resposta que ao coração chegue...isolou-se das perguntas como se elas fossem uma doença mortífera.
Logo, guardou a pergunta para si com medo de contaminar o mundo e desejou que ele estivesse bem e deixou o mundo satisfeito com o coração a bater lá pelos seus lados..
Vertiginosa esta sensação de estarmos sozinhos com uma memória que desvanece deitada ao nosso lado...
Se ela acordar diz-lhe que ainda não morri!


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
Direitos Reservados

sexta-feira, agosto 21, 2009

Digo-te depois...


20 de Agosto de 2009- 0 : 59m




Querida folha de papel....esta noite sinto-me estranha...pensativa. Deve ser ridículo para ti, ouvires-me a dizer isto. Já me conheces bem e sabes que eu em muitas outras noites me isolei aqui contigo ou com outra igual a ti a dizer o que sentia.
Tornou-se um vício difícil de superar...mas podes estar descansada que pelo menos eu não fumo.
Hoje foi um dia complicado..tive que amarrar algumas palavras na boca, mas algumas conseguiram escapar e fizeram o seu prejuízo.
Não fiquei triste porque desta vez não senti que tinha cometido algum erro, mas lamento que dizer as coisas...mostrarmos que defendemos aquilo em que acreditamos, consiga por vezes ser a tarefa mais complicada do mundo. Porque arrastamos algumas convicções que não são nossas nessa enxurrada de crer.
Custou-me ter feito parte daquele triângulo de discussões...Tenho a utopia que as palavras podem só dar origem a momentos de compreensão e harmonia. Acho sempre que vão entender claramente aquilo que estou a querer dizer com elas...
Mas cada pessoa pega na palavra que para si quer e deixa muitas delas de lado...alguma coisa..uma nuance...um pedido..uma desculpa fica a falar baixinho a um canto e é provável que passe despercebida.
Sei isso...apercebi-me disso, porque tenho tido a minha colecção de diálogos incompletos...de monólogos acalorados e de silêncios imprevistos.
A única explicação que encontro para todos estes factos comuns é a partilha imperfeita daquilo que queremos expor de nós mesmos quando achamos que o mundo certamente estará aqui para nos ouvir...
Por vezes penso...por vezes...mas quem é que eu quero enganar? Não é..."por vezes"..é sempre!
Eu penso sempre se existirá uma forma mais inteligente de comunicar com o ser humano.. Porque com os animais sentimos que é tudo tão fácil. Que cada gesto é apreciado...absorvido no instante em que ele parte de nós.
Não há tempo se quer para ser formarem as incómodas dúvidas de como será recebido...
Devia ter nascido cão...certamente seria um ser muito mais comedido e sensato!
Este tem sido provavelmente o ano da minha vida em que mais questionei o que me rodeia e tudo o que entrou ou saiu de mim.
Acho que me tornei incrivelmente chata..monótona..tremida e nunca tive tantas dúvidas em posição de assalto cá por dentro.
Percebi que acabo todas as minhas frases com um par bem dado de reticências alternado com os bem ditos pontos de interrogação.
Apesar de tudo, as dúvidas e os medos vão diminuindo a um bom ritmo e só isto me permite estar aqui a desfilar os meus pensamentos com a noção que não ficarão muito tempo só para ti...( tinha razão,não ficaram!)
Há muito tempo que deixei de esconder quem sou... é talvez o meu maior acto de coragem, mesmo que ele seja também a razão para muitas das minhas entorses e derrapagens.
Talvez tenha mesmo que ter cuidado com os vazios que vou encontrando nos meus degraus..preciso de aprender a não achar que eles me vão sugar todos os passos que ainda quero dar.
Olhar para eles como se eles fossem balões que ainda estão por encher. Esvaziei-me...amanhã arranjo uma forma ( imaginação é algo que não me falta) de me voltar a encher em vez de lamentar o espaço em branco que em mim ficou.
Tenho-me concentrado a reunir todos os defeitos e obstáculos que sei que vão surgir sempre que der um passo em falso.
Se eu fosse uma pessoa excessivamente organizada, diria que estaria a esboçar uma lista com os meus erros e todas as emoções que eles despertam em mim...
Mas não...vou apenas recolhendo pedaços aqui e ali daquilo que sinto a olho nu...
Acolho bastante a dor...
Espremo algumas lágrimas...
Maltrato alguns dos meus sorrisos..
Conheço novas entradas para o medo..
Retiro-me e depois atiro-me de cabeça nas compostas dúvidas...
Finalmente tento arrancar explicações...

Uns dias acordo cheia de ganas e esperança... noutros dias simplesmente apetece-me nem acordar.
Sabes, apesar de estar a falar com uma folha de papel, sinto que o estou a fazer com toda a clareza..mostrando o rio de pensamentos que me sobressaltou esta noite. Parece-me ser uma atitude de uma pessoa normal..de uma pessoa que talvez ultrapasse um pouco em alguns momentos a necessidade que as pessoas sentem de parecerem turvas naquilo que lhes corre no pensamento.
Eu acho que preciso de me sentir límpida em todas as minhas águas para me sentir pronta para regressar ao meu flutuar diário.
Isto fará de mim alguém que perdeu o juízo ou uma pessoa que simplesmente está farta de engolir tanta sujidade?
Digo-te depois...


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
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domingo, agosto 16, 2009

Foi doce...





Vou cantar à janela
que a vida é bela...
Que o meu amor
pode ter espinhos
mas tem rosmaninhos para dar..
Que a flor morreu
mas ainda tenho
que ter algures em mim
a sua semente...
Que a chuva que cai dos meus olhos
um dia vai deixar de ser tão salgada...

Foi doce o meu olhar
quando se enchia de ternura
Foi doce..

Queria uma cantiga de amigo ao pé de mim..
Um ombro para adormecer
quando me sinto cansada...
Uma mão para apertar a minha
e nunca mais a largar..
Queria caminhar...

Queria fazer poesia
por sentir magia dentro de mim..
Não queria ter palavras
só porque me apetece chorar...

A poesia é um sopro de vida
não é o lamento de quem se sente a morrer!
Queimem-me os lenços...

Se tenho palavras
que sejam para exaltar os sorrisos...
para mascarar a minha morte..
para inventar versos e canções..
para carimbar nas paixões..

Porque levas-te de mim tanto
para hoje sentir um pouco mais
o que ficou gravado nas paredes?
Asfixias-me a inspiração e já nada bate certo
na fragilidade dos meus dedos...
Deprimo as letras...deprimo as letras
e conduzo os versos
a um suicídio lento
porque não os deixo fugir
da onda triste
que me visita todas as noites...

Perdi o dom de fazer sonhar..
Fada azul sem varinha de condão..
Borboleta voando ás voltas...perdeu a flor..
Tinha olhos onde brilhavam estrelas..
Luzes no rosto e a escuridão
presa a um canto.
Por ironia...fui eu que a libertei!





Estou farta das palavras...
Estou farta de dizer o que sinto...
Apetecia-me enterrar bem fundo
a tinta e o papel..
Encerrar o meu corpo numa concha
e ficar a vê-lo a apodrecer!
Talvez, até queimar a alma...no Inferno
Fugir para uma mata e repartir a fome com os lobos
para ver se eles uivam mais alto que o meu peito
ao recordar os beijos dados ao luar.
E eu que adormeci na tua toca pensando que a dor nunca chegaria para me comer...
Como ela me devora sem dizer uma única palavra!

Uma poetisa deprimida está à janela
devorada em silêncio
a fingir que a vida é bela..
Enquanto o mundo a esquece...
Ai,como ela o merece!

Daniela Pereira in "Foi doce"
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sexta-feira, agosto 14, 2009

Estão moribundas as violetas






Tens folhas no cabelo...
Não parecem caídas do Outono mas estão enrugadas
como se o vento as tivesse tentado engolir na primeira ventania que lhe saiu da boca..
Olho de perto... tens flores de papel no cabelo
São violetas de papelão pintadas com aguarelas..
Tens sombras negras ao espelho...
restos de ti que alguém de ti levou sem pedir..
Estás inteira ou deixas-te os teus pedaços num passo qualquer?
Está uma ave presa numa gaiola que canta até enrouquecer..
Não a ouves declarando-se às nuvens que lhe cobrem a voz?
Não quer mais chuva no jardim
nem gotas de água nas suas penas...
Que pena que o ar cheire ainda a tempestade...
Sopro-te as folhas do cabelo...
ansiosa invento um dia de sol
só para te ver dourada
com a pele nua
a dar vida às violetas ...
O Outono está moribundo no teu olhar...

Daniela Pereira in " Estão moribundas as violetas "
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quarta-feira, agosto 12, 2009

É facil amar...o dificil é sentir que amamos...





Os dois lados do Amor e meio poema por escrever...

O lado bom do Amor...falar do lado bom do Amor é como falar de todas as coisas no mundo como sendo perfeitas.
Quando se ama até os defeitos nos convencem...porque simplesmente não há defeitos no amor...os erros são pequenos...os esquecimentos perdoáveis e todas as atitudes parecem já vir munidas de aceitáveis explicações que se aceitam alegremente...
A chuva é doce...o sol um saboroso pingo de mel...a Primavera é a estação dos amantes e dos rouxinóis...
As manhãs são adoradas e as noites mais desejadas do que nunca...
Um respirar faz-nos sorrir...um suspirar do outro ao nosso lado enche-nos de emoção..é quase um milagre partilhar um momento assim,mesmo que ninguém veja o nosso sorriso porque já dormem tranquilos...
O medo faz-nos lutar como feras e o desconhecido converte-nos em excepcionais aventureiros que nada temem...
O nosso sorriso é parvo e cola-se aos nossos lábios de 24 em 24h sem períodos para folgas ou descansos..como a nossa boca trabalha feliz quando fabrica um beijo!
O amor quando sorri para nós dá-nos a imortalidade...porque se morrermos abraçados é certo que subiremos aos céus...

E quando o Amor fica negro e o lado mau do sentimento vem ao de cima galgando a escuridão?
Falar do lado mau do Amor...é como falar de nada e de coisa nenhuma,porque já nada ali acontece...é dividir o que o Amor um dia uniu...é cortar em pedaços o corpo já sentido por inteiro...é vê-lo deformado em qualquer espelho..é quebrá-lo e imaginar os anos de angústia que nos vão olhar de frente.
Quando já não há amor, só os defeitos nos prendem a atenção..Tudo se nota! Aquela pequena nódoa caída no peito que antes não estava ali..aquela dúvida nojenta que ficou sem resposta..aquela culpa malvada que adoptamos como nossa e provavelmente não será a culpa de ninguém...
Os erros surgem demasiados grandes e já não se medem aos palmos...o mínimo deslize é desculpa para uma tempestade nos encerrar todos os caminhos que iam dar á luz e passamos a viver como morcegos..ávidos pela escuridão porque a claridade fere.
A chuva é fria...cai gelada nos ossos..o sol parece que perde o calor...o Inverno é a estação das despedidas e de todos os silêncios que crescem gordos e satisfeitos com os restos de uma separação.Aqui jazem os abutres e os corações abertos devoram!
As manhãs acordam com os olhos inchados e as noites são amaldiçoadas...trazem memórias e confusão.
Respirar é um alívio..por vezes pensamos que a escuridão até nos pode sufocar...ficamos hipocondríacos da dor e pedimos para encontrar o ar que gastamos nos gritos ao vazio.
O suspirar é a nossa língua quando enterramos os olhos no chão ao pé dos nossos ossos. Descobrimos que afinal temos fé e queremos acreditar...
O medo arrepia-nos e incrivelmente tudo nos mete medo...até a pequenez da nossa sombra..paralisamos quase sempre..damos um passo atrás onde o chão estava seguro. O desconhecido causa ansiedade e já não desejamos mais surpresas...
O nosso sorriso é puro...porque é raro. É quase uma jóia preciosa que só brilha lá no fundo quando ninguém a vê. Temos medo que alguém leve o nosso sorriso outra vez e o abandone bem longe de nós...Disfarçamos as nossas riquezas atrás das lágrimas e semblantes tristes ..baixamos as bocas em sinal de respeito pelos sorrisos que já nos foram roubados. O Amor foge...
Como a nossa boca por vezes já nem sabe o que fazer...bocejamos aborrecidos e apáticos mordendo os lábios até sangrar para a saliva recuperar uma percentagem do seu gosto.
O Amor quando chora põe os olhos na Morte e sente-a por perto quando se desfaz em lágrimas e ninguém o escuta..estende a mão e ela volta vazia..
Aqui descobrimos que somos mortais e que deuses são os outros...a felicidade foge se não a agarrarmos com força sem a pouparmos da liberdade.
É a mais incrível descoberta...não queremos morrer sozinhos...


Daniela Pereira in O Amor é uma invenção por acabar
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domingo, agosto 09, 2009

Um coração (in)válido




Se o meu coração fosse um barco
a navegar com velas vermelhas
pintadas contra o vento...
O meu amor seria a ilha deserta...
porque o meu desejo naufragou...

Se o meu coração fosse uma serra
já teria rasgado o horizonte
de alto a baixo
para encurtar as distâncias...

Se o meu coração fosse de chocolate
desconfio que hoje não se derreteria
à primeira chávena quente oferecida...
Mas não nega
que deixar de sentir frio por dentro
lhe ia saber tão bem...

Encomendei aos Céus...
Flores para dividir com a terra
que encontrar no meu caminho...
Quero tirar o cheiro a pó
que as pedras ganham
quando os passos andam de costas voltadas
a trocar a direcção às voltas da vida...
Visto malmequeres a todas as lágrimas
mais duras que chorei
e a minha dor já tão madura
há-de ostentar cravos verdes no pescoço
para se sentir original....
Porque a tristeza
quer-se sempre mais bela
para alguém a apreciar...

Sevilhanas e santolas arejadas
vão dançar em cima do destino
até ele me pedir a conta
reclamando que o meu direito à festa chegou ao fim...
Há-de haver um doce para a sobremesa
e um vinho rasca
para beber à noite num jardim...
Sonhos que ficaram á porta
com medo de pedir para entrar
e palavras rotas
que se descosem na boca
sem dinheiro para sair...

Quebrei mil tormentas
sem promessa de ver o limite da tempestade...
Dobrei perdões de joelho
ao vento que passava por mim a assobiar..
e ao fim ao cabo
nada de novo se alcança
num mar onde os sentimentos se afogam
e as recompensas ficam guardadas...

Há sempre um mar bravio que nos rouba a vida boa no meio da viagem...
Há corações inválidos que perdem o prazo para amar...
Joguem-nos borda fora que atrás vem carne branca para trincar...
Estes estão crus por dentro...sabem a sangue ao paladar...

Daniela Pereira in (In)validar
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domingo, agosto 02, 2009

Às Horas mortas...






à meia noite e trinta e sete a caneta escrevia um ponto final...

Hoje queria adormecer sem dar tempo para os pensamentos se instalarem. Gosto de lhes retirar todas as almofadas e encostos, na esperança que façam cama noutro recanto...bem longe do meu parapeito.
É para lutar outra vez? Para ir inventando um ou outro sorriso no vão da escada...Então invento um chão que me suporte o peso ao cair. Tudo para sofrer com o corpo mais leve...
Tenho uma rosa vermelha no coração...desfolhada por um belo milho rei e canto lindas cantigas com os dedos em arco e um rouxinol engripado na barriga. Sou rainha e o meu trono é decorado com letras azuis e versos brancos.
Queria dizer que amanhã vou saltar para outro lado onde os mortos renascem ,mas estranhamente sinto-me bem aqui...nesta realidade tão distinta dos meus sonhos.
Fiz bem em aterrar nesta montanha, para não ter que pedir ajuda quando quiser subir outro coração que se diga gigante ...
Já cá estou no alto...fitando o mundo tão pequeno a sorrir a preços bem baratos lá em baixo..é educado sorrir mesmo que no teu peito rebentem prantos...
Não me apetece sorrir..posso passar o meu sorriso para aquela alma que está ali ao lado,só para não me esquecer como se faz? Posso?..
E um grito..posso dar?
Daqueles gritos que nos arrancam os restos cravados a jeito e nos elucidam a mente quando se calam..
Expurgar os fogos que nos consomem por dentro com um par de lágrimas bem dado...
Tens razão devia pular como os macacos entre as revoltas e impotências que me cercam os ramos verdes no olhar...
Podia também traçar um projecto de fuga à incompetência sentimental atribuída à dor, realçando todas as linhas por onde caminhei à beira da estrada e onde fui atropelada ao primeiro passo em falso..e lá fiquei abandonada na berma com os sentidos desencontrados.
Igualar a estupidez de um silêncio à dureza de uma palavra libertada quando o mundo nos parece querer irremediavelmente fugir e a querer lhe dizer insistentemente .."Não fujas daqui!"
Não adormeci...tenho medo do amanhã, mas cruelmente ainda respiro...
Dar um murro na mesa por vezes não faz o coração parar e eu gosto quando sei que o meu ainda bate...
Estender a mão , não é promessa de receber outra mão apertada na volta..podemos receber um laço apertado ao pescoço ou regressar com a mão ainda mais vazia e sufocar de admiração... A lei da Vida teima em ser assim... distorcida..
Não vais chorar mesmo que os teus olhos implorem esse direito a uma descarga emocional de joelhos! És mais forte que todos os mares onde já te afogaste..tens a prova vida nos teus dedos que ainda estão secos e nas palavras que mesmo húmidas não param de jorrar alheias à tua mão que já se queixa dormente...
Mais um minuto acordada e conheces-te mais um pouco..vale a pena aldrabar o cansaço.
Vais fechar os olhos à tua luz,só porque a noite a razão em ti quer cegar?
És um padrão amargo no tecido mas és tão doce no rasgar...


Daniela Pereira in Às horas mortas
Direitos Reservados

domingo, julho 26, 2009

No teu encontro existe um Eu estranho...





quando a alma transborda...

No teu encontro..entre os espelhos e os canaviais da mente existe um Eu tão estranho para mim...
Tens o meu rosto, mas não és igual ao meu pensamento...tens fagulhas nos olhos e cinzas ruivas por apagar...
És a minha gema ao contrário...mas eu sou mais clara por dentro do que a galinha dos ovos de ouro que te habita os gestos...
Burros são os trapos que já foram vícios luxuosos mas baixaram as costuras só para que os visses com a cara em farrapos e por isso rasgaram a seda que traziam no pescoço...
Toco-te... prevejo tudo o que não vejo mas sinto..
Bola de cristal adormecida que o destino deu guarida só para adivinhar o teu futuro e tu foges para trás?
Sei que tens a mão do outro lado...no infinito e nas três dimensões onde foste feliz...
Queima a tua transparência quando voas com chamas na boca...lavei os ventos e as poeiras

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, julho 11, 2009

A escuridão também sonha com estrelas..




Foto da autoria de Daniela Pereira
(c) Direitos Reservados

"Não é permitida a sua reprodução sem autorização prévia da autora"


Fecho os olhos...por pouco via a lua nos meus olhos..bastava-me estender-lhe a mão.
De prata era o teu luar..de ouro a tua melodia...
Tenho uma teia presa aos meus cabelos de tanto unir pontas e nós no mesmo espaço de terra ...e poeira nos ouvidos que o silêncio cimentou numa só tecla tocada...
E o amor é um ponto de fuga para onde todos fogem com ilusões pintadas no olhar sempre de veias acesas e um coração por velar..
E matam-se as paixões com almofadas brancas que lhes abafam os gritos e renascem as escuridões e o luar fica à espera que o céu alise as pestanas para puder de novo deslizar na pele dos amantes e fazer-lhes um filho...
Boca seca...coração molhado..malmequeres sentados nas cadeiras e tulipas negras que te comem o pé da mesa...
Caracois no peito a rastejar e asas nas costas ..és um pássaro de fogo..fénix a festejar
Olhos abertos..coração parado no meio da sala..braços estendidos dançando num chão com todos os passos dados à volta do tapete..és uma borboleta com cores espalhadas no rosto...há flores no meu jardim e elas sonham
Fecho os olhos..por pouco era apenas Mulher...abro os olhos..ainda sou pedra de olhos posto na água que no rio é sempre tão doce...

Daniela Pereira
Direitos reservados

sexta-feira, julho 03, 2009

Liberdade denunciada




Cansa-me a incerteza dos poetas na doação ao mundo...
Os dedos por onde escorrem corações enlameados e outros tantos cobertos de laços e de promessas com calda de açúcar...
Se eles tivessem um punhal seria para cortar as veias ou as margaridas rasteiras no campo logo pela manhã...
São eternamente descobridores que não darão novos mundos ao mundo..apenas o olharão de forma diferente descobrindo-lhe os jeitos e os trejeitos com ganas de saber.
Cansa-me a irmandade dos Deuses e dos Anjos...sempre abraçados aos sonhos de alguém sentindo que os sonhos dos mortais serão sempre inferiores aos seus. E nós que queremos ser apenas perfeitos, porque as imperfeições condenam os desperdícios daquilo que falta sempre... suspiramos de mais..nós os que pertencemos à raça dos poetas! Imploramos até ao vento que passe que leve a brisa para outra direcção quando ela golpeia vendavais... esquecendo de pedir licença até para voar.
JUlgamos-nos livres de asas nas canetas com o peito a soletrar baixinho aquilo que não conseguimos dizer alto com medo que metade do mundo nos julgue almas amargas. E então lembramos amores e os aromas dos rosmaninhos como se cheirassem ao mesmo e ficamos podres quando a pele que se deita ao nosso lado teima em cheirar a papoilas...que injustiça. Dá vontade de esfregar a pele até lhe ver os ossos e apertar com força a medula para ver se ainda temos algo nosso para doar.
Cansa-me a incerteza dos poetas na doação ao mundo...
Por vezes parece que nos estendem esmolas..outras vezes parece que o mundo nos cobre de ouro e somos mesmo ricos. Ricos na dor sentida...ricos nas paixões incendiadas..ricos no amor carpido..ricos nas despedidas inesperadas...tão ricos e tantas vezes apenas nos sentimos sós. Às vezes só queria poder andar de alma rasgada pelas ruas ...sem ninguém a olhar...livre das minhas poeiras ..

Daniela Pereira in Liberdade denunciada
Direitos reservados

segunda-feira, junho 29, 2009

Alfabetizar....


Foto por Daniela Pereira
http://olhares.aeiou.pt/estranha_forma_de_vida_foto2877585.html



Planificar...fazer um plano partindo de um nada não realizado. Realizar uma ideia...esboçar traços num paralelo que nunca se cruza com a mesma curva mas que ergue pedras no desejo de construir muralhas.
Construir..acto de desmoralizar o caos tornando-o em algo indiscreto mas perceptível ao olhar mais competente mesmo cercado de sombras e de certezas não registadas.
Sonhar... inventar uma história sem pés nem cabeça acreditando que as personagens sorriem porque te acham graça e não porque te acham ridículo. Ridicularizar.. fingir que és perfeito e que as tuas imperfeições não importam no peso de uma balança. Equilibrar prós e contras disfarçando o desprezado com corações cor de rosa esculpidos numa árvore sem ramos..
Reacção..acto de ser emotivo perante uma acção animal e estranha às tuas rotinas. Deslocar a poeira debaixo do tapete para ver se existe pó no teu passado escovado debaixo da tua cama. Cabelos de ouro arrancados onde existiam caracóis negros caídos ...
Imortalizar... encontrar uma forma de não esmagar um sonho, imaginando que foi pura realidade contra todas as anotações que anunciam a morte do que nunca existiu...
Inteligência...propriedade
dos que julgam que todos os outros são apenas mais um conjunto de parvos iguais a todos os parvos que inteligentemente conquistam...O problema é quando os parvos percebem que o são e interrogam a inteligência sobre o rótulo que lhes pregou no peito e o arrancam à força procurando os miolos que estavam desactivados quando o corpo apagou..
Crédulo..aquele que acredita sem contestar que o céu é azul porque as nuvens chovem no terreiro dos outros..aquele que faz dos sentimentos um cavalo de batalha sempre com uma pomba da paz a vigiar ao longe a sua caminhada e não vê que existe sempre um caçador ao pé de si...
Maresia... a brisa que nos recorda das madrugadas e do perfume das ondas do mar sentidos num acaso..por acaso e sem acaso algum se desvanece...

Daniela Pereira in Alfabeto dos que nunca aprenderam a ler...
Direitos reservados





quinta-feira, junho 25, 2009

A menina dos olhos de água ...





A menina dos olhos de água que trazia peixes no olhar afogou-se de peito aberto..
jurando que nem com a alma coberta de sal deixaria de ser doce
e chorou com o coração a transbordar de mel grosso..

Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, junho 21, 2009

Diário do que nunca escrevi em ti...


Foto pela a autora Daniela Pereira

É quase meia noite...a hora dos pardos e dos murmúrios inacabados.
Hoje escrevo apenas para a minha escuridão...mas sei que uma luz vigia-me..ténue e fraca ensonada com medo de me ver cegar quando cerro os olhos aparentando já algum cansaço em demasia...
Mas nenhum sonho me derruba sem que eu me liberte de todas as minhas fantasias...e os pobres dos pesadelos ficam em lista de espera, esperando o meu adormecer sossegados.
Faço tranças no cabelo para recuperar alguma da minha inocência....saudosa da minha doce escravatura... Talvez não saibas, mas o monstro aqui um dia já foi criança ingénua ao pé de ti...
Lembro-me de ti e choro...talvez chore porque já te esqueces-te ou talvez soluce apenas porque há muito tempo atrás eu nunca te conheci...
Recordo com precisão de todos os recantos em que te beijei e todo o amor sentido que deixei espalhado com as tuas roupas, só pela pressa de te amar antes de não te ter aqui...no mesmo espaço desocupado em mim onde já não te tenho..
Afirmo com toda a determinação que os lençóis da tua cama eram sempre brancos e que a colcha que nos cobria no Inverno respirava em japonês e via filmes eróticos legendados a preto e branco para disfarçar o vermelho que lhe corria nas veias...tudo para não estragar o nosso cenário romântico.
Reconheço o aroma a rosas das velas que guardavas religiosamente no fundo de uma gaveta e todas as músicas que esperavam por nós em cima da mesinha de cabeceira..
E lembro-te até...fiel à estupidez que existe em todas as memórias desconexas...e lembro-me até daquela dança...daquela valsa abraçada com a tua roupa no meu corpo, despida do resto do mundo guiada só por ti...ali perdi a razão com gosto na melodia dos teus passos.
Tinhas uma lua cheia pendurada no tecto e todas as noites tenho que confessar que sentia uma vontade irresistível de a roubar só para mim para te deixar nu de toda a escuridão e sorria matreira enquanto respiravas ronronante.
Nunca vi o sol nascer no teu quarto, porque não me lembro de alguma vez ter adormecido quando desejava apenas ver-te a sonhar....Era mais feliz acordada, desperta de qualquer tentativa de encontrar um ponto fraco naquela ilusão e depois era ver-me a amar de olhos abertos pela noite fora...
Já corri descalça no teu chão depois de refrescar o corpo na tua banheira..Repara que digo sempre "tua" porque nada neste espaço foi um dia também um pouco meu...passar ali rasando perfume no corredor não te mudou os cheiros entranhados no design das paredes.
Tinhas umas lareira na sala, que por acaso nunca vi acesa...mas nunca senti gelar uma só emoção mesmo sem as labaredas crispando na tua fogueira... .
Fugia do frio calcando ligeira o negro do tapete e pulava para o teu leito feito sempre à
tua medida..
Partias e repartias livros e construções projectadas com o pó instalado nas prateleiras...Candeeiros à solta e outros tantos suspensos por um fio ou enroscados em teias complexas que não os deixavam cair ao chão... num equilíbrio perfeito, todos ficavam desejosos de iluminar a tua fácil solidão.
Tinhas gosto a tabaco e a todas as guloseimas que durante a tarde engolias..confundias-me os sentidos quando me beijavas com tantos sabores encruados na língua .
E os teus quadros? Tinhas quadros traçados por ti a exaltar a cor das paredes com amores passados que se exibiam em poses sensuais lembrando instantes onde o teu chão foi um enorme colchão de água...
No teu quarto nada te era familiar..apenas molduras sem rosto esperavam que um dia lhes devolvesses alguma alma e ficavam a olhar insistentemente para ti à espera que ainda as reconheças depois de despejadas das muralhas do teu castelo encantado.
Na sala tinhas ainda um sofá branco onde cavalgavas em mim quando o teu corpo adivinhava para onde queria ir o balanço do meu...e ali descansavas as tristezas e saciavas a tua fome por entre montanhas arrepiadas molhadas pela tua boca...
E trocávamos carícias só por trocar..porque era bom ter o que partilhar e um dia prometemos que nada ficaríamos a dever um ao outro porque teríamos sempre algo para dar...e os meus olhos brilhavam quando te sentiam numa cumplicidade que sussurrava perto de mim e afinal..afinal desconfiavas de todas as promessas com pensamentos que iam para longe...
Conhecia-te as curvas do pescoço..o peso das tuas mãos afundadas na minha carne e enterradas bem fundo na minha alma..adivinhava porém quando ias soltar aquele sorriso oblíquo e até a pele das tuas orelhas sabia ser presa a cativar por mim...
Por uma suposta curiosidade na tua cozinha não havia pão quente pela manhã...
A madrugada era quem nos alimentava sempre que nos ouvia os gemidos e as noites foram sempre acolhedoras para contarmos as horas com paixão...
Por vezes quando o silêncio se fazia sentir entre nós...eu erguia os dedos no ar como nas carteiras da escola e desenhava-te no vazio preenchendo-te pedaço por pedaço na união do meu olhar...depois repetia-te gulosa já nos teus braços e com toda a minha escrita amarga e doce fluías em mim como se fosses o meu mais rico poema...

Tristes são as memórias que já não faz sentido rever...porque sabemos que hoje florescem sem o calor das mãos que outrora as afagavam para que elas se pudessem fechar encontradas.

Felizes são os espinhos que nada têm a temer das feridas que consentem...

Olho para o relógio e as horas pardas ainda cá estão..são meia noite e meia eu com tanto ainda para dizer. Desculpa, mas ouço uma voz dentro de mim que me grita a medo vinda de algum canto virado do avesso... "Para ti poetisa, acabaram-se as folhas em branco e o coração a bater...adormece mais linda e segura porque não há mais nada para o teu pensamento decorar...porque tu já conheces esta história de cor...

The End is now..

Daniela Pereira in "Musas para trás das costas"...
Direitos Reservados

quarta-feira, junho 17, 2009

Drop

Porque o amor só pode ser simples para quem simplesmente nunca se atreveu a amar...
Todo o sorriso que morre tem que renascer da última lágrima até que o nosso rio chegue a um fim...
Porque o amor só pode ser chuva quando refresca e sol quando nos aquece...mas de pouco serve se numa tempestade não fizer dos braços um guarda-chuva para nos abrigar e se dos girassois desfolhados não guardar uma única semente...
Toda a magia se extingue quando o olhar desconhece o que era uma sombra de nós próprios de tanto a vermos ao espelho...depois sopramos o pó que ficou nas lembranças e nas marcas que ainda te parecem querer perfumar a pele... Trocamos de rosto...vincamos decisões e explicações sem nada saber para além de uma carne que sabe a vinho do Porto envelhecido....ironicamente sentimos que estamos mais sóbrios do que nunca e mergulhamos no desconhecido outra vez cheios de coragem...

* my sweet child

Daniela Pereira
Direitos Reservados

domingo, junho 07, 2009

Das pedras do teu chão fiz-te um caminho...





Caminhou...caminhou decidida a ir lado nenhum...
Partiu à procura de nada, certa que só assim o "tudo" a encontraria...reconhecendo-a pelo vazio que levava bordado junto ao peito.
Pensou que o Sol poderia ser o pote de ouro que em sonhos os duendes lhe falavam...e esqueceu as estrelas inventadas sorrindo para as cascatas...
E se todas as aves fossem douradas?
Mataria a fome de todos os corações pobres com penas e ouro...
Mas se as aves do paraíso fossem mortas...não ficariam mais tristes os jardins?
Porque não pintá-las de azul e pedir-lhes que o mar se acalme outra vez?
Vingamos o tom que nos foi roubado e exigimos de todas as pedras do chão um rigoroso silêncio...Não haverá uma segunda oportunidade para aquele grito em vão...
Fez círculos na parede... mas o maior apesar de ser de linha fina não se fez rogado e engoliu todos os pequenos só porque pesavam toneladas nas cores sóbrias da parede....
Comem-se uns aos outros...assim como se devoram as Mulheres quando um Homem se sente mais só...
Partimos à procura de "tudo" com os olhos cheios de um nada esperançados que o amanhã nos erga das memórias célebres taças...
Existem vitórias que sabem a pão caseiro e vinho branco em cima da mesa...
Existem derrotas que cheiram a tabaco e a sofás de pernas curtas...
Mas caminhou com o horizonte queimando-lhes as entranhas...sentindo as rugas que lhe apertavam o pescoço e as mãos amputadas que ainda lhe percorriam o corpo à procura de carne para trincar...
E os olhos já não tinham espaço para o rio que caminhava junto dela...o tempo parecia parar sempre que ela sorria...
Convencido que aquele sorriso não ia durar para sempre apenas por ela o futuro chorava...

Daniela Pereira in " Poeticamente falando do corpo para não prosear a alma"
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terça-feira, maio 26, 2009

pequeno...ALMOÇO





Doi-me o céu do meu corpo e alimentá-lo a estrelas cadentes já me enjoa...
Doi-me o jardim da minha alma e plantá-lo com nespereiras já não me mata a fome...
Sinto os sonhos a vomitarem por mim mesmo de estômago vazio..este chá arranha-me a garganta mas não sais para fora nem com um impulso vesicular...chove-me o coração por dentro em gotas de chumbo grosso.
Um analgésico para as dores, porque o corpo precisa!
Um analgésico para a alma porque desconfias da inteligência que te bate à porta e te diz..."cuida de ti" e loucos são os outros de quem sempre quiseste cuidar e hoje te chamam assim sem pensar em ti....
Doi-me a palavra que não disse com bolachas e chocolates a entupirem-me a boca...
Doi-me a palavra que disse com chá de limão na língua...
Doi-me a frase que deixei sair polvilhada a sal...
Soro açucarado para as veias porque o teu corpo desidratou...
Não há um soro açucarado para espetar em cheio no coração quando o dia amarga?....

Daniela Pereira in "Resíduos vesiculares"
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foto na galeria olhares: http://olhares.aeiou.pt/pequenoalmoco_foto2796643.html

segunda-feira, maio 25, 2009

Pintas com morangos...

Foste semeada à beira mar... para que as ondas alimentassem o teu corpo e os búzios gravassem os teus gritos de semente a germinar...
Mas foi o mar que comeu o teu corpo só porque sabias a sal e todos os peixes se sentiam em casa arpoados na tua boca...
Valeu a pena nasceres de pé nu na areia e com a cabeça voltada para a lua?
És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...só no chão reconheces que ainda não estás madura e choras a pele que te foi arrancada com todos os segredos que deixaste fugir por entre os dedos molhados...A lua elogiou as tuas fantasias e no luar escreveu-te a alma num só poema mas rasgou-te o coração num mil folhas a desgosto...
Valeu a pena nasceres despida de silêncios e de beijos sem sumo?
Laranja ou limão?
Pau ou pedra?
Cresci com raízes enterradas numa folha de papel perfumada amando loucamente cada rasgo que trago dentro de mim...







Valeu a pena as lágrimas e a perdição...
Valeu a pena fazer um filme com o Eduardo mãos de tesoura a recortar o céu só para mim ...
Valeu a pena viajar por mares desconhecidos com um Pirata das Caraíbas que respirava mistérios pela boca...
Valeu a pena ser a Bela Adormecida à espera "daquele" lobo encantador ao acordar...
Hoje sou a bruxa má de todos os filmes...que bela ironia

És fruta verde quando te dás a trincar apaixonada...
Laranja ou limão na tinta com que escreves a tua história?
Deixa lá...
Pintas com morangos e velas acesas...



Daniela Pereira
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domingo, maio 17, 2009

Asa e meia..borboleta...





Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Levas o arco-íris mais que perfeito na tua pele de seda e o sol até cora ao ver-te passar...
Sobrevoas a lixeira dos outros e lanças perfume em todos os restos esquecidos...
A noite adora ver-te sonhar livremente e louca quando danças ao som do luar rasgando palavras de fogo no horizonte...Que louca és borboleta quando atiras o teu coração pela boca e ficas a vê-lo suplicar o teu amor...
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia para voar...
Amas os lírios com a mesma intensidade que amas qualquer folha caída que vês no chão...
Amas o mar que te amedronta e mesmo assim não deixas de o amar...Que destemida és borboleta que voas com espumas passadas enroladas no teu corpo...
Que orgulho sinto de ti borboleta porque és diferente das borboletas que vejo partir rancorosas...tu apenas chegas fiel e doce e ficas eternamente fundida nas pétalas de um qualquer jardim de flores de aço...
Tens mel no coração e não tens vergonha de dizer que te falta o fôlego para o próximo voo porque tens medo de voltar a cair amarga..
Asa e meia borboleta..só precisas de asa e meia e de uma alma remendada para voltar a sonhar...
Se te esmagarem o corpo sabes que a tua alma voará por ti...
Asa e meia borboleta..asa e meia...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

quarta-feira, maio 13, 2009

no words

Triste...definição de tristeza não possuo e mesmo assim sinto-a em mim....
A ausência de sentimentos é uma mentira que nunca devia ser pronunciada por nenhuma alma..definição de vazio..acreditar que não sentimos nada dentro de nós...definição de mentira...acabei de a dar,porque até vazia de um alguém esse alguém nunca deixa de existir no meu sentir...verdade

segunda-feira, maio 04, 2009

Heart sound





É música para os meus ouvidos tanto silêncio...
Em todas as notas que ficaram por tocar..ficou um grito por nascer..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
E nos telhados já corri louca e vagabunda..felina madrugada que te fez partir..
E já contei tantas histórias e inventei tantos finais sem me lembrar sequer de onde atracavam os inícios que me ficaram a deriva da mente...
E abanei a cabeça para dizer Não e a música tocava lá bem ao fundo e os dedos diziam Sim e a boca reconhecia o apelo de um "Já"..
É música para os meus ouvidos tanto silêncio..
Posso ouvir rosas a respirar no jardim e todos os tons do vento...posso engolir pássaros sem os mastigar e ficar a vê-los a voarem no estômago..
Sou tão feliz assim!
É musica o que ouço..está parado o coração?
Que me importa...amanhã bate outra vez noutro compasso...

Daniela Pereira in O coração é uma bomba prestes a rebentar....

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http://olhares.aeiou.pt/heart_sound_foto2739723.html