sexta-feira, abril 07, 2006

Sussurros e poesia-Parte I




Shiu não digas nada, por favor! Não corrompas a lealdade deste silêncio a dois e escuta comigo o que ele nos segreda enquanto sonhamos...

Não existe mais nada numa paisagem em chamas
para além de sombras e labaredas
que abraçadas com paixão
alimentam um fogo
com sonhos húmidos.

Tens carne que cheira a queimado
cravada na tua pele
e esse odor forte
que sentes quando inspiras
vem dos meus pedaços
que no teu coração arderam.

Espera, não grites ainda ....espera que eles te queimem por completo a alma. Depois sim, grita à vontade mesmo que eu já não te oiça. Porque esse teu grito vai-me encher de prazer enquanto dispo este corpo fútil de todas as sensações humanas para deleitar os teus sentidos com as minhas miragens. Podes vir comigo se quiseres, porque nesta cama vestida com lençóis de carne há sempre lugar para mais um...
Mas não venhas já, dá-me tempo para apagar todas as luzes do quarto porque quero a tua imagem à luz de velas forrando as paredes. Só assim o quarto ficará acolhedor para te perderes em devaneios mais quentes.
E na penumbra apenas te verei a ti porque só para ti farei poesia no escuro... para o resto do mundo estarei cega e muda...

Dois corpos nus
ainda vestidos
contorcem-se de costas voltadas
num êxtase solitário.
Não existe mais nada neste quarto
que deixei em chamas...
Nada mais escuto agora
que a noite se deitou em mim...

Só estes sussurros que escapam da minha boca
tentados pela poesia que declamas com o teu corpo...

Daniela Pereira-07/04/06

segunda-feira, março 20, 2006

Um céu caiado no silêncio


Nas palavras que escrevo
por uma estranha vontade
tenho um grito enjaulado.
À noite é uma fera cativa
que atiço com paixão
acenando com um corpo nu na minha mão.
De dia é um pássaro mudo
com sonhos costurados na alma
que o mundo por compaixão
vai deixando voar livre neste céu
que ainda cheira a silêncio pintado de fresco.

Daniela Pereira-20/03/06

sexta-feira, março 17, 2006

Com raiva me deito e com egoísmo me levanto...



Hoje é raiva que inunda o meu sangue não é mais a tolerância ou compreensão... É simplesmente raiva pura.
É difícil admitir como ser humano que sou, que basta apenas um minuto para destruir toda a sensibilidade de uma pessoa, mas não duvido que as palavras erradas no momento certo são como catalisadores para os maus pensamentos acelerando sentimentos negativos que temos em estado latente espalhados por todo o corpo.
Basta que se faça uma mistura explosiva com duas gotas de egoísmo e três de indiferença para que toda a confiança que temos em estender a mão ao mundo se converta num punho fechado.
Hoje deixei cair a primeira gota desta receita cruel e fi-lo deliberadamente sabendo que muitas outras se irão juntar a esta e numa acidez sem limites vão corroer tudo à sua passagem. Reduzindo até as memórias mais suculentas a uma mera pilha de ossos que até os cães vadios rejeitarão só para não sentir o sabor a podre que elas trarão às suas bocas .

Então, seja feita a Vossa Vontade...

Que a ternura seja enterrada num buraco bem fundo
de onde nunca possa fugir...
Que a doçura se funda
ao mais amargo fel
para que jamais mel pingue da minha boca.
Que as lágrimas não me recordem mais
porque chorei sem culpa nenhuma
para que eu nunca mais me sinta culpada
por ser quem hoje sou.

Que nestas palavras fique carimbado o meu desejo de ser livre e de viver pensando exclusivamente em mim e não nos outros. “Só os meus sentimentos interessam”, vou dizer vezes sem conta enquanto estiver a bater com a cabeça nas paredes tentando acreditar nas palavras que saem da minha boca.
E como crente nesta nova filosofia de vida, não deixarei de rezar todas as noites com imenso fervor
pelo egoísmo que nasce sempre nos ventres desiludidos das mulheres, porque hoje sei que nele encontrarei a derradeira salvação para a minha alma.

Daniela Pereira-17/03/06

sábado, março 11, 2006

A tolice de um sorriso que não queria aprender a chorar...



Tenho sorrisos para quem os pede e tenho sorrisos mesmo para quem não os quer...Sempre fui assim, uma mulher de boca larga. Que me importa que o mundo não os queira ver e prefira um rosto lavado com lágrimas? Eu tenho sempre um sorriso pregado na boca e nem a sujidade agarrada às lágrimas consegue conspurcar a sua inocência.
Que tolo é este meu sorriso! Sempre debruçado à janela olhando sonhador para um céu que nunca muda de lugar e na cor só de tom oscila. Mas ele gosta de sonhar que o mundo ainda tem emenda e que a crueldade das pessoas é passageira. Talvez por isso acredite que o céu não é só pintado de azul e que por detrás de uma nuvem existe sempre um arco-íris que espreita.
À noite olha com admiração para as estrelas ...suas eternas heroínas e inveja a capacidade que elas têm de encher de luz um mundo de escuridão. Também ele queria ter essa magia guardada na ponta dos dedos para dormir sempre aconchegado num abraço luminoso.
Que distraído que é este sorriso! Deixa-se estar ali parado debaixo de tantas nuvens carregadas que daqui a bocado é mais um sorriso encharcado que vem à rua...
Mas ele gosta de chuva e daquela frescura que teima em pingar nos seus lábios sempre que uma nuvem chora com ele. Que lhe importa se as gotas quando caiem do céu são pesadas para a sua pele tão frágil?
Ele quer é sentir que ainda existe vida num mundo de sentimentos mortos e a chuva dá-lhe essa sensação.
Eu tenho sorrisos para quem os quer...tenho este mas tenho mais alguns para escolha.
São doces e amargos...tenros e duros...fortes mas sem perder a fragilidade de serem naturais.
Não usam maquilhagem nem acessórios para ficarem mais vistosos aos olhos de quem os cobiça...
Preferem um sorriso a dois do que dois sorrisos perdidos por momentos numa multidão de risos.
Sorriem com um bom banho de espuma mas também gostam de sentir a secura na boca quando se sentem envergonhados. São sorrisos simpáticos...acho eu que já os conheço bem. Se calhar existem olhos que os olham desconfiados quando eles por vezes se fecham irritados. É normal porque ninguém gosta de ver um sorriso descontente...
Que sinceros são estes sorrisos que mesmo quando mentem ...mentem para fazer sorrir. Pode-se mentir com um sorriso na boca? Acho que sim...a alegria também pode ser um estado de fingimento basta não saber como ser alegre mesmo quando a alegria está colada nos nossos ombros.
Eu também tenho sorrisos tristes para oferecer, daqueles tímidos e encabulados que se movem no silêncio preferindo as sombras para recolher os seus passos quando caminham até ti.
São sorrisos tolos porque nunca aprenderam a chorar e por isso encerram a tristeza dentro de si como se o coração pudesse ser para sempre uma concha...


Daniela Pereira-11/03/06




sexta-feira, março 03, 2006

Filmar retalhos


Tenho saudades...
Saudades de expor apenas para ti
a minha vida em minutos
como se ela fosse uma curta metragem
que gostavas de ver despida na tela.
Não fiz pipocas para esta sessão de cinema
mas as minhas palavras
também estalam nos dentes
basta que as trinques com força.
Nos olhos guardo religiosamente uma pedra de sal
e se hoje não as quiseres tão doces
posso derramar uma lágrima
para as deixar ao teu gosto.

Mas agora não penses nos sabores
que te darei a provar
e deposita apenas na cadeira o teu corpo tenso
que eu vou baixar as luzes
e relaxar-te com carícias nas palavras.
Não temas mais a escuridão que foco no olhar
porque ela nunca será tua
e porque aprendi a afiar os olhos como tesouras
para recortar as nuvens
em mim apenas encontrarás luz.


Estás bem assim?
Ainda te sentes confortável no meu mundo?

Então, deixa-me aquecer os dedos
com o ar quente que me sai da boca fria
e escrever na pele um novo guião
para o filme da minha vida.
Mas não quero que me obriguem
a imaginar finais numa história que se quer infinita
porque só para respirar saudades permitirei intervalos.

Blue-02/03/06

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Condeno-te ao passado...


No tempo fiz-me eternamente passado
e odeio-te mundo por me teres
condenado a viver de memórias.
Por ti maldito
sou um vampiro sedento
que à noite suga momentos da alma
só pelo desejo de sentir
que ainda lhe corre vida nas veias.
Cada gota de sangue que de ti consigo beber
é néctar doce para os meus lábios
e mesmo morta para ti
é nos teus restos suculentos
que me alimento.


Daniela Pereira 20/02/06

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Quem lê poemas tristes com sorrisos na boca?




Hoje sou uma folha solta ao vento
que o amor um dia escreveu por engano.
Sinto-me perdida
assim rasgada em mil pedaços
e num rodopio infernal
deixo-me assolar pela dor
enquanto espalho versos pelo chão
com palavras tristes
que o mundo não lê com o sorriso estampado na boca.

Então, que a poesia
se cale para sempre nos meus dedos
e que a solidão seja a esmola amarga do poeta.

Daniela Pereira-15/02/06

domingo, fevereiro 12, 2006

Escrever poesia no escuro



A noite vai longa debruada pela escuridão
mas não consigo adormecer...
Como posso esquecer um amor tão forte
que até me arranca poemas a sangue frio do peito
conduzindo os meus dedos solitários pelo papel
mesmo com a luz apagada?

Então, escrevo versos no escuro
e engano as sombras do meu quarto
desenhando o teu corpo iluminado nas paredes
com os olhos marejados de desejo.

Depois segredo com a boca na almofada
quase num silêncio sepulcral
sem que me ouças
que ainda te amo
e o meu corpo grita-lhe ao ouvido
que inveja os lençóis deitados na tua cama.

E a noite persiste na minha alma...

Daniela Pereira 12/02/06

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Saudades da inocência



Perco o olhar e deixo-o a divagar solitário como se fosse um vagabundo e nos meus olhos acolho a saudade com carinho. Inspiro fundo e fico prisioneira de um ar doce onde sucumbo numa lenta asfixia que me dá prazer. Já vou longe montada no dorso dos meus pensamentos mas o meu corpo ainda está petrificado numa cadeira de baloiço irrequieta. Embalada nos braços reconfortantes de uma melodia, vou sentindo os músculos sonolentos pedindo para adormecer e hipnotizada pelas emoções que me toldam a alma obrigo-os a ficarem despertos por mais alguns minutos apenas. Porque sabe tão bem sentir este balanço nas nuvens ao som desta música de embalar enquanto viajo no tempo. Fecho então os olhos sem saber mais como posso resistir ao apelo da escuridão temporária que invade a minha tarde triunfante .Mas deixo apenas um grão de areia por escoar nos meus dedos para que a alma tenha tempo para silenciar as batidas do peito e depois sopro o presente da minha pele.Então regressam as tranças negras ao meu cabelo e rebelde faço beicinho limpando o batom dos lábios com a palma da mão enquanto vou dando gargalhadas sem me preocupar que os vizinhos possam ouvir o meu riso e estranhem a falta das lágrimas caindo no meu rosto triste por natureza. Nas mãos acaricio alegremente uma flor e vou brincando com as pétalas invejosa por reconhecer tanta beleza esculpida num único ser terreno. Subitamente dou por mim desejando ter feições de uma deusa só para a humilhar e roubo-a para enfeitar o meu corpo de mulher. Então, cresce-me nas pernas uma vontade de voltar a correr pela floresta só para me esconder das sombras reprovadoras ,que me perseguem ,trepando às árvores para depois atirar-lhes caretas empoleirada nos ramos. Lentamente vai nascendo um sorriso nos lábios despidos de cor e relembro a miúda traquina com mil ideias mirabolantes guardadas nos bolsos que cautelosa e com medo dos olhares curiosos escondia os seus preciosos sonhos nos corações de borracha das bonecas. Numa pura diversão sabia inventar brincadeiras sem fim sentada à porta de casa e rodeada de amigos coloria as horas com os dedos sujos de tinta. Depois deixava a marca da sua alegria estampada nas paredes da rua e partia ao pé cochinho para mais uma aventura com um punhado de terra dourada brilhando nos olhos.

Daniela Pereira

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Rezar com a alma ajoelhada




No corpo gélido abafo o meu amor
com todas as palavras sufocantes que guardo na cabeça
mas mesmo assim
ainda ouço os seus gritos ecoando na alma em carne viva.
Grita por ti ...
e grita por ti com todas as forças que lhe restam
depois de esbofetear as minhas entranhas
durante horas a fio.
E apesar de não acreditar
que a fé consiga trazer-te para mim
do alto dessa tua montanha solitária.
Talvez comece a rezar com a alma de joelhos
pedindo para que pelo menos
nunca faças nevar no meu sorriso
porque eu amo este sorriso quente
que deixas na minha boca.

Daniela Pereira

sábado, janeiro 07, 2006

apenas um pensamento



Cá estou eu novamente solitária apenas na companhia dos meus pensamentos e destes dedos que nunca se calam.
Hoje sinto-me realmente só...como se tivesse morrido para o mundo.Como se eu fosse apenas uma página...mas uma página no meio de muitas outras páginas coladas firmemente num livro muito espesso. Mas eu não sou uma página igual a todas as outras,porque não sei ficar colada com firmeza...solto-me com facilidade porque não quero criar raízes com a realidade. Prefiro os sonhos...prefiro a rebeldia do mar à serenidade de um rio estático.
Gosto de amar os outros, mas por vezes esqueço-me de me amar acima de todas as coisas e talvez por isso seja como aquelas flores que vocês encontram num jardim e que apaixonam ao primeiro olhar.Mas depois de a colherem, percebem que ela não é tão bela assim nem tão pouco possui nenhum tesouro nos seus braços...e quando olham novamente para ela, percebem que ela murchou que perdeu a jovialidade de antes e quando lhe tocam sentem que as pétalas já não têm mais cor .
Hoje estou um pouco assim, murcha e sem colorido na pele e por isso estou aqui mais uma vez na companhia das palavras e dos pensamentos soluçando em silêncio e sem testemunhas.


sempre BLUE
07/01/06

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Por cada pedra atirada às palavras...escreverei um poema




Não consegues matar as palavras
que fluem dos meus dedos
com simples pedras
atiradas com raiva
porque mesmo ferindo o pensamento
no meu coração tu não tocas.

Não sabes sujar um rio de sentimentos
que corre na direcção do peito
com palavras poluídas.
Porque se ele nascer
nas profundezas da alma
terá sempre pureza nas suas águas.

Não sou melhor do que ninguém
só porque sinto prazer
ao colher duas palavras
e com ela unidas num ramo
oferecer abraços à pessoa amada.
Sou apenas humana...
E como humana que sou
preciso de uma folha de papel
com ar vagabundo
e olheiras marcadas nas margens
para chorar e rir ao mesmo tempo.
Assim, com apenas um gesto
transformo cada segundo
cravado no ponteiro do meu relógio
num oceano de emoções intemporais
que poucos conhecem bem.

Sou livre nos meus desejos
e sei sonhar sem temer inimigos
que me possam assombrar
porque sei que com a ponta de uma caneta
descrevo a minha vida
com a sinceridade sempre orgulhosamente destapada
E se um dia
sentir que engoli demasiado sal
para conseguir flutuar docemente
num mar de poesia
Então não te preocupes
que dos meus beijos nunca deixarão de brotar poemas.

Daniela Pereira- 22/12/05

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cicatrizes pausadas




Dispo a alma ao som de uma melodia
e vou espalhando as emoções desordenadas pelos cantos da sala
tentando tornar o corpo mais leve.
Teceram uma teia nos meus pensamentos
e ela é complexa
esculpida com cruzamentos que parecem não ter fim
por onde caminho mais perto do infinito
com passos arrastados.

No olhar pinto uma melancolia rotineira
e fujo da monotonia dos meus dias
viajando à velocidade do som
entalada na corda de uma guitarra estridente.
Vou a meio da canção
mas não a deixo avançar
e prendo-a nos meus dedos
obrigando-a a recuar no tempo.
Pedindo para não acabar
com esta ilusão aconchegante
de sonhar com a cabeça pousada numa nota
vou despindo a alma com gestos suicidas
e acolho mais uma música cicatrizante numa ferida do peito.


Blue 14/12/05

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Um pequeno esclarecimento

Olá a todos :)


Como algumas pessoas disseram-me não conseguirem encontrar o meu livro na Fnac on line e sabendo que ele já está disponível para venda na mesma. Tomei a liberdade de fazer este pequeno esclarecimento...
O livro está listado na pesquisa com o nome de "Cortar as palavras num so golpe" ou seja sem que a palavra "só" apareça acentuada o que levou a que durante a pesquisa no site através do nome normal do livro se obtivesse uma pesquisa nula.
No entanto informo que o livro está disponível e tem o preço Fnac de 13,50 €

Obrigado pela atenção

beijos

blue

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Sem explicação tudo é mais simples



Hoje acordei com o olhar embaciado
e sem ter a felicidade
a dar-me palmadinhas nas costas.
Houve um qualquer ser superior
talvez fosse mesmo um deus
que olhou para mim
e disse-me:
"SÓ SERÁS FELIZ
CHORANDO PALAVRAS
NESSE TEU MAR DE MULHER"
... e eu chorei.

Daniela Pereira 01/12/05

quarta-feira, novembro 30, 2005

Sonhar nos braços de outro




Ontem sonhei contigo
e no meu sonho não chovia
porque havia um sol
que teimava em rasgar todas as nuvens
pintadas no meu peito.
Era lindo aquele sol
que extinto de passados e esquecido do presente
bailava alegremente nos teus olhos.

No meu sonho o frio não entrava
porque fechei-lhe a porta na cara
e acendi uma lareira na minha pele
para manter os nossos corpos aquecidos.
Então senti que o teu coração derretia nas minhas mãos
rendido ao calor dos beijos que não imploras
e eu juro-te que ainda bebi algumas gotas dessa felicidade temporária
que pingava nos meus dedos.

Ontem fiz amor contigo
e não me perdi na banalidade do sexo
porque quando te amo
não te limitas a penetrar no meu corpo
e violas-me incessantemente a alma.
E eu não esbracejo
nem peço por socorro
porque se eu gritar
será sempre para pedir por MAIS...e MAIS.

Ontem dormi com outro
que não tinha o teu sorriso
esculpido no rosto
porque para a tua cama não fui chamada.
Mas nem deitada naqueles malditos lençóis enrugados
lhe entreguei as folhas de poesia
que escreveste na minha alma
e o meu maior momento de prazer
foi sonhar que recitava no teu corpo
até o dia nascer.

Daniela Pereira 27/11/05

domingo, novembro 27, 2005

Apenas ontem e hoje



Hoje vou amar-te num chão de palavras
porque a tua cama é pequena
para albergar o fogo imenso que lavras no meu corpo.
Com as palavras também te amo
sem precisar de abrir a minha boca
e sabes bem que ela não se vai abrir
se do outro lado não tiver o teu beijo à espera.

Hoje vou apaixonar-me pelo silêncio
porque no eco do meu coração amordaçado
também encontras o meu grito
mesmo que este amor teime em roubar a minha voz.
Com três ou quatro linhas enlouquecidas
também te desejo com fervor
e percorro o teu desenho perfeito
suspirando no fim de cada curva
morta por deslizar nessa pele sem travões.

Deixa-me acreditar na palavra eternidade
porque nela poderei um dia abraçar
um amor ainda maior do que o meu
e ele já é enorme
com braços que conseguem abraçar até a lua
mesmo que o céu já tenha perdido as estrelas
de tanto chorar este amor na escuridão.

Hoje e só hoje...
Vou esquecer que te amo
Vou lamber as lágrimas do rosto
e remendar todas as crateras
que na minha alma os dias malditos escavam
E vais ver que amanhã...
Amanhã e só amanhã
vou adoçar de novo o teu coração
enroscada num pote de mel.

Hoje meu amor de chuva
Vou rasgar este poema sem sol
porque as tuas palavras ainda não dormem na minha cama.

Daniela Pereira 27/11/05

terça-feira, novembro 01, 2005

Doença maldita



Vê a noite que rasteja nos meus olhos
e devora-a com a tua boca quente
até que o último pedaço de escuridão
rendido desfaleça na cama.
Deixa ficar o sol colado à porta
porque não precisamos dele
aqui deitados nos lençóis
encadeados pelo brilho dourado do teu cabelo
e deliciosamente aconchegados
pela visão de uma tela colorida que pintamos
quando juntos fundimos os olhares
na ponta do mesmo pincel.

Grita comigo os teus medos
para que fiquem pendurados no tecto
presos nas sombras das nossas almas
e para sempre impedidos de nos tocarem nas costas
com mais um dedo sujo de vergonha.

Apaga todos os nossos pensamentos
com a tua língua de borracha
enrolada na minha boca
e suga todo o fel
que encontrares perdido dentro de mim
sem deixar esquecido nenhum recanto.
Vasculha-me à vontade
e livra-te de fazeres cerimónia
ou de lavares as mãos
antes de as esfregares no meu corpo
porque eu não quero
perder o gosto de sentir o teu cheiro
entranhado na minha pele.

Quero-te assim naturalmente suado
cansado das correrias
e com os joelhos pisados
de tantas quedas no relvado.
Quero ver os restos do sofrimento
estampado no teu rosto
misturado com as gotas de suor
que me darás a beber
num beijo vitorioso.

Não tenhas medo de sofrer novamente
porque eu ensino-te
a curar todas as feridas
e a remendar todos os buracos
que uma paixão involuntária possa abrir no teu peito.
Deixa-me curar-te de todas as doenças
que assolam o teu corpo
injectando o meu amor por ti nessas veias.
Vais ver que não dói nada
porque só em mim poderá doer
se ele não for a tua cura.

Daniela Pereira

quinta-feira, outubro 20, 2005

Os anjos não vestem batas brancas



São agora três e meia e Clara já não se passeia por entre as montras do Centro Comercial. Com o seu passo decidido, vai-se afastando da confusão e do belo vestido preto que ficou na loja de roupa.
Ainda não tinha dado mais de vinte passos para lá da saída do Centro Comercial, quando ouviu um grito lancinante que ameaçava perfurar-lhe os tímpanos de tão agudo que soara.
Num gesto involuntário leva as mãos aos ouvidos para se proteger daquele barulho agressor e para sua surpresa alguém quase que a derruba ao passar por ela numa corrida desenfreada.
Clara fica um pouco atordoada com o incidente, mas rapidamente recupera o equilíbrio e apressa-se a procurar o culpado da sua quase queda. Olha à sua volta, mas não vê ninguém... o passeio está simplesmente vazio, como se as pessoas se tivessem evaporado. Na cabeça de Clara, surge então a imagem daquele gelado que ela por distracção deixou derreter nas suas mãos quando ficou a olhar fascinada para um casal de namorados que trocavam juras de amor mesmo ao seu lado.
Era parecido com o que estava agora a acontecer bem à sua frente... num minuto a rua estava cheia de pessoas e o seu gelado de camadas de natas e chocolate, mas só porque ela se distraiu por breves momentos a rua estava agora vazia. Assim, como o seu gelado que com o calor daquela tarde derreteu até restar apenas o papel prateado que o envolvia. E tudo, só porque ela se apaixonou e não conseguiu desviar o olhar daquele cenário romântico na praia. Existia realmente ali um fio condutor entre aqueles dois instantes vividos e Clara sentia que o tinha encontrado.
Ainda estava absorvida nos seus pensamentos, quando escuta um barulho estranho. Foi quase como se estivesse a ouvir o senhor Mendes do talho a quebrar os ossos da perna de porco com o machado. Sim, pensava ela satisfeita, era mesmo esse o som que acabava de ouvir.
Procurou então perceber o que tinha afastado as pessoas do seu caminho rotineiro e de onde teria vindo aquele som peculiar. Foi então que viu finalmente um amontoado de pessoas que se acotovelavam para se aproximarem de alguma coisa que Clara ainda não conseguia deslumbrar de tão espessa que era a barreira formada à frente dos seus olhos.
Decidiu aproximar-se, mas sem saber porquê usava passos lentos e indecisos como se por alguma razão desconhecida o seu corpo lhe disse-se para não avançar mais. Mas Clara, sofria da mesma doença que afecta todos os Homens à face da Terra e provavelmente também nos seus arredores...a maldita da CURIOSIDADE!!! Por isso, lá se foi aproximando do local do enxame mas sem deixar de sentir uma sensação de aperto no peito que lhe ia roubando o fôlego em cada passo dado.
Abriu caminho por entre todas aquelas costas transpiradas que lhe barravam a visão e ficou paralisada diante do horror que jazia ali perto dos seus pés.
Na estrada estava uma mulher ainda jovem deitada no chão totalmente imóvel de olhos parados e com o corpo manchado de sangue. Clara ainda tentou ver-lhe o rosto com mais pormenor para medir-lhe a idade , mas rapidamente surgiram dois vultos vestidos de branco que se debruçaram sobre a mulher tapando-a por completo com um lençol branco feito de um tecido baratucho.
Ergueram a mulher no ar e levaram-na com eles, mas Clara reparou que apesar de eles estarem vestidos de branco não pareciam ser anjos. Até porque Clara, ainda se lembrava de todas as imagens do seu livro de catequese de miúda e em nenhuma delas os anjos vestiam batas brancas...

II PARTE

A jovem mulher que Clara viu estendida no chão já cadáver, foi transportada por uma ambulância pintada de branco e ela olhava atentamente para o fundo da rua enquanto a via desaparecer naquele meio de transporte peculiar.
Na cabeça ainda guardava uma leve recordação dos traços do rosto daquela pobre mulher que viu a vida ser ceifada precocemente. Ainda era jovem, deveria ter segundo os seus cálculos mentais mais ou menos a sua idade. Talvez fosse um pouco mais velha, uns quatro ou cinco anos porque havia no seu rosto algumas rugas a mais do que no dela. E as rugas são o melhor indicativo para a idade de uma pessoa... são quase como os códigos de barra nos produtos do supermercado que nos indicam todas as características do produto que enfiamos para o cesto. As rugas são o nosso código de barras, porque naquelas linhas disformes está marcada toda a nossa vida sem direito a omitir os dias menos favoráveis. Está tudo lá registado e bem visível aos olhos de todos num simples franzir da testa.
Como teria sido a vida daquela mulher minutos antes de ter tido a ideia fatal de atravessar aquela rua?
Ela tinha um aspecto cuidado, vestia-se bem e usava um perfume caro o que seria um indicativo bem claro da presença de uma boa conta bancária no banco.
Talvez estivesse atrasada para retornar ao seu emprego onde deveria ocupar um cargo importante, com bastante responsabilidade e talvez por isso mesmo tenha tido aquele impulso de correr para a rua sem olhar á sua volta. Sim, aquela era uma hipótese provável no seu entender... mas ela ainda pensava noutras possibilidades.
Uma era difícil não lhe vir à cabeça naquele momento, até porque ela mesma também já tinha pensado nela como sendo a solução definitiva para todos os seus problemas... uma tentativa de suicídio bem sucedida.
Se calhar aquela senhora sentia-se muito sozinha, sem o carinho de um homem ou sem um filho nos seus braços. Ficou cansada de acordar sempre numa cama vazia e de ouvir todas as manhãs o silêncio trespassando-lhe as paredes da casa. Talvez ela sonhasse todas as noites com os ruídos de uma criança a correr pelos corredores soltando longas gargalhadas debaixo do olhar vigilante dos pais.
Sim, isso seria o suficiente para que aquela mulher sem nome quisesse acabar de vez com a maldita dor que sentia no peito. Clara conhecia bem essa dor e sabia como ela podia ser cruel e desgastante.
Mas poderia também não ter sido um suicido e aquela morte não passaria de um brutal descuido da parte daquela senhora.
Então ela imaginou duas pessoas discutindo com vozes alteradas e muitas palavras cuspidas sem qualquer sentimento da boca para fora. Se aquela mulher tivesse dito as palavras erradas à pessoa certa ou se tivesse escutado meias palavras poderia ter ficado perturbada e por minutos ter esquecido da realidade.
Naquela cabeça desesperada com a ideia de ter perdido o seu amor não haveria espaço para os carros na rua muito menos para passadeiras ao atravessar a rua. Não havia mais nada naquele olhar, só a imagem daquele homem, o resto do mundo ela tinha apagado.
E se as palavras que foram ditas ecoassem com força nos ouvidos naquele preciso momento, talvez a mulher nem tivesse ouvido o buzinar estridente do carro que a atropelou e assim tivesse avançado como um cordeiro inocente prestes a ser sacrificado.
Agora o pensamento de Clara parecia uma lista telefónica muito extensa com muitas ideias prontas a serem folheadas. Havia tantos motivos para aquela morte que Clara seria incapaz de mencionar todos.
Mas mesmo assim foi tentando enumerá-los enquanto caminhava no passeio com uma passada lenta e cadenciada.
Imaginou dividas de jogo conseguidas numa mesa de poker num casino luxuoso e cheques com quantias gordas a serem assinados pelas mãos franzinas daquela mulher e tossiu com o cheiro a tabaco que subitamente lhe invadiu a garganta.
Vieram-lhe à ideia embalagens de calmantes tomados ao deitar numa tentativa desesperada de trazer o sono à sua cama e o copo de whisky vazio na mesinha de cabeceira do quarto da falecida com uma garrafa ainda por abrir colocada ao lado de uma já meio cheia .
Teria sido este o cenário daquela mulher na noite anterior à sua morte? Estaria sozinha? Ou teria tido uma noite escaldante de sexo na cama de algum estranho engatado num qualquer bar lambido?
Talvez ela simplesmente estivesse a pagar os erros cometidos no passado ou mesmo no presente. Deve haver lá em cima um cobrador de almas à semelhança das finanças nos cobram os impostos e se ultrapassamos a data limite de pagamento são nos cobradas as dívidas e com juros.
Pobre mulher que não pagou as suas dívidas a tempo!

Daniela Pereira