terça-feira, julho 01, 2014

As cartas

Decidi escrever esta carta a ti, que ainda não existes. Porque percebi que é mais fácil dizer o que temos por dentro a pessoas que se revelam transparentes. Quando dizes o que sentes a alguém sem esperares que esse alguém te dê alguma importância, percebes que aquilo que tens a dizer é mais importante do que pensavas. Não tens que esperar que te respondam... não enfrentas gritos baixos ou picos de silêncio. A resposta às tuas mais indignadas questões só a ti abalam. Não provocas ao mundo inteiro lágrimas desnecessárias, nem queimas estradas aos intrépidos sonhadores. Respiras de alívio...as "palavras - lâmina" já moram na tua boca.


Daniela G. Pereira

sexta-feira, junho 07, 2013

Em que pensas... ?

Em que pensas?...




Penso no Amor... naquele vírus estranho que nos consome a alma até fazer sangue. Não o vejo como uma doença, nem um mal fatal mas é certo que às vezes dá com tanta força que no fim até parece que mata. Mas afinal ainda estamos aqui... logo, o Amor morreu mas ele tem muitas raízes, muitos vácuos escondidos onde depositar a sua semente. É como uma roseira... bela, forte e perigosa com o corpo esguio coberto de dolorosos espinhos mas nos nossos olhos há uma beleza que cega. E nós amamos... e há tantas formas de amar que por vezes chega a ser assustador compreender que um sentimento que nasce por dentro, explode para fora se lhe acendemos o rastilho e ao mínimo descuido jamais o paramos. E pensar que o Amor surge de um amontoado de coisas pequenas! Daquelas coisas pequenas.... gestos insignificantes...marcas leves e pormenores que só a ti mesmo interessam. São os teus delicados segredos. Aquela onda no cabelo que dança no vento, aquele sorriso que deita por terra todas as tristezas por mais que elas se debatam, aquele olhar perdido onde vemos tudo..tudo, até mesmo aquilo que não pode existir a não ser que tenhas passado a viver deitada num sonho. Mas tu juras que vês! Sim, naquele olhar..naqueles olhos pretos cabem cidades inteiras..luares de agosto, ruas apinhadas de gente...não importa a multidão que graceja à tua volta. Naquele olhar estás sozinha...é assim que te sentes sozinha, mas com ele, com aquele vírus que sufoca e te enrola o ar porque ocupa em ti todo o espaço. Tens a capacidade de apagar o resto do mundo... não para sempre, mas naquele instante de tempo onde se cruzam olhares cresces em mim viçoso de confiança. E a confiança cresce, cresce dentro de mim devorando medos, alimentando entregas, removendo memórias numa lavagem cerebral de pura amnésia. O sol brilha como se tivesse engolido mil e duas lâmpadas , os passarinhos são tenores e nem por um segundo desafinam, os sorrisos nas nossas bocas são perfeitos e até a chuva por Deus, juro que já não me incomoda.
Em que pensas? ...
Penso no Amor que está doente.

Daniela G. Pereira
Direitos de Autor Reservados

quarta-feira, maio 22, 2013

O despertar da mente...



Há muito tempo que não te escrevo. Não escrevo nem para ti, nem para o senhor que ali vai com passo descansado a descer a rua... nem para o carteiro que tarda sempre a chegar. Simplesmente porque não escrevo. Não, por não ter nada para te dizer... não é isso. Acho mesmo que é precisamente o contrário. Há tanto para dizer e depois nada se diz. É contraditório, mas é realmente assim. Quando as palavras são muitas, a desordem de ideias é total. É um caos assustador e por isso fugimos do mundo num silêncio bem educado. Como se aquela palavra que devia ser exposta em primeiro lugar, ficasse demasiado importante...tão importante, que dela até depende um fim de uma guerra. É assim que eu me sinto, que as minhas palavras podem provocar guerras e mortes. Um valor desalinhado, uma expressão fora de tom e o mundo desaba...o meu mundo cai por terra, castigado pela força dos sentidos. A ironia de se pretender alcançar a paz com as palavras, achar que elas podem abrandar furacões e abraçar estrelas cadentes. Chegamos a um momento em que o tempo já não importa. Os meses não se contam, os anos são apenas mais um amontoado de meses e tudo fica normal, mesmo que essa normalidade seja falível. Por isso, eu não te escrevo. Sofro hoje de uma fobia que todas as minhas letras sentem quando se debruçam nas margens do papel. Depois, é o que se vê... dão saltos no escuro mas não avançam. Não têm por onde avançar, porque o caminho foi cortado e as palavras sem pontes morrem desejosas de alcançar uma estrada.


Daniela G. Pereira
Direitos de autor reservados


sábado, abril 27, 2013

Poema... aquele amor não agradecido.

Olho para o relógio
mas o tempo distorceu a matriz das horas...
Agora só o teu respirar
me condensa as vertigens no peito.
Dobras-me a boca
e os meus beijos rezam alto
todos os seus pecados
ajoelhados na verdade da tua língua.
Desistir da defesa e deixar o teu corpo
acorrentado ao meu...
Desistir adormecida no suor das tuas costas...
Nada tem de mal agradecido.
Há nos teus olhos um azul que transborda a infinito
prestes a desfazer-me na bravura das suas margens.
Avanças-me os sentidos e eu recuo as minhas pernas.

Renegado o amor que me atravessava o tempo ...
Querer-me a pulsar dentro de ti
é morrer em paz.

Daniela G. Pereira

Direitos de Autor Reservados


sexta-feira, abril 26, 2013

Raio x

Nada encontro que me explique...que me resuma em poucas linhas e em delicados traços. Nos meus olhos moram curvas que o tempo não esbate...
Eu sou... e acabo aqui a frase sem nada iniciar porque a promessa de nascer feliz calou-me o crescimento.

sexta-feira, março 22, 2013

Um pensamento pelo caminho...

Em que estás a pensar?
Por onde caminham os teus pensamentos mais profundos e as tuas mais translúcidas incertezas?...
Existe um mar esmeralda onde guardas os segredos que na tua voz ondulam assustados. A verdade é uma gaiola doirada onde prendes o que dizem ser mentira. Acreditar é uma mentira que o destino inventa para seguires em frente de cabeça erguida. E tu cá andas, meio embriagado pela vida que te escorregue por entre os dedos...beber os teus dias é um vício cheio de doçura que te engana os sentidos. Gostos amargos erraram a intensidade da tua boca, como erram sempre aqueles que ao pé de ti lavram ciosos beijos.


Daniela G. Pereira
Direitos de autor reservados

quarta-feira, março 13, 2013

Uma lamparina e um farol...

Tu chegas...
Chegas e fechas-me a garganta
como quem fecha a cor das rosas no fim de uma tarde.
Dizes que nas palavras albergo hinos e que nos silêncios não sobrevivo.
E eu fico de pé...com as raízes enfiadas na laringe e não suspiro.
Mato os ais com uns uis mais enfraquecidos
e o meu grito arrependido não adormece.
Faço de conta que há luz lá fora...
As estrelas são justas lamparinas para os que escrevem escuridão acima.
Para os que servem copos de incertezas com os olhos inundados de espanto.
Guiam-me as memórias... porque elas têm dentes e mordem-me a boca
só para que esqueças as ruas que cruzavas comigo assobiando o teu modo alegre.
Chegas e fechas-me a garganta...
E nos rios correm pérolas sem braços
porque o mar arrancou-lhes a esperança
como quem arranca o coração a um estranho e a si o oferece.
Faltou-lhe a coragem de acreditar em ti
e tu a inspirar a verdade para dentro
como se um ar puro em ti coubesse.

Daniela G. Pereira
Direitos de Autor Reservados