segunda-feira, outubro 02, 2006

O início de um fim sem tempo para desvios





Espera...pára de respirar por alguns minutos!
Deixa-me respirar por ti
este ar anestesiante que nos cerca
até sentir que o meu corpo
já não reage ao arfar da tua boca.

Olha bem... penetra com os teus olhos na minha pele
Como se o teu olhar
fosse uma lâmina afiada
e não te desvies do relevo do meu desenho
mesmo que encontres montanhas generosas
palpitando no caminho das tuas mãos.
Sabes bem que em breve
elas poderão ser somente vales
por isso não te distraias com tempos mortos
porque aqui deitado junto a mim
cada segundo conta.


Não peças mais...
Não quero mais sentir que os teus braços são pedintes
por isso sem mais palavras
possui o que é teu por direito.
Não esperes mais que os meus lábios
se precipitem perigosamente nos teus
com voos lascivos de desejo
e ganha coragem neste fértil instante
para mergulhares neles
porque este mar vermelho para ti será pura seda.
Substitui as tuas palavras vãs...

Sim...ouviste bem..
Eu disse as tuas palavras vãs!

Por isso
Substitui essas palavras
pelos meus gritos cheios...
As pedras negras que nos separam
por lençóis mais brancos...
O aroma da chuva nos teus dedos
pelo perfume dos meus cabelos.
Tudo o que tu quiseres ter
desde que sintas que eu quero dar.
Só me importa que troques o vazio que hoje sinto
por uma noite de prazer
mesmo sabendo que ela se escreve
com linhas muito incertas
e que o mais certo
é que amanhã na minha cama sejas uma miragem.

Depois arranca-me um beijo bem molhado...
Mas espera, deixa-me respirar primeiro.


Daniela Pereira-01/10/06

sexta-feira, setembro 22, 2006

Curiosamente obsessiva por afectos







Estás à espera de um afecto?

De um abraço caloroso …

Ou de sentir o toque daquelas mãos nos teus cabelos?

Então sonha acordada

porque todos os teus dias são sonhos despedaçados.



Tens a manhã encravada no teu olhar

e o orvalho ainda goteja nos teus olhos

gotas salgadas

que tu queres compulsivamente mais doces

porque os teus lábios

são por mel eternamente viciados.

Então, ouves melodias repetidamente

para preencher o vazio dessa voz adocicada

que não fica o tempo suficiente

para ecoar nos teus ouvidos.

Não suportas mesmo o silêncio

que a sua ausência deixa em teu redor

e a velha música será sempre o teu escape

minha curiosa obsessiva!



Queres a tua janela pintada de azul…

De um azul que faça inveja a um céu de Verão

mas plantas tulipas brancas na tua varanda

só para as veres crescer sem pecado todas as noites.

Julgas que molhando os dedos nas ondas do teu pensamento

podes salpicá-las de mar

mas ainda saberás

qual o perfume desse azul

que no teu peito encerraste apaixonada?



Deixa-me desconfiar das tuas boas intenções…

És generosa demais no carinho que destilas por amor

para eu acreditar

que por ele nunca pecaste…

que dele nada desejas em troca…

quando te vejo assim

debruçada nessa varanda

despida de flores azuis.

Não

estarás tu à espera de um afecto?


Daniela Pereira-22/09/06














 

sábado, setembro 16, 2006

À luz de duas velas quase apagadas...




Não preciso de olhar
quando quero sentir
porque a dor sente-se no peito
e os meus olhos só sabem chorar por ela.

E se os beijos...
Os doces beijos
são sempre dados de olhos fechados
quando a boca dou a outra boca...
quando os sentidos despertam cegos
nesta cama de veludo vermelho
que nos meus lábios faço.
Então...
Para quê olhar?

Porque teimo ainda em sentir de olhos abertos?

Talvez se fechasse este olhar
numa redoma de vidro
e aprisionasse o pensamento
num nó bem dado na cabeça
saberia de cor que a escuridão
será sempre o cenário perfeito para amar
e deixaria de procurar a verdade
à luz de duas velas quase apagadas.

Daniela Pereira-16/09/06

terça-feira, agosto 29, 2006

Sou filha das palavras que sentem...






Sou filha da noite

e no seu regaço

embalo todas as palavras

que comigo se deitam por prazer.



Não acordo as estrelas

com os meus gritos mudos

nem perturbo o sono da lua

com o meu pranto morno

quando me deito.



Na noite...

sou silêncio na voz

e as palavras que escrevo

com a boca orgulhosamente fechada

respiram pelos meus dedos

enquanto não amanhece no meu rosto.

Mas quando acordo para o mundo

abandonando todos os sonhos na escuridão

sei que estas palavras

que fielmente calo na garganta

gritarão para sempre deitadas no meu leito

por um amor

que a poesia numa noite

quis ver nascer solitário e vagabundo.


Daniela Pereira-29/08/06


 

sábado, agosto 26, 2006

Sorriso chulo




Hoje és musa
da escuridão
e de olhos pintados
invades a noite
com a boca vestida de cetim
beijando passos de seda
no teu caminho de lata.

Sei que amas essa
imagem misteriosa
que o preto dá à tua pele
e por isso
esta noite dele abusas
sem nunca te esqueceres
de salpicar
um qualquer brilho prateado
no teu generoso decote.

Achaste bela assim
quando te olhas ao espelho
maquilhada como uma boneca
e vais demarcando as tuas curvas
com tecidos transparentes
só para aguçar
algum apetite voraz
que te saiba devorar.

Então irrompes
pela noite dentro
e ficas salivando discretamente
por entre risos e copos
a intervalar a língua com os lábios
à procura do encaixe perfeito
enquanto te arrastam
para dançar.


Esta noite
sei que o teu olhar
alugou estrelas ao céu
e que em alguma rua desta cidade
houve alguém que te viu
a querer comprar o mundo
com um sorriso chulo...
E aí o tens
deitado aos teus pés
e como um reles prostituto
a ti se vende.

Daniela Pereira-26/08/06

terça-feira, agosto 22, 2006

Chuva de Verão




Caminho numa praia deserta
e sozinha sinto 
que os meus olhos choram
palavras magoadas
porque
todos os dias
espero pelo eco da tua voz
mas quando a noite chega
só os passos
do teu silêncio escuto.

quinta-feira, julho 27, 2006

Carta a um mundo filho da mãe



THE  FROG  KING-BY  DEVIANTART


Olho para a folha em branco sentindo que tenho tanto para lhe dizer, mas as palavras estão com dificuldade de sair. Parece que estão perras, e como portas velhas e ferrugentas vão rangendo por entre os dentes. Uma folha vazia se calhar saberá dizer mais sobre mim do que uma folha cheia de palavras absurdas e caóticas. Hoje as minhas palavras estão assim...absurdas nas ideias e caóticas nos actos que definem.
Penso e sobretudo penso, para quê pensar? Para quê procurar respostas debaixo dos tapetes empoeirados quando sabemos que as nossas perguntas já não são lógicas.
Acreditar? Em quê e em quem, se todos e mais algum acabam sempre por trair a tua confiança mais tarde ou mais cedo.Porque quer queiramos quer não o egoísmo existe dentro de qualquer ser humano e isso não mudará nunca mesmo que teimes em não sair da tua terra dos sonhos.
Ainda agora comecei a escrever e as palavras já me começam a enjoar, como um prato de sopa que comes a seguir ao outro só porque o servem na tua mesa e tu por educação tens o cuidado de não recusar mesmo tendo a barriga cheia. Enfias uma colherada para a boca e com o ar enjoado disfarçado finges apreciar o seu paladar.
É com esse mesmo ar dissimulado que eu olho para o espaço ainda por preencher nesta folha. Não tenho paciência para escolher as palavras...sinto a mente preguiçosa e são os dedos que comandam o vaivém do teclado. Dançam alucinados num chão pintado de preto e com passos rápidos e precisos marcam o compasso da sua dança.
Que se lixem as formalidades e o pudor, hoje apetece-me ser filha da puta nos gestos e cabra nos pensamentos. Não ter pena de ninguém, porque ninguém merece ser vítima desse sentimento humilhante. Não vou lavar os meus gritos com sabão rosa ,só porque eles me saem sujos e roucos da garganta.Quero-os mesmo assim...porcos e grosseiros porque eles nasceram no berço imundo da frustação e quem estiver na direcção deles que se proteja porque vai levar com eles em cheio na alma.
Vou usar palavras directas e vou cortar nos tempos de espera,como se este dia fosse dominado por um contra relógio de vida ou de morte...ou dizes o que eu quero ouvir ou podes cair fulminado pelos meus olhos porque eu não vou esperar que o meu tempo de sanidade chegue ao fim só porque quero ouvir o teu sim.
Sim...fizeste a escolha certa!...
Sim...esse era o caminho a seguir!...
Sim...fazes-me falta!...
Sim...preciso de ti!...
Porra, será tão difícil assim dizê-lo só porque não o sentes agora?
Tu que encantavas as almas penadas com promessas de um inferno melhor, já não sabes inventar uma chama? Quando é que perdeste esse teu dom?...não me apercebi devia estar distraída a inventar poemas inspirada nos anjos que sobrevoavam as minhas noites.

Ohhh mundo filho da mãe,quando é que desististe de mim?



blueiela-27/07/06

terça-feira, julho 25, 2006

Onde está o beijo que deixei na tua boca?


















Foste embora?
E onde está
o meu beijo de despedida?

Vou ficar
com a minha boca húmida de desejo
com tanta secura
que deixas-te nos meus lábios.
Morrerei de sede esta noite
porque não me deste de beber
das tuas palavras
antes de adormecer.
Não dormirei
e os meus olhos abertos
trespassarão a escuridão
como faróis alucinados
até o dia romper no horizonte.

Porque foste embora
sem me ouvires dizer
que foi bom
estar ali contigo outra vez?
Que por alguns minutos as horas tiveram mais cor...
Que a escuridão que por vezes vive em mim
enfraqueceu com o teu sorriso
e no meu peito
até houve tempo para gozar uma tarde de sol...

Dei-te um abraço
com os braços estendidos
e tu abraçaste-o ...
Foi boa
a ilusão da prontidão daquele abraço.

Mas e o meu beijo...?
Porque não lhe deste
o calor da tua boca
se foi na tua direcção
que ele partiu doce e ofegante?

Não importa o porquê
da falta de um gesto
se ele já não tem a força da ternura que o envolvia...
Por isso
sem explicações
embalo-te com palavras quentes
mesmo sabendo que à tua alma
chegam já geladas.

Boa noite...
Dorme bem
Sempre com o meu beijo ao teu lado
Porque este beijo
não receia mais o teu silencio
e a ti se dá
sem mais palavras...

Blue-24/07/06

sexta-feira, julho 07, 2006

Sussurros e Poesia-Parte IV



Os pássaros não sabem tocar guitarra...


Fecha as luzes...
Porque esta noite quero levitar no escuro
e fazer do meu corpo
carne incognita...

Agora reparo... Ainda tenho a minha pele a descoberto e o seu brilho denuncia a minha presença nesta escuridão fingida. Porque não usas as grutas do teu corpo para me engolires por completo na tua sombra?Assim tu e eu poderíamos ser neste quarto o mesmo nada por momentos...Não existiriam culpas nem arrependimentos se tudo mudasse aqui, se o meu mundo virasse o teu de cabeça para baixo e se esta tontura fosse eternamente sentida. Não me importo que no meu mundo as memórias deixem de caminhar para trás, e que elas mesmo , passem a comandar o meu futuro...porque sei que o farão orgulhosamente de cabeça erguida. Então...puxo-te para os meus braços até sentir que já não receias que te deixe cair e ato-me a ti como se fosse um nó cego para que não possas fugir do meu olhar.

Depois...
Peço-te que
pegues neste pedaço de carvão
e que escrevas a preto nas paredes
NÃO OLHEM!!!
Para que todos os olhares
que desafiarem
a noite curiosa
sejam atraiçoados
e deste festim preparado
apesar das promessas
nada lhes seja revelado.

Gosto de segredos
guardados a dois
E tu...não?




Thumbing My Way
By Pearl Jam
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Fecho os olhos...
Já te encontrei
vagueando neste sonho perfeito
com os olhos cravejados de doçura
e naquele instante
juro por Deus
que a visão é um dom desnecessário para mim...

Sinto que caminhas atordoado na minha direcção...os teus passos estão confusos, como se não percebesses porque estás aqui...
Mas porque tentas tu ainda perceber a razão dos meus sonhos?Nos meus sonhos nada faz sentido porque tudo se entrega sem pensar e o chão que pisas tem a cor que eu escolhi mesmo que não a conheças. Não ouves pássaros a chilrear nesta paisagem,pois não?Porque até a musica que compoe este cenário ideal foi escolhida por mim e como os pássaros não sabem tocar guitarra e o bater dos seus bicos não tem a mesma força de uma bateria eles deixaram de ter importância.Por isso guardei-os nesta gaiola forrada de veludo vermelho que dentro de mim transporto. Quando os quiseres ouvir so tens que encostar o teu ouvido ao meu peito e eu prometo que nas minhas penas adormecerás sempre tranquilo...



Porque resistes?
Porque te debates
agora que sabes
que eu
nunca farei sentido
entendida como um comum mortal...

Tenho demasiados sonhos
Aprisionados na cabeça
para acreditar
que sonhar contigo
nunca será real...
Por isso
esta noite...
só por esta noite
sonhas comigo?


Daniela Pereira-07/07/06

sexta-feira, junho 30, 2006

Extinção



Se o mundo

já não suporta

ouvir-me gritar

o que sinto...

Então,ficarei quieta

num canto escuro qualquer

em absoluto silêncio

até que ele

se digne a estender-me

novamente a mão.

E se DAR

não for mais sinónimo de RECEBER

no dicionário dos mortais...

Então nada darei de mim

enquanto esta alma permanecer vazia.


Daniela Pereira-30/06/06
 

domingo, junho 18, 2006

Sussurros e poesia-Parte III-Respirar num gesto pensado




Inspiro fundo...
E porque já não respirava à tanto tempo
deixo que os meus pulmões
recordem lentamente o gesto.
Sem pressas
deixo o ar suspenso
e não lhe apresso a viagem.
Ouço o mar
ofegando nas paredes do meu quarto
e em silêncio
absorvo o cheiro da maresia impregnado nos lençóis.
A pele fica roxa
enquanto aprisiono o ar
e mesmo que sufoque
sei que não desistirei de dominar
este corpo que é só meu
por uma herança
que a alma deixou na carne.

Sinto que perco as forças
e a vertigem
é um acto pensado
nesta libertação forçada da mente.
Os olhos fecham-se
e o mundo são imagens desfocadas à minha volta
sem rostos cerrados
nem rugas nas palavras
porque o silêncio não envelhece...

Passaram apenas alguns minutos desde aquele momento em que decidi respirar profundamente ao sabor da poesia. Agora que prendi por momentos as palavras com cordas pretas e as esmaguei contra paredes brancas, sinto que chegou a hora de as deixar soltar o ar calmamente enquanto caminham por estas longas linhas sem a poesia pesando nas costas.
Posso então abrir os olhos descontraída e ver que o meu mundo ainda está perfeito mesmo que nunca deixe de ter recantos imperfeitos à primeira vista.
Inspiro...e expiro devagar
E ao sabor desta loucura que é respirar começo-me a sentir como se fosse apenas mais uma onda que o mar alberga nos seus braços numa sintonia perfeita com a natureza. Mas como nada é eternamente perfeito dou por mim a rebentar ilusões contra um muro de areia improvisado à beira mar.
Então dou uma abanadela ao meu corpo para que saia daquele transe e regresso ao sufocar da vida...

Daniela Pereira-18/06/06

domingo, junho 04, 2006

Elogio fúnebre a um NADA...



Não és nada
e nunca foste nada
para os outros
que são tudo para ti.
Nem mesmo aquele ínfimo pedaço
que de ti deste
julgando ser o teu maior pedaço
chegou para preencher
algum espaço no céu com o teu nome.

És um vazio na terra
que nada tem por dentro
para além de sentimentos ocos
e emoções emprestadas .
Não tens vida própria
e vives à custa dos outros
esperando alimentar os teus sonhos
com as migalhas que os outros te dão
em troca do pouco que lhes dás.

Depois é ver-te a escrever como louca
a pensar que alguém escuta as tuas palavras
e só porque as carregas com toda as tuas forças no papel
julgas estupidamente
que podes assim deixar alguma marca.
Mas não...
Digo-te que não deixas nem um traço
porque és apenas pó
e o vento sopra-te rapidamente da folha sem remorso algum.

Não amas
e nem sequer podes mais amar
com esse coração assim desfeito
por tantos medos aguçados.
É que tu sabes bem
que assustas qualquer sentimento
que passeie alegremente pelo teu peito
com todo esse medo que tens colado a ti
e nem sequer te importas.

Já não enfrentas o mundo...
Se é que alguma vez o enfrentaste de frente
porque sempre te vi fugir
como um cachorro assustado.
Já não sabes como se luta
porque te esqueceste como isso se faz
de tanto estares
enfiada nesse teu buraco seguro
cercada de fantasias.

Esperneias...
Gritas e choras
e enquanto te debates sozinha
por entre dúvidas e certezas
nos teus pensamentos mal amanhados
vais suplicando
como um peixe fora de água

que te deixem ao menos respirar.

Então, hoje sei que olhas sufocada
para aquela caneta
que tantas vezes te fez sorrir
e até ela baixa os olhos
perante toda essa tristeza
que adivinha estar estampada nesse teu rosto.
E tal como tantos outros
ela também já se sente enfadada
das tuas lamúrias sem nexo
que esculpes com as tuas mãos
nas curvas da poesia morta.
Agora ela só quer
procurar outros poetas
que saibam celebrar com as palavras
essa vida que tu
já não tens nos teus dedos.

Daniela Pereira-04/06/06

P.S:Imagem by DeviantART

Remendar o frio nas tuas costas...




Ouves-me vento?
Ou será que os meus gritos e lamentos
são tão fracos
que nem com a boca encostada ao teu ouvido
consegues-me escutar?
Se calhar toda a dor
que me tem corroído por dentro
já chegou à garganta
e queimou-a de tal maneira
que nenhum som sai dela
e se a mudez se apoderou das poucas palavras que nela sobreviveram
então o silêncio poderá ser agora a minha voz.

Cruzo os braços mais uma vez
e fico novamente à espera do teu sinal
sossegada no meu canto
aninhada em choros e pensamentos
até sentir a noite afogar-me num mar de papel branco.

Depois abro a janela todas as manhãs
na esperança que o dia esteja diferente
que ele tenha acordado com mais cor para mim.
Mas não...só se eu tivesse sonhado
porque o céu ainda está pintado de negro
e as nuvens permanecem salpicadas de cinzentismos.

Então resignada com o meu triste fado
volto a fechar a janela
com dois murros no vidro
para depois desiludida virar as costas ao mundo
fingindo uma atitude de pura rebeldia.
Mas na verdade...
E o meu mundo sabe-o tão bem...
Apenas desejo que ele me toque
nem que seja ao de leve no ombro
e mostre alguma gratidão
pelos buracos que tantas vezes lhe remendei nas costas
para que nunca sentisse este frio medonho
que em mim hoje sinto.

Daniela Pereira-04/06/06

quarta-feira, maio 10, 2006

Hoje queria vomitar o tempo...




(escrito ao som de “Butterflies and Hurricanes”-Muse)



Butterflies
By Muse
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Passa o tempo devagar
naquele relógio que aparafusei na cabeça
e nada sei ainda...
Então pergunto sem cessar
Se estou certa...
Se este medo tem alguma razão de ser...
Se estas lágrimas ainda fazem algum sentido.
Depois lembro-me dos sorrisos
que já galoparam em cima dos ponteiros
quando os sonhos tinham o aroma dos nossos passos
e não encontro motivos
para que a areia hoje esteja assim tão salgada.
Já nem vejo o mar à minha frente
porque agora os meus olhos
preferem a melancolia de um rio
para pintarem tranquilamente o seu pranto...
Então porque sabem a sal os meus dedos?
Estou enjoada...
E sempre que os meto à boca
apetece-me vomitar com esta caneta seca
todas as palavras salgadas
que me dão a volta ao estômago
porque este silêncio amargo e doce dá-me vómitos.

Daniela Pereira-10/05/06

sexta-feira, abril 28, 2006

“Ao som de Spiralling de Antony and the Johnsons”




Perdoa-me porque consinto
Que estas lágrimas voltem a cair
Mas não consigo ensinar
Ao meu peito
Que a tristeza não tem valor.

Se hoje ouço melodias
Com os olhos molhados
Quero que saibas
Que não culpo a tua voz
Por nenhum momento de silêncio
Porque Só o meu coração
É culpado
Por amar tanto as tuas palavras.

Talvez se não ouvisse
Mais nenhuma música...
Se tapasse os meus ouvidos
Com muita força
Podia ser que estas notas sofridas
Não ecoassem dentro de mim
E que neste relógio
Que trago pregado na pele
Os minutos finalmente deixassem
De caminhar na areia do tempo
Com passos tão marcados.

Perdoa-me por continuar a afogar-me
Em todas as tempestades
Que se abatem na minha mente
Sem nunca tentar nadar
Para atingir a segurança de uma terra firme...
Mas acredita que os meus braços
Já não têm mais forças
E recusam todos os meus pedidos
E eu já não sei mais
Em que direcção
Devo largar os meus gritos de socorro
Porque o meu olhar confundiu o Norte
Ao se perder numa imensidão de estrelas
Todas as noites tentando adormecer
Sem te ter ao meu lado.

Ai, se eu pudesse escolher
Cada palavra que escrevo
Nenhuma soaria com esta dor
E todas estariam sempre
Para ti sorrindo
Com um brilho feiticeiro no olhar
Da primeira até
À ultima linha.

Por isso perdoa-me...

Mas não consigo evitar
Que elas por alguns momentos
Baixem os olhos entristecidas
Mesmo quando eu lhes afago a cabeça.

Só queria saber qual é o segredo
Para se estar sempre a sorrir
Sem fingir que se é feliz...
Como se pode desejar
Um corpo com fervor
Sem lhe poder tocar
Sabendo que só em sonhos
O poderás cobrir de beijos.
Como beijar uma boca
Com os beijos mais quentes
Sem sentir o calor desses lábios
A aquecer os teus.
Como sacudir os pensamentos
Para que eles não fiquem inertes
Seduzidos por um rosto
Que não lhes sai da cabeça.
Como fazer parar
A inspiração que te corre nas veias
Sempre que pensas em alguém.
Como calar nos teus dedos
Todos os sentimentos
Sem os amarrares atrás das tuas costas
Para que possas
Ter sempre as mãos soltas
Para dar uma carícia.

Porque me fizeste assim Meu Deus?
Porque não consigo odiar quem não me ama
E porque amo eu
Quem apenas não me odeia?
Porque vejo magia no brilho de uma estrela
Se todas brilham com a mesma luz?
Porque amo com tanto fogo
Estas palavras
Se na verdade és tu que eu queria poder amar?
De que me serve
Inundar os teus dias e noites
Com beijos e carinhos
Se nunca mais te vou ouvir dizer
Que eles são a tua alegria?


Ao azul deste céu
Não perguntarei mais nada
Porque sei que haverá
Sempre uma nuvem ocultando a resposta
No azul deste mar
Não deixarei flutuar
Mais nenhuma dúvida
E todos os pontos de interrogação
Que surgirem neste peito
Espero bem que as ondas os levem para longe de mim
Porque assim saberei
Que só salvarei as certezas
Quando estender o meu braço.



Talvez se soubesse
Como emparedar
Um coração na carne
Ele já não batesse mais
Sempre que sente os teus passos
E eu não ficasse mais
À espera do teu longo abraço
deitada nesta cama
Com cravos vermelhos
Desfalecidos aos meus pés


Por isso perdoa-me por todas as lágrimas
E por todos os sorrisos
Que trago dentro de mim
Sempre que tocas levemente no meu rosto
Porque não é apenas pele
Que sentes debaixo desses dedos...
É a minha alma que a ti se dá por inteiro com prazer.


Agora que deixei que estas palavras
Vissem a luz do dia
Sei que esta escuridão vai passar...
Por isso perdoa-me
Por não as deixar sempre
no escuro aprisionadas
longe do teu olhar sorridente
mas preciso de ver por momentos o sol
e só assim dissipo as minhas nuvens
para poder renascer para ti sorrindo...

Blue-27/04/06

quinta-feira, abril 20, 2006

O sexo e as palavras




Porque procuras o prazer
em cada canto da noite?
Em cada sombra da rua...
Mesmo sabendo
que elas para ti só se despem
na ânsia de sentir calor
na frieza da cidade.

Porque tens que embriagar
a tua vida errante
com gemidos fáceis
para puderes sentir
que o sol te queima
o corpo mesmo na escuridão?
Não preferes aconchegar essa nudez
no seio de uma alma que em chamas
arda por ti em silêncio?

Apenas te pergunto isto
porque sei bem
que assinas poeta
em todas as palavras apaixonadas
que cospes da boca
e admira-me muito que
ainda não saibas que de madrugada
toda as paixões se desvanecem como fumo.

Tu sabes que faço amor
como ninguém
com meia dúzia de palavras acesas
porque já me ouvis-te gritar louca de prazer
com as pernas escancaradas nesta folha...

Então porque insistes demente
em desejar a noite por inteiro?
se no fundo tu também sabes
que nada dá mais prazer
que amar incessantemente ao luar...


Daniela Pereira-20/04/06

sábado, abril 15, 2006

Sussurros e poesia-Parte II



Se alguém te perguntar se estás triste, sorri e mente. Não mostres os teus olhos vermelhos porque os homens preferem vê-los pintados de outra cor. Quando sentires frio dentro de ti, cobre-te de luxúria e prazer e espera que o teu corpo aqueça. Por precaução, costura o teu passado no decote e espera que num momento mais quente o rasguem de olhos fechados para não o verem...o mundo é mais compreensivo quando é cego.
Depois embrulha o teu corpo numa fita veludo e aguarda que um olhar te deseje como presente, mas não esperes receber flores da mão que te despir. ..porque as rosas são para os contos de fadas e tu perdeste a tua magia quando arriscaste amar a sério alguém. Agora do amor que sentes só mereces uma coroa de espinhos e as flores nunca serão para ti.
Então não chores nessa janela porque ninguém te vê por detrás desse vidro empoeirado , és invisível aos olhos de quem por ela passa . Sempre foste assim, apenas já não te lembravas de como era senti-lo...
É por isso que te refugias nas palavras como um vagabundo que procura abrigo em cada canto da rua? Não encontras palha para fazer o teu ninho e então gritas com elas para libertares toda a tua fúria contida. E porque gostas de manter aquela imagem suave e doce que acalma os outros sorris...e quem te acalma a ti, quando sentes que vais explodir em pedaços? Olhaste bem em teu redor?
Não te admires se não vires ninguém e não te belisques porque não é um sonho...é apenas o teu maior pesadelo.


Rebellion (Lies)
By The Arcade Fire
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Porquê ter medo da solidão
se a solidão é a tua única companhia?
Porque choras quando olhas
Para as paredes vazias?
Foram só recordações que delas arrancaste...
Tens tela e pincéis
Então, porque não pintas novos quadros?
Tens tantas cores nos reflexos das tuas lágrimas
Porque não tentas
pintar um arco-íris nos teus olhos...
Não desistas
De imaginar que salpicas o céu
Só porque Deus
Fez os teus olhos com a cor da terra...
Porque a tua imaginação
Tem asas
Sabes bem que o chão nunca poderá ser a tua casa...

Se tiveres de voar sozinha, então não receies a solidão do teu voo porque os pássaros abrirão caminho por entre as nuvens e o sol não te faltará. Tu és como eles e vives cantando sentimentos por isso nunca te pedirão que silencies a tua dor nem que escondas os teus desejos por conveniência só porque temem as tuas tempestades.
Tens nos dedos a força da liberdade das palavras e a coragem para encher o céu com palavras apaixonadas mesmo que o mundo teime em caminhar com os olhos postos no chão...
Pelo menos tu sabes como fazer dos teus lábios rebuçados e escolhes livremente as bocas que os poderão provar... não te limitas a distribuir a mil porcos os teus beijos como se fossem guloseimas só porque por eles salivam.

Por isso...

Beija estes lábios
que em chocolate
foram moldados
e deixa-te ficar assim
perdido na minha boca
até que o meu corpo
se ofereça a ti como sobremesa.
Depois com o meu coração nas tuas mãos
caminha lentamente
até aquela janela empoeirada onde eu chorava...
Então, abre-a com cuidado
para eu não a ouvir gemer
e solta-me com os olhos fechados
porque eu só
sei voar na escuridão...

Daniela Pereira-15/04/06

sexta-feira, abril 07, 2006

Sussurros e poesia-Parte I




Shiu não digas nada, por favor! Não corrompas a lealdade deste silêncio a dois e escuta comigo o que ele nos segreda enquanto sonhamos...

Não existe mais nada numa paisagem em chamas
para além de sombras e labaredas
que abraçadas com paixão
alimentam um fogo
com sonhos húmidos.

Tens carne que cheira a queimado
cravada na tua pele
e esse odor forte
que sentes quando inspiras
vem dos meus pedaços
que no teu coração arderam.

Espera, não grites ainda ....espera que eles te queimem por completo a alma. Depois sim, grita à vontade mesmo que eu já não te oiça. Porque esse teu grito vai-me encher de prazer enquanto dispo este corpo fútil de todas as sensações humanas para deleitar os teus sentidos com as minhas miragens. Podes vir comigo se quiseres, porque nesta cama vestida com lençóis de carne há sempre lugar para mais um...
Mas não venhas já, dá-me tempo para apagar todas as luzes do quarto porque quero a tua imagem à luz de velas forrando as paredes. Só assim o quarto ficará acolhedor para te perderes em devaneios mais quentes.
E na penumbra apenas te verei a ti porque só para ti farei poesia no escuro... para o resto do mundo estarei cega e muda...

Dois corpos nus
ainda vestidos
contorcem-se de costas voltadas
num êxtase solitário.
Não existe mais nada neste quarto
que deixei em chamas...
Nada mais escuto agora
que a noite se deitou em mim...

Só estes sussurros que escapam da minha boca
tentados pela poesia que declamas com o teu corpo...

Daniela Pereira-07/04/06

segunda-feira, março 20, 2006

Um céu caiado no silêncio


Nas palavras que escrevo
por uma estranha vontade
tenho um grito enjaulado.
À noite é uma fera cativa
que atiço com paixão
acenando com um corpo nu na minha mão.
De dia é um pássaro mudo
com sonhos costurados na alma
que o mundo por compaixão
vai deixando voar livre neste céu
que ainda cheira a silêncio pintado de fresco.

Daniela Pereira-20/03/06

sexta-feira, março 17, 2006

Com raiva me deito e com egoísmo me levanto...



Hoje é raiva que inunda o meu sangue não é mais a tolerância ou compreensão... É simplesmente raiva pura.
É difícil admitir como ser humano que sou, que basta apenas um minuto para destruir toda a sensibilidade de uma pessoa, mas não duvido que as palavras erradas no momento certo são como catalisadores para os maus pensamentos acelerando sentimentos negativos que temos em estado latente espalhados por todo o corpo.
Basta que se faça uma mistura explosiva com duas gotas de egoísmo e três de indiferença para que toda a confiança que temos em estender a mão ao mundo se converta num punho fechado.
Hoje deixei cair a primeira gota desta receita cruel e fi-lo deliberadamente sabendo que muitas outras se irão juntar a esta e numa acidez sem limites vão corroer tudo à sua passagem. Reduzindo até as memórias mais suculentas a uma mera pilha de ossos que até os cães vadios rejeitarão só para não sentir o sabor a podre que elas trarão às suas bocas .

Então, seja feita a Vossa Vontade...

Que a ternura seja enterrada num buraco bem fundo
de onde nunca possa fugir...
Que a doçura se funda
ao mais amargo fel
para que jamais mel pingue da minha boca.
Que as lágrimas não me recordem mais
porque chorei sem culpa nenhuma
para que eu nunca mais me sinta culpada
por ser quem hoje sou.

Que nestas palavras fique carimbado o meu desejo de ser livre e de viver pensando exclusivamente em mim e não nos outros. “Só os meus sentimentos interessam”, vou dizer vezes sem conta enquanto estiver a bater com a cabeça nas paredes tentando acreditar nas palavras que saem da minha boca.
E como crente nesta nova filosofia de vida, não deixarei de rezar todas as noites com imenso fervor
pelo egoísmo que nasce sempre nos ventres desiludidos das mulheres, porque hoje sei que nele encontrarei a derradeira salvação para a minha alma.

Daniela Pereira-17/03/06

sábado, março 11, 2006

A tolice de um sorriso que não queria aprender a chorar...



Tenho sorrisos para quem os pede e tenho sorrisos mesmo para quem não os quer...Sempre fui assim, uma mulher de boca larga. Que me importa que o mundo não os queira ver e prefira um rosto lavado com lágrimas? Eu tenho sempre um sorriso pregado na boca e nem a sujidade agarrada às lágrimas consegue conspurcar a sua inocência.
Que tolo é este meu sorriso! Sempre debruçado à janela olhando sonhador para um céu que nunca muda de lugar e na cor só de tom oscila. Mas ele gosta de sonhar que o mundo ainda tem emenda e que a crueldade das pessoas é passageira. Talvez por isso acredite que o céu não é só pintado de azul e que por detrás de uma nuvem existe sempre um arco-íris que espreita.
À noite olha com admiração para as estrelas ...suas eternas heroínas e inveja a capacidade que elas têm de encher de luz um mundo de escuridão. Também ele queria ter essa magia guardada na ponta dos dedos para dormir sempre aconchegado num abraço luminoso.
Que distraído que é este sorriso! Deixa-se estar ali parado debaixo de tantas nuvens carregadas que daqui a bocado é mais um sorriso encharcado que vem à rua...
Mas ele gosta de chuva e daquela frescura que teima em pingar nos seus lábios sempre que uma nuvem chora com ele. Que lhe importa se as gotas quando caiem do céu são pesadas para a sua pele tão frágil?
Ele quer é sentir que ainda existe vida num mundo de sentimentos mortos e a chuva dá-lhe essa sensação.
Eu tenho sorrisos para quem os quer...tenho este mas tenho mais alguns para escolha.
São doces e amargos...tenros e duros...fortes mas sem perder a fragilidade de serem naturais.
Não usam maquilhagem nem acessórios para ficarem mais vistosos aos olhos de quem os cobiça...
Preferem um sorriso a dois do que dois sorrisos perdidos por momentos numa multidão de risos.
Sorriem com um bom banho de espuma mas também gostam de sentir a secura na boca quando se sentem envergonhados. São sorrisos simpáticos...acho eu que já os conheço bem. Se calhar existem olhos que os olham desconfiados quando eles por vezes se fecham irritados. É normal porque ninguém gosta de ver um sorriso descontente...
Que sinceros são estes sorrisos que mesmo quando mentem ...mentem para fazer sorrir. Pode-se mentir com um sorriso na boca? Acho que sim...a alegria também pode ser um estado de fingimento basta não saber como ser alegre mesmo quando a alegria está colada nos nossos ombros.
Eu também tenho sorrisos tristes para oferecer, daqueles tímidos e encabulados que se movem no silêncio preferindo as sombras para recolher os seus passos quando caminham até ti.
São sorrisos tolos porque nunca aprenderam a chorar e por isso encerram a tristeza dentro de si como se o coração pudesse ser para sempre uma concha...


Daniela Pereira-11/03/06




sexta-feira, março 03, 2006

Filmar retalhos


Tenho saudades...
Saudades de expor apenas para ti
a minha vida em minutos
como se ela fosse uma curta metragem
que gostavas de ver despida na tela.
Não fiz pipocas para esta sessão de cinema
mas as minhas palavras
também estalam nos dentes
basta que as trinques com força.
Nos olhos guardo religiosamente uma pedra de sal
e se hoje não as quiseres tão doces
posso derramar uma lágrima
para as deixar ao teu gosto.

Mas agora não penses nos sabores
que te darei a provar
e deposita apenas na cadeira o teu corpo tenso
que eu vou baixar as luzes
e relaxar-te com carícias nas palavras.
Não temas mais a escuridão que foco no olhar
porque ela nunca será tua
e porque aprendi a afiar os olhos como tesouras
para recortar as nuvens
em mim apenas encontrarás luz.


Estás bem assim?
Ainda te sentes confortável no meu mundo?

Então, deixa-me aquecer os dedos
com o ar quente que me sai da boca fria
e escrever na pele um novo guião
para o filme da minha vida.
Mas não quero que me obriguem
a imaginar finais numa história que se quer infinita
porque só para respirar saudades permitirei intervalos.

Blue-02/03/06

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Condeno-te ao passado...


No tempo fiz-me eternamente passado
e odeio-te mundo por me teres
condenado a viver de memórias.
Por ti maldito
sou um vampiro sedento
que à noite suga momentos da alma
só pelo desejo de sentir
que ainda lhe corre vida nas veias.
Cada gota de sangue que de ti consigo beber
é néctar doce para os meus lábios
e mesmo morta para ti
é nos teus restos suculentos
que me alimento.


Daniela Pereira 20/02/06

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Quem lê poemas tristes com sorrisos na boca?




Hoje sou uma folha solta ao vento
que o amor um dia escreveu por engano.
Sinto-me perdida
assim rasgada em mil pedaços
e num rodopio infernal
deixo-me assolar pela dor
enquanto espalho versos pelo chão
com palavras tristes
que o mundo não lê com o sorriso estampado na boca.

Então, que a poesia
se cale para sempre nos meus dedos
e que a solidão seja a esmola amarga do poeta.

Daniela Pereira-15/02/06

domingo, fevereiro 12, 2006

Escrever poesia no escuro



A noite vai longa debruada pela escuridão
mas não consigo adormecer...
Como posso esquecer um amor tão forte
que até me arranca poemas a sangue frio do peito
conduzindo os meus dedos solitários pelo papel
mesmo com a luz apagada?

Então, escrevo versos no escuro
e engano as sombras do meu quarto
desenhando o teu corpo iluminado nas paredes
com os olhos marejados de desejo.

Depois segredo com a boca na almofada
quase num silêncio sepulcral
sem que me ouças
que ainda te amo
e o meu corpo grita-lhe ao ouvido
que inveja os lençóis deitados na tua cama.

E a noite persiste na minha alma...

Daniela Pereira 12/02/06

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Saudades da inocência



Perco o olhar e deixo-o a divagar solitário como se fosse um vagabundo e nos meus olhos acolho a saudade com carinho. Inspiro fundo e fico prisioneira de um ar doce onde sucumbo numa lenta asfixia que me dá prazer. Já vou longe montada no dorso dos meus pensamentos mas o meu corpo ainda está petrificado numa cadeira de baloiço irrequieta. Embalada nos braços reconfortantes de uma melodia, vou sentindo os músculos sonolentos pedindo para adormecer e hipnotizada pelas emoções que me toldam a alma obrigo-os a ficarem despertos por mais alguns minutos apenas. Porque sabe tão bem sentir este balanço nas nuvens ao som desta música de embalar enquanto viajo no tempo. Fecho então os olhos sem saber mais como posso resistir ao apelo da escuridão temporária que invade a minha tarde triunfante .Mas deixo apenas um grão de areia por escoar nos meus dedos para que a alma tenha tempo para silenciar as batidas do peito e depois sopro o presente da minha pele.Então regressam as tranças negras ao meu cabelo e rebelde faço beicinho limpando o batom dos lábios com a palma da mão enquanto vou dando gargalhadas sem me preocupar que os vizinhos possam ouvir o meu riso e estranhem a falta das lágrimas caindo no meu rosto triste por natureza. Nas mãos acaricio alegremente uma flor e vou brincando com as pétalas invejosa por reconhecer tanta beleza esculpida num único ser terreno. Subitamente dou por mim desejando ter feições de uma deusa só para a humilhar e roubo-a para enfeitar o meu corpo de mulher. Então, cresce-me nas pernas uma vontade de voltar a correr pela floresta só para me esconder das sombras reprovadoras ,que me perseguem ,trepando às árvores para depois atirar-lhes caretas empoleirada nos ramos. Lentamente vai nascendo um sorriso nos lábios despidos de cor e relembro a miúda traquina com mil ideias mirabolantes guardadas nos bolsos que cautelosa e com medo dos olhares curiosos escondia os seus preciosos sonhos nos corações de borracha das bonecas. Numa pura diversão sabia inventar brincadeiras sem fim sentada à porta de casa e rodeada de amigos coloria as horas com os dedos sujos de tinta. Depois deixava a marca da sua alegria estampada nas paredes da rua e partia ao pé cochinho para mais uma aventura com um punhado de terra dourada brilhando nos olhos.

Daniela Pereira

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Rezar com a alma ajoelhada




No corpo gélido abafo o meu amor
com todas as palavras sufocantes que guardo na cabeça
mas mesmo assim
ainda ouço os seus gritos ecoando na alma em carne viva.
Grita por ti ...
e grita por ti com todas as forças que lhe restam
depois de esbofetear as minhas entranhas
durante horas a fio.
E apesar de não acreditar
que a fé consiga trazer-te para mim
do alto dessa tua montanha solitária.
Talvez comece a rezar com a alma de joelhos
pedindo para que pelo menos
nunca faças nevar no meu sorriso
porque eu amo este sorriso quente
que deixas na minha boca.

Daniela Pereira

sábado, janeiro 07, 2006

apenas um pensamento



Cá estou eu novamente solitária apenas na companhia dos meus pensamentos e destes dedos que nunca se calam.
Hoje sinto-me realmente só...como se tivesse morrido para o mundo.Como se eu fosse apenas uma página...mas uma página no meio de muitas outras páginas coladas firmemente num livro muito espesso. Mas eu não sou uma página igual a todas as outras,porque não sei ficar colada com firmeza...solto-me com facilidade porque não quero criar raízes com a realidade. Prefiro os sonhos...prefiro a rebeldia do mar à serenidade de um rio estático.
Gosto de amar os outros, mas por vezes esqueço-me de me amar acima de todas as coisas e talvez por isso seja como aquelas flores que vocês encontram num jardim e que apaixonam ao primeiro olhar.Mas depois de a colherem, percebem que ela não é tão bela assim nem tão pouco possui nenhum tesouro nos seus braços...e quando olham novamente para ela, percebem que ela murchou que perdeu a jovialidade de antes e quando lhe tocam sentem que as pétalas já não têm mais cor .
Hoje estou um pouco assim, murcha e sem colorido na pele e por isso estou aqui mais uma vez na companhia das palavras e dos pensamentos soluçando em silêncio e sem testemunhas.


sempre BLUE
07/01/06

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Por cada pedra atirada às palavras...escreverei um poema




Não consegues matar as palavras
que fluem dos meus dedos
com simples pedras
atiradas com raiva
porque mesmo ferindo o pensamento
no meu coração tu não tocas.

Não sabes sujar um rio de sentimentos
que corre na direcção do peito
com palavras poluídas.
Porque se ele nascer
nas profundezas da alma
terá sempre pureza nas suas águas.

Não sou melhor do que ninguém
só porque sinto prazer
ao colher duas palavras
e com ela unidas num ramo
oferecer abraços à pessoa amada.
Sou apenas humana...
E como humana que sou
preciso de uma folha de papel
com ar vagabundo
e olheiras marcadas nas margens
para chorar e rir ao mesmo tempo.
Assim, com apenas um gesto
transformo cada segundo
cravado no ponteiro do meu relógio
num oceano de emoções intemporais
que poucos conhecem bem.

Sou livre nos meus desejos
e sei sonhar sem temer inimigos
que me possam assombrar
porque sei que com a ponta de uma caneta
descrevo a minha vida
com a sinceridade sempre orgulhosamente destapada
E se um dia
sentir que engoli demasiado sal
para conseguir flutuar docemente
num mar de poesia
Então não te preocupes
que dos meus beijos nunca deixarão de brotar poemas.

Daniela Pereira- 22/12/05

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cicatrizes pausadas




Dispo a alma ao som de uma melodia
e vou espalhando as emoções desordenadas pelos cantos da sala
tentando tornar o corpo mais leve.
Teceram uma teia nos meus pensamentos
e ela é complexa
esculpida com cruzamentos que parecem não ter fim
por onde caminho mais perto do infinito
com passos arrastados.

No olhar pinto uma melancolia rotineira
e fujo da monotonia dos meus dias
viajando à velocidade do som
entalada na corda de uma guitarra estridente.
Vou a meio da canção
mas não a deixo avançar
e prendo-a nos meus dedos
obrigando-a a recuar no tempo.
Pedindo para não acabar
com esta ilusão aconchegante
de sonhar com a cabeça pousada numa nota
vou despindo a alma com gestos suicidas
e acolho mais uma música cicatrizante numa ferida do peito.


Blue 14/12/05

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Um pequeno esclarecimento

Olá a todos :)


Como algumas pessoas disseram-me não conseguirem encontrar o meu livro na Fnac on line e sabendo que ele já está disponível para venda na mesma. Tomei a liberdade de fazer este pequeno esclarecimento...
O livro está listado na pesquisa com o nome de "Cortar as palavras num so golpe" ou seja sem que a palavra "só" apareça acentuada o que levou a que durante a pesquisa no site através do nome normal do livro se obtivesse uma pesquisa nula.
No entanto informo que o livro está disponível e tem o preço Fnac de 13,50 €

Obrigado pela atenção

beijos

blue

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Sem explicação tudo é mais simples



Hoje acordei com o olhar embaciado
e sem ter a felicidade
a dar-me palmadinhas nas costas.
Houve um qualquer ser superior
talvez fosse mesmo um deus
que olhou para mim
e disse-me:
"SÓ SERÁS FELIZ
CHORANDO PALAVRAS
NESSE TEU MAR DE MULHER"
... e eu chorei.

Daniela Pereira 01/12/05

quarta-feira, novembro 30, 2005

Sonhar nos braços de outro




Ontem sonhei contigo
e no meu sonho não chovia
porque havia um sol
que teimava em rasgar todas as nuvens
pintadas no meu peito.
Era lindo aquele sol
que extinto de passados e esquecido do presente
bailava alegremente nos teus olhos.

No meu sonho o frio não entrava
porque fechei-lhe a porta na cara
e acendi uma lareira na minha pele
para manter os nossos corpos aquecidos.
Então senti que o teu coração derretia nas minhas mãos
rendido ao calor dos beijos que não imploras
e eu juro-te que ainda bebi algumas gotas dessa felicidade temporária
que pingava nos meus dedos.

Ontem fiz amor contigo
e não me perdi na banalidade do sexo
porque quando te amo
não te limitas a penetrar no meu corpo
e violas-me incessantemente a alma.
E eu não esbracejo
nem peço por socorro
porque se eu gritar
será sempre para pedir por MAIS...e MAIS.

Ontem dormi com outro
que não tinha o teu sorriso
esculpido no rosto
porque para a tua cama não fui chamada.
Mas nem deitada naqueles malditos lençóis enrugados
lhe entreguei as folhas de poesia
que escreveste na minha alma
e o meu maior momento de prazer
foi sonhar que recitava no teu corpo
até o dia nascer.

Daniela Pereira 27/11/05

domingo, novembro 27, 2005

Apenas ontem e hoje



Hoje vou amar-te num chão de palavras
porque a tua cama é pequena
para albergar o fogo imenso que lavras no meu corpo.
Com as palavras também te amo
sem precisar de abrir a minha boca
e sabes bem que ela não se vai abrir
se do outro lado não tiver o teu beijo à espera.

Hoje vou apaixonar-me pelo silêncio
porque no eco do meu coração amordaçado
também encontras o meu grito
mesmo que este amor teime em roubar a minha voz.
Com três ou quatro linhas enlouquecidas
também te desejo com fervor
e percorro o teu desenho perfeito
suspirando no fim de cada curva
morta por deslizar nessa pele sem travões.

Deixa-me acreditar na palavra eternidade
porque nela poderei um dia abraçar
um amor ainda maior do que o meu
e ele já é enorme
com braços que conseguem abraçar até a lua
mesmo que o céu já tenha perdido as estrelas
de tanto chorar este amor na escuridão.

Hoje e só hoje...
Vou esquecer que te amo
Vou lamber as lágrimas do rosto
e remendar todas as crateras
que na minha alma os dias malditos escavam
E vais ver que amanhã...
Amanhã e só amanhã
vou adoçar de novo o teu coração
enroscada num pote de mel.

Hoje meu amor de chuva
Vou rasgar este poema sem sol
porque as tuas palavras ainda não dormem na minha cama.

Daniela Pereira 27/11/05

terça-feira, novembro 01, 2005

Doença maldita



Vê a noite que rasteja nos meus olhos
e devora-a com a tua boca quente
até que o último pedaço de escuridão
rendido desfaleça na cama.
Deixa ficar o sol colado à porta
porque não precisamos dele
aqui deitados nos lençóis
encadeados pelo brilho dourado do teu cabelo
e deliciosamente aconchegados
pela visão de uma tela colorida que pintamos
quando juntos fundimos os olhares
na ponta do mesmo pincel.

Grita comigo os teus medos
para que fiquem pendurados no tecto
presos nas sombras das nossas almas
e para sempre impedidos de nos tocarem nas costas
com mais um dedo sujo de vergonha.

Apaga todos os nossos pensamentos
com a tua língua de borracha
enrolada na minha boca
e suga todo o fel
que encontrares perdido dentro de mim
sem deixar esquecido nenhum recanto.
Vasculha-me à vontade
e livra-te de fazeres cerimónia
ou de lavares as mãos
antes de as esfregares no meu corpo
porque eu não quero
perder o gosto de sentir o teu cheiro
entranhado na minha pele.

Quero-te assim naturalmente suado
cansado das correrias
e com os joelhos pisados
de tantas quedas no relvado.
Quero ver os restos do sofrimento
estampado no teu rosto
misturado com as gotas de suor
que me darás a beber
num beijo vitorioso.

Não tenhas medo de sofrer novamente
porque eu ensino-te
a curar todas as feridas
e a remendar todos os buracos
que uma paixão involuntária possa abrir no teu peito.
Deixa-me curar-te de todas as doenças
que assolam o teu corpo
injectando o meu amor por ti nessas veias.
Vais ver que não dói nada
porque só em mim poderá doer
se ele não for a tua cura.

Daniela Pereira

quinta-feira, outubro 20, 2005

Os anjos não vestem batas brancas



São agora três e meia e Clara já não se passeia por entre as montras do Centro Comercial. Com o seu passo decidido, vai-se afastando da confusão e do belo vestido preto que ficou na loja de roupa.
Ainda não tinha dado mais de vinte passos para lá da saída do Centro Comercial, quando ouviu um grito lancinante que ameaçava perfurar-lhe os tímpanos de tão agudo que soara.
Num gesto involuntário leva as mãos aos ouvidos para se proteger daquele barulho agressor e para sua surpresa alguém quase que a derruba ao passar por ela numa corrida desenfreada.
Clara fica um pouco atordoada com o incidente, mas rapidamente recupera o equilíbrio e apressa-se a procurar o culpado da sua quase queda. Olha à sua volta, mas não vê ninguém... o passeio está simplesmente vazio, como se as pessoas se tivessem evaporado. Na cabeça de Clara, surge então a imagem daquele gelado que ela por distracção deixou derreter nas suas mãos quando ficou a olhar fascinada para um casal de namorados que trocavam juras de amor mesmo ao seu lado.
Era parecido com o que estava agora a acontecer bem à sua frente... num minuto a rua estava cheia de pessoas e o seu gelado de camadas de natas e chocolate, mas só porque ela se distraiu por breves momentos a rua estava agora vazia. Assim, como o seu gelado que com o calor daquela tarde derreteu até restar apenas o papel prateado que o envolvia. E tudo, só porque ela se apaixonou e não conseguiu desviar o olhar daquele cenário romântico na praia. Existia realmente ali um fio condutor entre aqueles dois instantes vividos e Clara sentia que o tinha encontrado.
Ainda estava absorvida nos seus pensamentos, quando escuta um barulho estranho. Foi quase como se estivesse a ouvir o senhor Mendes do talho a quebrar os ossos da perna de porco com o machado. Sim, pensava ela satisfeita, era mesmo esse o som que acabava de ouvir.
Procurou então perceber o que tinha afastado as pessoas do seu caminho rotineiro e de onde teria vindo aquele som peculiar. Foi então que viu finalmente um amontoado de pessoas que se acotovelavam para se aproximarem de alguma coisa que Clara ainda não conseguia deslumbrar de tão espessa que era a barreira formada à frente dos seus olhos.
Decidiu aproximar-se, mas sem saber porquê usava passos lentos e indecisos como se por alguma razão desconhecida o seu corpo lhe disse-se para não avançar mais. Mas Clara, sofria da mesma doença que afecta todos os Homens à face da Terra e provavelmente também nos seus arredores...a maldita da CURIOSIDADE!!! Por isso, lá se foi aproximando do local do enxame mas sem deixar de sentir uma sensação de aperto no peito que lhe ia roubando o fôlego em cada passo dado.
Abriu caminho por entre todas aquelas costas transpiradas que lhe barravam a visão e ficou paralisada diante do horror que jazia ali perto dos seus pés.
Na estrada estava uma mulher ainda jovem deitada no chão totalmente imóvel de olhos parados e com o corpo manchado de sangue. Clara ainda tentou ver-lhe o rosto com mais pormenor para medir-lhe a idade , mas rapidamente surgiram dois vultos vestidos de branco que se debruçaram sobre a mulher tapando-a por completo com um lençol branco feito de um tecido baratucho.
Ergueram a mulher no ar e levaram-na com eles, mas Clara reparou que apesar de eles estarem vestidos de branco não pareciam ser anjos. Até porque Clara, ainda se lembrava de todas as imagens do seu livro de catequese de miúda e em nenhuma delas os anjos vestiam batas brancas...

II PARTE

A jovem mulher que Clara viu estendida no chão já cadáver, foi transportada por uma ambulância pintada de branco e ela olhava atentamente para o fundo da rua enquanto a via desaparecer naquele meio de transporte peculiar.
Na cabeça ainda guardava uma leve recordação dos traços do rosto daquela pobre mulher que viu a vida ser ceifada precocemente. Ainda era jovem, deveria ter segundo os seus cálculos mentais mais ou menos a sua idade. Talvez fosse um pouco mais velha, uns quatro ou cinco anos porque havia no seu rosto algumas rugas a mais do que no dela. E as rugas são o melhor indicativo para a idade de uma pessoa... são quase como os códigos de barra nos produtos do supermercado que nos indicam todas as características do produto que enfiamos para o cesto. As rugas são o nosso código de barras, porque naquelas linhas disformes está marcada toda a nossa vida sem direito a omitir os dias menos favoráveis. Está tudo lá registado e bem visível aos olhos de todos num simples franzir da testa.
Como teria sido a vida daquela mulher minutos antes de ter tido a ideia fatal de atravessar aquela rua?
Ela tinha um aspecto cuidado, vestia-se bem e usava um perfume caro o que seria um indicativo bem claro da presença de uma boa conta bancária no banco.
Talvez estivesse atrasada para retornar ao seu emprego onde deveria ocupar um cargo importante, com bastante responsabilidade e talvez por isso mesmo tenha tido aquele impulso de correr para a rua sem olhar á sua volta. Sim, aquela era uma hipótese provável no seu entender... mas ela ainda pensava noutras possibilidades.
Uma era difícil não lhe vir à cabeça naquele momento, até porque ela mesma também já tinha pensado nela como sendo a solução definitiva para todos os seus problemas... uma tentativa de suicídio bem sucedida.
Se calhar aquela senhora sentia-se muito sozinha, sem o carinho de um homem ou sem um filho nos seus braços. Ficou cansada de acordar sempre numa cama vazia e de ouvir todas as manhãs o silêncio trespassando-lhe as paredes da casa. Talvez ela sonhasse todas as noites com os ruídos de uma criança a correr pelos corredores soltando longas gargalhadas debaixo do olhar vigilante dos pais.
Sim, isso seria o suficiente para que aquela mulher sem nome quisesse acabar de vez com a maldita dor que sentia no peito. Clara conhecia bem essa dor e sabia como ela podia ser cruel e desgastante.
Mas poderia também não ter sido um suicido e aquela morte não passaria de um brutal descuido da parte daquela senhora.
Então ela imaginou duas pessoas discutindo com vozes alteradas e muitas palavras cuspidas sem qualquer sentimento da boca para fora. Se aquela mulher tivesse dito as palavras erradas à pessoa certa ou se tivesse escutado meias palavras poderia ter ficado perturbada e por minutos ter esquecido da realidade.
Naquela cabeça desesperada com a ideia de ter perdido o seu amor não haveria espaço para os carros na rua muito menos para passadeiras ao atravessar a rua. Não havia mais nada naquele olhar, só a imagem daquele homem, o resto do mundo ela tinha apagado.
E se as palavras que foram ditas ecoassem com força nos ouvidos naquele preciso momento, talvez a mulher nem tivesse ouvido o buzinar estridente do carro que a atropelou e assim tivesse avançado como um cordeiro inocente prestes a ser sacrificado.
Agora o pensamento de Clara parecia uma lista telefónica muito extensa com muitas ideias prontas a serem folheadas. Havia tantos motivos para aquela morte que Clara seria incapaz de mencionar todos.
Mas mesmo assim foi tentando enumerá-los enquanto caminhava no passeio com uma passada lenta e cadenciada.
Imaginou dividas de jogo conseguidas numa mesa de poker num casino luxuoso e cheques com quantias gordas a serem assinados pelas mãos franzinas daquela mulher e tossiu com o cheiro a tabaco que subitamente lhe invadiu a garganta.
Vieram-lhe à ideia embalagens de calmantes tomados ao deitar numa tentativa desesperada de trazer o sono à sua cama e o copo de whisky vazio na mesinha de cabeceira do quarto da falecida com uma garrafa ainda por abrir colocada ao lado de uma já meio cheia .
Teria sido este o cenário daquela mulher na noite anterior à sua morte? Estaria sozinha? Ou teria tido uma noite escaldante de sexo na cama de algum estranho engatado num qualquer bar lambido?
Talvez ela simplesmente estivesse a pagar os erros cometidos no passado ou mesmo no presente. Deve haver lá em cima um cobrador de almas à semelhança das finanças nos cobram os impostos e se ultrapassamos a data limite de pagamento são nos cobradas as dívidas e com juros.
Pobre mulher que não pagou as suas dívidas a tempo!

Daniela Pereira

quarta-feira, outubro 12, 2005

Compra-me o sorriso daquela montra...



Esta manhã, Clara saiu de casa com um andar despreocupado e os bolsos vazios. Hoje ela sabia que não teria nada para comprar com moedas porque os seus beijos serviriam de pagamento. Além disso o seu objecto mais cobiçado estava ainda plantado num jardim com os pés bem assentes na terra apenas baloiçando para o vento que soprava descontraído. Era bonita aquela tulipa negra que ela tinha visto ontem à noite durante o seu passeio nocturno. Poderia não a ter visto, mas ontem estava um luar tão luminoso e com as estrelas como lanternas ,Clara não teve dificuldade em descobrir aquela flor erguida na relva.
Durante largos minutos, ela ainda ficou de olhos semicerrados a imaginar que alguém passaria ali e gentilmente colheria aquela preciosidade para ela e com um sorriso rasgado estenderia a mão para depositar aquela flor junto do seu peito.
A noite estava tão silenciosa , que o seu suspiro profundo ecoou na paisagem calada e a pobre rapariga sentiu que o seu rosto adquiria um tom avermelhado impróprio para a sua tez normalmente caiada. Mas como ela estava ali sozinha foi-se esquecendo do embaraço e sorriu deliciada com a sua fantasia inocente.
Agora e depois de uma noite bem dormida, Clara já não sonha e apenas caminha pela rua olhando a realidade que a cerca. São duas e um quarto, e os corredores do centro comercial enchem-se de saltos altos barulhentos e conversas animadas, mas Clara mantém a sua boca bem fechada enquanto se vai desviando agilmente de alguns sacos que surgem na sua direcção sem mostrarem disponibilidade para evitar um choque que se aparenta iminente.
As montras são apetitosas ao olhar, recheadas de tentações sedosas e coloridas fazendo crescer os rostos colados aos vidros das montras .Clara ,é apenas só mais um rosto encantado entre tantos ,que já ocupam o seu espaço naquele circo de ilusões. Mas um desvio rápido do olhar para aquele rectângulo de cartão discretamente pendurado nos manequins faz perder toda a magia daquele momento. De repente, os charmosos manequins tornam-se disformes aos olhos de Clara, e aqueles tecidos luxuosos que lhes vestem o corpo de plástico parecem-lhe agora trapos velhos. Para que quero eu trapos velhos? Pergunta entre os dentes , enquanto baixa a saia que encorajada por mais uma rajada de vento teima em lhe por a descoberto as pernas franzinas .
Num gesto impulsivo, põe a mão na carteira vazia e vai invejando os sorrisos que saem das lojas brilhando como novos. No seu pensamento regressa então a imagem daquela tulipa negra combinando com os seus olhos de carvão e também ela sorri ...e eu juro por Deus que aquele sorriso era o mais bonito de todos os que estavam à venda naquela montra.

Daniela Pereira

quinta-feira, outubro 06, 2005

Entrevista na 1ª Edicção do E-Zine do fórum Bad Book's d'ont Exist

Olá a todos que por aqui divagam neste cantinho de poesia :)

Queria deixar-vos aqui um link para acederem ao E-Zine do Bad Books D'ont Exist e ficarem a conhecer um projecto de grande qualidade onde podem encontrar um espaço para uma leitura agradável.
Está também presente neste projecto uma pequena entrevista que dei a este fórum onde falei um pouco sobre alguns segredos que estão por detrás da elaboração do meu livro "Cortar as palavras num só golpe" e onde revelo mais alguns pedaços da minha alma.
Espero que disfrutem deste convite com prazer :)


beijinhos

Blue

quarta-feira, outubro 05, 2005

Amor demoníaco



Com uma alma de anjo
e um corpo esculpido pelas mãos do diabo
entrego-me ao teu amor
e sucumbo na tua paixão sem me debater.

Olho nos teus olhos
e vejo um mar imenso a explorar.
São ondas de rebeldia
e marés infinitas de calmaria
oferecidas num longo beijo molhado.
Bocas divagando no mesmo barco
sempre à deriva sem rumo traçado
nem pele onde atracar.

Em instantes dementes
soltamos os corpos ao vento
e agarrado nas minhas asas
viajas por entre mares de mel
e jardins de tulipas negras
fascinado com o pôr de sol
que pintei no céu só para ti.

Depressa chega a noite
com o sol adormecido debaixo do braço
caminhando passo a passo
para não o acordar.
Eterna cúmplice dos nossos pecados
ela estende os lençóis na cama
e chama por nós cheia de desejo.

VINDE A MIM AMORES IMPOSSÍVEIS
EM ENTREGAS DESMEDIDAS SEM HORA A LIMITAR.
CORPOS RECHEADOS DE HORMONAS
COM ALMAS INCENDIADAS ATEADAS NA BOCA.
LIBERTEM O DEMÓNIO QUE ESSA PAIXÃO ENCERRA
E QUEIMEM O MUNDO À VOSSA VOLTA
SEM TEMER MORTOS OU FERIDOS DEIXADOS PARA TRÁS.
UNAM OS VOSSOS PEDAÇOS
NUM MESMO TODO
CORTANDO AS AMARRAS QUE OS SEPARAM
E FUNDINDO OS VOSSOS RESTOS COM DOÇURA...

Ouves o grito da noite, meu amor ?

Sussurra palavras sedutoras com delicadeza
e suspira com o suor tatuado no rosto
adivinhando os nossos desejos escritos na pele.

Deixa-me responder ao seu apelo
e não me peças para pensar nos limites do meu corpo
porque esta noite quero entregar-te a minha alma.
Quero arder no seio desse amor demoníaco
e dar a provar a tentação da carne à tua boca
durante horas sem fim
até que deste anjo azul nada mais reste
que meras penas queimadas espalhadas pelo chão.
Daniela Pereira

quarta-feira, setembro 28, 2005

Deixa-me só escrever estas linhas antes de voltar a sorrir...



Deixa-me só escrever estas linhas no papel antes de esboçar o meu sorriso rotineiro...

Estava aqui a pensar, que não é fácil olhares para o lado e não veres ninguém por perto. Parece que dói aqui dentro, quando pedes ajuda e nenhuma voz ecoa uma resposta. Tens aquela sensação dolorosa, e eu acho que ainda te lembras dela se te esforçares um pouco...daquela sensação imensa de vazio.
Pois é, meu caro amigo, estás simplesmente sozinho! E não tens como o negar, porque toda a gente o vê.
Olhas para aquilo que tens de teu e chegas à brilhante conclusão, que não tens nada. Uma vida própria é uma miragem, porque o destino te pregou uma partida e tu não soubeste vencer o desafio. Então achas preferível esconder a cabeça num buraco bem fundo e enterrar o teu mundo ainda a esbracejar.
E as pessoas que sempre estiveram sentadas contigo prontas para uma boa gargalhada onde estão agora?
Estão a viver porque foi para isso que foram feitas...para viver de cabeça bem erguida.
E tu, onde estás tu? Preso naquele quadradinho que tu chamas de vida, naquele quadradinho tão pequeno que dá para conhecer todos os cantos num passo apressado em apenas um minuto.
Até que essa caixa onde vives não é feia! Todos te dizem que é bem simpática, acolhedora, sempre bem arranjada e aquela jarra de plástico que tens na mesa com o formato de um coração dá-lhe sempre um ar primaveril. Mas fazes bem em esconder sempre as tuas lágrimas no teu peito de cinzeiro, quando chegam os teus convidados. Assim não os assustas logo e eles ainda permanecem no teu lar durante algum tempo. E tu gostas de os ter ali, não gostas? Sei que sim, não adianta negares porque tu não te dás bem com a solidão mesmo que insistas em te isolares nos teus sonhos.
A solidão causa-te arrepios nas costas porque tens o frio colado na pele e o calor da recordação daquele abraço já arrefeceu. Recordação... que engraçado usar esta palavra, até porque é a palavra que melhor te define agora. Tu não passas de uma eterna recordação na vida dos outros!
Eles recordam o teu sorriso esculpido para a fotografia, a tua graciosidade a dançar e a exibir o corpo, a chama dos teus beijos quentes, a metamorfose da menina docemente romântica numa gata com as garras cravadas na cama ...pensando bem, até que não és uma recordação má de todo.
Estás a ver? Não percebo porque é que ainda te queixas com tantas palavras azedas na boca...

Daniela Pereira 28/09/05

quarta-feira, setembro 14, 2005

A minha última gota de sangue



Preguei com pensamentos de aço
o coração aos dedos e fui sangrando por aí...

Deixei uma gota de sangue na praia
quando repousava a inquietude da alma
num chão de areia quente
com os olhos hipnotizados
pela beleza de um silêncio imortal.

A segunda gota caiu no mar
e ali ficou
misturada numa infusão de verde e azul
com sabor salgado.
As veias nem lhe sentiram a falta
imersas naquele liquido multicolor
e ela lá foi
apaixonada por uma alga castanha
que encontrou flutuando à deriva.

Depois de perder a segunda gota
senti uma leve tontura
e as pernas a fraquejar
mas ainda havia muito vermelho
para pintar os meus passos no chão.

Ergui de novo o corpo
e caminhei em direcção à lua sentimental
com a lentidão amarrada ao andar
enquanto salpicava as nuvens
com pingos cor de fogo.
Depois beijei com os lábios palidamente serenos
a pele dos meus dedos
e na sofreguidão daquele beijo
roubei ao peito a última gota de sangue.

Daniela Pereira 29/08/05

domingo, setembro 04, 2005

Consciência muda




Se estou a escrever estas palavras, então é porque perdi o juízo de vez! Só alguém completamente enlouquecido pela dor, tem a capacidade de desabafar para uma plateia vazia.
Eu, até já representei algumas vezes no palco... já fingi mágoa com o coração transbordando de felicidade fingindo ser outra pessoa ,mas nunca tive a inteligência de ocultar o meu sofrimento na vida real.
Acho sempre que depois de o partilhar ele diminui de intensidade e vai perdendo a força... e julgo, que quase sempre é assim...mas é este QUASE que nos fere mais quando com ele chocamos de frente.
Sempre disse que as palavras são poucas para tantos sentimentos espalhados... elas contam-se pelos dedos da mão e repetem-se, repetem-se incessantemente atiradas de uma margem para a outra no papel.
As palavras cansam e também se sentem cansadas quando percebem que só constróem frases sem sentido. Alguém tapou os ouvidos ao mundo e já ninguém te consegue ouvir mesmo que tu grites em cima da ponta do seu nariz. Estão todos surdos à tua volta, pensas tu magoada... mas estarão mesmo surdos? Já pensaste que essa surdez pode ser intencional e que eles apenas não te querem ouvir porque o resto do mundo tem uma voz mais bonita do que a tua? Não , claro que não pensaste!!! És orgulhosa demais para pensares que não passas de um grão de terra igual a tantos outros que pisas todos os dias quando caminhas.
Gostas de acreditar que és especial, que és única nessa tua maneira de ser eternamente sonhadora.
Mas, deixa-me que te diga e faço-o de cabeça fria sem estar drogada por emoções...NÃO ÉS!!!
Existem muitos mais iguais ou bem melhores do que tu e nem precisas de procurar muito...abre os olhos por uma vez que seja na tua vida.
Se estás a escrever estas palavras é porque te sentes novamente sozinha no mundo. Tu sabes que esse sentimento faz doer, até já conheces com precisão o volume das lágrimas que derramas sempre que esse momento chega.
Então, porque tentas encontrar sempre um culpado para as feridas que tu mesma reabres quando te deixas afogar na dor! Não faz sentido... tenta não pensar nela talvez ela assim desapareça.
As nuvens não se afastam sempre depois da chuva cair e não é sempre um sol radioso que recebes como prémio de consolação pelos dias cinzentos? Claro que sim, pelo menos até que outra tempestade se instale no teu horizonte.
Mas se é realmente assim, porque é que ainda tens os olhos inchados e vermelhos? Onde é que está esse sol que te prometeram com um sorriso rasgado na boca? Não o consegues ver, pois não?
Nem sequer entendes, porque é que não consegues apagar da folha as inúmeras interrogações que não param de aparecer na tua cabeça!
Como tu gostarias de ter todas as respostas para os teus medos guardadas na palma da tua mão...Era bom, não era?
Não sofrias ao tentar adivinhá-las nas noites em claro, nem tão pouco irias sentir esse vazio que te incomoda a crescer dentro de ti.
As palavras não deixam de fluir nos teus dedos e ainda escorrem na pele porque sentes que tens muito para dizer e já não consegues estar calada.
O silêncio sempre te incomodou e encerrares a alma numa gaveta nunca fez parte dos teus planos.

Então ,fica para aí a chorar e a rabiscar folhas de papel no escuro se achas que isso te acalma.... se calhar é o melhor que fazes.

Daniela Pereira

segunda-feira, agosto 29, 2005

Sonho numa noite fria de Verão



Este corpo é carne envolvida
em seda macia ao toque.
Esta alma é uma escultura de vidro
transparente aos olhos que a imaginaram sem defeitos.

E as tuas mãos o que são?

Uma perfeição esculpida com dez dedos delicados
que desvendam os segredos da minha pele
com os olhos fechados.
Posso jurar-te sem mentir
que eles sabem a mar
quando os lambo das tuas mãos
à luz das velas apagadas.
Essas tuas mãos são tão quentes...
É como se as tivesses posto na brasa
antes de as derreteres no meu umbigo.
E como são belas...
Mais belas que aquele jardim
que encontramos escondido nas nuvens
onde tu e eu
caminhamos salpicados de areia branca.

E esse beijo com gosto furtivo?
Ai, esse beijo...

Levou-me à lua num milésimo de segundo
enquanto os meus lábios explodiam numa paixão acalorada.
Roubou-me os sentidos
quando a tua língua
se enrolou na minha
e lá ficou mastigando calmamente
a minha boca macia.
Então lembro-me vagamente
de me deixar cair nos teus braços
na certeza que me abraçavas.
E ali fiquei suspensa por longos momentos
numa queda em câmara lenta
até ouvir o tempo desiludido
sussurrar-me ao ouvido
que o meu sonho chegara ao fim.
Nesse instante abri os olhos
e senti frio em plena noite de verão

Daniela Pereira

quinta-feira, agosto 25, 2005

Uma rosa da rua e um homem só




Hoje encontrei no caminho
uma flor solitária.
Tinha um doce aroma a baunilha
e nas pétalas uns lábios vermelhos bem pintados.

Olhei para a desgraçada
presa no chão empedrado
e ela curvou-se na minha direcção
apoiada numa brisa delicada.
Medi-lhe os contornos
esticando o olhar até ao seu limite
e com o sangue fervendo
roubei-lhe o perfume do peito.

Sem pensar ...
aproximei-me da sua fragilidade
docemente encantadora
com as más intenções
ocultadas nos dedos cruzados.
Então, não resisti e toquei-lhe...

Toquei-lhe
para sentir o seu corpo de seda
num toque fugaz.
Depois espetei os dedos nos seus cabelos de espinhos
e bebi-lhe a alma com a boca molhada.
Quando a esvaziei por completo
ela desnudou a sua inocência só para mim
e com as mãos frias estendidas
implorou-me que comprasse
a rua onde caminha
com notas bordadas no vestido.

Daniela Pereira 25/08/05

sexta-feira, agosto 19, 2005

Carne licorosa



Da varanda do hotel
vou recolhendo o ontem em lembranças de espuma.
Fundo momentos com o mar
e fico a vê-los morrer na serenidade
de uma onda quebrada.

Viajo quilómetros
com os olhos embarcados na saudade
e vou sorrindo
para o céu azul que espreita
as minhas mãos vazias de suspiros.

Vou perdendo sonhos na areia
como se fossem migalhas.

Depois ao regressar à praia no fim da tarde
já não os encontro
porque partiram à deriva
nas asas de uma gaivota alucinada.

Então...
afogo sentimentos numa taça de vinho
servida bem gelada
para não destoar com o frio cravado no coração.
Perco-me em tradições
que não são minhas
e cultivo sorrisos frágeis
nas folhas de uma videira.

Á noite, deito-me embalada
pelo som de uma gaita de foles embruxada
e não me reconheço
naquele papel de feiticeira.
Não quero acreditar
que seja eu
quem está reflectida naquele espelho...
Mas os olhos não mentem
e naquele momento mágico
sou apenas mais um corpo
bem regado a licor.

Daniela Pereira

quinta-feira, agosto 11, 2005

Trovoada matinal





Hoje sei que acordei...
Como sempre acordo
com os pensamentos encostados no meu ombro.
Sempre com aquela vontade imensa de fugir...
De correr sem nunca mais parar
e deixar para trás o mundo.
O Mundo...
Aquela bola gigante
onde rodopio de olhos fechados
e com pregos cravados nos pés descalços
inocentemente mergulhados na brancura das nuvens.

Hoje sinto que as palavras de nada me vão servir
Precisava de as multiplicar por mil
e teriam de ser todas sussurradas
com suavidade.
Ditas com ternura e
escritas com a alma despida
para eu voltar a acreditar nelas.

E o mar azul que tanto admiro?
Hoje tinha que ser pintado de novo
com cores mais garridas
Porque o verde das algas
e o azul das águas hoje não vão disfarçar o breu instalado no olhar.

Procuro por entre as caixinhas de música
uma melodia que me acalme e
embale esta tristeza que me vigia de perto.
Enquanto os sons se espalham na sala
voando em todas as direcções
com emoções amarradas nas asas
eu toco lentamente com finos dedos
mais uma tecla ocasional
e fico à espera pacientemente que a profundidade de um poema
engula a tempestade que troveja no meu corpo.

Daniela Pereira

segunda-feira, agosto 08, 2005

Embarcar na cama ao lado



Abriu o caderno lentamente
mais ou menos no seu meio
e escancarou-lhe as páginas em cima da mesa.
Hoje decidiu rabiscar uma palavra vagabunda
e uma linha escrita ontem
é terminada apressadamente com um ponto final desfocado.

Salta algumas folhas distraídamente
ainda habituada à precisão do toque de um teclado
e com as letras cabisbaixas chora no papel.
Mas no seu pranto não se esquece
de perseguir a fantasia com a mãos sujas de tinta
e vai pintando um mundo que não é o seu
com palavras tímidas expelidas da boca.

Não é uma mulher original...
Nem sequer se distingue das outras
que o homem esculpiu para decorar a monotonia do seu jardim.
Não tem asas de anjo
mas voa rente aos sonhos
e rouba-lhes todas as noites pedaços do seu encanto
apenas porque isso a faz sorrir.

Pega fogo aos olhos com paixão
na certeza de ver o pôr do sol forrado no olhar
e a escuridão da alma reduzida a cinzas.
Perde-se em desejos carnais
deitada num colchão de delírios
com os lençóis cobrindo-lhe os seios apetecidos.
Atinge a lua num grito agudo
enquanto o corpo treme de prazer
aguardando ansiosamente a chegada da próxima onda musculosa.

Mas não se sente segura naquele mar de abraços inconstantes
A pobre mulher docemente sonhadora...

Então, quando a madrugada bate à janela
desce do barco das ilusões
e com as unhas vai abrindo estradas
na esperança de finalmente descansar na segurança
da cama ao lado.


Daniela Pereira 07/08/05


terça-feira, agosto 02, 2005

Eu reflectida na tua janela



Não me conheces...
Ninguém me conhece por inteiro.
Porque sou apenas mais um caco
daquele vaso partido na sala.
E é o pedaço mais bonito,
o que tem mais cor que exibo cheia de orgulho
nas mãos esmaltadas com palavras...
Aquele pintado com sorrisos nas pétalas
e ilusões nas folhas.
Mas se olhares de perto
vais notar os cortes
que fiz nos joelhos
quando tentei saltar para o topo do mundo.
Quando quis fugir dos meus medos
e atrever-me a virar para sempre as costas à minha realidade
com toneladas de sonhos aconchegados no peito.
Mas deixei o mundo partir
e fiquei a acenar no cais
enquanto fazia amor com os teus olhos.

Não sabes que danço bem...
Acho que sou a maior bailarina do universo
quando solto o meu corpo
ao som de uma cascata de emoções
e fundo a minha alma às notas que bailam na pista.
Ganho asas quando solitária
serpenteio a carne no calor da noite
e sabe tão bem essa liberdade de borboleta temporária.

Nunca viste a revolta que guardo escondida na gaveta
mesmo por debaixo do caderno dos poemas.
A vergonha de atirar oportunidades pelo chão
como se fossem berlindes coloridos
apenas por não ter coragem de sentir a dor a estalar nos dedos.
É preferível rasgar mais uma folha
e atirar a raiva contra a caneta
para me sentir menos culpada por não tentar.

E sabes que também choro?
Claro que sabes...
Passo o meu tempo a chorar no teu ombro
e a cobrir as tuas palavras serenas com sal.
Sou quase uma nuvem carregada
pronta a molhar qualquer deserto
que se pendure nos meus braços.

Não me conheces...
Porque eu não quero dar-me a conhecer
e adoro imaginar que sonhas com os meus mistérios
sempre que invado sorrateira as tuas noites
com versos perfumados presos às ondas do cabelo.

Daniela Pereira 31/07/05

segunda-feira, agosto 01, 2005

Partem-se pedras



Partem-se pedras abandonadas na alma
martelando flores nos dedos ansiosos por uma carícia.
Virando de pernas para o ar
o relógio da cozinha
esperando que o tempo retroceda.
Escrevendo as palavras ao contrário
cravando o bico da caneta à direita da folha
e deslizando suavemente pelo papel.
Desenhando com a tua mão esquerda irrequieta bocas amanteigadas no tecto
enquanto dos teus olhos vão pingando gotas de mel.

Barras o corpo nos lençóis
e vais dourando a pele
enquanto dás voltas na grelha
para atingires o tom perfeito.
Gritas baixinho
porque tens a garganta entupida
com os pedaços de vidro que engoliste esta noite.

Porque sabes que uma moeda oferecida a um pedinte
não lhe enche a barriga
insistes em furar o teu coração
para que dele caiam sempre migalhas doces
prontas a alimentar uma alma carente
que encontres por aí
nas tuas caminhadas sonhadoras.

Por agora vagueias tranquilamente
com as mãos incendiadas
em nuvens de chuva ácida
com palavras básicas protegendo a fragilidade da tua pele.
E vais partindo pedras incessantemente
Uma a uma
Devagar...
sem sentires pressa nenhuma.
Porque a tua alma é profunda
e ainda tens muitas flores para semear nos teus ossos.

Daniela Pereira 31/07/05