segunda-feira, agosto 01, 2005

Partem-se pedras



Partem-se pedras abandonadas na alma
martelando flores nos dedos ansiosos por uma carícia.
Virando de pernas para o ar
o relógio da cozinha
esperando que o tempo retroceda.
Escrevendo as palavras ao contrário
cravando o bico da caneta à direita da folha
e deslizando suavemente pelo papel.
Desenhando com a tua mão esquerda irrequieta bocas amanteigadas no tecto
enquanto dos teus olhos vão pingando gotas de mel.

Barras o corpo nos lençóis
e vais dourando a pele
enquanto dás voltas na grelha
para atingires o tom perfeito.
Gritas baixinho
porque tens a garganta entupida
com os pedaços de vidro que engoliste esta noite.

Porque sabes que uma moeda oferecida a um pedinte
não lhe enche a barriga
insistes em furar o teu coração
para que dele caiam sempre migalhas doces
prontas a alimentar uma alma carente
que encontres por aí
nas tuas caminhadas sonhadoras.

Por agora vagueias tranquilamente
com as mãos incendiadas
em nuvens de chuva ácida
com palavras básicas protegendo a fragilidade da tua pele.
E vais partindo pedras incessantemente
Uma a uma
Devagar...
sem sentires pressa nenhuma.
Porque a tua alma é profunda
e ainda tens muitas flores para semear nos teus ossos.

Daniela Pereira 31/07/05




2 comentários:

Carlos Costa disse...

O livro já está à venda? Há uma semana fiz um pedido de encomenda e ainda não responderam, sei que coisas destas levam o seu tempo, mas não é suposto ir para o mercado um livro qualquer depois do seu lançamento?

Gouldin disse...

Só para dizer que gostei dos teus poemas.