sábado, agosto 22, 2009

Vertigem seca...

Agosto 21/2009 23h50

Boa noite...Não penses que estou a despedir-me de ti, muito pelo contrário estou apenas a chegar.
Esta noite sinto-te diferente, pareces estar mais clara apesar desse teu tom de folha de papel envelhecida à luz de um candeeiro.
Ontem decidi que quando sentir vontade, virei sempre aqui visitar-te e falar um pouco contigo...Afinal tens sido a amiga mais fiel que eu até agora encontrei.
Venho aqui fazer aquilo que mais gosto de fazer...tu sabes...tracejar-me em ti..
Pensei até num nome para baptizar todas as horas que irei partilhar contigo...mas uma palavra pareceu-me pouco e estendi a corda.Em vez de um nome inventei logo uma frase inteira... "O diário de um coração aflito sem colesterol"
À primeira vista pode soar-te um pouco estranho...mas vais ver como faz sentido. Pensa assim...vou falar de um coração...do meu coração e de tudo o que ele me irá fazer sentir.O que ele já sentiu é importante mas acho que já perdi alguns sentimentos por aí..a eternidade nunca me ficou bem.
Inicialmente este coração terá alguns acessos de aflição...andará certamente perdido na busca de outros rumos, já cansado dos caminhos errados que cruzou.
Vais senti-lo fragilizado e embrulhado numa complexa alcateia de memórias que lhe infernizam a cabeça enquanto ele vai tentando escapar ileso de cada ataque sofrido ...Continuar vivo e a bater pode ser considerada a sua grande vitória, tudo o resto será uma humilde derrota.
Um pouco à semelhança de um coração doente, onde sabemos que a circulação é barrada por camadas e camadas de gordura..este coração também estará aqui a tentar lutar para sobreviver...entupido em desilusões.
Agora só quero falar-te no dia de hoje...da actualidade, como se me visses numa página de jornal cravado de notícias para dar.
O meu coração ontem andou no meio de uma pequena tempestade, mas curiosamente hoje acordou com uma tranquilidade que sinceramente até me meteu uma certa inveja.
Tudo, porque o coração andou tão calmo o dia inteiro, mas o corpo estranhamente deu sinal de alguma instabilidade ao raiar do fim do dia.
Acredito que a ondulação de humores do dia anterior, não terá exercido uma boa influência no funcionamento desta máquina que levo atrelada à massa de carne e ossos que me constitui humana.
Senti uma tontura repentina..uma coisa parva durante um gesto habitual que consistia em erguer a minha cabeça do chão.Ando destreinada na postura de corpo imbatível..
Por breves instantes não sabia muito bem onde tinha os pés porque o chão parecia que me queria sugar para algum buraco.
Não me preocupei muito, porque sabia que as minhas emoções estão intimamente ligadas às reacções do meu organismo.
Em mim, existem tensões que disparam e nervosismos que deviam supostamente ser relaxados... antes de acumularem ansiedades que podem explodir mais tarde como se fossem uma bomba..deixando-me em pedaços difíceis de apanhar.
No entanto...e já que hoje os meus pensamentos estão focados nas fraquezas corporais que possuo,devo confessar que me apercebi que estes olhinhos cor de terra...que já tiveram uma visão digna de um lince...estão a precisar de uma séria manutenção. Existindo mesmo, o risco de já não conseguirem enxergar o resultado de uma partida de futebol quando exibida no grande ecrã. Considero isto um assunto grave, mas como na área da saúde posso dizer que andei na chamada época alta no que diz respeito a doenças.A minha habilidade ocular foi-se adiando ...
Mas adiante, antes que comeces a pensar que virei hipocondríaca ...tendo em conta o que já passei, seria fácil olhares para mim com essa dedução bem afinada na tua cabeça.
Curioso, falar contigo está a deixar-me ensonada..talvez seja porque nunca me respondes e o silêncio gerado no quarto embala-me depressa.Por isso, vou deixar este tema em banho maria para ter ainda algum tempo para falar do meu coração com termos menos técnicos e mais subjectivos.Acho que algumas pessoas chamam a isso, falar com alma...eu não quero falar "com"..mas sim "da" alma.
Como já te tinha dito nalgumas linhas que ficaram para trás... o meu coração hoje esteve calmo. É raro vê-lo assim a conseguir tão grande feito..há imenso tempo que ele não tinha um dia tão tranquilo...quase em paz.
Acordou cedo..foi trabalhar e ainda conseguiu ter a coerência necessária para passar alguns instantes ao ar livre a querer sentir-se bem sem ter muito em que pensar.
Isso não quer dizer que ele já ande esquecido..nada disso, mas hoje simplesmente não sentiu grande necessidade de lembranças.
Brincou um pouco..imaginou outro tanto..idealizou lagos e recantos melancólicos onde pensa mais tarde descansar das suas próprias melancolias.
Hoje não perguntou ao mundo inteiro como ele estava..nem sequer fez essa pergunta (que já foi tão habitual) aquele pedaço fora do eixo que ele viu ser arrancado voluntariamente de si.
Não tem feito diferença alguma perguntar..por isso hoje não o fez. Existe sempre tanta estática no ar que não há resposta que ao coração chegue...isolou-se das perguntas como se elas fossem uma doença mortífera.
Logo, guardou a pergunta para si com medo de contaminar o mundo e desejou que ele estivesse bem e deixou o mundo satisfeito com o coração a bater lá pelos seus lados..
Vertiginosa esta sensação de estarmos sozinhos com uma memória que desvanece deitada ao nosso lado...
Se ela acordar diz-lhe que ainda não morri!


Daniela Pereira in "O Diário de um coração aflito sem colesterol"
Direitos Reservados

5 comentários:

Paula Raposo disse...

Gostei imenso! Excelente. Beijos.

Marquês disse...

Contigência escatológica


O facto de sermos dois,
dois enredos pneumáticos
(embora haja nesta quantificação uma certeza dúbia)
reduz-nos ao que somos:
extremidades de um recta truculenta
incalculável poalha
em que o silêncio cifrado
é a forma bastante da razão
o lugar da boca perfeita,
apesar da maçã.

P. César

blueiela disse...

Obrigado Paula:)

Bom fim de semana...

beijinhos*

blueiela disse...

Obrigado Marquês pelo poema e pela visita:)

Bom fim de semana

beijos

Luís Miguel - flautas disse...

boa noite...

e não estou a despedir-me...