segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Sombras violadas no tecto


Vou fazer na minha noite escura
um cenário de luz com estrelas de papel
brilhando no tecto do meu quarto.
Do cobertor de veludo estendido na cama
faço uma mesa requintada
com dois corpos servidos na sobremesa.
Com a boca esborratada com restos de morangos
vou provar essa pele de pêssego
pedacinho por pedacinho
sem me preocupar com a falta de guardanapos de papel.
Vou lambuzar os dedos
com a doçura que escorre nesses lábios famintos
até empanturrar o amargo da língua.
Depois vou ficar de barriga cheia
contemplando em silêncio
a noite reflectida nas sombras do tecto.

domingo, fevereiro 13, 2005

Rouba


Rouba-me o corpo com as tuas mãos frias
e guarda-me no bolso do pijama.
Estende-me em frente à lareira
e conta-me histórias até eu adormecer.
Fala comigo mesmo que eu não te oiça
prende os meus ouvidos na tua voz de mel.
Aquece-me o peito com palavras em chama
e degela-me a alma hibernada.
Escolhe para mim o teu melhor sorriso
e tatua-o na minha pele com agulhas de fogo.
Afaga-me os cabelos e enrola-te neles
até ficares tonto com o seu cheiro.
Prende o meu rosto no espelho da casa de banho
e corta os meus lábios com a navalha de barbear.

Fica com eles na carteira ... são teus!

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Voar à chuva


Sobre montanhas salpicadas de branco
e vales cobertos por mantos de flores
estendo as asas moldadas nos sonhos
e flutuo na brisa da tua boca de vento
que me embala num voo sem destino.

Sinto o teu ar quente
acariciando as minhas penas...
apaziguando as minhas mágoas.
Sem olhar a paisagem que me rodeia
com os olhos compenetrados no teu corpo celeste
trespasso o céu com asas de fogo
e encharco as nuvens com o perfume da minha pele.

Sopras um último fôlego
antes que a brisa esmoreça
e aqueces as nuvens frias
formando na terra um rio de água perfumada.
Banhas-te na minha chuva
e eu docemente
pouso no aconchego da tua mão quente e adormeço.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Sambar no silêncio


Mascaro as palavras com cores transparentes
e deixo visíveis os sentimentos que tento esconder.
Como posso camuflar o olhar brilhante que se acende
sempre que um sorriso espreita nas pestanas
e se pendura de cabeça para baixo nas sobrancelhas irrequietas?
Posso ocultar o riso que trepa pela boca apressado
para chegar a tempo de apagar o silêncio que arde no fundo da garganta?
Quem detém os meus dedos saltitantes
que nas negras letras do teclado
escrevem versos enamorados?
Eu não consigo sentir
sem o demonstrar ao mundo
nem que seja por um segundo...
Por isso passo horas com a cabeça curvada
debruçada nos meus longos pensamentos
com a mente fervilhando
e o coração batendo ao ritmo de um samba
dançado com passos bem marcados numa folha de papel.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Incertezas crentes


Se nas palavras pudesse delinear lábios
elas estariam sorrindo para ti
sorrisos rasgados com gosto a madrugada.

Se os olhos fossem tatuados com raios de sol
o meu olhar teria o brilho
das searas de trigo doiradas na terra quente.

Se as mãos fossem elásticas
eu esticaria a ponta dos dedos
percorrendo quilómetros de vazio
até tocar no universo da tua pele.

Se as estrelas pudesse guardar no meu peito
esvaziaria o meu coração numa batida apressada
e roubaria num segundo o luar estrelado à noite.

Se da minha saliva preparasse uma bebida gelada
ela seria doce como o sumo dos morangos
trincados na ternura da paixão com açúcar à mistura
mas deixaria um travo ácido a vodka com limão
nadando no ardor da minha boca despida de beijos.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Suicídio de plástico


Disparo balas com asas de borboleta
em direcção ao meu peito envidraçado
e fico parada a vê-lo estilhaçar ao vento.
Não perco sangue neste suicídio de plástico
as veias não sangram porque o vermelho já não mancha a pele.
É de azul que pinto o corpo desnudado
são os teus olhos que tatuo em mim
com o pincel molhado no teu mar de palavras .

sábado, dezembro 25, 2004

Estilhaços

Abro a janela que envidracei no peito escancarando as mágoas que abriguei numa redoma. Estilhacei os momentos de cristal com as pedras que atirei dos olhos sentados na varanda. Caíram mortos os beijos riscados com batons de rosas nos lábios entorpecidos pelo frio de mais uma madrugada apagada. Fechei os olhos e a janela pintou-se de negro e adormeceu.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Escreverei nas paredes


Perdi a noção do certo e do errado
e atirei os dados do jogo no vazio.
Não me importa o que possam pensar
ignoro o que irão dizer
quando eu disser AMO .
Vou gritá-lo bem alto pulando na cama
até sentir as molas do colchão desfeitas.
Irei soletrar cada letra bem devagarinho
para não perder o gosto do tom apaixonado
que saboreio na ponta da língua .
Escreverei a palavra em todas as folhas
que ainda restarem no caderno dos poemas
e quando as folhas escassearem
vou mergulhar o dedo no mel e escreverei nas paredes.

domingo, dezembro 05, 2004

Não me amem pelas palavras que escrevo...


Estremeçam com o trepidar das curvas do pescoço
e com a acidez do aroma que me encharca a pele nua.
Afundem-se na terra lamacenta
que albergo na profundidade do castanho dos meus olhos
mas não chorem pelas palavras amarguradas
que derramo no papel frio.
Adorem o meu sorriso pregado nos lábios vermelhos
como uma rosa que levam na lapela para embelezar
mas não sorriam com os versos pinchados com gotas de alegria
roubadas aos olhos do palhaço triste parado na esquina.
Idolatrem a minha alma sensível
que flutua nos sonhos como se fosse uma leve pena
mas não voem no dorso das letras negras
que carimbo no papel com os dedos em brasa.
Apaixonem-se pelos gestos singelos que desenho no vazio
e pelo toque suave das minhas mãos morenas
mas não me amem pelas palavras que escrevo.

segunda-feira, novembro 29, 2004

Arco -íris


Guardo no peito sentimentos que não revelo
permanecendo em segredo nos lábios fechados.
Toco na manhã que se desfaz em gotas de orvalho
aos primeiros raios que brilham para mim.
Roubo então o sol ao céu por um segundo
e escondo-o nos meus olhos escuros
porque quero fundir no meu olhar o seu calor.
Assim quando as nuvens de lágrimas surgirem
o sol rasgará os meus olhos e na ponta de cada gota salgada nascerá um arco-íris.

Evolução nocturna



"Este poema é dedicado a uma fadinha da poesia muito especial :)"

Esta noite não cerrei os olhos e não vi escuridão.
Deixei-me ficar quieta no silêncio a desbastar pensamentos e a sentir a noite evoluir.
Passei imagens num flashback acelerado desnudando-as de incógnitas.
Ficaram despidas dos desperdícios.
Eram transparentes...
Penetrei-as numa sequência repetitiva de clarões de luz
disparados pela luminosidade do olhar iluminado enfraquecido.
Tirei fotocópias dos momentos para mais tarde recordar porque não os queria esquecer.
À medida que a noite desabrochava
violei-os sem deixar marcas que os pudessem desfigurar.
Eram perfeitos visualizados pelos olhos da minha imperfeição.
Num gesto brusco, espalhei-os pelo tecto do meu quarto...
Olhei... reflecti... e ponderei os prós e os contras.
Depois empilhei-os em camadas agridoces no fundo da gaveta.

sábado, novembro 20, 2004

Fome

Encho a boca com palavras e vou matando a fome que me dilacera o corpo. Trinco com força as letras escuras e trituro-as entre os dentes esbranquiçados. Cuspo os restos para o prato onde jazem os pensamentos esquecidos. Depois saboreio na língua o gosto do poema que me faz salivar por mais.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Tive vergonha


Deixei cair a lágrima no chão
porque não a consegui deter com um sorriso.
Rasguei os lábios naquele sorriso forçado
abrindo as feridas mal saradas na pele.
Passei a língua humedecida pela pele ensanguentada
e na boca ficou um gosto a sangue salgado.
Tirei do bolso um guardanapo de papel
e estanquei o sangue pressionando-o contra a parede rosada.
Depois sem ninguém ver
varri a lágrima para debaixo do tapete
e preguei os meus olhos ao chão.
Tinha vergonha de sofrer em público...

quinta-feira, novembro 04, 2004

Madrigal de suspiros


Deixas-me perdida num amontoado de pensamentos ilusórios
quando eu apenas procuro um pouco de realidade.
Tenho sede de momentos límpidos
para esquecer os instantes turvos que ainda sufocam.

Sussurro um madrigal de suspiros
na boca pintada com cores desmaiadas.
Murmuro desejos com a força incessante
de um tronco que não parte na ventania.

Encho-te os ouvidos com cera de abelhas
silenciando as palavras que não quero que ouças.
Peço que me escutes! Mas não quero que me entendas...
Saboreia esse mel que guardo na voz
e adocica a amargura que cobre as minhas dúvidas.

Fez-se escuridão do pedaço de madrugada
que levavas no teu olhar sorridente.
Lancei-te o meu sorriso pela janela
mas foi uma lágrima que aterrou nos teus ombros.

segunda-feira, novembro 01, 2004

sepultar segredos


Embrulhei os meus segredos na língua morta.
Abri sulcos na terra à procura do repouso mais profundo
para os depositar na sua última morada.
Chorei durante horas o meu luto
enroscada no xaile vermelho paixão.
Bordei de sal os meus olhos negros
e vi-os brilhar como cristais quando me olhei ao espelho.
Fiz da terra uma aguarela de rímel desbotado
e sepultei as minhas inquietações num silêncio absoluto.

quarta-feira, outubro 27, 2004

Moribundos


Na voz muda ouço gritos lamentosos
rasgando a brisa matinal que sopra debaixo da ponte.
Gela os ossos nus dos novos moribundos
dos tempos modernos .
Desprevenidos os corpos caem em tentações
acenando com os braços perfurados pela dor fininha.
Procuram o espaço vazio ainda não molestado
na pele descolorada com o negro das nódoas tatuadas.
Pelas paredes nuas de tinta arrasta-se
uma alma que só conhece o chão por abrigo.
Os sorrisos nascem podres na sua boca desdentada
pela cárie produzida por uma cocaína barata.

terça-feira, outubro 26, 2004

Salto aleatório

Vivo dentro de um quadrado fechado
que eu mesma desenhei quando perdi a minha identidade.
Salto de aresta em aresta desafiando os limites marcados.
Não os ultrapasso...
Apenas caminho com um pé nas sua fronteira.
Olho timidamente o outro lado...
o desconhecido tentador.
Namoro a sua ousadia
com gestos sedutores.
Desintegro o meu corpo
em milhares de átomos negros
que vão chocando aleatoriamente
na parede quadrada carcereira.
Espero a tua tacada na mesa de bilhar...
Sou a bola preta que queres jogar...
De que é que estás à espera?
Atira-me para o outro lado...

Impressões digitais


Retalho as pontas dos dedos
nos espinhos lancinantes.
Tatuo o muro cinzento
com impressões digitais bordadas a sangue.
Comprimo com força
as mãos fatigadas
nas pedras negras da calçada.
Corto madeixas de cabelo
com tesouras ferrugentas
e semeio-as na areia quente .
Quero deixar a minha marca
quando partir...
Pedaços do meu Eu...
Espalhados na penumbra.

domingo, outubro 24, 2004

Anestesia


Cortei as amarras de aço
com a lâmina mergulhada
no éter para não sentir dor.
Anestesiei o corpo com
comprimidos recheados de ópio.
Droguei os sentidos
com o teu doce fel.
Queimei as veias com a ponta do cigarro
que jazia no cinzeiro
esquecido na sala.
Fez -se noite...
Adormeci espumando de raiva.

Rasguei o chão do teu pesadelo


Escorrem rios de lava pela navalha esterilizada
com que rasguei o chão do teu pesadelo.
Choro poças de sangue dos meus olhos de sal
manchando a nuvem branca que passou por ti.
Estendo-te um lenço negro para me acenares um adeus
na convicção que não será o último.
Sorris um sorriso amarelo e voas em direcção à estrela recortada
pela lâmina afiada na pele do meu peito.